Cartas para a minha mãe de Teresa Cárdenas

 Cartas para a minha mãe da Teresa Cárdenas (Editora Pallas, 2010) é um livro epistolar que é quase um pedido de socorro. Não com o intuito de que apareça um salvador para tirar a protagonista do ambiente de violência parental em que vive, mas como um auto socorro. Nele uma menina escreve cartas para sua mãe morta e em seus escritos fica nítido o amor, a admiração e as saudades que sente dessa realidade. Escrever se torna então refúgio, lembranças de tempos bons, manutenção de sua memória afetiva e desabafo, já que na casa em que mora com uma tia e suas primas precisa fingir não existir. Sua avó também está sempre presente na história e assim como os demais parentes é incapaz de uma demonstração de carinho para a menina órfã. 

Parece que vovó nasceu velha e amarga, com pouco carinho. Às vezes tenho vontade de tirar o lenço de sua cabeça e fazer carinho em seus cabelos brancos, suas mãos, seu coração. Mas tenho medo. Ela não quer que ninguém lhe dê carinho. Diz que não adianta nada, se não serve pra comer.

A cada carta endereçada à memória da mãe, como leitores vamos acessando também a história de uma família que guarda dores e tragédias. Acessamos um pouco da construção social de Cuba em relação aos pobres, a um racismo arraigado nas relações, e muito sobre o poder das crenças e da religião sobre a vida das pessoas. 


O livro expõe uma nuance do racismo que violenta fortemente a construção das identidade, pois existe uma manifestação do preconceito que convence os próprios negros da sua inferioridade. Quando consegue fazer com que o negro abrace a ideia de que está exatamente na situação em que devia estar por conta da sua cor, o racismo garante sua manutenção do controle e do poder. 

A velhinha das flores me explicou que o Deus dos negros se chamam Olofi, mas é o mesmo Deus dos brancos, só que cada um coloca nele a cor e o nome que tiver vontade... Imagino que muitos brancos não conhecem essa história. Eles não gostariam de adorar um Deus preto retinto e beiçudo, por mais misericordioso que fosse. Não iam achar bonito.

 Ao mesmo tempo que as cartas revelam as dores e violências que a menina precisa enfrentar, vai também mostrando como pouco a pouco ela foi reencontrando sua força. O livro nos deixa angustiado do começo ao fim, pois escancara a realidade da violência contra uma criança, algo que infelizmente acontece muito. Mas a menina, sempre que possível, exerce sua ironia perante a vida, reconhece intenções, atos e falas destrutivas, questiona o porque de alguns acontecimentos e por vezes temos momentos bem engraçados, que serve como um respiro para os leitores. 


Existe uma não aceitação de seu núcleo familiar que tem a ver com o racismo e um outro lado que tem raiz na história familiar. No que se refere ao racismo, Teresa Cárdenas faz algo muito interessante que é colocar a personagem principal no lugar de questionadora. Enquanto suas primas a perseguem por conta da cor da pele, do cabelo, das suas feições de menina negra, a mesma ao questionar o porque dos ataques vai chegando à conclusão do absurdo de tudo. Ela transforma a violência em auto afirmação. 


Mãezinha, encontrei um pedaço de espelho na rua. Agora, passo o tempo todo me olhando. A testa, os olhos, o nariz, a boca... Sabe de uma coisa? Descobri que meus olhos são parecidos com os seus, que não podiam ser mais bonitos, e que minha boca e meu nariz são normais... Se Deus existe, com certeza está furioso por ouvir tanta gente criticando sua obra.

Um outro acontecimento que será muito importante para a libertação da menina será a relação familiar que passará a estabelecer com outras pessoas que entrarão em sua vida. Uma velha tida como bruxa na comunidade com quem conversa e se refugia do sofrimento. E um jovem que estuda na mesma escola e que também enfrenta problemas familiares. Com ele a menina começa a descobrir o amor. 


Podemos dizer que "Cartas para a minha mãe" é um livro que exalta a liberdade, o auto conhecimento, a libertação. Ele também demonstra como nós, seres humanos, somos seres que necessitam da interação e do afeto dos nossos para enfrentar melhor os desafios da vida. Estamos diante de cartas que registram o amadurecimento e o crescimento de uma menina que utilizou das perdas irreparáveis para construção da sua individualidade. A menina escrevia para a mãe e também para si. 



Menina a caminho de Raduan Nassar

 Menina a caminho do Raduan Nassar (Editora Companhia das Letras, 1997) é um livro de contos que trás cinco pequenas histórias. Foi o primeiro trabalho do autor que ficou muito famoso com a publicação do romance "Lavoura Arcaica." Menina a caminho foi escrito nos anos 60, mas só ganharia publicação em 1997. Dos quatro contos breves que completam este volume, três datam do início da década de 70: "Hoje de madrugada", "Ventre seco" e "Aí pelas três da tarde". "Mãozinhas de seda", o único texto inédito deste livro, é de 1996. Em "Menina a caminho" Raduan transita por diversos assuntos e alegorias, cada conto escolhe narrativas e até uma escrita completamente diferentes umas das outras. No conto que dá título ao livro, por exemplo, iremos encontrar uma escrita parecida com a que conhecemos com "Lavoura Arcaica", enquanto que nas demais histórias esse ritmo é quebrado, como se o livro fosse também uma espécie de experimentação de Raduan. 


O conto "Menina a caminho" se destaca muito na obra. Conta a história de uma garota que vive em uma cidade interiorana que não sabemos qual é. Podemos afirmar isso pela forma como Raduan explora o olhar dessa menina diante da cidade, das pessoas, das conversas, dos costumes e de um cotidiano bucólico. Também não sabemos o nome dessa menina. Ela exerce uma função no conto que é muito interessante: ela apenas observa tudo e é literalmente uma menina a caminho. Esse caminho que ela percorre é físico, pois ela transita pelas ruas dessa pequena cidade observando tudo a sua volta, como também é um caminho que pode representar o amadurecer, o aprendizado, o processo de se tornar mulher. De uma forma muito perspicaz o autor consegue representar esse amadurecimento e essa interação da menina com o mundo através da observação do cotidiano, das conversas entre as pessoas, das atitudes que elas executam, das reações a essa e aquela situação. A menina a caminho, por vezes se assusta com uma ocasião ou outra que presencia e percebemos que naquele momento ela teve contato com algo que até então não fazia parte de seu universo.  

Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua, às vezes se desviando ágil para espantar as galinhas que bicam a grama crescida entre as pedras da sarjeta. O vestido caseiro, costurado provavelmente com dois retalhos, cobre seu corpo magro feito um tubo; a saia é de um pano grosso e desbotado, a blusa do vestido é de algodão acetinado, um fundo preto e brilhante, berrando em cima uma estampa enorme de cores vivas, tão grande que sobre o peito liso da menina não aparece mais que o pedaço de uma folha tropical. Deve dormir e acordar, dia após dia, com as mesmas tranças, uns restos amarrotados. 

Enquanto a menina caminha em direção a algum lugar e observa atentamente os acontecimentos a sua volta, o leitor vai recebendo fragmentos de conversas, de episódios e de nomes que para aquela comunidade parecem muito familiares, mas que pra gente são mais como fofocas pela metade. Não sabemos muito bem os desdobramentos de tudo aquilo, o que também parece ser uma estratégia de Raduan para explorar um olhar infantil sobre as coisas, um olhar que está recebendo as informações e tentando organizar em um fluxo de pensamento., Nesse fluxo de informações onde muitas coisas ainda não são tão palpáveis para as vivências de uma criança, ela lida também com algo que ronda o universo infantil, que é a invisibilidade.  


 Chega a uma certa altura do conto que percebemos um dos objetivos dessa caminhada da menina e a partir dessa constatação abre-se um leque de metáforas e alegorias que continuam vinculadas a esse processo de amadurecimento, muitas vezes forçado, pelo qual algumas crianças passam. Como também a realidade de que algumas crianças carregam consigo um peso que não deveriam ser delas e sim dos adultos responsáveis por sua criação. Acontecem episódios muito simbólicos como a perda de um laço de cabelo e um vômito desenfreado que ilustram pra gente essas mensagens que Raduan desenhou em relação ao peso que uma infância pode carregar. 


Alma na casa sozinha de Felipe Gomes

 Alma na casa sozinha de Felipe Gomes (Editora Patuá, 2020) é um livro de poesias que trás para os leitores um painel de vidro em pedaços. Esse painel conta uma grande história e é como se nós estivéssemos ajoelhados, tentando juntar os pedaços como num quebra cabeças. Vamos montando e cada pedaço que vai se encaixando nos mostra um fragmento de um acontecimento, de um pensamento, de uma confissão que joga nossas próprias vivências sob as imagens que Felipe nos sugere. E a gente se reconhece. "Alma na casa sozinha" trabalha com o simples e com o complexo com a mesma dedicação e se em um dos poemas o autor nos diz "deus, como não ser intenso/numa cidade dessas" eu usaria o mesmo fragmento para avaliar esse livro: "deus, como não ser intenso/com um livro desses."


A poesia de Felipe Gomes nos leva a refletir sobre qual seria a imagem desse grande painel de vidro, sobre qual é o espelho do poeta. O autor olha pra si por esse espelho, mas é nos estilhaços de onde ele mais consegue extrair as temáticas que aparecem na obra. Essa característica é algo empolgante no livro, pois desafia a ideia de busca por uma totalidade para olhar cada caco, cada estilhaço, cada fragmento. E não seria cada caco, cada estilhaço e cada fragmento parte de um todo?


Natureza

esses corpos-vitrine

que assaltam pelas ruas do Rio

me estilhaçam

a corrente do sopro

cotidiano


pré-aqueço

chego a 1500

fundo

e endureço


vontade de cheirar o pescoço

daquele moço que pediu licença

e passou


 O fato é que não importa a imagem que esse vitral sustentava antes de se quebrar pelas mãos do poeta. O que importa é o processo de coleta de cada estilhaço através das palavras de Felipe Gomes. "Alma na casa sozinha" explora o meio urbano, as memórias, a sexualidade, os encontros, a observação das pessoas, o cotidiano das esquinas, os perfumes, os desejos com uma escrita fluida e envolvente. Os poemas envolvendo as percepções do corpo chamaram minha atenção e revelam algumas intimidades que são muito próximas a nós e que também ajuda a ilustrar o corpo como espelho, o corpo como casa. 


baixo

no fundo,

gosto

do que me faz mau


aquilo que machuca

endurece

meu pau

 

rotina


limpo minha jaula

faço uma bainha

me toco, imaginando conhecidos


com braços que não forçam as barras

com mãos que não arriscam bordados

com dedos que não me apontam caminhos


A representação do espelho em "Alma na casa sozinha" é algo que casa perfeitamente com a aleatoriedade muito bem pensada que existe até na ordem em que os textos aparecem. Os poemas refletem entre si e curiosamente tiram ordem de onde parece não existir. Todas as temáticas parecem ser confrontadas diante de um grande espelho que mostra o tempo todo que tudo está interligado e que somos formados por um jogo de representações e de identidades que se entrelaçam, se chocam e muitas vezes se quebram para formar uma nova narrativa.  



A cidade suspensa de Samuel Medina

 A cidade suspensa de Samuel Medina (Senhor da Lenda, 2015) é um livro de fantasia que nos leva a um universo fascinante: uma cidade suspensa. Acompanhamos os passos de Kain, um viajante que adentra a cidade e que precisa cumprir alguns desafios para conquistar o direito de se estabelecer entre suas edificações imponentes. Não sabemos muito bem em que mundo a história se passa e qual a situação daqueles que vivem fora dessa cidade, mas alguns detalhes nos levam a crer que entrar nesse local pode custar muito mais caro do que imaginamos e temos a certeza que se trata de um mundo habitado por criaturas inimagináveis. É uma história com pitadas de suspense, terror, magia e aventura que consegue contar muito em uma narrativa curta, uma novela. 


Conforme avançamos na leitura do livro, vamos conhecendo um pouco mais sobre o viajante Kain e seus objetivos. Kain não quer apenas "subir a bordo" da Cidade Suspensa, esse personagem enigmático possui outra intenções. 

Kain suspirou, enquanto lembrava que tinha pouco tempo. Logo a Cidade se suspenderia e começaria mais uma jornada. Era necessário encontrar um lugar para ficar antes que ela fizesse um novo pouso. 

É uma história que possui muitos atrativos e sem dúvida o maior deles é a exploração dessa ideia de uma cidade que se desloca, que suspende no ar, que voa para novas localidades. Essa é uma temática que possui uma carga imagética muito forte, que conversa de perto com nossa vontade e necessidade de fabular, de imaginar, de experienciar o mundo por outra ordem. É uma ótima opção principalmente para aqueles que gostam de literatura fantástica. 


A história de Samuel Medina logo me fez lembrar de um vídeo do canal Entre Planos chamado "Leve-me para uma ilha no céu". Nele Max Valarezo fala sobre seu fascínio pelas histórias que trabalham com a existência de um pedaço de terra flutuante. Max fala com entusiasmo sobre como isso o encanta desde a infância e como a cultura pop explorou essa fantasia das mais diversas formas. Acredito que Samuel Medina, que é um grande contador de histórias e mediador de leitura, partiu de uma emoção muito parecida para escrever "A cidade suspensa". É precisa ter uma mente que se permite encantar para entender a força narrativa dessas ilhas flutuantes. No vídeo, Max cita exemplos como "A cidade das nuvens" que aparece no filme "Star Wars: O império contra-ataca" (1980), as pinturas do artista inglês Roger Dean que ilustram pequenas ilhas no céu e o filme "O castelo no céu" (1986) de Hayao Miyazaki.

Star Wars - Cidade das Nuvens

Roger Dean (artista inglês)

O castelo no céu - Hayao Miyazaki.

Além de Samuel Medina explorar essa cidade ele também capricha nos mistérios que rondam o lugar. Desde o maquinário, a tecnologia que suspende a cidade até os habitantes que circulam pelo local. Em uma certa parte do livro, enquanto nosso herói conhece a cidade e como as coisas funcionam, ele é alertado para o fato de que precisa encontrar abrigo antes do anoitecer, pois a noite na cidade submersa é extremamente perigosa. Essa parte é narrada de uma forma que faz os nossos pelos arrepiarem e a criarmos mil teorias sobre que tipo de criaturas, perigos e energias são essas que rondam a noite da cidade. 

Agora não adianta nada, mas alguma coisa tem que ser feita. O dia acabou e logo a parte mais escura da noite há de chegar. Até lá, deves buscar algum abrigo. A noite aqui é muito, muito fria e o escuro devora gente. Nenhuma porta ou janela oferece abrigo e Aqueles que Vagam ocupam as ruas desertas. 
Um outro ponto de encantamento da obra está na descrição que é feita da Biblioteca da Cidade Suspensa e do Bibliotecário. A Biblioteca é apresentada de forma que nos leva a crer que é considerada a instituição mais importante da cidade, assim como a figura do bibliotecário. Ocupam uma posição de poder e de guarda de um mundo de conhecimentos a ser explorado. O capítulo que Kain chega até o prédio da Biblioteca é fascinante. 

O prédio era gigantesco, destacando-se das demais construções. Era uma estrutura cilíndrica que subia vertiginosamente, dando a impressão de uma altura infindável. Acima do portão, como se dominasse toda a fachada, Kain reconheceu a insígnia que estava gravada na medalha que recebera de Scarlate. Então aquele rapaz, Salomão, falava com razão. Aquele símbolo representava a Biblioteca. 

Kain e seu guia seguiram por mais diversas salas e corredores, de modo que o viajante já não sabia se orientar naquele ambiente. Chegaram por fim a um outro portão, guardado por outro guia. Acima, havia uma plaqueta de madeira onde estava escrito "Bibliotecário" logo abaixo da insígnia da Biblioteca. Kain em segundos estaria diante do homem que dominava toda aquela estrutura. Sua jornada se aproximava de um momento crucial. 

 "A cidade suspensa" nos conecta a um dos maiores desejos do ser humano, que é voar. Já inventamos todo tipo de estratagemas para tentar dominar os céus, para sair da atmosfera e para aqueles sonhos que ainda são impossíveis realizar, como o de uma cidade flutuante, temos a literatura para saciar nossa sede, nossa curiosidade, nosso prazer de escrever, contar e ler histórias. É uma delícia entrar nesse mundo misterioso e mítico da literatura fantástica e tentar descobrir onde será o próximo pouso da Cidade Suspensa. 



Para ver o vídeo do canal Entre Planos é só clicar AQUI


E você pode ter acesso gratuitamente ao livro "A cidade suspensa" AQUI

Verás que tudo é mentira de Mário Baggio

 Verás que tudo é mentira do Mário Baggio (Editora Coralina, 2020) é um livro de contos onde o autor explora mais uma vez as realidades, o fantástico, o maravilhoso, o assustador, o surpreendente e o comportamento humano em narrativas curtas e dilacerantes. Na escrita de Mário, encontramos uma dedicação sobre o olhar, a percepção da vida, das pessoas e dos acontecimentos sob outra ótica. O fantástico trabalha como lupa para tratar da realidade e é essa ampliação dos fatos através da ficção o mais fascinante em sua obra. Nos contos percebemos a mentira como protagonista e a mesma não é explorada apenas em seu caráter pejorativo, da mentira como problema, como inverdade, como pecado, mas também como estratégia de sobrevivência, manutenção das boas relações, escudo contra as dores e como algo inerente ao ser humano enquanto ser narrativo independente de suas intenções. 


Dostoiévski dizia que “a mentira é o único privilégio do homem sobre todos os animais” e acredito que a literatura é um dos principais instrumentos onde podemos fazer uso desse privilégio quase que impunemente. Mário utilizou de seu privilégio de escritor e escancarou as mentiras em seus mais diversos formatos. Lemos sobre uma mentira que mata, mas também sobre uma mentira que salva, assim como diversas provocações sobre as mentiras que engolimos desde cedo, por assim termos encontrado o mundo. Lemos sobre aquelas mentiras que sabemos muito bem o que são e que é mais fácil fingir serem verdades. Lemos sobre mentiras que realmente acreditamos nelas e nem por isso deixam de ser mentiras. Lemos sobre mentiras que são manifestações de ódio e também de amor. 

Tudo isso é trabalhado muito bem, textualmente falando. E imageticamente também. Mário Baggio narra com precisão em poucas linhas e faz com que a gente fique vários minutos olhando para o nada, com o livro pendendo sob os dedos a cada leitura. Nos conectamos com situações e momentos que são íntimos, que são engraçados, que são dolorosos, que são extremamente irônicos e que demonstram o tempo todo como somos um universo de beleza e barbárie, de verdades e mentiras. 

Heleninha

Claro que aquela sirigaita da Heleninha não era perfeita. Não era o anjo que as freiras diziam que era. Grande coisa que era a mais bonita que nós, as outras, as coitadas, como a madre superiora gostava de falar. A Heleninha não, não era uma coitada, tinha uma beleza marmórea semelhante à dos querubins e por isso era sempre colocada na frente - na fila do pátio, na sala de aula, no refeitório, na hora de canta o hino. As freiras até paravam de respirar quando ela passava perto. É feita de porcelana, diziam. 

Os cachos do querubim eram de um amarelo irreal, perfeito, e estava sempre com o uniforme impecável, sem nenhum amassadinho. Seus sapatos, então, eram como um espelho de tão reluzentes. Se nós, as coitadas, nos colocássemos muito perto dela na fila, podíamos ver o nosso rosto refletido no couro imaculado de seus calçados. Isso nos dava arrepios, parecia coisa de bruxa. 

Na aula, quando a professora não estava olhando, a angelical criatura metia suas unhas rosadas e redondas no braço de quem estivesse perto e, segundo ela, atrapalhando sua concentração - como alguém pode ter unhas assim, tão perfeitas? Se a vítima soltasse um gritinho e a professora se virasse, o querubim sorria com doçura, fingindo copiar a lição da lousa. A verdade é que tínhamos medo dela e do seu jeito dissimulado. Uma atriz, sem dúvida. Poderia ser uma artista de muito sucesso no futuro, se chegasse a ter um futuro. Não teve. 

A boneca de pele de alabastro morreu anteontem e nenhuma de nós fingiu pesar porque tínhamos certeza de que não era um anjo. Se fosse, teria que voar quando a colocamos descalça e sozinha no parapeito do sexto andar e demos um empurrãozinho de leve. Não voou. Azar dela. 


No conto acima e em muitos dos outros presentes no livro, podemos perceber esses elementos onde verdade e mentira são manipuladas a bel prazer das personagens e em prol de uma narrativa edificante, de uma justificativa, do ataque, da defesa e da manutenção das aparências. Em outros as personagens são vítimas de uma mentira que parece não ter origem e ser uma regra de vida. Algo que adoro também na narrativa de Baggio é seu rompimento com o politicamente correto, o que confere uma maior liberdade para sua escrita. Quando se despe de medos e de travas sobre o que se pode ou não escrever, o autor se veste de possibilidades para devassar a existência e as relações. 


Quando falamos de mentira, também falamos sobre verdade, assim como o imã que parece sempre atrair amor e ódio, vida e morte. E mentira e verdade nada mais são do que construções que vão ser influenciadas por diversos fatores e que se tornam impossíveis de serem enquadradas em uma regra. A escritora Marina Colasanti, em uma crônica recente que fala sobre "realidade", outra faceta da "verdade/mentira" nos diz brilhantemente que "a realidade é a miragem pela qual orientamos nossas vidas. A solidez inexistente. A rocha-nuvem." Mário Baggio nos deixa um recado muito parecido sobre a mentira. Ela está aí e faz parte do jogo da vida, as vezes pode ser mensurada, as vezes não, pode fazer tão mal quanto bem e a gente usa. Quem diz nunca mentir mente para si mesmo. 


Mário Baggio é jornalista, escritor e blogueiro. Mantém o blog homem de palavra, em que divulga sua produção literária. Para adquirir um exemplar de "Verás que tudo é mentira" é só acessar o site da Editora Coralina AQUI!

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra de Mia Couto

 Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra de Mia Couto (Companhia das Letras, 2003) é um livro que abraça forte um projeto de literatura como arte. Essa é uma característica que podemos encontrar nos diversos textos de Mia Couto, que trabalha com as palavras de forma cirúrgica sem perder algo que garante fluidez de leitura e aproximação dos leitores das temáticas que propõe tratar. Em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" encontraremos temas muito fortes e estruturantes para a história apresentada. Temos a morte como um dos temas centrais, e aqui a morte não aparece como eminência de fim, e sim como ponto de partida. Encontraremos a exploração das relações familiares sob diversas óticas e principalmente através do viés das lembranças e das memórias. Veremos o rio e a casa como simbologias para tempo, espaço, ciclo e movimento. Também teremos a beleza e o peso das tradições, assim como as questões sobre mestiçagem como um "não lugar", mas também como possibilidade de estar lá e cá, da construção das individualidades culturais, nacionais, coletivas e individuais. O livro é também um contraponto entre as tradições e as ditas modernidades e suas formas de coexistirem - algo que nem sempre ocorrerá de forma pacífica. 


A história do livro se passa em Luar do Chão, uma aldeia isolada que enfrenta diversos problemas advindos da desigualdade social e de um contexto político pós guerra civil. É nesse contexto que os personagens vão sendo desenhados e que o tema da mestiçagem vai sendo trabalhado de forma muito intensa. Marianinho, um jovem estudante universitário, chega a Luar do Chão por conta da morte de seu avô também chamado Mariano, e serve como nossos olhos, como nossos óculos a medida que vai retornando a seu lugar de origem, reencontrando familiares e histórias de sua família. 


Como Marianinho viveu processo de afastamento de sua aldeia para viver em um centro urbano, podemos perceber na história uma exploração das tradições em contraponto com o dito "mundo moderno". Lemos uma espécie de comparação entre as vivências de um espaço urbano das vivências de um ambiente de aldeia. Enquanto o espaço urbano acaba por promover um afastamento das tradições, o que é algo quase que inerente a ideia de globalização e modernidade que vivemos hoje, a aldeia aparece como o lugar que possibilita o contato com a tradição quase como algo sagrado e místico. O espaço de aldeia é apresentado como uma personificação das lutas pela manutenção das tradições. 

Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a cidade e a ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a sua própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais  longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas. 

Mia Couto vai passeando entre o moderno e as tradições, entre o real e o fantástico. A própria morte do avô Mariano serve como uma estratégia narrativa para isso. Quando Marianinho chega ao vilarejo percebe que seu avô ainda não fora clinicamente declarado como morto e que seu pulso apesar de estar extremamente fraco, ainda está ali pulsando. Enquanto esperam pelo desfecho, pelo último suspiro de Mariano as tradições em relação a morte vão desfilando pelas páginas, mostrando a morte como movimento, como renascimento. Diante do "fim" toda a família se move. "A morte, essa viagem sem viajante, ali estava a dar-nos destino."


O autor cria um universo que muito se aproxima do realismo fantástico latino americano do século XX. É como se ao atravessar o rio que leva a ilha de Luar do Chão estivéssemos também atravessando uma linha que divide o mundo moderno de um mundo místico, cheio de segredos e que vive sob lógicas que Marianinho vai passar a investigar. A história de cada personagem de Luar do Chão parece viver também sob as régias da natureza, com descrições fantásticas de encher os olhos. Mia Couto criou uma narrativa onde os segredos, os mistérios e os principais eventos que modificam uma vida são tão fortes a ponto de causar manifestações da natureza. 


Um outro ponto interessante do livro são os nomes que Mia Couto escolhe para as personagens. Alguns são quase literais a ponto de carregarem consigo uma grande característica da personalidade da pessoa que o carrega. Os nomes vão trazer consigo um caráter simbólico para a obra e serão mais um elemento para que o leitor entenda cada personagem. Tio Abstinêncio, Mariavilhosa, Ultímio e Admirança são alguns dos exemplos. A forma como Mia Couto brinca com algumas palavras também é algo que pede dos leitores uma total imersão na obra e no tipo de história que está sendo contada. Muitas vezes não entendemos se a construção de algumas palavras obedece a alguma tradição, dialeto de Moçambique ou se é algum analogismo. 


Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" Mia Couto trás o sagrado até a palavra e a palavra até o sagrado em uma troca que não busca explicações lógicas. O autor consegue torna o real algo realíssimo utilizando do fantástico em uma literatura que desafia nosso olhar acostumado apenas a leituras ocidentalizadas. O livro utiliza muito bem da fantasia, dos mistérios, dos sonhos, do suspense para criar uma obra que atravessa o rios e faz morada dentro das vivências de cada leitor. 

 

Moisés Negro de Alain Mabanckou

 Moisés Negro de Alain Mabanckou (Tag Experiências Literárias, 2020)  é um história de formação que acompanha a vida de Tokumisa Nzambe po Mose yamoyindo abotami namboka ya Bakoko desde a infância e adolescência no orfanato até a vida adulta. Grande parte da narrativa se passa no orfanato Loango que está localizado na República do Congo. Enquanto acompanhamos o desdobrar de uma vida sofrida em meio aos ditos excluídos em meados dos anos 70, também temos contato com fragmentos da história recente de um país e de uma revolução comunista. O autor fala sobre o Congo, seu lugar de origem, e a forma como explora o país parece ter uma ligação com o fato de que Mabanckou está, desde 2015, proibido de visitar seu país. Escrever é sua forma de revisitar o Congo. 


Tudo começou nessa época em que, adolescente, eu me perguntava a respeito do sobrenome que Papai Moupelo, o padre do orfanato Loango, tinha me dado: Tokumisa Nzambe po Mose yamoyindo abotami namboka ya Bakoko. Esse longo sobrenome significa, em lingala, "Demos graças a Deus, o Moisés negro nasceu na terra dos ancestrais", e ainda está registrado em minha certidão de nascimento...


Estamos diante de um personagem narrador, que começa a contar sua história aos 13 anos de idade, mas que também revisita sua infância e os acontecimentos que o levaram a se tornar um órfão. Dentro do orfanato, Moisés aprende as primeiras lições da vida, tem em Papai Moupelo uma referência, e em Bonaventure Kokolo uma amizade que funciona como âncora. 


Minha amizade com Bonaventure era como de um paralítico com um cego. Ele andava por mim, eu via por ele, e às vezes era o contrário. Quando não o via, procurava-o em todo canto. 

 

Moisés aprendeu muito cedo que precisava encontrar maneiras, artimanhas para garantir sua sobrevivência. Apesar de seu contato com o mundo exterior praticamente não existir inicialmente, dentro do orfanato Loango ele vê muitas questões sociais sendo refletidas, como ânsia de poder, preconceitos, violências e a tensão existente entre povos de etnias diferentes. É interessante analisar as percepções de Moisés em relação ao mundo, ao que está lá fora e principalmente com as pessoas que passam por sua vida.


Um ponto forte do livro é a temática da perda. A perda já se manifesta no próprio fato de Moisés ser um menino órfão que vive em um orfanato e no decorrer do livro, o jovem vai se vendo em novas situações de perda que parecem sempre atingir as pessoas pela qual ele constrói relações de afeto. 


A República do Congo também aparece como ponto de destaque na obra. De dentro do orfanato as crianças e os funcionários vão sentindo os impactos de uma revolução comunista que assola o país e vai mudando as estruturas dos poderes. 

Um dia seria preciso que nós nos acostumássemos a essa situação e que, de todo modo, deveríamos jogar o jogo da Revolução, e assim aprender os discursos do presidente da República em vez de rezas e danças do norte e dos pigmeus do Zaire. 


Durante todo o livro Alain Mabanckou vai nos apresentando como contraponto à Revolução aspectos relacionados a cultura do Congo, como histórias, crenças, religiões, fantasias, alimentos, danças que fazem parte do imaginário do povo. Também é discutida a forma como os processos de descaracterização dos países acontecem através de invasões estrangeiras e de pensamentos colonizadores, como no trecho abaixo, que demonstra de forma genial como a religião também é uma forma de dominação.

Quando os Brancos vieram para a África, tínhamos as terras e eles tinham a Bíblia. Eles nos ensinaram a rezar de olhos fechados: assim que os abrimos, os Brancos tinham a terra, e nós, a Bíblia

Moisés nasce do abandono, passa toda uma vida colecionando mais perdas e vivendo uma realidade onde até o alimento de cada dia é uma incógnita. É a partir daí que o livro passa a tratar também sobre saúde mental. Como ser feliz em uma sociedade tão desigual? Como ser feliz quando não se conhece suas próprias origens e quando o afeto parece ser algo proibido a sua realidade? Todos esses dilemas são tratados por Alain com uma linguagem coloquial que apesar do peso das temáticas se tornou um livro de leitura muito rápida e fluida. Mabanckou torna a dor e a loucura algo mais palatável em Moisés Negro para que o leitor tenha a possibilidade de refletir sobre o peso que uma história de vida pode ter. 

Ecumênico de Igor Tavares

 Ecumênico de Igor Tavares (Edição do autor, 2021) é o quinto livro do autor que sempre disponibiliza suas obras gratuitamente na internet em formato digital. Igor também é o responsável pela diagramação e ilustração de seus livros. Em Ecumênico ele se debruça sobre os mais variados temas, mas que tem como norte a exploração de uma das facetas da nossa existência, a exaltação, a adoração das crenças. Entenda aqui a crença para muito além do universo religioso, pois em Ecumênico encontramos diversas formas de como a crença se apresenta em nossa vida em seu sentido de busca de uma verdade ou na eterna necessidade ou possibilidade de que algo exista, de que algo aconteça, de que algo se manifeste, de que algo seja tomado de posse, de que algo ajude a provar que estamos vivos. 


Durante toda a leitura do livro fiquei me perguntando qual seria a minha crença. A cada conto lido somos instigados a fazer essa análise íntima de quais são os objetivos e desejos que se tornaram nossas crenças. Uma outra reflexão muito forte que a leitura me trouxe foi sobre a linha tênue que separa uma crença da obsessão, que separa uma crença dos preceitos éticos que a sociedade nos apresenta. O ser humano, quando colocado diante da real possibilidade de alcançar de alguma forma o foco de sua crença, pode facilmente abrir mão de escrúpulos, pois o que ocupa esse lugar em nossa mente alcança um status de convicção. Não é atoa que o autor dedica essa obra "aos conflitos dentro e fora."

Para além dessa brincadeira literária de explorar a crença para além da religião, Igor consegue conceber um discurso que ilustra o caráter ecumênico do que é o desejo humano e como eles estão por aí, jogados no mundo, se esbarrando, se entrelaçando e se concretizando ainda que por vias completamente diferentes. O título do livro é muito claro ao propor uma reflexão sobre o processo de busca de uma união para além das diferenças, algo que só será possível ao percebermos que "a única coisa maior que o nosso ego é a nossa irrelevância."


Ecumênico também possui algumas características, que como leitor de todas as obras de Igor, me arrisco a dizer que estão presentes de alguma forma em todas elas. O autor utiliza muito de ironia, de um olhar sobre o absurdo, como também para a fantasia. Tudo isso agarrado a uma necessidade de expor de alguma forma, mesmo que "literariamente" sua indignação com as incongruências e hipocrisias da sociedade e do mundo. Podemos ler muito sobre as impressões pessoais do autor, a visão de mundo de um jovem que "iria para um bairro legal, com casas e padarias e gente na rua", mas que também "está farto de Deuses."


Leia gratuitamente: https://cutt.ly/ecumenico

O quase último Aum do Ulisses B.R

 O quase último Aum de Ulisses B.R (Editora Varanda, 2020) é um livro brasileiro de fantasia que inaugura os "escritos para etraz-quaassa" e nos leva a um universo com muitos dos ingredientes que uma boa história fantástica pede. A saga inicia na cidade de São Paulo, onde acompanhamos a vida aparentemente normal de um garoto vindo de Recife - Pernambuco chamado Tales. Um adolescente de ensino médio que passa os dias com os amigos, enfrenta alguns episódios de bullying no colégio, que é apaixonado por música, que possui um pai amoroso mas distante pelo excesso de trabalho, e praticamente criado pela empregada da família. Acontece que um dia em especial, especificamente uma quarta-feira, depois de um misterioso apagão, Tales se depara com um homem que não deveria estar ali no seu quarto e que diz ao rapaz que ele pode ter o poder de salvar um planeta chamado Ungurae e que ele talvez seja um Aum


Ungurae é um planeta complicado. Nunca foi simples. O tempo passa e algumas coisas mudam. Outras, não. As pessoas, cada vez mais, compreendem a natureza, a drahiva, os qirus. Porém, cada vez menos, sabem sobre si mesmas, sobre os outros, sobre as relações. Parecem fazer força para esquecer, para não ver, para não ouvir. Vivemos agora em um tempo de medo, de ignorância, de ódio e de preconceito, e, por isso, a guerra voltou a nos assombrar.

"O quase último Aum" é literalmente o início de uma grande saga. É uma obra onde somos apresentados às personagens e a fragmentos de suas histórias, sendo esses pequenos fragmentos muito importantes para começarmos a entender a lógica do que será apresentado de mistérios e códigos para os leitores desvendarem. O autor começa a nos mostrar um universo rico em detalhes, e principalmente, quando partimos do planeta Terra, que na história também é chamado de Unman, nos deparamos com habitantes de um outro planeta chamado Ungurae que tem suas próprias características, sua própria língua, cultura, flora, fauna e modos de explorar energia -  que é algo genial dentro da narrativa e rende descrições que fazem nossa mente viajar. É um livro que nos leva a transitar entre dois mundos e abre oportunidades para pensarmos sobre outras formas de pensar as relações, as cidades, o meio ambiente, as diferenças e o processo de amadurecimento individual e em grupo.  


A maior parte da história se passa em Ungurae, que vamos conhecendo juntamente com Tales. Enquanto acompanhamos o processo do personagem de aprender a língua Kartu, é como se a gente também estivesse aprendendo um novo idioma, pois o livro é cheio de notas de rodapés que brincam com os significados das palavras em português e em kartu. 

- Línguas diferentes não são empecilhos, Tales. São convites. 


É como se a história que lemos já tivesse sido traduzida diversas vezes e que a lemos num futuro distante, após o desenrolar de todos aqueles fatos que parecem fazer parte do imaginário de uma civilização. Ungurae é um planeta regido por duas energias, a drahiva e a quirumae e o uso dessas energias além de ser fundamental para a vida no planeta, também se torna motivo de exploração e guerra. 

A drahiva é a energia comum, que todos os unguráqueos sabem manipular. É como se fosse uma eletricidade, ou uma radioatividade, ou uma mistura das duas. Usamos a drahiva para as coisas mais corriqueiras, como cozinhar e desenhar, até as mais complexas, como construir e guerrear.

A quirumae serve exclusivamente para uma coisa: fender. Ou, como você diria na Terra, para o teletransporte. A quirumae é a energia utilizada pelos portais de acesso às Nove Cidades, nos portais internos, para enviar objetos e mensagens. Essa energia só pode ser encontrada nos qirus.

Sendo assim, um outro ponto de tensão da história está na relação dos unguráqueos com os qirus. Como os qirus dominam a quirumae que é uma energia essencial e rara, vários qirus foram aprisionados nas grandes cidades, em situação de escravidão, para utilização de suas energias. Quando chega a Ungurae com seu agora guardião Rhoda, Tales acaba se afeiçoando a um grupo de qirus livres que vivem reclusos e realizando expedições de recuperação da liberdade. Os qirus além de terem sido banidos das maioria das cidades de Ungurae, ainda se tornaram personagem das mais escabrosas histórias infantis que diziam que se uma criança olhasse diretamente nos olhos de um qiru estaria dando acesso as suas casas. Os qirus conseguiriam fender em qualquer lugar que a criança estivesse. A vida de Tales se entrelaça com esse pequeno grupo de qirus, e juntos irão descobrir muitas coisas sobre as energias essenciais do planeta e formas de derrotar um "líder" opressor e espécie de movimento que vem tomando cada uma das nove cidades de Ungurae

O que Tales ainda não sabia era que as Nove Cidades de Ungurae não eram como as cidades de Unman. Eram muito maiores. Talvez, na Terra, fossem chamadas de nações, ou países. 

Aparentemente Tales é um Aum que seria uma pessoa capaz de dominar tanto a drahiva quanto a quirumae, o que é algo raro e lhe daria poderes inimagináveis e a capacidade de vencer uma grande guerra que se anuncia. A existência dos Aum é algo já impensável na época em que a história se passa, como se fosse uma lenda e muitos dos habitantes do planeta nem mesmo ouviram falar sobre eles. Enquanto tenta descobrir se é ou não esse escolhido, que teria tanto poder de mudar a vida do povo de Ungurae, Tales vai criando fortes laços de amizade, descobrindo muito sobre si mesmo e sobre a essência de tudo que está a seu redor. 


Esse primeiro volume dos "escritos para etraz-quaassa" abre muitas brechas e formas de interpretação para os leitores. Dá para fazermos uma analogia com o próprio universo da história, que acredita que ao fender, ou seja, se teletransportar, uma pessoa pode cair no oco e ficar vagando eternamente nessa espécie de nada. O autor Ulisses B.R joga o leitor em uma espécie de oco em vários momentos e essa estratégia faz com que nossa ânsia pelos desdobramentos da história aumentem ainda mais. Em certo momento da narrativa, literalmente somos jogado no oco. Entre as páginas 256 e 266 de um capítulo chamado "Encontro" não encontramos nada escrito. As páginas estão vazias, em branco, como se esses escritos tivessem sido perdidos e temos acesso apenas a algumas notas de rodapés que podem nos dar algumas dicas sobre o rumo que a história tomará nos próximos volumes da saga. 


"O quase último Aum" é um livro muito divertido, cheio de mistérios e fantasia. Mais um exemplo de que a literatura nacional também produz sagas de fantasia de qualidade. É uma boa oportunidade para experimentar uma leitura que embora fale de mundos não existentes, consegue explorar temáticas muito próximas de nós brasileiros, ao apresentar um personagem que vive em São Paulo, mas nasceu em Recife e que enfrenta problemas banais da adolescência, mas que também se vê diante de uma grande saga do herói, que serve de simbologia para qualquer processo de amadurecimento diante dos desafios da vida. 

Deus ajude essa criança da Toni Morrison

 Deus ajude essa criança (Editora Companhia das Letras, 2018) é um romance instigante de autoria da grande escritora Toni Morrison, vencedora de um Nobel de Literatura, sendo a primeira mulher negra a receber tal prêmio. "Deus ajude essa criança" é um livro de impactos e o maior deles está na exploração do racismo na infância e como essa experiência de violência pode se manifestar na história das pessoas. O racismo é uma temática bastante presente na obra de Morrison, mas nesse livro podemos ver uma exploração maior sobre as questões da pele, do dito "colorismo". Esse tema é inserido ao acompanharmos o nascimento de Lula Ann Bridewell, uma menina que já nasce sendo repelida pelos próprios pais por ter a pele muito mais retinta do que eles julgavam "aceitável". 


Não levou mais de uma hora depois que tiraram a criança do meio das minhas pernas pra perceberem que tinha alguma coisa errada. Muito errada. Ela era tão preta que me assustou. Preto meia-noite, preto Sudão. Eu tenho a pele clara, o cabelo bom, o que chamam de pele oliva, e o pai de Lula Ann também. Não tem ninguém na minha família com uma cor daquela. Alcatrão é o que chega mais perto, só que o cabelo dela não combina com a pele. É diferente: liso mas ondulado, igual ao daquelas tribos nuas da Austrália. Dá pra pensar que ela é uma agressão, mas agressão pra quê? 

Nesse trecho da obra já podemos perceber diversas nuances de como o racismo se manifesta. O racismo tem raízes tão profundas no modelo de sociedade que construímos, sendo possível a existência de uma escala de cor de pele aceitável, inserida também entre os próprios pretos como uma forma violenta de auto preservação, de defesa. Lula Ann é filha de pais negros, mas nasceu com a pele mais escura, mais retinta que a pele dos seus pais. Movido por uma desconfiança o pai acaba abandonando a família e Lula Ann passa a lidar com o desprezo da própria mãe e as demais consequências do racismo em uma sociedade que quanto menos preto você parecer, melhor. 

Quando impera o medo, obedecer é a única opção de sobrevivência. E eu era boa nisso.


Para além dessas questões de âmbito familiar, Lula Ann acaba sendo ainda na infância a peça chave da conclusão de um julgamento. Ela ajuda a condenar uma pessoa por um crime que supostamente presenciara. Esse acontecimento acaba por melhorar um pouco a relação com sua mãe, que acha uma grande coisa sua filha negra ajudando a condenar e mudar o destino de uma pessoa branca, algo muito simbólico nesse livro, mas também se torna meio que uma obsessão, um fantasma que acompanha os dias da menina e que reverbera na sua vida adulta. 


Quando constrói a fase de Lula Ann adulta na história, Toni Morrison faz algo genial que é nos mostrar as estratégias da Lula mulher para driblar o racismo e enfrentar (ou reprimir) suas memórias. Ela se torna uma mulher bem sucedida, trabalha na área de cosméticos e inclusive fora a responsável pela criação de uma linha de cosméticos e maquiagem muito celebrada. Lula Ann que agora adotara o nome Bride, algo muito significativo no que diz respeito a suas memórias, usa de sua beleza como escudo, de sua ascensão econômica e social para garantir um local de sossego e descanso do preconceito, ainda que sua eficácia não seja cem por cento. 

Os retalhos da vida que ela havia remendado: glamour pessoal, controle em uma profissão excitante, criativa até, liberdade sexual e , acima de tudo, um escudo que a protegia de qualquer outro sentimento intenso demais, fosse raiva, vergonha ou amor. 

Bride passou a viver uma vida que muitas vezes parecia ser monitorada por aparelhos anti tensão. Acontece que as questões referentes à sua própria história, à sua família de origem, às violências que viveu ou presenciaram acabam batendo à porta e Bride começa um movimento que parece uma revisitação desses traumas e desses dores, como se fosse seu inconsciente, sua história pregressa a tomando de assalto.  


"Deus ajude essa criança" se aproxima muitas vezes de algo que beira a fantasia para ilustrar a reforma íntima e a luta com a própria consciência que é travada pela protagonista da história. É uma narrativa que olha para a sociedade, com intuito de demonstrar o quanto ela é cruel e a inserção das crianças no texto não é aleatória. Tive a impressão de que Toni Morrison decidiu utilizar a figura da criança, que no livro são expostas a diversos tipos de violência, como uma estratégia de sensibilização, como a ideia de que se uma criança em estado de vulnerabilidade e violência extrema não for capaz de provocar reflexão e abrir os olhos de uma pessoa para as injustiças do mundo, o que mais será capaz de promover esse acordar? 

Relatos de um gato viajante de Hiro Arikawa

 Relatos de um gato viajante de Hiro Arikawa (Editora Alfaguara, 2017) é um livro que narra o encontro do jovem Satoru Miyawaki com um esperto gato de rua que recebe o nome de Nana. A história é narrada de uma forma diferente, pois a autora escolheu utilizar de diversas vozes narrativas para nos dar uma visão mais ampla de cada personagem e sua importância na caminhada pessoal de Satoru. O próprio gato Nana, que inclusive conta a maior parte da história, aparece como narrador e seus capítulos são muito perspicazes, inteligentes e irônicos. 


Por conta de algumas circunstâncias que nó leitores não sabemos, Miyawaki não poderá mais ser o dono de Nana e devido ao grande respeito e amor que sente pelo seu gato, os dois embarcam numa emocionante viagem pelo Japão a procura da pessoa ideal para adotar Nana. Satoru passa a visitar amigos que foram importantes em sua vida e em quem confiaria a segurança de seu gato. Com isso, entramos em uma história sobre amor, amizade e memórias que desafiam vários tipos de fronteiras. Nessa jornada os viajantes acabam promovendo algumas mudanças nas vidas desses amigos, onde a reconexão com as lembranças passa a promover um acerto de contas com histórias mal resolvidas.  "Relatos de um gato viajante" também é uma boa indicação para pessoas que amam gatos, os ditos gateiros. A gente se vê representado todo o tempo no que a criação de gatos proporciona e em cada nuance que estabelecemos com esses bichanos sedutores. O livro confronta a ideia de que os gatos são animais frios e indiferentes a seus donos e mostra como eles possuem uma maneira diferente de interagir. 


Hiro Arikawa foi certeira ao unir em uma história a exploração de memórias afetivas e a relação dos humanos com seus pets em um romance estilo road trip. Os relatos, como já explicitado no título, darão o tom de conexão com o passado e faz com que o leitor embarque de cabeça na vida de Satoru e de algumas pessoas que fizeram parte de sua formação. Ao conhecer episódios da vida do protagonista e de pessoas próximas a ele, acabamos por conhecer o Satoru muito mais do que o próprio diz. É impossível sair dessa leitura sem estar envolvido com uma aura especial que ronda a personalidade de Satoru. Ele é uma pessoa muito especial e seu caráter vai sendo justificado a cada novo relato seja de bicho ou de gente. 


Sua relação com o gato Nana é inspiradora e muitas vezes também engraçada. A autora conseguiu brincar com a ideia de como seria a personalidade de um gato se ele entendesse a nossa língua e pudesse analisar criticamente nossos atos. Sem dúvida que um gato com personalidade seria o sarcasmo e a ironia encarnados. 

O ser humano é uma criatura arrogante demais para quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto. 


- Verdade, ele é um gatinho muito lindo. O nome dele é Nana?

- É, sim, porque ele tem o rabo torto na forma de um 7. 

Na minha opinião, não há necessidade de explicar a origem do meu nome para qualquer um que perguntar, mas Satoru é um cara muito aberto. 

Acredito que mesmo os leitores que não são apaixonados por gatos, passam a entender melhor o tipo de vínculo que podemos estabelecer com um animal de estimação e mesmo os que não gostam de proximidade com animais entenderá como a essência dessa abordagem na obra está no entendimento de que o afeto é fator essencial para nossa formação. Ali vemos toda a complexidade, todo o mistério, todo o humor e companheirismo que ganhamos ao cuidar de um gato. A forma como Satoru Miyawaki adota Nana também tem relação com sua própria história de vida, com um gato que Satoru adotara ainda na infância e que também fora obrigado a se separar. 


Enquanto Nana e Satoru viajam em sua van prata, cortando vias, rodovias, pontes e até balsas, nós leitores, parecemos estar sentados no bando de trás do carro, sendo testemunhas de seu deslumbramento quando veem uma linda plantação de flores, quando enxergam a imponência do Monte Fuji. 

- Isso mesmo, é a música do monte Fuji. Tocou bem na hora! Quando essa montanha triangular, de base larga e pesada, apareceu pela primeira vez perto da estrada, Satoru me explicou que era o monte Fuji.
Nas fotos e na televisão, ele só parecia um triângulo bidimensional, mas ao vivo tinha uma força impressionante, parece que está vindo para cima da gente.
Satoru falou várias coisas sobre a montanha: que seu cume é o mais alto do Japão, com altitude de 3776 metros em relação ao nível do mar (ele me ensinou até o trocadilho que usavam na escola para decorar essa altitude), e que, apesar de haver várias outras desse tamanho no mundo, essa é rara por ser uma montanha solitária e não parte de uma cordilheira. Mas, falando como gato, não me importo muito com essas coisas, não.
Não é preciso nenhuma explicação muito elaborada para entender por que essa montanha é extraordinária - basta olhar para ela. Dá para entender por que fazem até músicas sobre isso.


Os "Relatos de um gato viajante" nos coloca diante de uma viagem que mais parece uma intensificação das relações entre o gato e o rapaz do que uma despedida. A cada reencontro com amigos e com sua própria história, o livro vai nos mostrando que em alguns casos, por mais que a gente se afaste do nosso ponto de origem, muitas vezes o que procuramos está no ponto de partida. 

Onde estivestes de noite de Clarice Lispector

Onde estivestes de noite da Clarice Lispector (Editora Rocco, 1999) é um livro que reúne diversos contos da autora em uma linguagem que muitas vezes se assemelham às crônicas. Em "Onde estivestes de noite" encontramos mais uma vez a Clarice fazendo um uso cirúrgico do trabalho de escrita, mas aliado à exploração de sentimentos, reflexões e olhares que ultrapassam qualquer regra. Ela utiliza o suporte da palavra e da literatura com todas as possibilidades para falar de coisas tão íntimas, tão efêmeras e do fundo dos poros, que somente a literatura daria conta de representar. 


Em "Onde estivestes de noite" também encontramos um humor, uma ironia, uma forma mais divertida de embarcar nas reflexões já conhecidas da autora. Existem personagens com características que não chegam a beirar a caricatura, mas que representam a personificação dos sentimentos e das temáticas que Clarice pretende discutir. Como no conto "A procura de uma dignidade", onde a Sra. Jorge B. Xavier se vê diante de uma busca hilária e labiríntica onde ela mal parece o que procurar. 

A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como encontrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro. 

E a Sra. Jorge vai seguindo por labirintos, a procura de algo onde o que parece importar é mais a jornada, o chegar, do que o objetivo em si. É um conto gostoso de ler, com ótimas sacadas e um ritmo que vai conduzindo o leitor para as demais histórias do livro, que por vezes se tornam bem psicodélicas. 


No conto "A partida do trem" que é o meu preferido do livro, vemos a construção de uma narrativa brilhante que explora os pensamentos de duas mulheres, a jovem Angela Pralini e a já idosa Dona Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo. Elas não se conhecem, mas se sentam frente a frente, ambas a caminho de uma viagem que mudará o rumo de suas vidas. Enquanto a jovem foge de um amor tóxico, a senhora segue a caminho de uma vida de cuidados na casa de um filho, destino final de quem tem a idade muito avançada. 


As duas trocam poucas palavras, mas se analisam muito. Clarice constrói todo o conto explorando as reflexões de ambas, tanto em relação de uma pra outra, quanto da própria vida e dos motivos que as colocaram naquele trem. O conto vira um conflito de gerações e ao mesmo tempo mostra que certas questões são universais, independente do tempo. O texto faz reflexões interessantes sobre a velhice, sobre a solidão, sobre a condição da mulher principalmente em relação ao amor e o afeto familiar.

Dona Maria Rita pensava: depois de velha começara a desaparecer para os outros, só a viam de relance. Velhice: momento supremo.

Clarice pega o cotidiano, a dita banalidade e o dia a dia nas mãos e aperta até a essência sair entre os dedos. Impossível ler Clarice sem transcender, sem acessar uma outra ordem, sem exercitar um novo olhar. "Onde estivestes de noite" pede por imersão e mais do que isso, que o leitor esteja aberto a captar as nuances da vida e a enxergar o que se esconde atrás do improvável. 

Abrace-me enquanto ainda estou aqui de Thamires Mussolini

Abrace-me enquanto ainda estou aqui: pequenos textos sobre breves momentos de Thamires Mussolini (Editora Letramento, 2020) é um livro composto por textos curtos que se aproximam do poema, da poesia e dos contos. Thamires olha para o cotidiano, para as próprias emoções, para o feminino, para os afetos, para as dores e diversas outras questões existenciais. Utiliza de palavras certeiras para conversar e algumas vezes se confessar com os leitores. Em alguns textos a autora vai direto ao ponto e com uma delicadeza selvagem pergunta como engolir as mágoas. Em outros, Thamires nos confidencia que confia mais na destreza de seus escritos para ilustrar seus sentimentos e ideias do que nas palavras que profere e faz um apelo a nós: espero que me leia. A gente lê, se identifica com aquilo que se aproxima de nossas experiências e tenta degustar daquelas emoções que mesmo não sendo tão nossas ganha ares palpáveis de literatura. 


Seja no discurso direto e incisivo ou numa construção mais poética e contemplativa que utiliza das entrelinhas, Thamires dá corpo ao silêncios, às sombras, ao medo, ao vazio, às despedidas, ao desconhecido, à falta, à rotina, ao simples contemplar de paisagem ao abrir uma janela. Também olha com atenção para os primeiros toques do ser amado, para a liberdade, para as boas lembranças e a simbologia da música quando se encontra com elas. Para os sonhos que se sonha dormindo e acordado, para os amores que se foram e que estão a chegar, para o feminino que habita em corpo, alma e ancestralidade. 

Abrace-me enquanto ainda estou aqui trabalha todo o tempo com a delicadeza, mesmo quando o tema não possui nada de delicado. Como no texto "Diário de quarentena" que relata uma realidade tão vivenciada por todos nós e que a autora ilustra em palavras, arrematando de forma criativa com a certeza de que "o que falta é o ar livre."

Os dias passam iguais  e em frente à tela
vazia eu me coloco. 

Dormir, ler e escrever, talvez nada disso. 

A casa sempre escura e o sol lá fora
brilha excepcional.

Além dessas portas e janelas o perigo
passeia, contudo os vizinhos parecem
viver normalmente, alguns riem alto,
outros choram, enquanto outros gritam.
Provavelmente alguns terminarão em
divórcio.

O que falta é o ar livre. 

As vivências e o olhar feminino sobre o mundo é algo bastante presente na obra. Vão desde a análise do próprio ato de escrever, até as diversas maneiras de amar pessoas, situações, bichos e a si mesmo. Achei particularmente interessantes os momentos em que a própria escrita de Thamires e suas motivações para a escrita se fundem com as principais questões que fazem parte do feminino. Nesse momentos a autora chega a utilizar o processo de descoberta e exploração que a escrita propicia com os processos de descoberta, construção e desconstrução que as mulheres vivem. 

Apenas escrevendo eu me sentia parte
de algo em que acreditava estar perdida.
Parte de mim mesma.

Não sabia se tirava as máscaras ou se as
colocava para escrever.

Essas estrias só podem representar
todas as vezes em que me quebrei e me
reconstruí novamente.

Abrace-me enquanto ainda estou aqui é o terceiro livro de Thamires Mussolini e conta com capa, projeto gráfico e ilustrações do talentoso Santiago Régis, que para o projeto escolheu trabalhar com a técnica de colagem. O artista conseguiu captar diversas nuances da obra nas imagens que criou, portanto, estamos diante de uma obra onde texto e imagem dançam juntos e formam uma edição de encher os olhos. Uma das minhas preferidas está entre as páginas 46 e 47. Santiago, ao pensar no projeto gráfico, escolheu um local especial para a ilustração de uma porta que ficou bem na dobra entre uma página e outra. Quando chegamos nessa página temos a impressão de estarmos literalmente abrindo uma porta. 


Thamires Mussolini escancara muitas portas nesse livro. Ela se coloca e nos coloca diante de nós mesmos. Convida os leitores e leitoras para uma experiência muito íntima, as vezes quase sagrada, mas não no que o sagrado tem de devoção cega, mas naquilo que ele tem de devoção à vida com tudo de bom e ruim que ela carrega. Thamires nos expõe como um universo e nos joga num buraco negro ao constatar que "poderia ter sido todas as possibilidades que não fui."

Uma pizza com amor de Gui Ribeiro

Uma pizza com amor de Gui Ribeiro (Edição do autor, 2020) é um romance divertido, emocionante e também reflexivo que não tem medo de brincar com os principais clichês de uma história de amor. É daquelas narrativas que dariam um filme de comédia romântica com todos os ingredientes que o gênero pede. E falando de ingredientes, assim como numa pizza, a história de Gui Ribeiro vem com os condimentos necessários para distrair o leitor e garantir momentos de puro prazer por estar se divertindo. A pizza, que não aparece aleatoriamente no título, nos remete aos sabores e sua simbologia enquanto vamos descobrindo as motivações das personagens. No texto de apresentação, Gui dedica o livro a seus leitores prometendo entregar bom sabor e entrega rápida. Ele cumpre com sua palavra e só nos resta dar uma boa avaliação no aplicativo. 

... e que este é um meu presente de Natal para vocês. Um livro despretensioso, divertido, que vai te arrancar risadas ao mesmo tempo que, talvez, algumas lágrimas. É um livro que merecemos depois de um ano tão difícil. 


Na história acompanhamos bem de perto uma jovem chamada Emília Basile Rivera que está chegando à Itália, mais precisamente na região de Florença, com uma missão inusitada. Emília tem em mãos o que sua avó Antonela Basile chama de "rota dos corações" que seria uma espécie de mapa com lugares a ser visitado. Esses pontos teriam o poder de fazer você encontrar o grande amor da sua vida. Ainda que diante dessa premissa extremamente romântica, encontramos uma heroína nada clichê. 

Emília é uma jovem que de cara percebemos que carrega algumas dores e essas dores moldaram sua forma de enxergar as coisas a sua volta. Como a narrativa do livro nos coloca dentro de sua cabeça e tendo acesso a seus sentimentos mais íntimos, vemos que por trás de uma personalidade quase cética, existe uma mulher que ainda acredita na possibilidade de se apaixonar loucamente e de enxergar a beleza da vida em seus detalhes. As reflexões de Emília sobre relacionamento, extrapolam o aspecto romântico que geralmente são incutidos às mulheres, pois temos acesso também aos pensamentos sexuais, aos desejos e tudo aquilo que provoca tesão em Emília. "Uma pizza com amor" não cai na armadilha de colocar a mulher como a representação do amor e da paixão e o homem como o desejo e o sexo. Fugindo dessa regra, Gui Ribeiro faz algo interessante que mostra que o prazer não tem proprietário. 

Mas não há arte mais bonita do que uma mulher livre e satisfeita por estar onde está.

Nossa protagonista tem o prazo de cinco dias para percorrer a "rota dos corações" enquanto espera a chegada de sua avó e mantém contato frequente com sua mãe que ficara no Brasil cuidando dos tramites para que sua nona Antonela fosse recebida. Emília faz parte de uma família de descendentes de italianos, mas todo o tempo demonstra não possuir muitos conhecimentos sobre o país e seus costumes. Esse desencontro com o local, com a língua e com alguns hábitos vão garantir boas gargalhadas durante a leitura. Emília pode não conhecer muito sobre a Itália e nem dominar a língua, mas tem uma energia muito forte que a move que são as histórias contadas por sua avó e existe uma bela e forte história de amor na memória afetiva das mulheres dessa família. 

Minha vó acreditava que há pontos em Cinque Terre que fazem com que corações distantes se conectem. Ela sempre diz que, se uma mulher da família quisesse encontrar o amor, bastaria seguir esta lista.

Desde o momento da história, em que coloca os pés em solo italiano, Emília parece estar diante de uma maré de azar que a acompanha a cada passo. Em certo momento, como um bom supersticioso que sou, voltei algumas páginas para ver se o autor tinha nos contado se ela pisou com o pé direito ou esquerdo ao descer do avião. Várias situações engraçadas para quem lê e olha de longe, mas não tão boas se pensarmos em vivê-las, começam a acontecer com Emília, mas logo esses desencontros, essas situações desagradáveis colocarão Giovanni de Luca no caminho de Emília. Ah! Giovanni... 

Penso que na primeira parte do que ele disse, desejou-me bom dia, mas o final...
... talvez ele tenha me xingado. 

Apesar de se conectar e conviver com outros personagens durante a história, como o belíssimo e sexy Giovanni de Luca, sua amiga de juventude Nicole, que a recebe na Itália, são os momentos em que literalmente conversa consigo mesma e com a Itália que mais conhecemos o que se passa com Emília. Gui Ribeiro nos dá muitas dicas de que existem motivos a mais, uma intenção não revelada pela própria narrativa sobre o motivo de Emília estar ali. Enquanto Emília conversa com a Itália, por vezes a exaltando, e por vezes a culpando por seus infortúnios, passeamos pelos belos cenários das partes mais belas da costa italiana. Não sei se Gui Ribeiro conhece a Itália, mas a impressão que dá é de que o autor conhece muito bem cada cenário que descreve.   

A vista roubou qualquer palavra que eu pudesse ter. É como estar dentro de uma pintura. É como ver os tons mais vibrantes de pequenas casas coloridas e vinhedos que se agarram aos terraços íngremes, como se as fizesse flutuar sobre a encosta do mar, logo acima dos portos repletos de barcos de pesca, os quais se movem sutilmente com a brisa de sal que nos envolve.

Uma outra estratégia narrativa interessante é que a história passeia entre o ano de 2017, período em que a história principal se desenrola, e meados de 1940 e 41, onde acompanhamos alguns fatos importantes sobre a vida de sua avó Antonela, sua história de amor com Vincenzo Rizzi, a "rota dos corações" e um clima de guerra. Podemos dizer que em "Uma pizza com amor" temos duas histórias de amor para apreciar que se interligam de uma forma muito especial por aliar romance e memória. 

Percorrendo a rota dos corações, Emília sem perceber vai trilhando a sua própria história, enfrentando seus próprios medos, descobrindo muito mais sobre si, sua família e como nasce um sentimento de amor. Fica também o aprendizado de que a vida é uma sucessão de momentos felizes e tristes e descobrir que nem sempre estaremos bem é mais um passo para a liberdade. 

Gui Ribeiro


4 e 20 de Eduardo de Souza Caxa

 4 e 20 do Eduardo de Souza Caxa (INDEX, ebooks, 2020) é um livro que segue uma linha parecida com sua primeira publicação, o "3 e 15". É composto por uma miscelânea de gêneros literários para falar sobre a vida, o universo e tudo mais. A escrita de Caxa é muito confessional e podemos perceber que seu ato de escrever é uma das formas que encontrou de ser e estar no mundo e de procurar entender a vida, ou mesmo rir da mesma, quando o entendimento foge completamente das mãos. Se em "3 e 15" tínhamos uma presença mais forte de um humor rasgado, em "4 e 20" esse humor não desapareceu, mas aparece de uma forma mais reflexiva, meio que como efeito de suspensão da realidade, um olhar do alto para as questões de forma a ampliar o campo de visão. O ato de escrever aparece aqui também como temática dos pequenos textos e quando falamos de processo de escrita fica quase impossível não acessar o lado mais poético de ver, escutar e elaborar o mundo. 


"Escrever é despir-se. Mostrar o que exala dos poros sem revelar um naco de pele. Imprimir em outras mentes o que se leva n'alma. Ou inventar tudo isso - não importa."


"Por que escrevo?

Porque aconteceu alguma coisa, porque não acontece nada, porque pensei n’algo inteligente, porque me divirto sendo idiota, porque me encontrei com alguém, porque me encontro, me perco, porque acordei, porque não queria dormir, porque há quem goste (...) porque alivia, conforta, esclarece, organiza, porque vem, porque sim."


 Sendo assim, ler os livros de Caxa é como acessar um diário repleto de reflexões pessoais e que por seu caráter confessional e seu olhar para o corriqueiro se torna universal. Mesmo os assuntos mais complexos são transformados em conversa, bate papo de amigos ao passar pelo filtro do autor. Sua escrita é fruto das próprias vivências e tudo é construído de uma forma muito fluida. Mesmo o tema da homossexualidade aparece como uma característica inerente a quem Eduardo de Souza Caxa é, portanto você não encontrará em sua obra um manifesto ou uma intenção de limar a homofobia do mundo, mas apenas a manifestação da homossexualidade exatamente como ela deve ser - espontânea, natural e parte de quem somos. 


Derrubei os aviões


Naufraguei todos os barcos.

Descarrilei todos os trens.

Furei os pneus dos carros.

Entortei as bicicletas.

Deixei soltos os cavalos.

Destruí todas as pontes. 

Inundei todos os túneis. 

Barriquei todas as ruas. 

Desliguei os telefones. 

Troquei todas as fechaduras.

Mudei todos os meus cofres. 

Arranquei todas as folhas. 

Diluí todas as tintas. 

Calei todas as palavras. 

Demiti a minha musa. 

Soprei longe todos os cheiros. 

Esfriei todos os toques. 

Não cantei a tal balada. 

Sumi de todos os mapas. 

Esqueci todos os caminhos. 

Cancelei todas as datas.

Fugi de todas as festas. 

Desapareci dos sonhos. 

Me rasguei de todas as fotos. 

Borrei toda a maquiagem. 

Cerrei todos os meus dentes. 

Engoli todo o meu choro. 

Sequei todo meu suor. 

Apaguei minhas lembranças. 

Me deitei com tantos homens. 

Paguei caro todo o preço. 

Desatei todas amarras. 

Me perguntarão "que houve?"

Mentirei a esse respeito:

bloqueei todo contato,

só pra retornar agora. 



Eduardo de Souza Caxa faz parte de um novo movimento que vem se fortalecendo no Brasil entre os escritores e escritoras de literatura contemporânea. São pessoas que escrevem independentemente de ter uma grande editora por trás de seus projetos. São pessoas que escrevem por necessitarem de se posicionar nesse mundo insano e a escrita foi a ferramenta que melhor acolheu seus anseios. O mercado editorial, que na maioria das vezes está preocupado com as vendas acima de tudo, acaba se fechando para a descoberta de novos escritores e a cada nova voz não publicada quem perde somos nós e o futuro da nossa literatura que precisa cada vez mais lutar contra taxação de livros e políticas governamentais que não enxergam o livro, a leitura e as bibliotecas. Leiam autores independentes, leiam mais mulheres, leiam mais negros, literatura indígena e LGBT's para construirmos um país onde todo tipo de narrativa importa.