Breviário do Brasil de Agustina Bessa-Luís

Breviário do Brasil e outros textos de Agustina Bessa-Luís (Editora Tinta da China, 2016) é uma espécie de ensaio sobre o Brasil. A escritora portuguesa tem uma relação muita próxima do Brasil e faz uma viagem por muitas de nossas cidades, exaltando nossa história, nosso povo, nossa cultura, nossa língua, nossa literatura e a relação Brasil - Portugal. Cheguei até esse livro como parte do desafio "Volta ao Mundo em 50 Livros" onde o Breviário do Brasil foi escolhido como representante de Portugal.



A nota editorial do livro informa que  a redação de Breviário do Brasil foi concluída na cidade de Porto, no dia 28 de junho de 1989 e foi publicado pela primeira vez em em 1991. Augustina conhece muito sobre o Brasil por ter uma relação quase familiar com nosso país.

Eu conheci o Brasil assim, antes de cruzar as suas portas com o passaporte na mão. Meu pai, que foi homem rico e proprietário de boa parte da Rua do Ouvidor, no Rio, sentava-se a mesa tarde, como fazem os boêmios, trazendo com eles um sorriso enigmático. Era feito de lembranças de tertúlias e de pactos. Era um homem afável e perigoso. Sempre exerceu em mim uma fascinação reservada. Eu invejava-lhe a vida passada, invejava-lhe o Brasil que ele tinha nas veias como se fosse parente de sangue. às vezes falava do Brasil urbano onde ele viveu vinte e cinco anos. E eu ouvia, com essa incredulidade dos que adivinham a experiência que nos foge pelos abismos do tempo. 

O resto é silêncio de Augusto Monterroso

O resto é silêncio de Augusto Monterroso (Novo Século Editora, 2011) editado pela primeira vez em 1978 foi minha incursão pela literatura de Honduras. Monterroso nasceu na cidade de Tegucigalpa em Honduras, no ano de 1921 e passou a infância e juventude na Guatemala.Passou muitos anos exilado no México e faleceu em 2003, deixando uma obra rica e premiada que também lhe conferiu o título de mestre da minificção.



O resto é silêncio é um livro muito diferente e ousado, tanto pela sua proposta como pela sua estrutura. Augusto criou uma personagem principal e uma cidade fictícia que se entrelaçam e parecem ser a veia de sustentação de ambos. Eduardo Torres é uma espécie de Conselheiro Acácio latino-americano, um intelectual excêntrico da pequena província de San Blaas, nosso segundo personagem. Os habitantes de San Blaas vivem a sombra de seu morador ilustre e E. Torres usa a cidade, suas histórias e suas relações como instrumento de escrita e com uma ironia afiada que desperta diferentes reações.

Sendo assim o livro se estrutura como se fosse uma biografia de E.Torres escrita por terceiros. Possui quatro testemunhos de pessoas próximas a Eduardo e mais um testemunho de um amigo anônimo. Em todos os textos salta aos olhos o caráter contraditório e excêntrico do intelectual que em certo ponto chegam a defini-lo como "um espírito grosseiro, um humorista, um sábio ou um tonto”.

Pnin de Vladimir Vladimirovich Nabokov

Pnin de Vladimir Vladimirovich Nabokov foi a minha 49ª leitura de 2019 e 2ª leitura de um desafio que entrei de volta ao mundo em 50 livros. A primeira viagem foi pelo Brasil através da obra de Clarice Lispector, o livro Água Viva e Pnin me apresentou um pouco da literatura russa.



O curioso é que tanto Clarice como Nabokov fizeram com que eu adentrasse num universo muito confessional e reflexivo. Tanto Água Viva como Pnin faz com que a gente se pergunte o tempo todo qual a porcentagem da história dos próprios autores que está ali.

Pnin conta a história de um professor de literatura russa, Timofey Pnin. Ele é um imigrante russo nos Estados Unidos que possui uma generosidade e uma ingenuidade tão grandes que acabam por embaçar sua visão perante alguns abusos, preconceitos, amizades duvidosas e um amor ainda mais duvidoso.

Água Viva da Clarice Lispector

Água Viva da Clarice Lispector é daqueles livros que merece ser revisitado vez ou outra. É daqueles livros que dá vontade de sair fazendo marcações a cada frase, que dá vontade de chamar a pessoa mais próxima e ler pra ela aquele trecho impactante que você acabou de se conectar. Clarice consegue fazer isso tudo ao se debruçar em uma escrita que explicita para o leitor as dúvidas, reflexões, angústias, medos, iras, alegrias, sensibilidades de uma pintora que olha para o mundo, para as pessoas, para as coisas com a ânsia de captar mais do que se vê.



A nossa narradora vai fazendo links entre o processo de pintar, o processo de escrever, o processo de pensar e ao fazer isso vai nos levando a refletir sobre todas aquelas questões que a gente evita pela complexidade. Morte, vida, natureza, o sagrado, solidão, o porque de ser e estar no mundo nessa ou naquela condição. A estrutura do texto também é um desafio sem enredo, afinal reflexão vem aos baldes quando se inicia.