Tempo nublado no céu da boca do Cleyton Cabral

 Tempo nublado no céu da boca do Cleyton Cabral (Edição Interpoética, 2013) é um livro difícil de descrever enquanto gênero literário. O autor transita por vários estilos e em todos eles encontramos um olhar curioso e atento para o cotidiano, boas doses de humor, ironia, crítica e sensualidade. Os textos são curtos e cada um deles consegue ser uma caixinha de surpresa. Eles nunca terminam como a gente acha que vão terminar e para isso Cleyton brinca com as palavras, com os gêneros literários, com duplos sentidos. Consegue brincar com o grotesco, o violento e o absurdo e ao fazê-lo nos tira da zona de conforto, para na página seguinte nos fazer rir. É uma prosa corajosa, um misto de palavras que falam sobre si tanto de forma poética, como de forma nua e crua. É um texto que toma pra si a modernidade e que não deixa de dizer o que pretende dizer. No texto de apresentação da obra, Raimundo de Moraes diz brilhantemente que "pertencer às gerações Y-Z não deixa ninguém imune ao DNA angustioso do resto do alfabeto" e foi exatamente isso que Cleyton nos mostrou nas 60 páginas de "Tempo nublado no céu da boca."


PALAVRA

Ela quer

#sair

#chegar do lado de

Ela quer 

#dizer

#correr

Ela só quer

#saltar

#ficar

#gritar

Ela só quer

#calar

#mover

#voar

Ela quer bem mais

#furar

#bater

#matar

Ela quer e não desiste.


Assim, o livro já começa mostrando a que veio. Em "Palavra" Cleyton Cabral nos diz muito do que é da ordem do texto, da criação e talvez até da intenção do fazer literário e demarca muito bem, assim como as hashtags, as intencionalidades das palavras e do que aguarda o leitor pela frente. As palavras vem com força para reconfortar e incomodar em medidas difíceis de precisar. "Palavra" parece ser o prólogo das 38 narrativas que são apresentadas a seguir. 


Em "Tempo nublado no céu da boca" o sumário também é texto literário. Na narrativa a descrição da relação leitor/livro beira o erotismo e aquele fascínio que sentimos ao escolher ou sermos escolhidos por um livro é traduzido e sensualizado em palavras. "Ah, eu passei minha mão na contracapa, paquerei você, até ensaiei deixá-lo na prateleira, mas você é o diabo, me comeu com o título, fez pirraça." 


Eu gosto muito de  minicontos e acredito que seja um dos gêneros literários mais difíceis de se trabalhar. Escrever um miniconto não é só escrever um texto pequeno, mas escrever um texto pequeno que ainda assim carrega sentido, narrativa, imagem e o que mais lhe couber. Em "Tempo nublado no céu da boca" aparece assim de repente, entre uma página e outra, sem aviso algum, um miniconto que pega uma história e a divide em dois mundos.


PÓS-DRAMÁTICO

Depois de duas carreirinhas ficou fazendo cena.

Os minicontos do Cleyton Cabral, assim como todo o restante do livro brinca de uma maneira com as palavras e seus sentidos, com a estrutura textual e suas formas de entendimento que a gente lê brincando. Brincando seriamente. 

PICADEIRO

Enfermeiro largou o hospital e fugiu com o circo quando descobriu a veia cômica.

Em "Tempo nublado no céu da boca" o leitor precisa se permitir. Cada texto pede um tipo de imersão diferente, onde o que mais vale é a experimentação das palavras, dos sons e das histórias. É possível se surpreender com o humor e com o cotidiano que na escrita de Cleyton ganham novas cores. É como se passássemos os dias e as horas na lupa. É possível ler uma história inteira onde pontos e vírgulas estão escritos assim mesmo, como pontos e vírgulas e se divertir porque conseguiu manter o fluxo da leitura e pausar nos momentos certos. 

Moisés Negro de Alain Mabanckou

 Moisés Negro de Alain Mabanckou (Tag Experiências Literárias, 2020)  é um história de formação que acompanha a vida de Tokumisa Nzambe po Mose yamoyindo abotami namboka ya Bakoko desde a infância e adolescência no orfanato até a vida adulta. Grande parte da narrativa se passa no orfanato Loango que está localizado na República do Congo. Enquanto acompanhamos o desdobrar de uma vida sofrida em meio aos ditos excluídos em meados dos anos 70, também temos contato com fragmentos da história recente de um país e de uma revolução comunista. O autor fala sobre o Congo, seu lugar de origem, e a forma como explora o país parece ter uma ligação com o fato de que Mabanckou está, desde 2015, proibido de visitar seu país. Escrever é sua forma de revisitar o Congo. 


Tudo começou nessa época em que, adolescente, eu me perguntava a respeito do sobrenome que Papai Moupelo, o padre do orfanato Loango, tinha me dado: Tokumisa Nzambe po Mose yamoyindo abotami namboka ya Bakoko. Esse longo sobrenome significa, em lingala, "Demos graças a Deus, o Moisés negro nasceu na terra dos ancestrais", e ainda está registrado em minha certidão de nascimento...


Estamos diante de um personagem narrador, que começa a contar sua história aos 13 anos de idade, mas que também revisita sua infância e os acontecimentos que o levaram a se tornar um órfão. Dentro do orfanato, Moisés aprende as primeiras lições da vida, tem em Papai Moupelo uma referência, e em Bonaventure Kokolo uma amizade que funciona como âncora. 


Minha amizade com Bonaventure era como de um paralítico com um cego. Ele andava por mim, eu via por ele, e às vezes era o contrário. Quando não o via, procurava-o em todo canto. 

 

Moisés aprendeu muito cedo que precisava encontrar maneiras, artimanhas para garantir sua sobrevivência. Apesar de seu contato com o mundo exterior praticamente não existir inicialmente, dentro do orfanato Loango ele vê muitas questões sociais sendo refletidas, como ânsia de poder, preconceitos, violências e a tensão existente entre povos de etnias diferentes. É interessante analisar as percepções de Moisés em relação ao mundo, ao que está lá fora e principalmente com as pessoas que passam por sua vida.


Um ponto forte do livro é a temática da perda. A perda já se manifesta no próprio fato de Moisés ser um menino órfão que vive em um orfanato e no decorrer do livro, o jovem vai se vendo em novas situações de perda que parecem sempre atingir as pessoas pela qual ele constrói relações de afeto. 


A República do Congo também aparece como ponto de destaque na obra. De dentro do orfanato as crianças e os funcionários vão sentindo os impactos de uma revolução comunista que assola o país e vai mudando as estruturas dos poderes. 

Um dia seria preciso que nós nos acostumássemos a essa situação e que, de todo modo, deveríamos jogar o jogo da Revolução, e assim aprender os discursos do presidente da República em vez de rezas e danças do norte e dos pigmeus do Zaire. 


Durante todo o livro Alain Mabanckou vai nos apresentando como contraponto à Revolução aspectos relacionados a cultura do Congo, como histórias, crenças, religiões, fantasias, alimentos, danças que fazem parte do imaginário do povo. Também é discutida a forma como os processos de descaracterização dos países acontecem através de invasões estrangeiras e de pensamentos colonizadores, como no trecho abaixo, que demonstra de forma genial como a religião também é uma forma de dominação.

Quando os Brancos vieram para a África, tínhamos as terras e eles tinham a Bíblia. Eles nos ensinaram a rezar de olhos fechados: assim que os abrimos, os Brancos tinham a terra, e nós, a Bíblia

Moisés nasce do abandono, passa toda uma vida colecionando mais perdas e vivendo uma realidade onde até o alimento de cada dia é uma incógnita. É a partir daí que o livro passa a tratar também sobre saúde mental. Como ser feliz em uma sociedade tão desigual? Como ser feliz quando não se conhece suas próprias origens e quando o afeto parece ser algo proibido a sua realidade? Todos esses dilemas são tratados por Alain com uma linguagem coloquial que apesar do peso das temáticas se tornou um livro de leitura muito rápida e fluida. Mabanckou torna a dor e a loucura algo mais palatável em Moisés Negro para que o leitor tenha a possibilidade de refletir sobre o peso que uma história de vida pode ter. 

Frankenstein ou o prometeu moderno de Mary Shelley

Frankenstein ou o prometeu moderno da Mary Shelley (Editora Darkside, 2017) é um livro que me surpreendeu muito por diversos motivos. Foi uma leitura que iniciei por indicação de um clube de leitura que participo com amigos e que eu imaginava já saber muito sobre ela por conta das adaptações para o cinema e do que acabamos conhecendo sobre a famosa história do monstro por conta de sua fama. A verdade é que eu acabei encontrando algo completamente diferente do que esperava. Frankenstein é muito mais do que se adapta por aí , do que se fala e mais do que uma história de terror convencional. Mary Shelley entregou uma obra que escancara e devassa a natureza humana, a fim de fazer discussões sobre o que há de potente e o que há de assustador na nossa natureza e no nosso íntimo. É um livro que exalta e ao mesmo tempo questiona a sede por conhecimento de forma a mostrar que definitivamente, tudo na vida precisa encontrar a sua medida. Mary Shelley faz com que a gente reflita sobre ética e ciência, convivência e afeto e nos coloca frente a frente com nossos próprios monstros. 

Frankenstein é um clássico do terror e da literatura mundial que começou a ser escrito em 1816. Um fato interessante sobre a obra é a forma como ela começou a ser concebida. Mary Shelley era muito amiga de um grupo de escritores, sendo um deles o poeta Lorde Byron e em uma reunião dos mesmos na casa de Byron, na região da Suíça, o poeta desafiou os amigos a escreverem um conto de terror cada um. A ideia surgiu após eles realizarem leitura de um volume de histórias de terror alemãs chamado Fantasmagoriana. Foi movida por esse desafio que a autora concebeu as primeiras ideias que viriam a ser o Frankenstein. 


Como já dito, Frankenstein conta uma história conhecida inclusive por quem nunca leu o livro ou viu qualquer adaptação de cinema e teatro, porque o monstro criado por Mary Shelley já faz parte do nosso imaginário quando se fala das criaturas mais famosas das histórias de horror. Sendo assim, não vou me deter muito à sinopse do livro para explorar alguns outros elementos que me surpreenderam como leitor. 


Tanto o Víctor Frankenstein, jovem cientista protagonista da trama, como o "monstro" criado por ele são retratados de uma forma muito exploratória. Começamos a acompanhar a história do Victor ainda na juventude e somos inseridos com muita calma em seu ambiente familiar, sua relação com os pais e irmãos, em suas aspirações por conhecimento e inclusive os primeiros teóricos que ajudaram a despertar seu amor pela ciência. Enquanto que nas histórias do livro que são contadas por aí e nos filmes e séries (adaptações) conhecemos só a carcaça de um cientista brilhante e ambicioso sem entendermos muito bem suas reais motivações, no livro de Mary Shelley nós conseguimos entender cada motivo que faz Victor ser quem é e o porque dele buscar o que busca. Victor, em certa parte de seu relato chega a dizer que "a filosofia natural é o gênio que controlou seu destino" e conseguimos ver isso acontecer a cada letra que decodificamos na leitura da obra. Como na primeira parte lemos a descrição do relato de Victor Frankenstein, mesmo que registrado por um terceiro, acabamos nos sentindo muito próximos de sua história e ele não guarda segredo quanto a suas ambições, pois estamos diante de uma confissão. 

Em uma segunda parte da obra vamos ler o relato do "monstro" depois de ter sido criado, abandonado e vivido à própria sorte. Nessa parte vem uma das maiores surpresas da obra para mim, pois nunca vi o monstro da história ser retratado (nas adaptações) de forma fiel ao que Mary Shelley apresenta no livro. A imagem que guardava do monstro criado por Frankenstein era de uma criatura "burra", que só proferia grunhidos e com uma violência assassina prestes a explodir. No livro sabemos que ele passou por essa fase, mas apenas através do relato do próprio monstro, numa conversa entre criatura e criador, em páginas que são as minhas preferidas da obra. Ao narrar para seu próprio criador como sobrevivera depois de ter sido criado e rejeitado por ele, o monstro vai nos mostrando de forma genial como se deu sua própria percepção do mundo, das pessoas e do conhecimento por simples e puro processo de vivência e observação. O monstro da história que precisou aprender quem era e como funcionava seu próprio corpo, os códigos do mundo e as pessoas conforme precisava lidar com elas, faz então um ensaio magnífico sobre a condição humana. Mary Shelley teve a ideia genial de criar uma história onde uma criatura deformada, assustadora e chamada de monstro se assusta com o ser humano e sua capacidade de ser miserável e cruel. A escritora inverte os papéis e nos faz refletir sobre quem é verdadeiramente o monstro e que isso definitivamente não tem a ver com aparência. 

Essas narrativas maravilhosas inspiraram-me sentimentos estranhos. Seria o homem, ao mesmo tempo, de fato, tão poderoso, virtuoso e magnífico e, no entanto, tão vicioso e desprezível? Pareceu-me, simultaneamente, um mero herdeiro do princípio do mal e, por outro lado, tudo o que pode ser concebido como nobre e divino. Ser um homem grande e digno é a maior honra que pode caber a um ser sensível; ser vil e impuro, como muitos o foram, parece a mais baixa degradação, uma condição mais abjeta que a de uma toupeira cega ou a de um verme inofensivo. Por muito tempo não pude conceber como um homem poderia assassinar o próximo ou mesmo por que havia leis e governos, mas quando ouvi detalhes dos vícios e das matanças, deixei de pensar e afastei-me com desgosto e aversão. 

O monstro criado por Victor Frankenstein conheceu na pele o lado mais sombrio da alma humana transfigurado em violência e ao mesmo tempo se viu envolto no exercício de admirar o ser humano pelas coisas grandiosas e fantásticas que também são capazes de realizar. O monstro olha para essa dualidade e não a entende, como se fosse a própria voz da autora jogando um questionamento íntimo para quem lê o seu livro sobre o porque de algumas configurações sociais. Mary Shelley brinca com a criação de um monstro que é puro e bom, pois ainda não fora corrompido pelo mundo, como se tivesse literalmente acabado de nascer, em contraponto com uma humanidade cheia de dores, mágoas, raiva, fome e injustiças que respingam na formação de seu caráter e no modo de viver em sociedade. 


Esse capítulo é tão fantástico que vamos tentando olhar o mundo sob o viés de alguém que não o conhece e que está aprendendo agora como tudo funciona. A autora consegue unir a ideia de um monstro deformado e gigante a de um bebê inofensivo que está descobrindo o mundo, as sensações e começando a fazer suas inferências sobre o funcionamento de tudo. São nesses detalhes que soam meio grotescos que também mora o terror da história. 

Falei sobre a construção de Victor Frankenstein e a do monstro e de como elas se dão de forma completa e intensa. Essas são duas das questões que queria tratar nessa resenha. Feito isso um terceiro ponto seria a exploração da importância e do perigo do conhecimento. Fica nítido na obra que a busca por conhecimento é uma das temáticas principais. A autora explora isso o tempo todo nas características dos principais personagens, nas referências a teóricos e cientistas que realmente existiram e em teorias científicas que fizeram e fazem parte da linha de pesquisas científicas. A questão do conhecimento aparece então como um dos pontos que ligam Victor Frankenstein e o monstro. A apresentação da história de um cientista que cria um monstro é uma metáfora perfeita para discutir o poder do conhecimento, seu uso como manutenção do poder e sobre questões éticas. 


Victor e Frankenstein representam duas formas diferentes de lidar com a aquisição de conhecimentos. Com o passar do tempo a busca por conhecimento de Victor passa a ter um caráter mais de poder, vaidade e competição do que a vontade de colaborar com empreendimentos científicos que poderiam ajudar a comunidade científica. O conhecimento para Victor passa a ter um caráter egoísta e vira uma obsessão, a ponto de colocar sua própria saúde em risco. 

... quão perigosa é a aquisição do conhecimento e quão mais feliz é o homem que vê o mundo como sua cidade natal do que aquele que aspira tornar-se maior do que permite sua natureza.

Já para o monstro o conhecimento significa descoberta de si próprio e de sua essência. Representa possibilidade de sobrevivência. O conhecimento para o monstro é o que fará com que ele entenda a sociedade e o seu lugar no mundo, assim como as pessoas e suas condutas diversas. É o que irá fazer com que ele saiba se proteger do frio e do calor, o que comer e o que não comer, onde ir e onde não ir, quando andar e quando se esconder. E quanto mais observa, mais ele aprende sobre os códigos sociais e com o que acontece em sua volta.

Com o livro, obtive um conhecimento superficial da história e uma visão de vários impérios que existiam no mundo. Conferiu-me um conhecimento dos hábitos, dos governos e das religiões  de diferentes nações da Terra. 

Mary Shelley, através de metáforas e alegorias nos convida a pensar sobre ciência e conhecimento, responsabilidade e ética. 

Um ser humano maduro deve sempre preservar a mente calma e pacífica e nunca permitir que a paixão ou o desejo transitório perturbe sua tranquilidade. Não creio que a busca pelo conhecimento seja uma exceção á regra. Se o estudo a que a pessoa se dedica tende a enfraquecer seus afetos e a destruir o gosto pelos prazeres simples que não admitem mistura alguma, então esse estudo certamente é ilegítimo, ou seja, não condizente com a razão humana.

Por fim, o último ponto que gostaria de ressaltar é a questão do afeto na obra. Essa foi outra grata surpresa. A autora criou sim uma história de terror com todos os elementos clássicos necessários para uma escrita desse gênero, mas também fez algo inovador que foi extrapolar o gênero e a narrativa para apresentar um livro com muitas outras camadas. Existem muitas discussões sociais e filosóficas na obra que fizeram com que ela tenha atravessado século com tanta relevância. Todos os personagens da trama são atingidos de alguma forma com a falta ou outro tipo de expressão de afeto. No caso do monstro da história, que é a personificação do terror, do macabro e do asqueroso vemos as consequências desastrosas da falta de convivência e afeto em suas reflexões

Porém, onde estavam meus amigos e minhas relações? Nenhum pai velara pelos meus dias de infância, nenhuma mãe abençoara-me com sorrisos e carícias ou, se o fizeram, toda a minha vida pregressa se mostrava então como uma mancha, uma lacuna cega em que não distinguia nada. Desde a primeira lembrança, era como ainda sou em estatura e proporção. Não tinha visto ser algum que se parecesse comigo ou que pretendesse qualquer comunicação. O que eu era? A pergunta, mais uma vez, voltara a ser respondida somente com gemidos.  

Frankenstein é um livro de leitura obrigatória tanto para quem gosta do gênero de terror, como para quem gosta de clássicos. Não poderia deixar de ressaltar também o quanto essa obra tem importância para a representatividade das mulheres na literatura. Se ainda hoje precisamos fazer campanhas de sensibilização da necessidade de equidade de gêneros no mercado editorial, imaginem o cenário em meados de 1818. Mary Shelley inova ainda mais ao adentrar em uma temática de escrita que geralmente são creditadas aos homens, como se mulheres não fossem capazes de escrever boas histórias de terror. Ainda hoje encontramos pessoas que ficam surpresas ao saberem que Frankenstein, uma das histórias de terror mas famosas da literatura, fora escrita por uma mulher. 

Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami

Sul da fronteira, oeste do sol de Haruki Murakami (Tag Experiências Literárias e Editora Alfaguara, 2020) é um livro narrado pelo Hajime. Acompanhamos parte de sua infância, adolescência e vida adulta em uma narrativa que é quase uma biografia. O protagonista narrador faz reflexões sobre suas vivências, o vazio existencial que sempre o acompanhou e sobre uma grande cisão que o marcara profundamente: o afastamento de Shimamoto. Hajime e Shimamoto tinham várias coisas em comum, como o amor pela música (algo que perpassa toda a história), o fato de que eram vizinhos, estudavam na mesma escola e ambos filhos únicos, algo visto como incomum na época. Encontram um no outro uma amizade intensa, um lugar confortável onde aportar, até que Hajime precisa mudar de cidade, ir para outra escola e aos poucos, por consequências banais da vida acabam perdendo o contato. Eles tinham doze anos de idade. 


É muito forte na obra a representação da solidão, a busca por auto conhecimento que passa longe de um modelo de auto ajuda, o impacto dos acontecimentos que carregam consigo a banalidade da vida, as intensas reflexões sobre honestidade, caráter, índole e a importância das escolhas que fazemos. Todos esses temas usam da busca por alguém especial e dos desencontros do amor para testar os personagens e o leitor que estarão diante de uma obra com diversas possibilidades de interpretação. E uma das interpretações que ficaram mais fortes para mim foi a da falta.


Perder o contato com Shimamoto faz com que Hajime se conecte com a falta de uma forma que ela passa a se estabelecer em diversos âmbitos de sua vida. A falta vira uma companhia constante. Ao falar do que sente, o narrador deixa sempre essa ideia de uma busca por algo que está faltando e essa incompletude vai moldando também seu caráter e sua forma de ver o mundo. 


Hajime é um personagem muito interessante, pois rompe com a ideia do herói incorruptível e acima de qualquer suspeita. Essa é uma opinião que o próprio narrador tem sobre si, pois ele se coloca o tempo todo como alguém egoísta, sem controle sobre o próprio desejo e ciente do mal que suas escolhas podem provocar na vida de outras pessoas. Nós acabamos entendendo e aceitando muitas das escolhas de Hajime, e até sua personalidade, por participarmos muito de perto dos principais acontecimentos de sua vida e conhecermos seus desejos mais profundos. Murakami desnuda Hajime completamente para que a gente possa embarcar em suas lembranças, seu vazio moldado pela falta, seu desejo de reencontrar Shimamoto. E esse desejo de saber o que aconteceu com Shimamoto nos mantem o tempo todo ao lado de Hajime, relevando suas atitudes anti éticas ou insensíveis porque o que desejamos também é alcançar Shimamoto, o que só podemos fazer através das lembranças e ações de Hajime.

Eu nasci no dia 4 de janeiro de 1951. Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX. Pode-se dizer que é uma data digna de comemoração. Por isso, recebi o nome Hajime, que significa começo.

O significado do nome de Hajime faz todo o sentido para a estrutura da obra e para a história do próprio protagonista que se vê envolto em mais de um processo que envolve começos e recomeços. Como assistimos a muitas etapas de seu desenvolvimento pessoal através da infância, adolescência e vida adulta, encontramos um Hajime que é uma pessoa bem comum, com problemas comuns e que de certa forma segue o script do que se espera que alguém faça na vida, mas ao mesmo tempo conhecemos um Hajime que não consegue ficar desconfortável, talvez por conta do vazio que o acompanha. 


Hajime não dá conta de viver um namoro sem emoção e podemos vincular essa sua aspiração, ao que ele imagina que poderia ter vivido se não tivesse se afastado de Shimamoto. Quando, ainda na adolescência, ele conhece e começa a namorar com Izumi sua cabeça está sempre voltada para uma paixão avassaladora que ele acredita que viveria com Shimamoto. Uma emoção que ele conhecera transfigurada em amizade, pois ainda eram crianças, mas que acredita que se transformaria em amor. Se antes Hajime já carregava algumas inquietações diante da presença ausente de Shimamoto, a forma como esse seu primeiro namoro com Izumi termina também será algo que o acompanhará pela vida. 


Hajime não dá conta de um trabalho que limita suas possibilidades de criação, e apesar de ficar quase uma década trabalhando como revisor de livros didáticos, esse era um trabalho que o entristecia, que o deixava sem perspectivas de ascensão e de alcançar a felicidade. 


Já um adulto formado, Hajime constitui sua família com Yukiko. Se casa e tem duas filhas. Como sua esposa vem de uma família de muitas posses, Hajime acaba conseguindo o apoio financeiro necessário para abrir dois bares de jazz e esses estabelecimentos passam a ser foco de sua dedicação. Hajime administra de forma muito competente os seus bares e consegue uma ascensão financeira. Seu casamento é feliz, ele ama as filhas, é um pai presente e Yukiko é uma ótima esposa, mas a falta de Shimamoto continua a assombrar Hajime e ele se surpreende sempre pensado nela e chega a imaginar que a viu pelas ruas. É como se Shimamoto fosse um fantasma vivo. 


Depois de ter sua foto publicada em uma revista de grande circulação por conta do sucesso dos bares Hajime começa a receber visita de amigos da época da escola. Assim revisita alguns acontecimentos, recebe notícias de terceiros sobre sua primeira namorada Izumi e o que descobre não é nada animador. Hajime sente culpa pela forma como sua história com Izumi terminara e tudo indica que suas atitudes tem total ligação com a pessoa que Izumi se tornou. Até que um dia, depois de achar que a matéria da revista já tivesse sido esquecida Shimamoto adentra seu bar e a história embarca em um tom de mistério inquietante. 


Em "Sul da fronteira, oeste do sol" o autor nos transporta para um universo que tem uma áurea que quase podemos tocar com as mãos de tão densa. Não digo de uma densidade enquanto linguagem literária  rebuscada, mas densa no sentido de que tudo é construído em cima de sentimentos difíceis de descrever, mas que fazem parte da experiência humana, como a saudade, a espera, a dúvida, a tristeza, o vazio existencial. Para ampliar a experiência de leitura Murakami colocou todos esses elementos dentro de uma história simples e de acontecimentos quase banais, mas que flerta com o fantástico. O fantasioso fica o tempo todo a espreita, sugerindo ao leitor que algo de muito especial pode estar  acontecendo a cada virada de página e que as coisas podem não ser bem o que parecem ser. O próprio título da obra nos leva a pensar num lugar, em coordenadas para um lugar além do óbvio, onde talvez estejam as respostas sobre Shimamoto e onde Hajime completará seu vazio. 








A estrada da noite de Joe Hill

A estrada da noite do Joe Hill (Editora Arqueiro, 2007) foi o primeiro livro do autor. Na obra, Joe nos leva  para uma viagem por uma estrada com muitos trechos de arrepiar. Judas Coyne é um cinquentão que vive recluso, aproveitando de algumas mordomias e a estabilidade de ser uma lenda do rock. Uma série de acontecimentos fizeram com que Jude se afastasse  dos holofotes e fosse viver uma  vida onde a música passou  a ser mais um hobbie do que sua profissão.


Durante a narrativa vamos conhecendo mais detalhes  sobre a vida de Jude, mas inicialmente, o que encontramos é um homem com traumas familiares, lidando com consequências de uma juventude regada à álcool, drogas e com extrema dificuldade de dar e receber afeto.

Judas Coyne nomeia cada mulher  com que se relaciona  com o nome do Estado de onde elas vieram. Geralmente, essas mulheres são fãs dos tempos áureos de sua banda e de suas músicas, e por isso acabam se sujeitando a uma relação onde se assemelham mais a um objeto a serviço de Jude. Pela vida de Jude passaram muitas mulheres góticas carregando como apelido os nomes de seus Estados de origem, mas será a relação estabelecida com Florida e Geórgia que irá modificar para sempre sua história.

Judas Coyne é um homem que coleciona objetos e todo tipo de coisa que tenha um histórico sombrio , que estejam vinculados a acontecimentos brutais e assombrosos. Essa é umas das excentricidades desse astro da música pesada.

Jude tinha uma coleção particular. Tinha desenhos emoldurados dos Sete Anões na parede do estúdio, entre seus discos de platina. John Wayne Gacy, o "Palhaço Assassino" , fizeram os esboços quando estava na cadeia e os mandara para ele. Gacy gostava da Disney dos anos dourados quase tanto quanto gostava de molestar crianças pequenas, quase tanto quanto gostava dos discos de Jude. Jude tinha o crânio de um camponês do século XVI, que fora perfurado para os demônios saírem. Guardava um monte de canetas enfiadas no buraco no centro do crânio. Tinha a confissão de 300 anos atrás assinada por uma feiticeira...

Um certo dia, seu assessor chega com uma notícia de que uma pessoa estava vendendo um paletó assombrado na internet. O anúncio dizia que quem o comprasse levaria junto o fantasma de um homem idoso que não se afastava daquele objeto. A excentricidade de Jude fala mais alto e ele arremata a peça nesse leilão suspeito sem nem desconfiar que a partir da chegada do paletó do homem morto ele não teria mais paz. O homem morto passaria  a ser presença  constante nos corredores da casa de Jude em aparições cada vez mais assustadoras e violentas traçando uma trama cheia de reviravoltas e sustos.

Joe Hill é filho de Stephen King, o mestre do terror. Quem gosta das obras de King provavelmente também gostará da proposta narrativa de "A estrada da noite". Hill não copia as estratégias narrativas de seu pai, mas assim como ele consegue usar muito bem dos clichês do terror para criar uma história que prende pela sua condução, pelas características das personagens e pelas boas descrições dos momentos apavorantes que estão em nosso imaginário.



O templo de Stephen Spender

O templo de Stephen Spender (Editora 34, 2019) é um livro com muitas passagens auto biográficas, que se misturam com a ficção.  Nesse processo, estabelece ótimas discussões sobre poesia e literatura, fotografia, música, história, sociedade, homossexualidade, sexo e sexualidade, dentre outros temas. Spender cria uma obra importante para entender os códigos sociais de um outro tempo, uma outra época, assim como a importância das artes para formação e desenvolvimento de uma sociedade, de um país e de como a violência, o fascismo e o nazismo escorre silenciosamente  pelas sarjetas, inicialmente apenas molhando nossos pés, para em seguida entupir bueiros e explodir com toda violência que a repressão e morte carregam consigo. O "templo" se passa num período entre guerras e nos diz muito sobre essa fase do deslizar entre sarjetas.


Os manuscritos de "O templo" foram recusados em meados de 1930 por terem sido considerados "pornográficos e difamatórios". As menções a sexo e sexualidade no livro, e até mesmo a forma como trata da homossexualidade em si, nada se aproxima de uma descrição pornográfica. Olhando com os olhos de hoje, eu como leitor, fiquei na expectativa de que as relações homossexuais tivessem sido tratadas de forma mais explícita e excitante, tanto pela propaganda e censura que o precedem, como pelas descrições das personagens, que são homens belos, jovens e com a ânsia de viver intensamente suas descobertas e prazeres. Portanto, o "pornográfico" aqui fica por conta da homofobia e da necessidade de apagamento das narrativas com temática gay que olham para a pornografia apenas pelo lado degradante. O livro só foi publicado em 1988.

Acredito que fora considerado difamatório pela forma como consegue esmiuçar dentro de uma narrativa literária como uma sociedade, um país pode ser devastado por processos políticos que não são democráticos e inclusivos, e principalmente por um entre guerras e pela ascensão de movimentos e atentados que sabemos hoje, culminaram na tomada de poder dos nazistas. "O templo" coloca o dedo nessa ferida, mostrando como boa parte dos alemães mal sabiam o que estava acontecendo de fato, enquanto outros aproveitaram para colocar pra fora sua intolerância.

Em um dos potentes diálogos do livro, em conversa sobre a situação da Alemanha, as personagens expõem que " o terrível é existirem tantas pessoas que são nazistas no coração sem pertenceram ainda ao partido" o que nos remete à aqueles que comungam de ideais preconceituosos e excludentes como visão de mundo. Em outra parte impactante do livro é dito que "quando a vasta maioria dos alemães se sente muito alemã, a minoria pode começar a sentir-se um pouco estrangeira."

Sendo assim, o livro acaba por colocar, também a Alemanha, a república de Weimar, como uma personagem da história ao mesmo tempo que acompanhamos os passos do jovem poeta Paul Schoner. Paul é um inglês apaixonado pela Alemanha que acaba tendo a oportunidade de passar uma temporada no país para se dedicar à escrita de suas poesias e de um romance. Ele fica hospedado inicialmente na casa de uma família milionária, a convite do também jovem Ernst - rapaz controverso e cheio de questões conflitantes em relação a seu futuro e a lida com a própria família.

Através do convívio com essa família, Paul Schoner, que nitidamente se trata do próprio Stephen Spender, irá conhecer outros rapazes que assim como ele comungam de um espírito que anseia por liberdade, por conhecimento, pela apreciação e produção de artes, pelo sexo livre em uma Alemanha pós primeira guerra mundial, que ironicamente experimenta uma liberdade nunca antes vista pela antiga geração de alemães e nem por Paul que até então tinha apenas referências da sociedade inglesa.

Observava os jovens alemães. Tinham um estilo que ele achava excitantemente 'moderno'. Moda para eles era o sol, o ar, suas peles bronzeadas. Os rapazes, meigos e tranquilos, as garotas, esculturais. Havia  uma certa bravura no show de felicidade que exibiam. 

O livro descreve as vivências de Paul (Stephen Spender) com personagens que também estão a disposição da ficção, mas que representam pessoas reais, amigos e escritores como W.H Auden, Christopher Isherwood e o fotógrafo Herbert List que na narrativa é Joachim, um personagem de personalidade excitante e desbravadora, características que coloca em suas belas fotografias.





Em "O templo" nos deparamos com muitas referências a obras de arte, músicas, personalidades das artes e da política, acontecimentos que fazem com que a gente interrompa a leitura para fazer algumas pesquisas. Eu, particularmente, adoro livros que me movimentam a esse ponto, pois além de ser um adendo à experiência de leitura, agrega conhecimentos importantes sobre coisas que ainda não conhecíamos. Esse processo não acontece com didatismo, uma vez que ele está ali muito bem costurado em forma de literatura, como a bonita descrição que reescrevo abaixo de uma das obras de Picasso.

Na galeria, uma pintura moderna impressionou Paul particularmente: o retrato de uma mulher sentada à mesa de um café, os ombros embrulhados  num xale apertado, os cabelos caídos numa massa confusa, a cabeça baixa, um pequeno copo, como um cálice de veneno, à sua frente. Os olhos cerrados, os lábios comprimidos, o rosto fechado, pareciam os de alguém totalmente aprisionado no seu próprio mundo de miséria. Uma pequena placa de metal dourado, embaixo, na moldura, dizia que se tratava da Absinthtrinkerin, de Picasso.


Com a mesma genialidade e sensibilidade somos mergulhados em referências literárias que vão de Thomas Mann a Rainer Maria Rilke e se inserem no dia a dia das personagens como na parte em que o grupo de amigos bebe, flerta e dança em um dos bares perto do Porto da cidade:

Compreendo o que Paul quer dizer. Esta sala estimula a criatividade da gente, não é verdade? Todos os diferentes personagens aqui presentes formam um quadro, um desenho, uma unidade, uma composição, como as pétalas de um girassol. Aquele homem que dança sozinho me lembra uma cena de "Os cadernos de Malte Laurids", de Rilke. Eu sinto, como você, Paul, que de algum modo a gente entra numa visão alucinatória desses pares dançando. A gente frui de um claro prazer estético. Você e eu, Paul, somos um com toda a humanidade.

Enquanto Paul olha para sua realidade, o que acontece a sua volta e registra em seu caderno de notas, podemos dizer que um retrato rico da sociedade alemã toma forma. "O templo" é uma obra de referência para se pensar sobre as nuances de um entre guerras e de como o absurdo pode nos pegar de surpresa por nunca acreditarmos que o absurdo possa ganhar voz e tomar o poder. Aqueles amigos que antes se preocupavam com a poesia, com as bebedeiras pelos bares da cidade, com as viagens e as experiências sexuais, agora se vêem em um ambiente onde explodem brigas de ruas com simpatizantes do partido nazista, onde tiros ecoam de repente e pessoas são esfaqueadas a luz do dia. Agora precisam lidar inclusive com a adesão de pessoas próximas ao ideal do partido nazista.

"O templo" é um livro precioso que nos devassa e nos perturba, mas que também nos faz abrir os olhos para a beleza das artes e como elas são âncora em momentos de grandes atrocidades. A arte sempre resiste e persiste e aqui nos é apresentada em uma obra de ficção, mas também autobiográfica e histórica. "O templo" que pode ser o corpo, uma nação e o nascer de "uma visão do desespero que espreitava para além e por detrás de tudo - uma visão de mundo."





Dois garotos se beijando do David Levithan

No mês de junho celebramos o mês do orgulho LGBTQIA+ e indicarei alguns livros escritos por pessoas da nossa comunidade ou que mesmo que não tenham sido escritos por nós, tem o nosso universo, nossa realidade como foco narrativo para além dos estereótipos. Os livros que falam sobre nós estão saindo dos porões e mostrando que todos precisam se ver representados em todas as expressões artísticas. Escrevi a resenha de "Dois garotos se beijando" do David Levithan a alguns anos, mas achei importante resgata-la, pois é um livro que gosto e que costumo indicar para todos os jovens que estão se encantando pela leitura e principalmente para jovens que fazem parte da comunidade queer. É um livro que começa a contar a história de como chegamos até aqui, apesar de toda a violência. 



Hoje enquanto parei em um banco de praça pra retomar o fôlego de um dia de trabalho eu vi dois garotos de mãos dadas, e não fui só eu que vi, alguns olhos raivosos também viram. E enquanto os dois garotos andavam, indiferentes a indignação alheia, fiquei pensando o que poderia acontecer se eles estivessem abraçados, ou muito melhor, se estivessem se beijando. Esse episódio fez com que eu retomasse a ideia de escrever sobre um dos livros que li recentemente: "Dois Garotos se Beijando"(Galera Record, 2015)  do escritor norte americano David Levithan.

A história do livro gira em torno de um beijo de 32 horas e alguns minutos entre os personagens Harry e Craig, que com isso pretendem quebrar o recorde do Guinness Book de beijo mais longo. Beijo que é também um protesto contra a homofobia e mobiliza uma cidade e a mídia enquanto as histórias paralelas de Peter e Neil, Ryan e Avery e Cooper se cruzam a dos garotos se beijando. São histórias diferentes que acontecem ao mesmo tempo e que segundo o próprio autor são inspiradas em fatos reais. 

Quando decidi ler o livro do Levithan a motivação inicial foi sanar uma curiosidade sobre o que andam escrevendo por aí sobre garotos gays e seus relacionamentos, no que intitulam de literatura para jovens adultos - e confesso que é algo que gostaria de ter tido a oportunidade de ter lido aos quinze anos de idade. 

Comecei a leitura também com três receios, primeiro pela qualidade literária do texto, segundo pela minha eterna desconfiança de livros que são sucesso de mercado e terceiro por uma ligeira implicância com o título do livro, que inicialmente achei vazio e meio bobo.  Pois me surpreendi com a criatividade e fluidez da narrativa, com a inteligência dos diálogos, com a grande sacada do autor que é a figura do narrador, quer dizer, dos narradores. A história é contada pelos fantasmas de gays do passado, por homossexuais que passaram pela epidemia de AIDS, por agressões violentas à diversidade e militantes responsáveis por muitos dos avanços que testemunhamos hoje. O interessante disso tudo é que esses narradores onipresentes acabam por fazer links com o passado ao acompanhar a histórias dos personagens, fazendo um paralelo do que era ser gay a algumas décadas atrás e o que é ser gay hoje.

Vocês não tem como saber como é para nós agora; sempre estarão um passo atrás. Agradeçam por isso. Vocês não tem como saber como era para nós antes; sempre estarão um passo à frente. Agradeçam por isso também. Acreditem em nós: existe um equilíbrio quase perfeito entre o passado e o futuro. Enquanto nos tornamos o passado distante, vocês se tornam o futuro que poucos de nós poderiam ter imaginado.

Assim somos introduzidos na narrativa de "Dois garotos se beijando". Lendo o livro fui desconstruindo meus receios, possíveis preconceitos com título, autor e lista de mais lidos do The New York Times e David foi justificando, ao menos para mim, todo o propósito do título do livro e após o seguinte trecho que transcrevo abaixo eu me entreguei completamente à história:

Dois garotos se beijando. Vocês sabem o que isso quer dizer.
Para nós, era um gesto tão secreto. Secreto porque sentíamos medo. Secreto porque sentíamos vergonha. Secreto porque era uma história que ninguém estava contando.
Mas que poder isso tinha. Quer nós disfarçássemos com a desculpa de Você será o garoto e eu serei a garota, quer chamássemos de forma desafiadora pelo nome correto, quando nos beijávamos era quando sabíamos o quanto era um gesto poderoso. Nossos beijos eram sísmicos. Quando vistos pela pessoa errada, podiam nos destruir. Quando compartilhados com a pessoa certa, tinham o poder da confirmação, a força do destino.
Se juntarmos armários suficientes, temos o espaço de um quarto. Se juntarmos quartos suficientes, temos o espaço de uma casa. Se juntarmos casas suficientes, temos o espaço de uma aldeia, de uma cidade, de uma nação, do mundo.
Sabíamos do poder particular de nossos beijos. Depois veio a primeira vez em que fomos testemunhas, a primeira vez que vimos acontecer abertamente. Para alguns de nós, foi antes de termos sido beijados. Saímos de nossas cidadezinhas, fomos para a cidade grande e, ali nas ruas, vimos dois garotos se beijando pela primeira vez. E o poder agora era o poder da possibilidade. Ao longo do tempo, não era só nas ruas ou nas boates ou nas festas que organizávamos. Estava no jornal. Na televisão. Nos filmes. Todas as vezes que víamos dois garotos se beijando assim, o poder aumentava. E agora... ah, agora. Há milhões de beijos para serem vistos, milhões de beijos a um clique de distância. Não estamos falando de sexo. Estamos falando de ver dois garotos que se amam se beijando. Isso tem muito mais poder do que o sexo. E mesmo se tornando lugar-comum, o poder ainda está presente. Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais. Seu mundo. O mundo que deixamos. O mundo que deixamos para vocês.
Este é o poder de um beijo:
Ele não tem o poder de matar você. Mas tem o poder de trazer você à vida.
De vazio e bobo o livro não tem nada. Está cheio de posicionamento político, discussões de direitos humanos, representatividade, diversidade, entre outros temas universais aos relacionamentos humanos sejam eles gays, héteros, bissexuais, enfim. Não é um livro bobo, é um livro sério que faz uma retrospectiva sem didatismo pedante, sobre a trajetória de luta dos homossexuais para que a geração de hoje pudesse estar vivendo com um pouco mais de dignidade e que muitas vezes parecemos esquecer daqueles primeiros militantes que começaram a lutar contra o processo de invisibilização dos LGBT's. 

Dois garotos se beijando é colocado no livro como um ato de amor, mas também um ato político. O título do livro trás consigo leveza e dor ao mesmo tempo, pois para muitos dois garotos se beijando é algo muito simples e bonito, como um beijo deve ser, e para outros é visto como algo abominável e que pode gerar ondas de violência, discursos de ódio e negação de direitos. O que estou dizendo pode ser comprovado simplesmente pela exposição da capa do livro e as expressões faciais que a mesma gera. Inclusive a capa da edição americana de Two Boys Kissing gerou um grande burburinho quando o livro foi lançado, e ela nada mais é do que a fotografia de dois garotos se beijando e que portanto é o tema do livro.

À esquerda edição americana do livro e à direita a edição brasileira

Dois garotos se beijando é uma bandeira de igualdade e liberdade. É um grande avanço que livros como esse estejam sendo publicados no Brasil em tempos de tanta mediocridade e hipocrisia. Com isso não estou de forma alguma dizendo que essa temática nunca foi tratada no país por escritores nacionais, pois temos e tivemos escritos primorosos de figuras como Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan e Hebert Daniel que são citados numa coluna que li sobre "literatura gay" como "aqueles que ousaram e ousam a escrever sobre o amor que não se diz o nome". Literaturas como essa, que reconhecem "minorias" e contribuem com a representatividade de pessoas e grupos perseguidos acabam por cumprir um papel transformador nas mentes e na sociedade pois como dizia Sartre "só a liberdade pode tornar inteligível uma pessoa em sua totalidade, mostrar essa liberdade em luta contra o destino, primeiro esmagada por suas fatalidades, depois voltando-se contra elas, digerindo-as pouco a pouco (...)"



A mulher na janela de A.J. Finn

A mulher na janela do A.J. Finn (Editora Arqueiro, 2018) é um thriller de suspense que acompanha a vida de Anna Fox, uma mulher que sofre de agorafobia após uma tragédia que assola sua família. Essa condição psicológica a impede de sair de casa. Como já está há quase um ano sem contato direto com o exterior, uma das distrações de Anna é acompanhar a vida de seus vizinhos através da janela. Um dia ela pensa ter presenciado um crime na casa em frente e é a partir desse acontecimento que muitas coisas começam a mudar em sua vida. O crime realmente aconteceu ou é fruto da cabeça de Anna que vive a base de fortes remédios e do uso abusivo de álcool? É isso que Anna tenta descobrir.


"A mulher na janela" é um livro cheio de clichês do gênero de suspense, mas isso não seria um problema se fossem usados com mais criatividade e inteligência. Nos primeiros capítulos já conseguimos sacar um dos principais pontos de reviravolta da trama, o chamado plot twist. Sinceramente, acho que um bom plot twist é aquele que você não está esperando e que portanto não imagina que irá acontecer, mas na obra de Finn a gente só fica juntando os pontos e aguardando ele confirmar nossas suspeitas - o que acontece. Essa facilidade da leitura, que diria que nem está ligada à escrita de A.J. Finn que é até fluida, mas a previsibilidade dos fatos acaba prejudicando a obra.

O autor consegue apresentar bem as personagens. Anna Fox tem uma personalidade rica, sua profissão é algo relevante para a narrativa, uma vez que ela é terapeuta especialista em crianças, e também sua condição psicológica aliada ao fato de seu isolamento social poderiam ter sido exploradas de forma a dar mais camadas à história. O autor joga um tapete cheio de possibilidade de trama aos nossos pés, mas depois não faz nada com isso.

As partes mais interessantes do livro estão na relação de Anna Fox com o cinema. Anna é cinéfila e possui um grande acervo de filmes antigos em casa. Em muitas passagens o autor consegue brincar utilizando diálogos de filmes famosos para nos mostrar quem é Anna, em que tipo de história ela está inserida, e até mesmo a própria personagem utiliza de sua paixão pelo cinema para interpretar sua condição e tentar entender seu próprio mistério.

A mulher na janela é um livro para aqueles momentos em que você quer ler apenas por distração. É uma obra que não desafia o leitor e que em pouco tempo pode se tornar irrelevante para sua trajetória leitora. Se existe a tal da literatura de entretenimento, esse é um livro que pode ser catalogado nessa seção. Um filme baseado nesse thriller já foi produzido e acredito que na mão de um bom diretor pode se tornar maior que o livro.




A invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares

A invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares (edição comemorativa Folha de São Paulo, 2016) é um livro que foi lançado originalmente em 1940 e se tornou um grande clássico da ficção científica latino-americana. Além de surpreender por algumas ideias e descrições a frente de seu tempo, também ficamos surpresos com o fato de que Bioy Casares concebeu essa obra quando tinha apenas 26 anos.


"A invenção de Morel" relata em uma espécie de caderno de anotações, o dia a dia de um homem que fugindo de uma condenação de prisão perpétua se refugia em uma ilha aparentemente desabitada e cercada de mistérios.

Nem os piratas chineses, nem o barco pintado de branco da Fundação Rockfeller aportam nela. É foco de uma doença, ainda misteriosa, que mata de fora para dentro. Caem as unhas, o cabelo; morrem a pele e as córneas dos olhos, e o corpo sobrevive oito, quinze dias.

Luzes de emergência se acenderão automaticamente da Luísa Geisler

Luzes de emergência se acenderão automaticamente da Luísa Geisler (Editora Alfaguara, 2014) é um livro surpreendente. Ele narra uma etapa da vida das personagens, que se torna também as etapas de crescimento e amadurecimento de um grupo de jovens. É o retrato de uma geração recente e seus dilemas, dúvidas, anseios, amores e perdas. A forma como a Luísa Geisler escreve garante uma proximidade ainda maior do leitor com a obra, como se estivéssemos pautando a vida numa mesa de bar, alternando entre embriaguez e sobriedade.


Cada capítulo inicia na terceira pessoa, fazendo uma breve apresentação das personagens, suas personalidades e os vínculos que estabelecem. Em seguida, somos convidados a entrar, ou talvez a invadir a cabeça de Henrique. Ike é um jovem que começa a escrever cartas para seu melhor amigo que sofreu um acidente e está em coma a alguns meses. Ele anda agarrado a esse caderno, onde faz confissões íntimas, relembra fatos vividos pelos dois, fala sobre suas famílias, sobre as namoradas, festas, viagens, emprego, drogas, sexo, enfim, todos os fatos relacionados a sua vida e sua rotina. Henrique escreve com a justificativa de atualizar o amigo Gabriel quanto este sair do coma, mas vamos percebendo que a escrita, nessa espécie de diário, é uma forma de lidar com a dor, com a perda e com a solidão.

A cada carta escrita por Henrique, somos acometidos das mais diversas sensações e sentimentos. Algumas passagens são muito engraçadas e a escolha da escritora de explorar uma linguagem coloquial e direta nos coloca no meio de uma conversa de amigos íntimos, portanto sem filtros. Algumas partes são de marejar os olhos, pois Henrique, está lidando o tempo todo com a falta do amigo e com a incerteza sobre sua recuperação.

Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias de Flannery O'Connor

Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias é uma coletânea  de contos que foi lançada originalmente em 1955. Foi o segundo livro da Flannery O'Connor, escritora que viria a ser reconhecida como uma das principais contistas da literatura americana. Esse ano o livro foi relançado pela TAG Experiências Literárias em parceria com a Editora Nova Fronteira em uma edição caprichada.


O trabalho literário de Flannery é um daqueles casos onde é aconselhável um olho na obra e outro na biografia, na história de vida da escritora. Quando falamos dos contos de "Um homem bom é difícil de encontrar e outras histórias", o entrelaçamento entre ficção e experiências pessoais (da autora) ficam ainda mais evidentes e aumentam nosso processo de imersão na leitura. 

Flannery O'Connor foi uma mulher fragilizada pela doença, mas fortalecida nas letras. O que produziu é forte, contundente e um retrato social e humano de uma época. Ela faleceu muito cedo, contudo antes disso, viveu uma vida praticamente reclusa em uma fazenda junto com sua mãe. Nesse período seus maiores hobbies eram a escrita e a criação de pavões. 

Estação atocha de Ben Lerner

Estação atocha de Ben Lerner (Tag Experiências Literárias, 2020) é um livro que se debruça sobre as artes. A literatura aparece como  protagonista através das diversas experiências que a  poesia pode proporcionar. Acompanhamos Adam Gordom, um jovem e promissor poeta que conseguiu uma bolsa de estudos para estudar em Madri. Enquanto trabalha em seu projeto de pesquisa, Adam irá ser o fio condutor de uma história que reflete sobre o poder da literatura, inclusive a níveis sociais e políticos.


Em "Estação atocha" a ironia chama atenção através da voz de nosso personagem narrador que é uma figura que consegue ser realista, instável, inconsequente e por vezes bastante insensível - o que é algo que não cogitamos para a personalidade de um poeta. Adam Gordom chega em Madri para finalizar um longo poema sobre a Guerra Civil, mas por mais que ele vai tentando situar o leitor temporalmente sobre seu processo de pesquisa, percebemos que o mesmo não tem o projeto como seu foco principal.

Adam Gordom é talentoso mas muito inseguro e tem a mania  de auto sabotagem. Durante todo o livro são poucos os momentos em que podemos dizer que o rapaz estava livre dos efeitos de drogas e álcool. Ele costuma se automedicar mesmo tendo dúvidas se esses medicamentos ainda provocam algum efeito, principalmente sobre seus problemas com insônia e ansiedade. Faz uso constante de maconha, haxixe e álcool como uma forma de potencializar a visão que tem de si e como estratégia de moldar a imagem que passa para os outros.  Em certo momento do livro, uma das personagens com quem Adam estabelece um relacionamento amoroso, a mesma chega a perguntar "quando vai parar de fingir que está fingindo ser poeta?"

Olhos D'água de Conceição Evaristo

Olhos D'água da Conceição Evaristo (Editora Pallas, 2016) é um livro composto por vários contos que nos aproximam de realidades distintas. A maioria dessas histórias são do ponto de vista feminino com a apresentação de mulheres fortes que sofrem as consequências ou enfrentam situações de racismo, homofobia, pobreza, violência policial, sexismo, morte, estupro, drogas, mas que também exalta a força da ancestralidade, do amor, do afeto e da representatividade com um texto cheio de sensibilidade e poesia.


Como é uma obra que trabalha com as questões de classe e gênero, deparamos com passagens que exploram a violência sem rodeios em uma narrativa onde nada é gratuito. Conceição Evaristo consegue ser realista usando da palavra como arte. Em seu texto a palavra fere e encanta em igual medida. É uma escritora que domina as nuances para se contar uma boa história.

Em "Olhos D'água" Conceição faz algo genial, que é falar de exclusão para incluir. É uma obra que humaniza os excluídos e dá voz aqueles que muitos fingem não existir em nossa sociedade ou que sua existência seja lembrada apenas para a servidão. E para dar voz a esses grupos e pessoas, Conceição se aproxima o máximo que pode de suas vivências para mostrar tanto a injustiça, quanto a banalidade da vida de ser e estar em um lugar ou condição. Não é atoa que a questão do olhar é tratada em diversas partes do livro como um convite a ver o que está posto e a partir da visualização iniciar um processo de conscientização/ação perante os diversos tipos de violências que assolam as relações e a sociedade.

Os afetos de Rodrigo Hasbún

Os afetos de Rodrigo Hasbún (Editora Intrínseca, 2016) é um livro de ficção boliviana, que acompanha a jornada de uma família alemã que migra para a Bolívia logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Hans, o pai da família é um grande aventureiro que trabalhava como cinegrafista de Leni Riefenstahl, responsável pelos documentários de propaganda nazista na Alemanha e quando chega a Bolívia transmite suas inquietações para a procura de Paitití - lenda de uma antiga cidade inca que pode estar localizada no coração da selva amazônica.


O livro mistura personagens e acontecimentos reais com ficção e com diversas vozes narrativas. Essa alternância do narrador acontece a cada mudança de capítulo e vamos acostumando aos poucos com essa peculiaridade do livro. Eu tive um pouco de estranhamento nas primeiras páginas do livro, pois é preciso muita atenção na leitura para perceber quando o texto muda de narrador.

Os afetos é um livro sobre relações familiares e seus laços. Hans Ertl chega com sua esposa Aurelia, suas três filhas Monika, Heidi e Trixi e a situação de exílio já é por si só um grande desafio de sobrevivência das subjetividades, das memórias, dos vínculos, uma vez que essas pessoas se vêem imersas numa nova cultura e em uma nova língua.

Meio sol amarelo de Chimamanda Ngozi Adichie

Meio sol amarelo de Chimamanda Ngozi Adichie (Companhia das Letras, 2008) é uma história grandiosa. É a segunda obra da Chimamanda que leio e sempre lembro de sua fala sobre o perigo da história única que pode levar à desumanização. Em um trecho a escritora relata como cresceu na Nigéria mas lendo apenas livros infantis britânicos e americanos, e que quando começou a escrever suas próprias histórias aos sete anos todos seus personagens eram brancos de olhos azuis, brincavam na neve, comiam maçãs e bebiam cerveja de gengibre, mesmo que ela nem soubesse o que era. Isso tudo porque eram os tipos de histórias que tinha acesso. Até que ela começou a escrever sobre coisas que conhecia.


Meio sol amarelo é mais um exemplo desse comprometimento de Chimamanda de olhar para si, e quando ela olha pra si olha também para um país e um continente que ainda conhecemos pouco e o que conhecemos é dotado de estereótipos. Em Meio sol amarelo Chimamanda nos apresenta a Nigéria com toda sua cultura, costumes, linguagens, música, diversidade, conflitos sociais e políticos. Quase impossível fazer essa leitura sem realizar pesquisas paralelas sobre as cidades citadas, o significado de algumas palavras, principalmente em realção aos igbos e os acontecimentos políticos. Passamos a fazer parte da vida de Ugwu, Olanna, Odenigbo, Kainene, Richard e diversas personagens que passam pela história, tendo uma guerra como pano de fundo.

O livro é baseado na guerra de Biafra que durou de 1967 a 1970 e dividiu o país em dois em busca da separação das províncias ao Sudeste da Nigéria. Nigerianos e Biafrenses lutando por domínio de terra e sobrevivência de seu povo. A guerra de Biafra surge por conta de muitos fatores, sendo os mais proeminentes os conflitos entre nigerianos de dois grupos étnicos diferentes (ibos e haussás) e uma convulsão social advinda de heranças da colonização.

Primavera num espelho partido de Mario Benedetti

Primavera num espelho partido de Mario Benedetti (TAG Experiências Literárias, 2019) foi lançado em parceria com a editora Alfaguara com curadoria de Julián Fuks que é romacista, contista e crítico literário. É uma história que acompanha as consequências das ditaduras, dos governos autoritários para as famílias daqueles que escolheram lutar pelos direitos humanos e acabaram indo para o exílio. Esse livro foi minha primeira incursão pela literatura uruguaia.


Primavera num espelho partido é um livro sobre liberdade. Seus capítulos são divididos de forma a conhecermos o ponto de vista de diversos membros de uma família que espera ansiosamente pelo fim do exílio de Santiago. Essa família, por sua vez, também precisou se exilar na Argentina. Esposa, filha, amigo e pai de Santiago servem na história como um espelho que emana os reflexos do exílio político para além da prisão propriamente dita. Demonstra como uma família e um preso político podem ser desmantelados pela dor, pela espera, pela ânsia de liberdade e pelo correr dos dias que não para.

Esse correr dos dias irá suscitar muitos debates sobre a força do amor para enfrentar a repressão política. Santiago se vê longe de todos que ama e apenas com a possibilidade de se comunicar com eles por cartas que com certeza passam pela censura antes de serem enviadas. Enquanto resiste a todo tipo de tortura naquelas quatro paredes, Santiago divaga sobre a vida e cria novas narrativas através até da interpretação das manchas de mofo e umidade das paredes.

Adeus, Gana de Taiye Selasi

Adeus, Gana de Taiye Selasi é o livro enviado pela TAG Experiências Literárias  no kit de janeiro de 2020 e a publicação foi concebida em parceria com a Editora Planeta. Foi o primeiro livro de Selasi e lançado originalmente em 2013.


Adeus, Gana é um livro que já nasce clássico. Taiye Selasi escreve com um talento admirável ao construir uma narrativa que passeia entre presente e passado. O leitor precisa estar o tempo todo atento para perceber esse jogo que funciona como um flash back essencial para conhecer a fundo cada personagem. Conhecendo cada personagem vamos conhecendo também a história de uma família de origem africana que foi obrigada a migrar por conta de questões políticas. Kweku Sai é natural de Gana e sua esposa Folasadé da Nigéria. Eles são pais de Olu, Sadie, e do casal de gêmeos Taiwo e Kehinde que foram criados nos EUA.

Essa edição conta com duas informações adicionais e que funcionam muito bem para nós leitores. Nas primeiras páginas encontramos um quadro dedicado a apresentar pronúncia, significado e origem de algumas palavras que aparecem com frequência no romance. Como essas palavras são de origem africana (Gana e Nigéria) acaba sendo um exercício muito legal saber que estamos tendo a oportunidade de aprender a pronúncia. E na página seguinte encontramos a Árvore Genealógica das personagens que também colabora muito com o entendimento da história.

O Instituto de Stephen King

O Instituto de Stephen King (Editora Suma, 2019) é um dos mais recentes livros lançados pelo autor. Na obra King mostra que ainda possui fôlego de sobra para criar histórias com todos aqueles elementos que esperamos de suas publicações. Quem já é leitor de King perceberá também algumas referências bem divertidas a outros títulos do autor que aparecem de forma bem fluida e como um mimo a seus mais fiéis leitores. O Instituto é um thriller impactante. Possui doses de mistério e violência, na mesma medida em que sentimentos como cuidado e amizade serão importantes para o desdobramento da trama.


Imagine que você tenha na faixa dos doze anos de idade, more com seus pais numa casa confortável, que esteja levando sua vida como manda o roteiro. De repente, em uma noite, sua casa é invadida, seus pais são mortos e você acorda em um quarto que imita o seu, com as mesmas mobílias e decorações, só que sem janelas e em uma localidade desconhecida. Essa é a premissa de O Instituto e a história do protagonista Luke Ellis.

No momento em que Luke é sequestrado, o mesmo estava se preparando para decidir em qual universidade estudaria. Apesar da pouca idade, Luke é um garoto prodígio com QI acima da média e havia sido aprovado em diversos exames. Seus pais estavam dispostos a mudar de cidade para apoiar o jovem nessa mudança tão radical e serem um porto seguro no meio da selva universitária que Luke enfrentaria. Para completar, o garoto possui algumas habilidades telecinéticas, ou seja, consegue mover objetos com a força da mente. Esse fato é de conhecimento de seus pais e um segredo guardado entre eles.  O poder de Luke sempre vem a tona em momentos de excitação, de ansiedade e fogem ao seu controle.