Miguel e os demônios ou Nas delícias da desgraça, de Lourenço Mutarelli

Miguel e os demônios ou Nas delícias da desgraça, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras, 2009), é um livro desafiador. Nos vemos diante de Miguel, um policial de personalidade bastante dúbia, assim como todos os temas que perpassam a obra. O leitor precisa suspender seu juízo de valor (ou não) para embarcar em uma narrativa em que alguns absurdos são explorados sem delimitação do que é bom ou mau, certo ou errado. Para além disso, a obra também brinca com a escatologia e o sadismo, o que pode soar bastante estranho a alguns leitores.


Lourenço Mutarelli possui uma carreira consolidada no mundo dos quadrinhos e conseguimos perceber a influência das HQs em sua incursão pelo romance. Continua presente ali algo bastante imagético, cru, direto ao ponto e provocativo, assim como os quadrinhos pedem. Temos a presença de personagens marginalizados, problemáticos e neuróticos em meio a um caos urbano que é construído através de um texto irônico.

Algo interessante na escrita é que a narrativa flerta com o roteiro de cinema. Entre um acontecimento e outro, uma fala e outra, aparecem indicações como “zoom no rosto de fulano” e “a câmera se afasta”. A forma como os capítulos são apresentados também nos leva a essa referência do audiovisual. Os acontecimentos surgem como cortes de cena que serão retomados logo adiante.

O personagem Miguel é um verdadeiro anti-herói. Um homem tragado pela banalidade e paralisado por suas próprias paranoias, culpas e frustrações acumuladas, que o levam a atos de violência. Consumido por uma fixação obsessiva que desfoca os limites entre o plano psicológico e a realidade objetiva, o protagonista transforma o cotidiano em um campo de batalha interno, onde suas convicções morais e medos mais profundos se tornam uma prisão sufocante.

Essa é uma visão muito comum do mal. É uma visão, eu diria, sem querer te ofender de forma alguma, muito simplista. De qualquer modo, há essa teoria de que o mal só existe quando se tem consciência de que se faz mal a alguém, mas essa é apenas uma face do mal. Essa é uma visão quase que, digamos, jurídica, um aspecto legal da questão, não da sua essência. 

Miguel é um policial civil que tenta reorganizar a vida após o fim do seu casamento, a separação da família e a impossibilidade de conviver com o próprio filho. Ele volta a morar com o pai e inicia um namoro com uma manicure, também recém-separada e com filhos. O namoro parece mais um passatempo para Miguel, assim como sua vida parece um improviso. Tudo fica ainda mais caótico quando ele começa uma relação obsessiva com uma travesti.

Os demônios simbólicos que aparecem na narrativa ficam no limiar entre a manifestação concreta e a perturbação psicológica, ao mesmo tempo em que Mutarelli nos provoca a pensar sobre moralidade. Para além de forças sobrenaturais em seu sentido clássico, os demônios atuam como alegorias das culpas, dos desejos reprimidos, da vergonha, do medo e do fracasso familiar e profissional.

Mutarelli se recusa a nos entregar uma explicação racional ou fantástica para os demônios de Miguel. Cena a cena, a narrativa vai nos mostrando que a própria degradação do cotidiano, das relações e do viver no caos urbano se torna a verdadeira possessão demoníaca, revelando as fraturas internas de cada indivíduo.

Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência de Tove Ditlevsen

Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência, de Tove Ditlevsen (Companhia das Letras, 2023), é um romance autobiográfico dividido em três partes, no qual acompanhamos a história de vida de uma escritora que sempre teve a certeza de que sua razão de viver era a escrita. A obra é magistral no que oferece de apreciação da escrita artística, poética e confessional. A narradora não se abstém de tratar de temas que podem soar delicados. Ditlevsen o faz sem qualquer tipo de pudor ou moralismo, e isso chama a atenção quando situamos a sua obra no espaço e no tempo. Além de ser um exemplo de dedicação ao fazer literário, a obra também pode ser lida como um texto rico em camadas sociais, políticas e psicológicas.


O estilo literário de Trilogia de Copenhagen, que é realista e sem sentimentalismos, acaba por nos remeter aos trabalhos de autores contemporâneos que também exploram uma escrita mais autobiográfica, e isso demonstra o pioneirismo do texto de Tove, que já o fazia em meados dos anos 60.

A escrita é a grande protagonista da narrativa. Tove Ditlevsen possuía uma relação obsessiva com o ato de escrever, sendo a poesia a sua forma de expressão mais explorada. O texto poético exercia uma função em sua vida que ultrapassava a produção e apreciação de arte propriamente dita: era também uma questão de sobrevivência. Para além disso, a obra esmiuça o impacto das limitações sociais que sempre fizeram parte da vida de Tove e de como a condição de mulher, o casamento e a maternidade quase foram um empecilho para a realização de seu sonho em ser uma escritora de sucesso.

Na primeira parte da obra, mergulhamos em um verdadeiro tratado sobre a infância como etapa definidora de toda a nossa vida. Testemunhamos um olhar de criança atenta ao que acontece à sua volta, de forma a subverter a ideia romântica de que as crianças estão alheias ao mundo dos adultos. No caso de Tove, em especial, vemos uma menina inteligente, sarcástica e com olhar apurado para enxergar o lado B da vida.

A partir da infância, a narradora começa a fazer uma análise do contexto em que vive e percebe que a vivência em um bairro operário também a colocaria em situações de inadequação em outros contextos. Tove sempre precisou lidar com a solidão de ser uma menina que gostava de poesia, ao mesmo tempo em que lidava com todas as outras obrigações e expectativas que são colocadas sobre os ombros das mulheres.

Não dá para escapar da infância e ela nos acompanha como um cheiro. Dá para percebê-la em outras crianças, e cada infância tem seu próprio cheiro. Não conhecemos a nossa e às vezes temos medo de que ela seja pior que a dos outros. A gente vai e fala com outra garota cuja infância tem cheiro de cinza e carvão, e de repente ela dá um passo atrás, pois sentiu o fedor pavoroso da nossa própria infância
Na segunda parte, intitulada “Juventude”, Tove está ainda mais dedicada ao ato de escrever, ao mesmo tempo em que as revoluções internas e externas da adolescência acontecem. O desejo de ser uma escritora publicada se torna uma obsessão, assim como a vontade de sair de casa aos dezoito anos. Vemos Tove viver seus primeiros e conturbados relacionamentos e sua busca por estabilidade financeira passando por empregos medíocres, enquanto luta por sua primeira publicação. Enquanto isso, o fantasma da Segunda Guerra Mundial ronda o seu país.

Estou trabalhando numa pensão na Vesterbrogade, perto da Estátua da Liberdade. Para minha mãe, me mandar para outro bairro seria tão impensável quanto me mandar para os Estados Unidos. Entro às oito da manhã todo dia e trabalho doze horas numa cozinha coberta de fuligem e gordura, onde nunca há paz nem descanso. Quando chego em casa à noite, estou cansada demais para fazer qualquer coisa que não seja ir para a cama.
Na última parte da obra, “Dependência”, vemos a narrativa tomar um tom mais pesado e que pode gerar gatilhos, pois é a fase da vida em que ela embarca em um vício destrutivo em opioides após realizar um aborto. A vida conturbada, somada aos casamentos tóxicos, a leva a uma perda do controle sobre a própria escrita. Sem pedir desculpas nem buscar redenção, Ditlevsen assina uma autobiografia devastadora e brutalmente honesta sobre os custos de se manter fiel à própria voz.

A humilhação de Philip Roth

A Humilhação, de Philip Roth (Companhia das Letras, 2017), é um romance curto que trata de temas delicados. No alto de seus sessenta e cinco anos, Simon Axler, um ator consagrado no teatro, se vê às voltas com uma total perda de confiança na atuação. Após uma série de temporadas memoráveis nos palcos, ele simplesmente entra em uma crise existencial, passando a acreditar que perdeu seu talento para interpretar, o que o leva a um processo de depressão que abala sua vida em todos os âmbitos. Assistimos a um homem que, ao tentar recuperar a própria dignidade, afunda-se ainda mais em processos de autossabotagem.


A questão da humilhação aparece como uma maneira de dar forma a um dos maiores medos do ser humano: deixar de entender a si mesmo ou a quem acreditávamos ser. O que resta de nós quando já não conseguimos desempenhar aquilo que dava sentido à nossa vida e pelo qual éramos reconhecidos?

Ninguém era mais meticuloso, estudioso e sério do que ele, ninguém administrava melhor seu próprio talento, ninguém se adaptava melhor às mudanças de condições que necessariamente ocorriam numa carreira teatral que já durava tantas décadas. Deixar subitamente de ser o ator que ele era – isso era inexplicável, era como se uma noite, enquanto ele dormia, tivessem roubado o peso e a substância de sua existência profissional. A capacidade de falar e ouvir num palco – em última análise, a coisa se resumia a isso, e era isso que havia desaparecido.
O livro é uma verdadeira representação da eterna angústia da figura do artista e, ao fazê-lo, serve como espelho para crises existenciais que são universais. No caso do protagonista, ao se ver travado diante do exercício da atuação, ele se volta também para as questões do próprio envelhecimento e de como sua identidade sempre esteve atrelada ao fazer artístico.

Sem a capacidade de atuar, Axler, que sempre viveu através dos personagens que interpretou, se vê perdido ao ser obrigado a encarar a própria identidade. Sem os palcos como âncora, até mesmo a sua relação amorosa entra em declínio, juntamente com suas saúdes física e emocional.

Axler não conseguia se convencer de que estava louco, tal como não havia conseguido convencer ninguém, nem mesmo a si próprio, de que era Próspero ou Macbeth. Era um louco artificial também. O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel.
A obra traz reflexões interessantes que nos provocam a pensar em quais são os âmbitos da vida em que fazemos verdadeiras performances. Coloca o fato de existir e ser funcional como partes de uma grande peça cheia de atos, e a incapacidade de atuar como uma consequência de quando um plano não sai como imaginamos, ou quando um problema aparentemente sem solução se projeta em nossa frente. Quem somos nós quando perdemos a capacidade de atuar?

Existe um pessimismo pulsante em toda a narrativa da obra, que já nasce sob a luz de um título que soa ao mesmo tempo pesado e irônico. A escrita trágica e a construção de um personagem intenso lembram as histórias shakespearianas, e conseguimos transportar facilmente a sensação da leitura para o palco soturno de uma peça de teatro. Tudo é narrado com uma dose a mais — seja ela de amor, de desamor, de tesão ou de morte.

Úrsula de Maria Firmina dos Reis

Úrsula da Maria Firmina dos Reis (Penguin Classics, 2018) é um romance brasileiro escrito no ano de 1859 e considerado por estudiosos como o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. Além de todo seu pioneirismo ao tratar de temas como a voz e a condição das mulheres, escravidão, abolicionismo, negritude e luta de classes, soma-se a isso o fato de que Maria Firmina dos Reis era uma mulher negra. Talvez este seja o principal motivo para que a obra caísse em esquecimento por quase cem anos, uma vez que fora lançada em pleno período escravocrata. Podemos dizer que “Úrsula” é o nascimento do que hoje chamamos de literatura afro-brasileira.


Na história conhecemos Tancredo, um jovem branco de família abastada que após sofrer uma grande desilusão amorosa e um acidente grave de montaria, é salvo e cuidado por Túlio, um negro escravizado. O encontro que começa de forma trágica, acaba sendo responsável pelo nascimento de uma amizade sincera que mudará o rumo de suas vidas. Através de Túlio, Tancredo se aproximará da família de Úrsula, uma jovem negra de origem simples, de beleza marcante e o apaixonamento é imediato.

Era tão caridosa... tão bela... e tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio, que lágrimas de tristeza e de sincero pesar lhe escaparam dos olhos, negros, formosos, e melancólicos. Úrsula, com a timidez da corsa vinha desempenhar à cabeceira desse leito de dores os cuidados, que exigia o penoso estado do desconhecido.
Toda a trama é desenhada seguindo fortemente as características e o sentimentalismo exacerbado do romantismo. O amor aparece de forma idealizada, como algo que prende o coração e os sentidos, assim como a figura da mulher é retratada como algo belo, angelical e quase intocável. O amor se apresenta pela ordem do impossível e do proibido, uma vez que Úrsula e Tancredo não só enfrentam a diferença de classe e de raça, como também possuem um algoz violento em seu rastro. Úrsula é perseguida pelo seu tio poderoso e impiedoso, que também envereda por um amor obsessivo e quase irracional pela jovem. Ele entra numa busca por vingança por não conseguir o coração da moça, que devota todo seu amor a Tancredo.

Ainda que a obra explore de forma visível as características do romantismo, ao mesmo tempo consegue subverter e romper de forma muito natural com algumas visões conservadoras do período. Úrsula, por exemplo, é uma mulher que coloca o seu amor e a sua vontade à frente do que determinava as estruturas patriarcais da época. O faz ao apostar em um relacionamento interracial e ao lutar com bravura para não ter seu corpo e sua liberdade sequestrados.

Por trás da clássica e universal história do amor que precisa lutar contra tudo e contra todos para se concretizar, Maria Firmina dos Reis desenha, pela ordem do texto literário, a realidade de uma sociedade escravocrata e a forma como se dava a violência estrutural da escravidão.

Para além disso, ela fez um feito grandioso, que foi colocar personagens negros e escravizados no centro de uma trama em pleno ano de 1859. O povo negro aparece como personagens dotados de singularidades, sentimentos, memórias e voz própria. Não é uma história que aposta apenas no relato dos horrores da escravidão e dos escravizados, mas também na sua humanização.

“Úrsula” é uma obra lançada a exatos 167 anos e ainda assim podemos utilizá-la como fonte para discutir sobre as desigualdades históricas no Brasil e outras temáticas como racismo estrutural e violência de gênero.

Hospício é deus: diário I da Maura Lopes Cançado

Hospício é deus: diário I da Maura Lopes Cançado (Companhia das Letras, 2024) é um livro autobiográfico, onde a autora relata suas experiências após passagem por diversos hospitais psiquiátricos. Com um texto poético, visceral e também realista, Maura retrata a dura realidade dos chamados “hospícios” do início dos anos 60. Ao registrar seus dias em forma de um diário, a autora compôs uma obra que é ao mesmo tempo um exercício literário potente e uma denúncia sobre a forma como enxergamos e tratamos o tema da loucura. É uma obra que além de seu valor literário, também serve como norte para discutirmos sobre o contexto de uma época de manicômios e práticas psiquiátricas violentas.



Além de ser um relato íntimo, o livro chama a atenção pela sua forma. Nos vemos diante de um diário que mescla o texto de testemunho e autobiográfico com reflexões filosóficas. Maura possui um olhar sobre o todo que é instigante, onde não sabemos mensurar o que é parte da sua loucura e o que é parte de quem Maura é em sua essência.

A obra inicia com um relato que é fundamental para entendermos quem é Maura Lopes Cançado. A autora fala sobre sua infância em São Gonçalo do Abaeté, no interior de Minas Gerais, em uma época onde sua família era a mais rica e influente da região. É onde também conhecemos a relação de Maura com a própria família e principalmente com seu pai, figura com a qual possuía uma relação de amor intensa. Maura diz que se “não fosse a limitação do seu meio, seria o maior homem do mundo”.

Nasci numa bela fazenda do interior de Minas, onde meu pai era respeitado e temido como o homem mais rico e valente da região. Fui uma criança bonita, todos dizem, e sei pelos retratos. Há sete anos mamãe não tinha filhos quando se deu meu nascimento. Daí tornar-me objeto de atenção de toda família e orgulho de meu pai.
Desde a infância Maura se mostrava uma criança singular. Possuía uma saúde um tanto frágil, o que aumentava a vigilância de seus pais, como também já na infância demonstrava algumas atitudes e pensamentos que denunciavam o adoecimento de sua saúde mental. Maura diz em seu diário que “como criança, foi excessiva”. E o excesso será o tom de tudo em sua vida.

Movia-me num mundo que desprezava, por que ligar às convenções desse mundo?
Algo muito interessante das reflexões de Maura, é que, ela própria, possuía uma clareza muito forte de sua própria loucura, a ponto de se internar por vontade própria. A cada sentimento estranho, medos e paranoias quase inexplicáveis, ela utilizava da ajuda da escrita para pensar sobre a sua própria loucura de uma forma que nos assombra, pois é repleta de lucidez e contradiz o que o senso comum diz sobre os “loucos”.

Desde menina experimentei a sensação de que uma parede de vidro me separava das pessoas. Podia vê-las, tocá-las – mas não as sentia de fato. Acontecia ser tomada de tão grande pânico que corria para mamãe e papai, agarrava-me a eles, os objetos se me distanciavam, percebia modificações nas coisas – e não sabia explicar.
Um outro ponto característico da obra está na forma como a escritora produz uma narrativa que soa fragmentada e entrecortada. Maura pode opinar sobre um assunto em uma linha, para na seguinte já se colocar a contradizer tudo o que foi dito. É como se a sua escrita acompanhasse com fidelidade o seu fluxo de pensamento que, por vezes, estava à mercê de medicamentos e da violência diária do hospital.

A escrita de Maura, aliada a suas vivências e a uma inteligência admirável, nos leva a refletir sobre os limites ou as interseções entre loucura e lucidez. Na maior parte do tempo, Maura se apresenta como uma mulher completamente consciente, sã e com um olhar crítico sobre o mundo.

Não aceito nem compreendo a loucura. Parece-me que toda a humanidade é responsável pela doença mental de cada indivíduo. Só a humanidade toda evitaria a loucura de cada um.

Suas reflexões e provocações garantem trechos memoráveis sobre temas como a representação dos manicômios, sobre questões de subjetividade e identidade e até sobre dimensões existenciais e religiosas.  

Amar a Deus? Deus, meu pai? Ora, a meu pai eu abraçava, pedia coisas, tocava. Como podia ser meu pai um ser de quem só tinha notícias - além de tudo terríveis? Minhas relações com Deus foram as piores possíveis - eu não me confessava odiá-lo por medo da sua cólera. Mas a verdade é que fugia-lhe como julgava possível - e jamais o amei. Deus foi o demônio da minha infância. 
É bonito e humano rezar. Também não creio em nenhum deus, não creio nas divindades para as quais se reza. Rezo pela poesia da oração. Rezo para sentir-me próxima de meus semelhantes, ao fazer o mesmo pedido, ao externar a mesma necessidade. Eu rezo porque amo - é para mim o meio de comunicação.

A escrita e a vida de Maura Lopes Cançado sofreram um processo cruel de apagamento. Maura foi de membro influente da elite e da família tradicional mineira para uma total desconhecida após seus episódios de internações e demais desdobramentos de seu adoecimento mental. Uma mulher que escrevia para um dos maiores jornais do país, teve seu texto enterrado juntamente com sua história. Por isso é justo e necessário ver sua obra sendo redescoberta, pois Maura evoca temas importantes sobre saúde mental e direitos humanos.

A contagem dos sonhos de Chimamanda Adichie

A contagem dos sonhos de Chimamanda Adichie (Companhia das Letras, 2025) é um romance que chegou às mãos dos leitores, após dez anos da publicação de “Meio sol amarelo”. Havia uma grande expectativa com a obra e acredito que os leitores, já cativados pela escrita de Chimamanda, sairão satisfeitos com o que vão encontrar. Na trama acompanhamos as histórias de quatro mulheres negras, de classes sociais diversas e com sonhos particulares, mas que se veem unidas por uma teia de acontecimentos.



A obra que tem como ponto de partida o período de isolamento social que vivemos com a pandemia, irá se desdobrar por uma infinidade de outras temáticas que pareciam ser impossíveis abranger em uma obra só, mas que Chimamanda consegue fazer com fluidez. Por trás de vivências universais relacionadas ao amor, trabalho e família, encontramos um recorte que nos leva a pensar sobre os impactos da tradição, da cultura, da imigração e da construção da identidade cultural.

Na história conhecemos Chiamaka, Zikora, Kadiatou e Omelogor, quatro mulheres que estabelecem uma amizade inusitada e que tem Chiamaka como o fio que as conectam. No capítulo de Chiamaka, vemos uma mulher bem sucedida financeiramente, uma nigeriana que mora nos EUA e que tem a oportunidade de rodar o mundo como escritora de viagens e turismo. Chia passa o capítulo relembrando suas péssimas escolhas amorosas, assim como os desafios que encontra em sua carreira, pois seus sonhos subvertem o lugar reservado às mulheres negras pelo senso comum.

Zikora, que talvez seja a mais tradicional das amigas, também possui uma vida bem estruturada atuando como advogada. Apesar de todas as conquistas materiais, vive assombrada pelo medo de não conseguir um casamento e um filho. A maternidade é uma obsessão para Zikora, o que ganha contornos ainda mais graves através da pressão familiar apoiada nas tradições de seu país. Em seu capítulo, chama a atenção a questão da maternidade e também do abandono.

No capítulo de Kadiatou, temos a luta de uma mulher de origem humilde, que após passar por muitas privações, parte para os EUA para encontrar com o grande amor da juventude acreditando na promessa de uma vida melhor. Kadiatou conhece Chiamaka e se torna uma espécie de governanta em sua casa, além de trabalhar como camareira em um grande hotel. Neste mesmo hotel, a personagem sofre agressão sexual de um hóspede de luxo, o que se tornará um grande problema para sua vida e irá escancarar a forma como as mulheres ainda são frágeis perante as leis. Para a história de Kadiatou, Chimamanda se inspirou na história real da Nafitassou Diallo, imigrante guineense que em maio de 2011 acusou Dominique Strauss-Kahn, diretor do Fundo Monetário Internacional - de agressão sexual.

Por fim, conhecemos Omelogor, a mais “pé no chão” e cerebral das amigas. Omelogor é uma mulher prática e objetiva, que com bastante esforço conseguiu um cargo bem posicionado como financista no banco em que trabalha. Para provar seu valor e sua capacidade, ela aprendeu a dizer as coisas que os poderosos queriam ouvir e a passar por cima da própria ética em busca de sucesso profissional. Quando se vê satisfeita com sua posição, uma frase proferida por sua tia, que sugeria que Omelogor fingia estar satisfeita com a própria vida, a mesma entra em um estado de paranoia e começa a refletir sobre sua própria identidade e alienação no trabalho.

Olhando para a histórias de Chiamaka, Zikora, Kadiatou e Omelogor vemos o retrato de uma realidade que assola as mulheres em diversas culturas, não só a africana, mas que com elas ganham um recorte cultural e racial. As mulheres buscam um lugar no mundo, enquanto precisam lidar com tradições que vigoram na religião, na família e no Estado e que colocam em risco suas liberdades.

“A contagem dos sonhos” é um livro que combate estereótipos ao mesmo tempo que nos leva a olhar para realidades distintas e refletir sobre o que são nossos sonhos genuínos, e o que são os sonhos impostos pela cultura e as convenções sociais. A leitura nos deixa muitas perguntas sobre o estado dos amores na contemporaneidade e se é possível amar de forma verdadeira sem abrir mão de quem somos e do queremos verdadeiramente.

Caderno proibido da Alba de Céspedes

Caderno proibido da escritora italiana Alba de Céspedes (Companhia das Letras, 2022) é um romance escrito na década de 50 que chama atenção pela forma franca e intimista com que relata a situação da mulher em uma sociedade machista em pleno pós-guerra. A obra é o próprio fluxo de pensamento da narradora Valéria Cossati, enquanto registra seus dias em um caderno. A premissa é simples: uma mulher envolta com a rotina da família, da casa e de seu trabalho. O genial é que Alba de Céspedes consegue, a partir do simples, fazer a radiografia de uma sociedade e de uma época, apenas com a observação da própria realidade. É uma obra que perpassa questões psicológicas, sociais, existenciais, assim como o poder da escrita para repensar a própria identidade e a descoberta da subjetividade.


Alba trata de várias questões sobre a condição das mulheres, que ainda hoje são negligenciadas ou foco de violência de gênero e revelam o abismo que existe quando falamos sobre igualdade. Durante a leitura é impossível não tentar mensurar o impacto que o livro deve ter causado na época de seu lançamento. A autora nos coloca dentro da mente de Valéria e quando a personagem começa a registrar o próprio cotidiano, o fato de escrever faz com que, de alguma forma, as desigualdades e a falta de sentido da realidade venham à tona. Ficamos diante de uma mulher de 43 anos e educada de forma mais conservadora tentando equilibrar seus desejos e uma ânsia cada vez mais crescente por algum tipo de liberdade.

Existe, em minha índole, uma coisa que não consigo decifrar. Até agora, sempre pensei ser clara, simples, a ponto de não reservar a mim mesma, nem aos outros, nenhuma surpresa. No entanto, de uns tempos para cá já não tenho tanta certeza disso, mas não saberia definir de onde vem essa impressão. Para me reencontrar tal como sempre pensei ser, preciso evitar ficar sozinha: ao lado de Michele e dos meninos, readquiro aquele equilíbrio que era minha prerrogativa. A rua, ao contrário, me atordoa, me lança numa singular inquietação. Não sei explicar, mas fora de casa não sou mais eu. Basta sair pelo portão e me parece natural começar a viver uma vida totalmente diferente daquela costumeira, sinto vontade de percorrer ruas que não estão em meu itinerário cotidiano, encontrar pessoas novas, que desconheço até aquele momento, com as quais eu possa ficar alegre, rir. Talvez tudo isso queira dizer apenas que estou cansada, deveria tomar um fortificante.
A estrutura narrativa de “Caderno proibido” é muito bem executada. A escrita se apresenta como um diário, o que torna a leitura mais intimista e confessional. Como Valéria escreve em segredo e apenas para si, existe um medo sempre presente de que o caderno seja descoberto por seu marido Michelle, ou por um de seus filhos - Mirella e Riccardo - mas conforme os relatos se tornam um hábito e uma necessidade, o medo de ser franca com seus próprios sentimentos diante do caderno não existe. Ainda que por vezes soe ambíguo ou hipócrita, é empolgante acompanhar a visão de mundo de Valéria entrando em colapso.. O relato em primeira pessoa nos coloca muito próximos da personagem, o que gera sentimentos de repulsa e também de identificação.

O “Caderno proibido” é o simples decorrer da vida, portanto, não acontecem grandes sobressaltos ou reviravoltas mirabolantes. Ainda assim, é uma obra que captura o leitor desde as primeiras páginas, pois seus temas naturalmente se conectam com o cotidiano e alguns dilemas que conhecemos bem.

A questão do feminino e da emancipação das mulheres é o grande tema da obra. Embora traga reflexões que são muito mais fortes para a vivência das mulheres, em relação aos homens, a leitura acaba sendo uma oportunidade de pensar sobre temas importantes como jogos de poder, opressão e patriarcado. Felizmente, os temas não aparecem de forma didática ou professoral - eles estão ali carregados pela arte da escrita literária, estão ali porque existe uma personagem narrando a própria vida e ao fazê-lo os processos de repressão emocional, sexual e intelectual apenas brotam na frente dos nossos olhos exatamente como operam a gerações.

No entanto, jamais consigo me isolar, e só renunciando ao sono é que encontro um tempinho para escrever aqui. Se, quando estou em casa, interrompo o que estou fazendo, ou à noite, na cama, paro de ler e olho o vazio, há sempre alguém que pressurosamente me pergunta em que estou pensando. Mesmo que não seja verdade, respondo que estou pensando no escritório ou fazendo umas contas; em suma, devo sempre fingir só pensar em coisas práticas, e essa dissimulação me desgasta. Se dissesse que estou pensando em um problema moral, ou religioso, ou político, sei lá, eles começariam a rir, caçoando afetuosamente de mim, como fizeram na noite em que afirmei meu direito a ter um diário.

Enquanto acompanhamos Valéria relatar a relação com sua mãe e sua filha, percebemos, através da observação de três gerações de mulheres diferentes, como as questões de repressão, liberdade e os conflitos entre papeis sociais e identitários foram se modificando. A relação das mulheres com o trabalho, funciona como um bom exemplo. Enquanto a mãe de Valéria foi criada apenas para prover o lar e o trabalho fora de casa era algo impensável, Valéria já precisou entrar no mercado de trabalho movida por uma necessidade financeira. Já sua filha Mirella, estuda e decidiu trabalhar movida mais pelo gosto e em prol de sua visão de mundo.

“Caderno proibido” consegue ser uma obra atual, o que nos demonstra o tempo que leva para algumas convenções sociais alcançarem um novo paradigma. No livro vemos não só Valéria, mas milhares de mulheres que ainda hoje precisam enfrentar conflitos sobre a própria identidade, sobre a prisão dos papeis de gênero, imposições da família tradicional, envelhecimento, entre outras questões. O livro é a exploração do grande conflito entre a mulher que a sociedade espera ver e a mulher que elas realmente querem ser.

Um homem só do Christopher Isherwood

Um homem só do Christopher Isherwood, traduzido pela Débora Landsberg e com ótimo prefácio do João Silvério Trevisan (Companhia das Letras, 2021) é um livro que foi publicado pela primeira vez em 1964 e surpreende pelo quanto soa atual. A história acompanha um dia na vida de George, um professor de inglês de meia idade que está em processo de luto após perder seu marido em um acidente de carro. Além de tratar do tema da homoafetividade, a obra adentra discussões importantes sobre a solidão do homem gay e o envelhecimento.


Se ainda hoje, as vivências homossexuais são negligenciadas ou tratadas através de estereótipos, é difícil não parar para imaginar os estranhamentos que “Um homem só” deve ter causado na década de sessenta. É um livro que ao mesmo tempo consegue ser cru e lírico e não exita em mostrar as diversas formas que o preconceito pode impactar a vida de um homem. George, que é visto por todos como um homem muito reservado, na verdade é um homem que precisou se fechar para fugir da violência. A homofobia tirou de George até mesmo o direito ao luto. Ele, enquanto pessoa mais importante da vida de Jim não pôde se despedir.

A narrativa de Christopher Isherwood é genial. O autor escolhe partir de algo aparentemente simples, que é a descrição do cotidiano, mas ao escolher narrar um dia aleatório, consegue demonstrar o peso da solidão do personagem através da rotina e dos detalhes, o que torna o lado opressivo da solidão ainda maior. O livro inicia com o despertar de George pela manhã, já dando o tom dos passos que iremos acompanhar em diante. Passamos uma manhã, uma tarde e uma noite ao seu lado.

Acordar começa com dizer estou e agora. Então o que acorda fica um tempo deitado olhando para o teto e para si até se reconhecer como eu, e daí inferir eu estou, eu estou agora. Aqui vem em seguida, e pelo menos é negativamente reconfortante; pois aqui, esta manhã, é onde esperava se encontrar; chama-se casa.
Este é um trecho que, além de tocante, mostra o estado em que George se encontra, onde precisa reestabelecer sua presença no mundo diante da ausência de Jim. O narrador nos coloca dentro da casa e da cabeça de George, e utiliza de subterfúgios para demonstrar o peso de sua solidão. Em certo ponto, por exemplo, George fala de uma cozinha que não parece mais ser a mesma, pois numa cozinha de uma casa onde se vive a dois, precisa existir o esbarro acidental de corpos que se movimentam.

O café da manhã com Jim era um dos melhores momentos do dia. Era então, enquanto tomavam a segunda e a terceira xícaras de café, que tinham as melhores conversas. Falavam de tudo que lhes vinha à cabeça – inclusive da morte, é claro, e se existia vida depois dela, e, nesse caso, o que exatamente sobrevivia. Discutiam até as vantagens e desvantagens relativas de morrer de repente ou de saber que se está prestes a morrer.
Após observarmos a rotina de George em sua casa, começamos a acompanhar seu preparo e o trajeto para a universidade, onde é professor de inglês. Ao mesmo tempo, temos acesso a seus pensamentos sobre tudo que o cerca e nesse ponto o livro ganha mais força ao trabalhar muito bem a subjetividade de um homem gay para além do senso comum e dos estereótipos. 

É muito comum, em algumas produções atuais, seja na literatura, no cinema, nas séries, encontrarmos personagens da comunidade LGBT ocupando dois espaços que podem ser bem limitantes: ou o personagem é uma pessoa que beira a perfeição no que diz respeito a caráter e bondade, como uma forma de enfrentar o preconceito, ou é um personagem que está ali para ser “o representante” da comunidade, como se existisse apenas uma forma de ser queer e assim preencher uma cota de diversidade da produção.

A forma como a personalidade de George é construída é algo a frente do seu tempo, justamente porque sua subjetividade é de um homem gay que não está ali para representar toda a comunidade, mas sim para representar uma unidade de ser, o George com sua história de vida. Vemos um homem cheio de dualidades, que transita entre a persona do professor universitário confiável, respeitável e ilibado, mas que à medida que acessamos seus pensamentos, encontramos uma figura que por vezes está cheia de tristeza, ódio e raiva e que pode externar uma visão de mundo problemática.

Algo interessante na obra é também a forma como Isherwood não negligencia os desejos do personagem. As passagens em que ele visita sua própria sexualidade, seus desejos e até mesmo olha para outros corpos com admiração, nos faz refletir sobre a invisibilidades da sexualidade na maturidade. George é um homem maduro e também um ser desejante.

Estou vivo, ele diz para si mesmo, estou vivo! E a energia vital ondula calorosamente por ele, e o deleite, e o apetite. Que bom estar em um corpo – até mesmo essa carcaça velha decadente – que ainda tem sangue quente e sêmen vivo, medula abundante e carne saudável! Os jovens carrancudos nas esquinas sem dúvida o veem como um velhote ou, na melhor das hipóteses, como um possível ganho. Porém, com a força de seus braços, ombros e quadris jovens ele ainda reivindica um leve parentesco com eles...
Seja em casa, no trânsito enquanto dirige, na universidade enquanto ministra suas aulas e provoca os alunos com questões filosóficas, na interação com sua vizinha mais próxima que finge que o respeita, no jantar com sua amiga, no bar enquanto bebe com um de seus alunos, George está o tempo todo pensando e fazendo digressões sobre a vida.

O avesso da pele do Jeferson Tenório

O avesso da pele do Jeferson Tenório (Companhia das Letras, 2020) é um romance arrebatador. O narrador Pedro, evoca memórias e acontecimentos pontuais da história de sua família e mais especificamente de seu pai. Com isso, constrói uma narrativa que perpassa assuntos como as relações familiares, gênero, raça, educação e afetos em um país onde viver com dignidade é um desafio. Algo marcante na obra é a escolha que o autor fez por escrever como se Pedro estivesse falando diretamente para seu pai, já morto. Em algo que parece uma conversa, o rapaz revive pequenas e grandes violências, assim como pequenas e grandes conquistas. A narrativa soa como uma maneira de Pedro demonstrar empatia pelas vivências do pai, cuja trajetória mostra o quanto estamos diante de um sistema falido e que impacta diretamente na vida das pessoas. É como se Pedro dissesse a ele: “você não teve culpa pai”.


Às vezes você fazia um pensamento e morava nele. Afastava-se. Construía uma casa assim. Longínqua. Dentro de si. Era esse o seu modo de lidar com as coisas. Hoje, prefiro pensar que você partiu para regressar a mim. Eu não queria apenas a sua ausência como legado. Eu queria um tipo de presença, ainda que dolorida e triste. E apesar de tudo, nesta casa, neste apartamento, você será sempre um corpo que não vai parar de morrer.

O livro é narrado em segunda pessoa e enquanto Pedro explora as memórias de forma não linear, que nitidamente fazem parte de um processo de elaboração do luto, também utiliza muito da palavra “você” ao se direcionar ao pai. Essa estratégia, que é utilizada já no parágrafo de abertura, nos ajuda a entender o direcionamento que a obra irá tomar. Percebemos aos poucos que Pedro, ao conversar com esse pai agora ausente, também está conversando consigo mesmo. É um papo direto com o homem que seu pai foi e com o próprio homem que Pedro se tornou. Quando começa a olhar para o avesso da história do pai, o rapaz começa a entender o lugar que fora colocado na sociedade enquanto homem negro e o porque de algumas coisas acontecerem.

A obra é fortemente marcada por questões raciais como o impacto do racismo nas vivências de uma família negra. Jeferson Tenório constrói inferências inteligentes para nos mostrar como uma sociedade racista utiliza de estratégias para contribuir com a sensação de não-pertencimento das pessoas negras em situações, lugares e demais formas de existir. Passamos a viver em “não-lugares sociais”.

As manifestações racistas, vão aparecendo aos poucos no livro, como por exemplo, na passagem em que Pedro narra sobre um namoro que o pai teve, ainda jovem, com uma mulher branca. Paralelo a isso, seu pai conhece um professor na universidade, que se torna uma referência intelectual. Suas aulas o inspiram a estudar sobre classes sociais e racismo e só então seu pai começa a perceber que aquelas piadas recorrentes na mesa de jantar da casa da namorada, significavam algo problemático.

Apesar do racismo ser um fio condutor do texto, a forma como Jeferson Tenório entrelaça o tema na história faz toda a diferença. Ele consegue colocar o leitor como observador das nuances do preconceito mostrando exatamente como ele se manifesta. É possível perceber como o racismo obedece a uma escalada que pode ir do pequeno e quase imperceptível ao extremamente violento. O capítulo em que o narrador conta um pouco da história de sua mãe, podemos perceber mais uma faceta de como passamos a perceber que somos um corpo negro no mundo e que essa percepção se dará pelo olhar violento do outro.

Que cada pessoa é uma pessoa e nunca deixe te diminuírem porque você é negra, ela disse. Minha mãe, a princípio, não entendeu porque ela falara aquilo com tanta ênfase e passou dias pensando naquela palavra: "negra". Antes, ela era Martha ou Marthinha. Agora, depois de uma simples pergunta, ela passará a ser Martha e negra.
A trajetória de vida do pai de Pedro e a forma trágica e estúpida como morre, acabam servindo como uma alegoria quase gráfica do que é ser negro no Brasil. O livro nos dá campo literário e simbólico farto para pensarmos também sobre a masculinidades negra, principalmente pelo viés da solidão e dos afetos. Quando verdadeiramente olha para seu pai, Pedro acaba olhando para si e percebendo algumas armadilhas que são forjadas para o povo negro. Quando dá conta de transformar isso em algo, de elaborar uma narrativa, Pedro se sente dono da própria história. Enquanto o pai não sabia ir embora, o filho já nos dá indícios de que pode conseguir trilhar um caminho diferente.

Acho que vocês nunca se preocuparam em organizar uma narrativa para mim. Sei que o tempo foi passando e o que foi dito por vocês, antes da minha memória, foi dito em retalhos. Então precisei juntar os pedaços e inventar uma história. Por isso não estou reconstruindo esta história para você nem para minha mãe, estou reconstruindo esta história para mim. Preciso arrancar a tua ausência do meu corpo e transformá-la em vida.
“O avesso da pele” é um livro que pode provocar diversas reflexões e para além da violência do racismo, também ficou para mim a importância de conversamos com os nossos sobre a própria trajetória. O acesso e exploração de nossas memórias é o que também nos faz ser alguém no mundo e quando conhecemos quem somos e de onde viemos, passamos a ter uma consciência maior sobre nosso papel no mundo.

Sem sangue do Alessandro Baricco

Sem sangue do Alessandro Baricco (Companhia das Letras, 2008) é uma ficção italiana dividida em duas partes e que subverte seu próprio título. Iniciamos com um acontecimento traumático, violento e banhado em sangue que surge como consequência de uma guerra que deveria estar terminada. Na segunda parte, veremos os desdobramentos dessa tragédia na vida de algumas personagens, em uma história onde a vingança ganha contornos interessantes através da narrativa de Baricco. Toda a força da obra está nos diálogos e em um clima de tensão que não sabemos muito bem para onde nos levará, mas que levanta discussões sobre verdade e mentira, guerra e paz, em uma relação onde fatos e memórias podem definir quem é vilão e quem é herói.


A história inicia com o médico Manuel Roca, que vive recluso com seus dois filhos pequenos em uma fazenda, observando a aproximação de um carro já ciente do perigo que vem. Ele coloca um rifle na mão do filho e pede que o mesmo se esconda, enquanto a menina é colocada dentro de um alçapão camuflado no chão. As descrições a seguir são semelhantes a inúmeras produções hollywoodianas, onde o embate a tiros é que dá o tom da obra, mas na obra de Baricco o clichê trabalha juntamente com a construção de um diálogo bem estruturado e angustiante, que não nos deixa entender o porque e nem por quem cada lado está lutando.

No campo, a velha casa da fazenda de Mato Rujo erguia-se escura, esculpida em preto contra a luz da noite. A única mancha no perfil vazio da planície. Os quatro homens chegaram num velho Mercedes. A estrada era esburacada e seca – estrada pobre de campo. Da casa da fazenda, Manuel Roca os viu.
No começo da obra há uma nota onde Alessandro Baricco informa que estamos diante de uma obra de ficção e que a sua escolha por dar nomes hispânicos aos personagens não possui nenhum sentido para além do estético. Ele define, de forma bastante bonita, que os nomes são apenas para garantir a musicalidade do texto.

Como ele também não define a história em um tempo e um espaço, o texto abre diversas possibilidades de interpretação. Baricco utiliza de alguns elementos que nos fazem suspeitar de que lugar e de que pós guerra a narrativa se trata, através da ambientação e de alguns diálogos que funcionam mais como frames de memórias do que fatos em si.

Uma grande tragédia acontece. A primeira parte do livro finaliza de forma cíclica como se fosse um conto, que inclusive poderia ser lido individualmente. Na segunda parte acontece um salto no tempo e passaremos a acompanhar um diálogo revelador entre uma sobrevivente e seu algoz.

Alessandro Baricco traça uma trama genial que coloca em evidência como as memórias individuais e coletivas estão sujeitas a alterações irreversíveis e que podem criar uma outra história dentro da história. Temos a lembrança de alguém que era criança e que registrou memórias do que ouviu de dentro de um buraco, confrontadas com a de um homem que participou dos fatos e que na época acreditava estar contribuindo para a construção de um mundo melhor. Para Nina, agora uma mulher de mais de cinquenta anos, seu pai fora brutalmente assassinado, enquanto para o homem a sua frente, um possível torturador de guerra foi silenciado para sempre.

Acompanhamos um diálogo inteligente e profundo entre um ex-guerrilheiro e uma sobrevivente que desnuda as nuances do jogo da guerra, as motivações para escolher as lutas que se deseja enfrentar, a fluidez da noção do que seria um mundo melhor e como o sofrimento pode abrir ou cegar a percepção da realidade. Todas as dúvidas e imprecisões que Baricco joga sobre os leitores é que tiram a obra de um lugar comum e que permite criar inúmeras hipóteses sobre os acontecimentos.

Uma separação da Katie Kitamura

Uma separação da Katie Kitamura (Companhia das Letras, 2021) é um romance angustiante sobre uma mulher e seu processo de luto após o fim do casamento. Christopher, seu ex-marido, pede que a separação fique um tempo em segredo e a protagonista da história, que não sabemos o nome, acolhe seu pedido. Apesar de não sabermos o nome da nossa narradora, ela será a personagem com quem travaremos mais intimidade durante a narrativa. Uma intimidade moldada pela perda, pela dor, pela despedida e uma maneira pouco usual de lidar com todos esses sentimentos.


Quando imaginamos o cenário psicológico do fim de um casamento, é inevitável não pensarmos em drama. Imaginamos pelo menos um dos lados envoltos em um sofrimento traduzido em lágrimas, discussões, gritos e por vezes até agressões. A história de “Uma separação” nos surpreende por mostrar um término regido pelo acordo. Isso não quer dizer que não exista dor, mas acima dela está a certeza da necessidade do fim, do fechamento de um ciclo.

Como conhecemos apenas o ponto de vista da esposa e o que ela quer nos mostrar sobre si (que não é pouco) e sobre quem está a sua volta (que é sempre duvidoso), suas reflexões serão a régua pela qual mediremos os sentimentos explorados no livro. A segunda surpresa vem pela forma mais fria e calculista com que ela resolve todos as questões envolvidas com sua situação. Consegue ser pragmática diante da dor. É impossível imaginá-la levantando o tom de voz e muito menos se debulhando em lágrimas. A sua dor funciona por outra ordem e é essa ordem que acompanhamos na narrativa.

Quando recebe um telefonema de Isabella, sua ex-sogra, perguntando sobre o paradeiro do filho, a narradora precisa lidar com o peso do segredo da separação e com o fato de que não tem notícias de Christopher a bastante tempo. Apesar de não poder dizer nada sobre a separação, ela não tem escolha a não ser assumir que também não sabe onde Christopher está. Assim, Isabella acaba descobrindo que seu filho está passando uma temporada, aparentemente a trabalho, em uma ilha grega. Nossa narradora embarca para uma viagem com lugar muito bem definido que a levará para lugares internos ainda não acessados.

Começou com um telefonema de Isabella. Ela queria saber onde Christopher estava, o que me botou na posição constrangedora de ter que lhe dizer que eu não sabia. Isso deve ter soado inacreditável para ela. Eu não lhe disse que Christopher e eu estávamos separados fazia seis meses e que eu não falava com o filho dela havia quase um mês.

“Uma separação” tem como pano de fundo uma ex-esposa a procura de notícias do ex-marido, mas não é um livro de mistério. A narradora se movimenta na busca pelo ex-marido, mas não é um livro sobre Christopher. É uma narrativa com camadas mais profundas. Como nem mesmo ela sabe se quer ou não ter notícias sobre o ex-marido, a viagem para a Grécia se torna mais uma possibilidade de encontro com seu próprio eu.

Na busca por Christopher, ela começa a pensar sobre as raízes da decisão de manter a separação em segredo. Começa a ver com os olhos da razão todo o histórico de seu relacionamento com o ex-marido e com os sogros. Passa a observar as pessoas a sua volta, como a população do vilarejo e os funcionários do hotel, e esses momentos nos mostram diversos outros elementos sobre sua personalidade.

Quando imaginamos o cenário geográfico do fim de um casamento, pensamos em quartos fechados em busca de solidão. Katie Kitamura subverte essa ideia e coloca a personagem em movimento, lidando com estranhos e caminhando por um vilarejo que recentemente ardeu em chamas. E o que seria o fim de um casamento senão um terreno que acabou de arder em chamas e agora precisa lidar com o horizonte de cinzas até que novo sinal de vida brote. 



Pequena coreografia do adeus da Aline Bei

Pequena coreografia do adeus da Aline Bei (Companhia das Letras, 2021) é um livro que confirma o fato de que Aline é uma das mais interessantes revelações da literatura brasileira nos últimos anos. Se o seu livro anterior, “O peso do pássaro morto”, já surpreendeu por sua estrutura literária e densidade, em seu segundo livro a autora vem com uma escrita ainda mais madura e exploratória. A prosa poética de Aline é algo que transporta os leitores para lugares muito íntimos e consegue aliar texto poético a uma estrutura que conduz os leitores não só pela narrativa, mas também por pausas, respirações, sussurros e imagens que são fundamentais para a história. A pequena coreografia que abre um leque de interpretações também se manifesta pela forma que nossos olhos dançam ao passear por palavras que se organizam de formas diferentes, para além da trama palavra após palavra que já conhecemos.




A forma como Aline Bei estrutura o texto é algo bem significativo na sua produção e um dos pontos altos de sua obra. Olhamos para um texto onde narrativa e imagem trabalham juntas para movimentar o leitor, além de demonstrar uma liberdade inspiradora de criação da autora. Aline tem liberdade para tecer o texto, por tanto utiliza de espaçamentos, maiúsculas e minúsculas, quebras de página que não aparecem de forma aleatória, elas conferem sentido às emoções que estão sendo transmitidas.

O livro conta a história de Julia Terra, uma personagem que ainda muito cedo precisou acessar um sentimento devastador: o abandono. Quando digo cedo, me refiro exatamente à infância. Em uma etapa da vida onde apoio, afeto e exemplo são fundamentais para formação do caráter e da própria individualidade, Julia se vê extremamente só, vivendo no meio da crise conjugal de seus pais, que por não saberem lidar com as próprias dores a projetam pelas paredes da casa.

Julia se vê entre uma mãe que já possuía um temperamento frio e a separação intensifica seu distanciamento, a transformando em um retrato angustiante do sofrimento, que por vezes explode em raiva e agressividade. Sua mãe não se permite seguir em frente após o término do casamento e cada dia se torna um lembrete do ato, seja por palavras duras ou simplesmente por um olhar que denuncia tristeza e vazio.



em casa

minha mãe arrastava as suas dores como um Manto

ao mesmo tempo que marchava

seu velho soldado

era ele quem lhe causava uma falsa sensação de controle

enquanto o Manto emanava uma aura de respeito

como se dissesse: não se aproxime, sou uma ilha, sou A Mulher que Sofreu.



Julia está também diante de um pai que abomina completamente o fato de já ter sido casado. Se a esposa veste o manto da dor, o marido veste o manto do desapego, uma vez que seguir em frente sempre foi mais fácil e socialmente permitido aos homens. Julia experimenta uma espécie de invisibilidade que vem de ambos os lados, que se manifestam de formas diferentes e que nem por isso deixam de roubar seu direito de viver a própria infância e até mesmo a própria dor.




Eu só queria ter um pai que não fosse eternamente o

homem que deixou a minha mãe.



Todas as vivências que Julia experimentou em sua infância vão se refletindo na jovem mulher em que se transformou. A dor e a melancolia de um lar fraturado impacta diretamente nas conexões que a jovem passa a fazer com outras pessoas que entram em sua vida adulta. Algo notável durante toda a história é o caráter extremamente reflexivo da protagonista. Julia carrega consigo uma força de persistência que vai se traduzindo e se fortalecendo em uma relação sempre presente com as artes, principalmente a escrita. Aos poucos vai percebendo que seu caminho é o de entender a própria existência pela arte e que sempre esteve na busca de referências afetivas, principalmente femininas. É quando começa a dançar a coreografia de despedida do lar de origem que novas possibilidades começam a se abrir.

“Pequena coreografia do adeus” é um livro que explora com muita sensibilidade alguns processos que são muito violentos. A narrativa se mostra ainda mais densa por tratar de uma violência que vem do seio familiar e que se projeta na falta de afeto, no desinteresse, nas palavras duras. A forma como Julia aprende a olhar para sua própria mãe é um exemplo disso:


Ela usava óculos escuros

que lhe caíam bem, é verdade

agora ela vendia perfume na casa das pessoas

e assim, de longe



até que parecia ser uma boa mãe.





e que seria perder a minha mãe?

não é a mesma coisa que perder uma boa mãe

perder a minha

seria uma dor e um alívio cheio de culpa, então

até o alívio

se transforma em Dor

e eu teria que me acostumar

com as minhas cicatrizes

órfãs de seu carrasco


Uma das características mais interessantes de Julia Terra é que durante toda a vida ela sempre recebeu violência como resposta, mas isso nunca fez com que ela devolvesse na mesma moeda. O que vinha de mais pesado era despejado em seu diário, saía dela e ia direto para o papel. Ainda que a violência tenha sido presença constante em sua vida, Julia consegue romper com o ciclo, romper com o trauma e o carma. Acredito que isso tenha a ver com a realidade de que por sempre ter buscado afeto, visibilidade e acolhimento, Julia sabia exatamente as consequências de se oferecer o contrário.


“Pequena coreografia do adeus” é um livro que apesar de muitas passagens tristes e angustiantes consegue transmitir também uma energia de redenção, movimento e descoberta. A violência, o abandono e a solidão são as pequenas coreografias com que Julia precisa lidar e aos poucos ela vai entendendo que se despedir não é abandonar e que pequenas mortes, pequenas despedidas e o adeus em si são formas de manter a vida em movimento.



O diabo e outras histórias de Liev Tolstói

O diabo e outras histórias do Liev Tolstói (Companhia das Letras, 2020) é um livro que reúne cinco contos escritos entre 1858 e 1904 e considero um bom ponto de partida para quem quer conhecer a obra do escritor e até mesmo começar a ler literatura russa. Os contos “Três mortes”, “Kholstómer”, “O diabo”, “Falso cupom” e “Depois do baile” apresentam um bom compilado dos ingredientes utilizados nas narrativas de Tolstói contista e romancista.



No primeiro conto chamado “Três mortes”, o meu preferido do livro, Tolstói narra literalmente três mortes diferentes: uma senhora da aristocracia russa, um camponês russo, também chamado de mujique e de uma árvore. De forma genial o autor demonstra que por mais que a morte seja aquilo que no fim iguala a todos nós, os procedimentos, os ritos, as cerimônias e até mesmo a importância que se dá a cada morte também obedece a convenções e condições sociais.

Enquanto uma senhora da aristocracia viaja de carruagem rumo a um impossível tratamento para sua enfermidade na Itália, cercada de empregados e um médico para garantir seu conforto, o mujique jazia no chão, lidando com as piores dores e aguardando pelos últimos suspiros de vida.

Um mês depois erigiu-se um jazigo de pedra sobre a sepultura da morta. Sobre a do cocheiro ainda não havia nenhuma campa, apenas uma relva verde-clara brotava do montículo de terra, único vestígio de um homem que havia passado pela existência.

No segundo conto chamado “Kholstómer” Tolstói narra a história de um cavalo que era de puro sangue mas acabou nascendo com o pelo malhado. Essa característica, que acabou por diferenciá-lo dos demais cavalos daquela linhagem passa então a moldar toda a sua trajetória de vida, uma vez que o pelo malhado passa a ser visto como um defeito. Um ponto de vista narrativo que a primeira vista parece meio insano se transforma em um conto muito bem construído e que serve de alegoria para muitas questões sociais.

Em “O diabo” nos deparamos com a história de um homem rico, administrador de fazenda que acaba se envolvendo com uma camponesa como um artifício para satisfazer seus desejos sexuais, sendo que todo o foco de sua vida está no trabalho. O homem acaba posteriormente se casando com uma outra mulher e com o tempo ele passa a lutar contra o desejo de continuar se encontrando com a mulher e a manutenção de sua fidelidade no casamento. É um conto onde responsabilidade e desejo se chocam e o final é bem inesperado. A história possui dois finais e muitos dizem que ele é um tanto quanto autobiográfico.

Em “Falso cupom” diversas histórias se entrelaçam tendo como ponto de congruência a emissão de um falso cupom que equivalia na época a dinheiro, ou até mesmo um cheque ou uma carta de crédito. É um conto que nos leva a refletir bastante sobre o ciclo da corrupção, sobre relações de poder, sobre justiça e injustiça. A história nos mostra como nossas ações, nas maiorias das vezes, não se manifestam apenas no âmbito individual. Nossas ações podem reverberar e contribuir com verdadeiras tragédias.

“Depois do baile” o último conto do livro, narra a história de um rapaz que se vê diante de uma paixão avassaladora. É mais um conto onde Tolstói insere a influência da sociedade, do meio em que vivemos para analisar ações e consequências. É uma história de amor que esconde análise social, política, decadência da aristocracia e análise do eu e das nossas vontades.

Todos os contos desta edição foram traduzidos diretamente do russo, então podemos perceber um cuidado com o texto e também com a diagramação da obra. “O diabo e outras histórias” é mais um exemplo da mestria da literatura russa em criar grandes cenários, em explorar nuances da sociedade e existência humana.


Luxúria da Raven Leilani

Luxúria da Raven Leilani (Companhia das Letras, 2021) é um livro que surpreende pela forma como olha para a juventude. Com uma escrita honesta, sarcástica, engraçada e por vezes sensível, a autora faz uma radiografia sobre o que é ter vinte e poucos anos vivendo em uma cidade grande, lutando para manter um emprego mediano, se aventurando entre encontros casuais e amores complicados, históricos familiares difíceis. Além de explorar diversos anseios típicos da juventude, Raven nos faz mergulhar em uma narrativa sob o ponto de vista de uma mulher negra e jovem escrevendo sobre uma personagem negra e jovem. Uma proximidade que permite a construção de um texto ficcional que parece quase uma confissão.



Ao contar a história de Edie, a autora faz o retrato de uma geração que precisa se equilibrar entre a competição e o discurso do cuidado com a saúde mental, entre a frivolidade dos aplicativos de relacionamento e o desejo de uma relação sólida, entre a cobrança por dedicação aos estudos e a falta de empregos, entre a apatia e a busca de prazer, entre o se dar bem na vida e a falta de empatia por histórias alheias. É um livro onde as dualidades se escancaram e no caso da protagonista Edie, tudo ganha ares ainda mais intensos, pois somados às suas lutas e descobertas está a sua condição de mulher negra e pobre em uma sociedade machista e racista. Isso é feito através de um texto que beira o improvável pela maneira como a personagem debocha da vida. Edie utiliza de uma ironia inteligente e engraçada para enfrentar a vida e acabamos dando algumas gargalhadas com a sua forma de interpretar a realidade. 

No caso dele, no entanto, parece que isso é novidade. Não só sair com alguém que não é a mulher dele e que é algumas décadas mais jovem, mas também sair com uma mulher que por acaso é negra. Eu percebo pela extrema cautela com que ele diz afrodescendente. Pela forma como ela jamais fala a palavra negra. Via de regra, eu evito tirar esse cabaço. Eu me recuso a ser a primeira mulher negra com quem um homem branco se relaciona. Não tolero as tentativas trêmulas dos brancos de cantar rap underground, a óbvia insistência na linguagem coloquial, a empáfia do homem cor-de-rosa que usa tecido estampado de Gana. 

Basicamente acompanhamos o dia a dia de Edie, uma moça de temperamento forte, raciocínio rápido e boas reflexões sobre a realidade. Ela trabalha em uma editora de livros e seu campo de trabalho está mais voltado para as publicações juvenis. O tempo todo Edie se mostra consciente de que sua cabeça está a prêmio e que logo poderá ser demitida. Além de ser uma mulher negra sem medo de se colocar, o que incomoda boa parte da equipe majoritariamente branca, Adie ainda não se priva de aventuras sexuais com alguns colegas de trabalho.

Adie foi por muito tempo a única mulher negra em seu trabalho e após a chegada de outra no setor, o que poderia se tornar uma relação pautada na sororidade e até uma espécie de apoio racial acaba caminhando mais para o campo do desencontro, principalmente na forma como se defendem do preconceito, revelando assim mais uma faceta do racismo.

E depois eu me equivoquei. Mostrei raiva demais cedo demais. Muitos desses brancos não têm jeito mesmo. Muito fuck the police. Nós duas estudamos na escola do Dobro de Qualidade pela Metade do Mérito, mas pelo jeito ela ainda acha que vale a pena pagar esse preço para entrar no clube. Até hoje ela se ajeita toda, esperando que a escolham. E vão escolher. Porque é uma arte – ser negra, perseverante e inofensiva. Ela é tudo isso e fica constrangida por quem eu sou.
Através de contato por um aplicativo, Edie conhece Erick, um homem branco de meia idade e casado que vive um relacionamento aberto com sua esposa Rebecca. É uma relação que obedece a uma série de combinados e regras que logo serão quebradas. Edie se encanta rapidamente pela figura de Erick e eles passam a se encontrar com frequência dando início a um relacionamento bastante peculiar e intenso.

A diferença de idade não me incomoda. Homens mais velhos têm uma vida financeira mais estável e uma percepção diferente do clitóris, mas, para além disso, o desequilíbrio de poder é uma droga muito potente. Assim como se ver no limbo doloroso que separa o desinteresse e a perícia de outra pessoa. O pavor que a pessoa sente da indiferença crescente do mundo. A revolta e o fracasso da vida adulta, canalizados para o esforço de reduzir o corpo de alguém, e nesse caso o seu, as partes brilhantes e elásticas


A autora vai traçando um contraponto entre a vida aparentemente estruturada de Erick e sua esposa e um certo caos que ronda a vida de Edie. A própria representação do apartamento que a garota vive, serve como uma metáfora para os desafios da juventude, para a busca por estabilidade financeira e amorosa, para a falta de oportunidades. Seu apartamento é assustadoramente infestado de ratos e baratas e a forma como Raven relata isso no livro não deixa de trazer uma angústia para o leitor.

Infelizmente, meu vibrador morreu. Tento achar pilhas, mas não encontro nenhuma AA. Tento usar a mão, mas uma barata atravessa o teto quando estou quase gozando. Quando me olho no espelho, um dos meus cílios postiços sumiu. Espero que isso tenha acontecido há pouco tempo e que eu não tenha passado o dia todo com um olho triste e cheio de cola.

Se existe um incômodo que perpassa a vida financeira de Edie, por outro lado existe uma forma de falar e refletir sobre sexo e sexualidade que é muito livre e transgressora, principalmente em boca de mulher.

Porque tem homens que são uma resposta a uma imposição biológica, que eu mastigo e engulo, e tem homens que guardo na boca até dissolverem.

Após alguns acontecimentos, Edie perde o emprego e sua situação a leva a morar na mesma casa que Erick e Rebecca. Uma dinâmica estranha e por vezes constrangedora passa a rondar a relação dos três. Edie conhece Akila, a filha adotiva do casal. Ela é uma menina negra na faixa dos treze anos de idade e sem referências de pessoas que sejam como ela, pois vive em um bairro onde é a única negra. Edie e Akila vão se aproximando aos poucos e logo percebemos que o convite para que Edie passasse um tempo naquela casa não foi em vão. Erick e Rebecca estão meio apavorados com a experiência de serem pais e ao mesmo tempo não medem esforços para cumprirem bem esse papel.

A gente não pode deixar Akila fazer o que quer só porque ela é negra, Rebecca diz. Isso não é feminismo interseccional, é só uma desculpa para sermos pais ruins.
Quando nos deparamos com o título “Luxúria”, logo imaginamos que estaremos diante de uma obra que olha apenas para o aspecto excitante e sensual do sexo. Na verdade não é isso que encontramos. Apesar de Edie ser uma jovem pragmática e que diz o que precisa dizer e que não tem receio de transar apenas para saciar um pedido do corpo, podemos entender que a Luxúria de que se trata o livro é menos a sexual e mais a da busca de prazer pela vida, pela busca de um propósito, de um lugar no mundo, da ansiedade de entender e lidar com a sociedade e com a própria individualidade. É um relato poderoso sobre a vivência e a voz de uma mulher negra. 


A pediatra de Andréa Del Fuego

A pediatra da Andréa Del Fuego (Companhia das Letras, 2021) é um livro ousado e que nos faz pensar se existe alguém que não tenha pensamentos sórdidos na vida. É um questionamento que vem ancorado no quanto é possível se identificar com alguns dos pensamentos da personagem Cecília, uma pediatra que não gosta de crianças, uma mulher que não pensa duas vezes em ser a amante, que coloca suas opiniões como verdades incontestáveis, que tem posicionamentos classistas, machistas, homofóbicos, que cria narrativas irreais e preconceituosas sobre a maioria das pessoas que a rodeiam, que trata a empregada como alguém que pode ser facilmente descartada e que enxerga sua profissão como um estágio acima na esfera social. Cecília é uma personagem fascinante porque utiliza de uma das facetas mais maravilhosas da literatura, que é acessar o outro lado, uma outra vida, uma outra maneira de pensar. Cecília permite aos leitores experimentar a não coerência ao longo das cento e cinquenta e nove páginas do livro. Ela é o desenho perfeito de uma anti-heroína com traços assustadoramente reais. 


Na história acompanhamos mais os pensamentos do que as falas de Cecília. Quem nunca se pegou tendo um pensamento que se envergonharia e nunca diria em voz alta? Em "A pediatra" a voz que se manifesta é apenas essa, a voz da sordidez. E assim, como muitos de nós, Cecília não diz nada do que pensa e temos acesso a essa faceta de personalidade por ficarmos diante de sua voz narrativa politicamente incorreta. Andrea Del Fuego trouxe quase para o campo do real uma personagem que geralmente não assumiríamos uma admiração, por mais que existam muitas Cecílias por aí. O ambiente ficcional atenua a nossa culpa e nos deixamos seduzir por essa mulher sem filtro e pouco caráter. Chegamos a achar até irônico e engraçado Cecília olhar para um desafeto enquanto se imagina incendiando seu rosto para apagar o fogo com o sapato. 


Acredito que o que permite essa vivência leitora, entre muitos motivos, é um movimento parecido com o que acontece quando torcemos e incorporamos os bordões das vilãs das novelas das oito, quando vibramos pelo sucesso do serial killer de um thriller cinematográfico e vemos ou lemos com sangue nos olhos uma narrativa sobre vingança. De certa forma, acessamos um lado da nossa personalidade que precisa sempre ficar adormecido pela ética, pela moral, pelos bons costumes e convenções sociais. Cecília acaba sendo um retrato de cada um de nós em principalmente em relação a uma certa covardia ou uma tentativa de não ser processado ou preso, de nunca dizer realmente o que pensa e algumas pessoas poderão se sentir mais próximas do que gostariam de sua canalhice. 


A relação que a personagem estabelece com a própria profissão é algo muito comum de se encontrar se formos analisar detidamente as pessoas com quem convivemos. Apesar de sempre buscarmos a felicidade, a satisfação e o sucesso na vida profissional, é muito comum acontecer de fazermos aquilo que foi possível fazer ou aquilo que iria satisfazer uma terceira pessoa ou o desejo da família e com Cecília não é diferente. Ela tem total consciência de que a medicina não é sua paixão mas que também é possível ser muito competente no que se faz seguindo exatamente o que seu campo de trabalho pede enquanto técnica. 

Ninguém notava que eu tinha pouca vocação e paciência para ser médica, a boa formação garantia que eu não fosse processada, fazia bem-feito o feijão com arroz, procedimentos que qualquer pediatra faz escondiam minha inaptidão. Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme.

Cecília tem a pediatria como uma garantia de viver confortavelmente e de ocupar um cargo que lhe detêm um tipo de poder. Uma das formas que ela encontrou de não perturbar sua paz foi fugindo de casos complicados. Se uma criança aparece com algum sintoma para além dos habituais, ela logo encaminha para um outro especialista. Sempre em fuga das doenças crônicas.  "Detesto crianças e não sou eu quem as trata, mas a medicina que estudei."


A narrativa abraça com força a crueza de pensamento de Cecília. Andréa Del Fuego passou longe da prosa poética como uma forma de representar um fluxo de pensamento sem filtro, sem arrependimentos e cheio de certezas absolutas. Como Cecília conversa consigo mesma não há necessidade de floreios. Os capítulos são curtos e rasgados, como alguém que não está convidando para o diálogo e simplesmente vomitando sua visão de mundo independente de qualquer circunstância. Cecília olha para a realidade e tira suas próprias conclusões, como se estivesse aviando uma receita médica, só que diferentemente da medicina, onde ela tem a certeza da técnica e do conhecimento científico, na vida não existe receita que seja incontestável. 


Cecília trava uma guerra íntima contra Jaime, um pediatra que trabalha em parceria com as doulas e que estimula as técnicas de parto humanizado. Digo guerra íntima, pois é mais uma das opiniões de Cecília que ela guarda para si. Ela não ousa confrontar o pediatra e nem mesmo nenhuma das doulas de forma direta. Seu ódio pelas doulas, pelas parteiras e o parto humanizado vira uma obsessão, uma afronta para ela que acredita no método científico acima de tudo. 

Doulas procuram cursos de enfermagem obstétrica que, elas têm certeza, vão levá-las ao patamar de alguma coisa diplomada. Elas se aproximam de pediatras permissivos que acabam aceitando-as porque as mães passaram a exigir babás de mulher adulta ocupando espaço físico e emocional. São dependentes químicas, viciadas em parto natural, em que se deleitam com a aventura sem ter que subir a montanha, vampirizando o parto alheio para aspirar ocitocina, através da bruma potente do nascimento. Sem contar que, para elas, o médico pediatra em cena nada deve interferir no espetáculo da assistência natural, o médico fica em pé no canto do apartamentinho como fator de suporte psicossomático, faz de conta que temos médico, mas sem a medicina.

 

Cecília vai transitando entre suas obsessões. Tem uma facilidade de se obcecar por situações e pessoas e o mesmo acontece com a relação extra conjugal que vive com Celso, o pai de uma criança que ela ajudou a fazer o parto. Eles se tornam amantes e dessa história vão surgir diversas outras situações que mostram para o leitor até onde pode ir a capacidade da pediatra de criar suas narrativas sobre tudo e todos e como sua mente está adoecida. Nós só conhecemos cada personagem pelo olhar maldoso de Cecília, portanto, podemos dizer que não os conhecemos realmente, uma vez que muitas das interpretações da médica vão se mostrando irreais e bastante pessoais.  


"A pediatra" é um romance interessante para o contexto em que vivemos atualmente. Um tempo onde se cobra coerência o tempo todo, onde formas de se relacionar, de se pronunciar e de viver estão passando por uma grande revolução, onde o dito "cancelamento" está sempre a espreita. A apresentação de uma personagem como a criada por Andrea Del Fuego, nos coloca frente a frente com algumas questões, mostrando que não só Cecília, mas que também cada um de nós pintamos a vida sob a técnica do chiaroscuro e que nascer e viver também tem lá seus perigos.