Miguel e os demônios ou Nas delícias da desgraça, de Lourenço Mutarelli (Companhia das Letras, 2009), é um livro desafiador. Nos vemos diante de Miguel, um policial de personalidade bastante dúbia, assim como todos os temas que perpassam a obra. O leitor precisa suspender seu juízo de valor (ou não) para embarcar em uma narrativa em que alguns absurdos são explorados sem delimitação do que é bom ou mau, certo ou errado. Para além disso, a obra também brinca com a escatologia e o sadismo, o que pode soar bastante estranho a alguns leitores.


Lourenço Mutarelli possui uma carreira consolidada no mundo dos quadrinhos e conseguimos perceber a influência das HQs em sua incursão pelo romance. Continua presente ali algo bastante imagético, cru, direto ao ponto e provocativo, assim como os quadrinhos pedem. Temos a presença de personagens marginalizados, problemáticos e neuróticos em meio a um caos urbano que é construído através de um texto irônico.

Algo interessante na escrita é que a narrativa flerta com o roteiro de cinema. Entre um acontecimento e outro, uma fala e outra, aparecem indicações como “zoom no rosto de fulano” e “a câmera se afasta”. A forma como os capítulos são apresentados também nos leva a essa referência do audiovisual. Os acontecimentos surgem como cortes de cena que serão retomados logo adiante.

O personagem Miguel é um verdadeiro anti-herói. Um homem tragado pela banalidade e paralisado por suas próprias paranoias, culpas e frustrações acumuladas, que o levam a atos de violência. Consumido por uma fixação obsessiva que desfoca os limites entre o plano psicológico e a realidade objetiva, o protagonista transforma o cotidiano em um campo de batalha interno, onde suas convicções morais e medos mais profundos se tornam uma prisão sufocante.

Essa é uma visão muito comum do mal. É uma visão, eu diria, sem querer te ofender de forma alguma, muito simplista. De qualquer modo, há essa teoria de que o mal só existe quando se tem consciência de que se faz mal a alguém, mas essa é apenas uma face do mal. Essa é uma visão quase que, digamos, jurídica, um aspecto legal da questão, não da sua essência. 

Miguel é um policial civil que tenta reorganizar a vida após o fim do seu casamento, a separação da família e a impossibilidade de conviver com o próprio filho. Ele volta a morar com o pai e inicia um namoro com uma manicure, também recém-separada e com filhos. O namoro parece mais um passatempo para Miguel, assim como sua vida parece um improviso. Tudo fica ainda mais caótico quando ele começa uma relação obsessiva com uma travesti.

Os demônios simbólicos que aparecem na narrativa ficam no limiar entre a manifestação concreta e a perturbação psicológica, ao mesmo tempo em que Mutarelli nos provoca a pensar sobre moralidade. Para além de forças sobrenaturais em seu sentido clássico, os demônios atuam como alegorias das culpas, dos desejos reprimidos, da vergonha, do medo e do fracasso familiar e profissional.

Mutarelli se recusa a nos entregar uma explicação racional ou fantástica para os demônios de Miguel. Cena a cena, a narrativa vai nos mostrando que a própria degradação do cotidiano, das relações e do viver no caos urbano se torna a verdadeira possessão demoníaca, revelando as fraturas internas de cada indivíduo.