Minha Teogonia: trechos de uma tragédia urbana de Jordi Lucena

Minha teogonia: trechos de uma tragédia urbana do Jordi Lucena (Chiado Books, 2021) é um livro com ares de auto ficção que desafia o leitor a acessar diferentes tipos de sensações. Esse desafio se apresenta pelos temas que a obra carrega e pela sua própria estrutura textual. Ao olhar para a cidade e sua selvageria, Jordi Lucena fala também sobre um caos do qual somos vítimas e responsáveis, uma vez que a cidade reflete exatamente o modelo de sociedade que construímos (conscientemente ou não). Trata também sobre um caos que é interno e quando paramos para observar o desfilar das tragédias urbanas encontramos a nós mesmos.


Tenho especial apreço por livros que olham para o cotidiano, para as coisas aparentemente comuns ou banais e as eleva a uma temática a ser discutida. Quase sempre um universo se abre. Jordi Lucena não só faz isso, como o faz com uma crueza necessária e com uma independência de filtros que faz a gente se arrepiar. O autor apresenta um livro que olha ao redor, olha para as pessoas e sua aparente despreocupação com censuras e o politicamente correto permitiram que o texto desenhasse muito bem nossas feridas.


Na previsão do tempo dizia:

hoje à tarde é sol

e de noite é caos.

Dentro do caos eu sou belo.

Muito se engana quem pensa que na crueza não é possível encontrar beleza. Seja em formato de poesia, de prosa, de um mini conto percebemos que Lucena sabe manusear as palavras. “Minha teogonia” não obedece a uma ordem específica ou cronológica e como o próprio título diz, as temáticas vão se desenrolando através de trechos, como se fossem fluxos de memória. Ao mesmo tempo que Jordi apresenta uma narrativa em formato de texto poético, em seguida pode partir para uma prosa de apenas uma página ou um texto curto que mais se assemelha a um conto.

Através desses trechos, contos, poesias e fluxos de pensamento o autor aborda a violência em suas diversas manifestações e os tipos de maneiras que encontramos de driblar um caos que nos parece inerente à própria existência. Jordi fala de amor e de falta de dinheiro, fala de vida e de morte, fala de encontros e desencontros, de amizade e de sexo.

Sinto-me um pouco desconfortável de estar na vida, de estar nesse mundo onde as pessoas vão embora de uma forma tão brutal, independente do tamanho de seu coração, ou do brilho bonito que sai de seus olhos.

O narrador do livro fala muito sobre tudo que o cerca, portanto, além de falar de si, acaba dizendo sobre tudo que observa e acaba exercendo influência sobre suas vivências. Essa característica somada a uma ideia de exploração do próprio pensamento transmite para a obra uma escrita que se apresenta desprovida de estereótipos. Jordi Lucena faz inúmeras provocações sobre o próprio ato de escrever e a visão que temos daquilo que é considerado arte.

A escrita de Lucena está mais voltada para a literatura marginal. Durante a leitura fica a impressão que seu afastamento do cânone literário é mais do que intencional. A sensação que a escrita do autor me trouxe é de que estamos, simplesmente, diante de algo que não necessariamente obedeceu a um projeto, mas diante de uma produção fiel a uma visão de mundo e estilo de vida que não se permitiria encaixar numa norma e que tem a expressão artística como norte. Assim como a literatura marginal nasce como uma forma de enfrentamento à repressão e exaltação de identidades invisibilizadas, acredito que a obra de Jordi Lucena faça parte da mesma natureza.

Uma das coisas mais ricas de “Minha Teogonia” é essa quase investigação sobre o que fazemos com aquilo que nos rodeia. E principalmente o que fazemos com aquilo que é triste, com aquilo que dói, que é violento, que nos faz mal. Quando falamos do não-dito é que realmente alcançamos possibilidades concretas de entender quem somos, onde estamos e onde iremos chegar.

As Sete Irmãs: a história de Estrela da Lucinda Riley

A irmã da sombra: a história de Estrela da Lucinda Riley (Editora Arqueiro, 2016) é o terceiro volume da série “As sete irmãs”, uma saga familiar que narra a busca de cada uma dessas mulheres por suas origens. O ponto de início de cada volume é a morte de Pa Salt, a figura paterna e adotiva que elas conhecem, e que ao partir deixou pistas para que elas fossem atrás da própria história, caso quisessem. Como ponto em comum, elas possuem as coordenadas de seu local de nascimento registradas numa esfera armilar instalada no jardim da casa que foram criadas e uma carta de despedida. As demais pistas vão variando conforme a história e servem como guia para interligar passado e presente.


Quanto mais avançamos na história de cada irmã, conhecemos mais detalhes sobre a família D’Aplièse, enquanto a figura de Pa Salt só fica mais nebulosa e instigante. Não sabemos o porque do homem ter reunido todas as meninas em uma mesma casa, nomeando-as com os nomes das estrelas da constelação das Plêiades, grupo da constelação do Touro. A única certeza que temos é que elas cresceram cercadas de muito carinho e todas devotam um grande amor pelo pai. Nem mesmo as filhas conhecem o passado de Pa Salt e a única pessoa que parece conhecer suas intenções é Marina, a tutora das irmãs, mais conhecida pelo apelido carinhoso de Ma.

Lucinda Riley não perde o fôlego. Ela nos conta a história da terceira irmã com todos aqueles elementos característicos dos demais volumes da série, como a vinculação de personagens e acontecimentos históricos reais com acontecimentos e personagens ficcionais, uma rica exploração das localidades onde a história se passa explorando questões como a cultura, costumes e idioma, através de uma narrativa muito bem amarrada, que passeia entre passado e presente para traçar uma árvore genealógica.

Estrela começa a encontrar as trilhas para sua origem em Londres, Inglaterra. Uma das pistas de seu pai a levam para uma livraria especializada em livros raros e lá ela conhece o excêntrico Orlando, dono da livraria Artur Morston que devota sua vida aos livros e não perde um leilão de obras raras e especiais. Orlando, inclusive, recebeu esse nome em homenagem ao famoso romance de Virginia Woolf.

Embora já estivesse acostumada ao inglês entrecortado falado em Londres pelas classes mais abastadas, meu novo amigo levava esse conceito um pouco além. Um verdadeiro inglês excêntrico, pensei, e isso me fez gostar dele. Aquele homem não tinha medo de ser exatamente quem era e eu sabia que isso exigia muita personalidade.


Estrela é uma apaixonada por literatura e sonha escrever seu próprio livro, então sua ligação com Orlando e a livraria garantem passagens muito interessantes do livro. Os diálogos entre Estrela e Orlando são uma delícia e servem para demarcar a importância da literatura e dos livros na formação da personalidade da protagonista, além de estabelecerem raízes com sua geração passada. A própria livraria é um elemento importante na investigação sobre o passado de Estrela.

Uma personagem real que aparece em “A irmã da sombra” é a clássica escritora de literatura infantil Beatrix Potter. Em suas pesquisas sobre o passado, com a ajuda fundamental de Orlando, Estrela chega até à Flora MacNichol, que parece ser uma peça chave para entender suas origens. Flora foi uma grande amiga de Beatrix Potter e no desenrolar da relação entre as duas, Lucinda Riley vai pincelando acontecimentos reais e ficcionais,  onde fica difícil perceber o que é fato e o que é ficção. Outra personalidade real da história é Alice Keppel, célebre figura da sociedade londrina. Keppel era uma das amantes do rei Eduardo VII, mais conhecido como Bertie, e o monarca era visita frequente da casa em Portman Square. Violet e Sonia eram filhas de Alice Keppel. Aos dez anos, Violet conheceu Vita Sackville-West, que era dois anos mais velha. Uma intensa amizade cresceu entre as duas jovens que se tornaram amantes na idade adulta.

O livro vai se desenrolando entre passado e presente através dos diários de Flora MacNichol que começaram a ser escritos por volta de 1909 e dos pensamentos de Estrela. Devido à personalidade de Estrela, a sua narração é extremamente importante para o livro. Por ela ser uma personagem introspectiva, conhecemos mais detalhes sobre sua vida através dos seus pensamentos do que através de seus diálogos com outros personagens. Estrela é uma mulher em busca de suas origens, mas também de sua própria voz.

"- A música é o amor à procura de uma voz" - falei entre os dentes, citando Tolstói. Agora precisava encontrar a minha voz. E também a coragem para usá-la.

A faceta silenciosa de Estrela também é explorada através da relação com sua irmã Ceci. Desde crianças, e também porque foram adotadas quase que na mesma época, as duas estabeleceram uma relação de quase simbiose. Elas nunca faziam nada separadas e depois de adultas se jogaram no mundo, atendendo mais a um desejo aventureiro de Ceci do que de Estrela. Ceci sempre foi a voz de Estrela e assim, meio que sem perceber, Estrela foi se tornando a irmã da sombra. Quando decide investigar sua família de origem é que, consequentemente, Estrela e Ceci vão se distanciando para poderem encontrar a si mesmas.

Um diferencial desse terceiro volume de “As Sete Irmãs” é que temos a voz de Ceci como uma estratégia narrativa necessária para contar a história de Estrela. De todos os livros, acredito que seja o que tenha mais participação de uma das irmãs que não seja a que protagoniza o livro, pois, no caso de Ceci e Estrela se torna quase impossível contar a história de uma sem passar por suas vivências em comum.

“A irmã da sombra: a história de Estrela” é um livro cheio de surpresas, reviravoltas e pistas que remontam aos dois primeiros volumes da série, o que demonstra a destreza de Lucinda na concepção da saga. Ela consegue fazer ligações com cenas já acontecidas em outros volumes, só que agora sob a ótica de Estrela, o que faz com que nós, enquanto leitores, tenhamos um quadro mais amplo dos acontecimentos. Com certeza, podemos esperar que alguns fatos do terceiro volume serão explorados nos livros que dão sequência a saga. Isso colabora com uma espécie de mapa mental que vamos construindo conforme mergulhamos em cada história contada.

HEARTSTOPPER: de mãos dadas (vol. 4) da Alice Oseman

Heartstopper: de mãos dadas da Alice Oseman (Editora Seguinte, 2022) é o quarto volume da famosa série de quadrinhos que conta a história de amor de Charlie Spring e Nicholas Nelson. A cada volume acompanhamos mais um passo do relacionamento dos garotos e as questões que acompanham o processo de se apaixonar. Em “de mãos dadas”, Alice Oseman insere a discussão sobre saúde mental de forma bastante delicada, informativa e responsável. Mostra como se dá o processo de descobrir um transtorno alimentar e os caminhos para se procurar ajuda.


Como Heartstopper é uma história que explora as descobertas, traumas e amores da comunidade LGBTQIA+ na adolescência, o tema da saúde mental se torna ainda mais urgente. Durante muito tempo esse foi um assunto pouco discutido, mas que sempre teve consequências graves na formação da juventude. Problemas como bullying, homofobia, transfobia e falta de apoio familiar, podem gerar ciclos violentos no processo de aceitação de um indivíduo enquanto LGBT e ter acesso a uma história que trata dessa realidade de forma responsável é um grande ganho.

Nick foi uma das primeiras pessoas a perceber que Charlie não possuía uma relação muito saudável com a alimentação. É interessante como Alice construiu a narrativa de forma a mostrar o olhar de um terceiro diante do transtorno alimentar de alguém, pois o mais comum é o não-entendimento da condição do outro. Nick inicia um processo de pesquisa sobre o tema e sobre formas de tratar a questão com Charlie, o que é uma deixa para falar sobre afeto, criação de uma rede de apoio e busca por tratamento profissional.


Quando falamos sobre saúde mental é muito importante desmistificar algumas ideias pré-concebidas sobre o assunto. Existe muito preconceito em relação ao tema e principalmente sobre o seu tratamento. Histórias como a de Heartstopper podem contribuir para que jovens olhem para sua própria saúde mental, identifique pontos que merecem atenção, para então procurar a ajuda necessária.

Para os que ficam do Alex Andrade

Para os que ficam do Alex Andrade (Confraria do Vento, 2022) é um romance que nos coloca de frente para o que a vida pode se transformar se a gente se distrai vivendo a infelicidade. Ana se vê diante da responsabilidade de cuidar de seu pai que está com Alzheimer e tendo como cenário um apartamento onde colecionou momentos bons e também de violência, vamos percebendo as diversas formas de solidão que uma mente pode estabelecer como defesa contra as agruras da vida, sendo a pior delas o silêncio.



Praticamente enclausurada no apartamento da família e com a rotina pesada de cuidar de alguém com a saúde debilitada, Ana vai dando margem para que vários episódios traumáticos de sua vida aflorem. Relembra a distância emocional que tinha com sua mãe (agora falecida), as violências executadas por um de seus irmãos (completamente negligenciadas pelos pais) e um relacionamento que começou com promessas de felicidade e se transformou em uma relação abusiva com episódios de violência doméstica.

A narrativa se desenrola como um fluxo de pensamento. Em um parágrafo Ana pode estar descrevendo o seu primeiro encontro com aquele que viria a ser seu marido, para em seguida, sem qualquer aviso, partir para a descrição de uma de suas surras por um motivo extremamente banal. Essa forma de contar a história é um dos pontos mais ricos do livro. Além de navegarmos pela mente da narradora, vamos nos dando conta de a quantas anda o seu processo de adoecimento e como alguns acontecimentos deixaram marcas profundas.

Meu pai imóvel na cama, deito ao seu lado, toco no seu braço para ver se ainda vive, fico em silêncio profundo para ouvir a sua respiração, tenho presságios, medos, sustos bobos no meio da madrugada, e o tempo vai passando, o dia vai surgindo, a manhã nascendo

O livro possui várias discussões importantes e sem dúvida a condição das mulheres é a maior delas. Alex Andrade conseguiu tecer um texto realista sobre o peso que as mulheres carregam desde sempre e acredito que tenha utilizado de referências femininas bastante representativas em sua vida. Apesar da licença poética e ficcional concedida pela literatura enquanto arte, poderia ter suado um tanto quanto inverossímil ou até mesmo presunçoso uma voz masculina dizendo sobre dores tão pungentes e particulares, o que não é o caso de “Para os que ficam”. Existe muito respeito, cuidado e cumplicidade no texto do autor.

Entre muitas outras heranças do patriarcado e do machismo, temos de cara a repetição de algo muito comum na maioria das culturas. Quando um pai, uma mãe ou um familiar muito próximo adoece e precisa de cuidados, principalmente relacionados ao fim da vida e a velhice, quase sempre é uma mulher que fica a cargo dos cuidados. É como se existisse uma regra não dita de que cuidar é papel de mulher. No romance Ana cuida sozinha de seu pai, apesar de ter mais dois irmãos homens.

Eu tenho quarenta e sete anos e, se eu tiver sorte, sobrevivo como quem emerge de um mergulho malsucedido, se o mundo me permitir, onde quer que eu esteja, com as cores que o cenário apresentar, mesmo nos sonhos, mesmo que embriagada, ainda tragando a fumaça do cigarro para não embaçar a visão, talvez eu mereça, talvez o mundo conspire.

Ana é uma mulher que experimentou diversos tipos de violência e com o tempo foi criando caixas para se esconder. Em busca de algum tipo de conforto ou de identificação, a personagem não percebia que era exatamente na busca pelo outro que se encontrava suas prisões. Desde criança tinha a mania de se fechar no banheiro quando a ansiedade gritava, como uma forma de se isolar daquilo que a fazia mal. Ela dizia que “aquele era o único lugar onde poderia escapar de toda a dureza”. Quando adulta, em mais um momento de isolamento no banheiro é que ela terá umas das iluminações mais importantes de sua vida.

Assim como o se fechar no banheiro é uma metáfora poderosa da obra, a TV sempre ligada do apartamento também pode ser analisada de diversas maneiras. A TV que nunca parece dizer nada de importante está sempre ali, acesa, gerando ruídos, como se isso inserisse aquela casa em alguma sensação (irreal) de participação na vida que continua a correr. A televisão aparece como aquele elemento que não deixa esquecer que existe vida além daquelas paredes e para além de seu próprio sofrimento, ainda que seja uma vida através de um filtro e que Ana estivesse alheia a tudo que estava sendo dito.

Um outro ponto interessante é que o pai de Ana, entre um momento e outro de lucidez, está sempre perguntando: “Que horas é essa?”. Isso causa um desconforto para nós enquanto leitores e acredito que também para a personagem. “Que horas é essa?” quase sempre aparece de forma provocativa. É uma pergunta que pode ser lida como uma indagação do próprio pai sobre sua morte, a possibilidade de descanso. Uma outra interpretação possível seria uma provocação do pai sobre quando viria o momento de virada na história de sua filha, do tipo “Que horas é essa Ana?”, “não seria sua hora de viver e se libertar?”.

O silêncio tornou a nos rondar feito um cão nos espiando. Para que servem as horas se estamos perdidos no tempo?

É exatamente quando Ana começa a se libertar de seu estado frequente de torpor perante a dor e de se esconder atrás da embriaguez, que ela começa a enxergar as horas e também se lembra de que seu pai sempre dizia que “mergulhar era a solução para entender o desconhecido”.


O livro de ouro do universo: mistérios da astronomia e da ciência do Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

O livro de ouro do universo: mistérios da astronomia e da ciência do Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (Harper Collins, 2019) é um livro super indicado para quem gosta ou tem curiosidade sobre questões do universo e da astronomia. Logo nas primeiras páginas percebemos que seu intuito é repassar, com uma linguagem acessível, os principais conceitos e conhecimentos que ajudaram a moldar a astronomia como a conhecemos hoje. O livro percorre um período histórico desde a antiguidade, onde o universo era analisado pelo viés dos mitos e das religiões, passando pela sua exploração através de meios científicos rudimentares e que fantasticamente vem sendo comprovados graças às novas tecnologias.


Podemos dizer que o livro é uma obra de apresentação à astronomia, então acessaremos conceitos básicos e definições bem didáticas sobre a história da astronomia, sobre as características dos corpos e planetas e principais figuras que ajudaram nas principais descobertas sobre o universo.

De fato, desde a mais remota Antiguidade, a importância dos astros foi enorme na vida econômica e social da humanidade. Como não possuíam um calendário preciso que lhes permitisse prever com segurança a ocorrência do início das estações e, portanto, a época da semeadura e colheita, os povos primitivos eram – em especial os camponeses – obrigados a observar o céu.
O livro segue trazendo curiosidades sobre a astronomia como a mais antiga das ciências e como seu histórico por muito tempo esteve vinculado á astrologia, assim como o fato de que os conhecimentos astronômicos dos homens do neolítico foram muito mais avançados do que até recentemente se supunha.

Em seus diversos capítulos, somos apresentados a conceitos de arqueoastronomia, outros sobre a formação das constelações, os tipos de eclipses, e também um breve relato sobre os principais povos que se debruçaram a estudar a área. Então lemos sobre a astronomia na Mesopotâmia, astronomia Chinesa, astronomia Egípcia, astronomia Grega e astronomia na Idade Média.

Quando o livro passa a explorar o que é conhecido como “Nova astronomia”, conhecemos cientistas e pensadores que direta ou indiretamente, foram fundamentais para as principais descobertas sobre o universo como Nicolau Copérnico e Isaac Newton. Nos capítulos sobre astronomia espacial, sabemos um pouco do salto que a astronomia deu quando começou a lançar seus foguetes e sondas de exploração.

A exploração do Universo iniciou-se em 1946, quando um foguete V.2, recuperado na Alemanha, foi equipado e lançado pelos norte-americanos com um dispositivo destinado a medir as emissões solares em raios X, cuja existência era considerada como muito provável, mas que só poderia ser revelada por observações fora da atmosfera terrestre.


A partir da nova astronomia, passamos a ter mais detalhes sobre o sistema solar, seus movimentos e o status do Sol como responsável pela manutenção da vida no planeta. O livro conta também com capítulos dedicados a cada um dos planetas do nosso sistema e os principais dados que temos em relação a eles e suas estruturas. Uma grande parte é dedicada ao período de exploração da lua pela missão Apollo, que foi uma das maiores conquistas do homem em relação ao espaço.

“O livro de ouro do universo” suscita ainda mais nossa curiosidade e fascínio pelo universo. Como estamos vivendo um dos momentos mais importantes e emocionantes da astronomia, o livro de Ronaldo Rogério se torna ainda mais importante por mostrar de onde partimos. Além de todo conhecimento antigo que vem sendo comprovado, dos rovers que estão em solo marciano e das inúmeras sondas que nos dão notícias sobre diversos corpos e estruturas do universo, na última semana fomos presenteados com as primeiras imagens mais profundas do universo, graças ao telescópio James Webb. Ele foi lançado em 25 de dezembro de 2021 e hoje está localizado a cerca de 1,5 milhões de quilômetros da Terra. Durante a leitura do livro de ouro do universo temos a percepção de até onde a inteligência humana pode nos levar e de que estamos engatinhando se pensarmos na imensidão do universo.


Em má companhia de Vladimir Korolenko

Em má companhia do Vladimir Korolenko (Carambaia, 2016) é uma novela russa com um forte viés social. A trama se desenvolve a partir da análise crítica de um modelo bem conhecido por nós, onde alguns tem muito e outros nem mesmo um lugar para morar. Através de uma narrativa que coloca a desigualdade em rota de colisão com lugares de poder físicos e simbólicos, Korolenko desenha personagens, cenários e situações tão bem escritos que nos sentimos parte daquela pequena cidade bolorenta onde a história se passa.


Logo de início já me chamou atenção a destreza de Vladimir Korolenko ao descrever a ambientação da história e as características das personagens. São momentos em que o texto beira o lirismo sem perder o pé no chão que a história pede. Como a novela dá voz a pessoas em situação de vulnerabilidade e repudiadas pela comunidade, existe depois de cada vírgula uma intencionalidade de explorar os tons reais de uma sociedade desestruturada, ao mesmo tempo em que a escrita insere vez ou outra um tom de prosa poética. Ela aparece nos momentos que o autor descreve a própria decadência da cidade, que aos olhos do texto literário é algo bonito de se ver, assim como nos momentos que nos apresenta figuras extremamente exóticas que desfilam pelo vilarejo.

“Em má companhia” conhecemos a história de um menino de família rica, filho de um importante juiz local e órfão de mãe. A falta de afeto no próprio lar o leva a experimentar ainda muito cedo a vivência nas ruas e por conta disso o garoto acaba se aproximando de pessoas muito pobres, marginalizadas e em situação de rua. O garoto, de certa forma, via-se marginalizado pela relação distante que possui com o pai e pela opinião pública que o colocava na condição de vadio e vagabundo por conta de seu espírito livre.

Do alto de seus privilégios, o personagem se depara com uma realidade distinta e mostra uma grande dificuldade em entender a condição daquelas pessoas que sofrem tantas privações. Como tem uma personalidade mais voltada para a empatia e que beira a ingenuidade, ele começa a fazer alguns movimentos de aproximação. Enquanto faz isso, acaba ajudando as pessoas a matar a fome e outras necessidades básicas, mas o que percebemos é que por trás de suas ações, existe também uma necessidade de se relacionar afetuosamente, de fazer parte de um grupo, de ser visto.

Talvez como uma estratégia narrativa, Korolenko ambienta a história em uma cidade que parece estar longe de tudo, onde a maioria das edificações estão muito velhas ou em ruínas, mas que caminha pelas normas não ditas da elite. Inicialmente, os mendigos e desabrigados da tal cidade vivem em um castelo em estado de abandono e quando o autor localiza a extrema pobreza, literalmente dentro de um tipo de habitação historicamente vinculada a reis, rainhas ou pessoas muito ricas, ele nos ajuda a traçar um panorama crítico sobre como a sociedade se organiza. E o faz através de um constante estado de desconforto.

Da montanha viam-se a ilha e seus enormes álamos negros, mas o bravo e arrogante castelo ocultava-se da vista da capela graças à vegetação espessa. Somente naqueles momentos, quando o vento forte vinha dos juncos e atacava a ilha, os álamos balançavam e, atrás deles, viam-se o brilho das janelas e parecia que o castelo lançava para a capela os seus sombrios olhares. Agora, tanto o castelo quanto a capela transformaram-se em cadáveres. Os olhos do castelo se apagaram. Já não lançavam o reflexo dos raios do sol da tarde; o teto da capela afundara em alguns lugares, o estuque das paredes ruira e, em vez do repique alto do sino de cobre, corujas entoavam seus maus augúrios.

“Mora no castelo” tornou-se sinônimo de grau extremo de pobreza e de decadência social.

Assim como o castelo ganha um viés completamente desvinculado daquilo que já conhecemos, o jovem protagonista da história, através de uma trajetória de aproximação do mundo real vai conhecendo melhor a estrutura da sociedade e como a desigualdade se mantem. O mergulho do personagem em um realidade que não era propriamente a sua deixa algumas lições nas entrelinhas sobre justiça social, combate a preconceitos e empatia que muito tem a ver com a própria trajetória de vida do escritor Vladimir Korolenko.

Mar sem fundo da Nina Morena

Mar sem fundo da Nina Morena (Quintal Edições, 2021) é um livro de poesias sensível e que utiliza da simbologia do mar para falar da profundidade até daquilo que é aparentemente raso. É um livro que nos desafia a olhar para a profundidade e que nos mostra ao mesmo tempo que existem fundos inalcançáveis e alguns da profundidade de um pires, mas que ainda assim carregam um universo. Aborda temáticas contemporâneas que não deixam de explorar temas clássicos do texto poético como o cotidiano, as relações, o amor, os desejos, as descobertas, as desilusões e tudo aquilo que nos faz sentir vivos.


Mar sem fundo é o livro de estreia de Nina. Diante de suas palavras, que dançam diante de nossos olhos, podemos perceber que estamos diante de uma poeta que sabe bem o que faz. Seu texto sugere sempre a ideia de movimento e esse movimento se demonstra nas temáticas e também nas estruturas textuais escolhidas. Alguns poemas andam de mãos dadas com o molde mais clássico da poesia, enquanto outros apostam numa prosa poética mais livre. Alguns se aproximam da ideia de uma poesia visual, que é o caso de “equilíbrio”.


Quando paro para pensar em todo o contexto da obra, nas sensações que a leitura me trouxe, no projeto gráfico e as temáticas tratadas, a palavra que sempre me vem a mente é imensidão. E no fim das contas acho que é uma boa palavra para surgir quando falamos de poesia. A poesia quando quer ser grandiosa, ela o faz com mestria, e quando ela quer falar sobre o dito simples, pequeno ou ínfimo, ela alcança a imensidão ainda que não queira. A boa poesia tem o poder de ampliar a tudo como uma lupa e por vezes alcança a imensidão a níveis microscópicos.


Gosto dos poemas

sem rimas

que escorregam

feito pipa interrompida por cerol

do toque contínuo do

relógio

da estação

enquanto conto os

níqueis

e olho ao redor se ninguém

me encara

enquanto procuro

razão para voltar os onze

quarteirões a pé

só para dizer que o tom azulado do cabelo

da atendente da cafeteria

é sublime

na hora do encontro não pude dizer

porque qualquer desvio de atenção

me assemelharia ao motorista

de ônibus que não se atenta à estrada

e isso, eu não gosto

em compensação

gosto de ler as placas de trânsito

proibido parar e estacionar

circulação exclusiva de bicicletas

sempre penso na

vastidão de possibilidades

se eu tivesse uma bicicleta

e se essa bicicleta tivesse um cesto

de palha na frente só para carregar tangerinas

gosto de assistir a filmes que eu já sei o final

mesmo quando

o protagonista morre

o importante é esperar o que vem depois dos créditos

é sempre depois dos créditos que se sabe se a trama contina
“Mar sem fundo é permeado de lembranças e memórias afetivas que casam com a ideia do profundo. Tanto nas questões referentes a memória, quanto as diversas temáticas que se apresentam ao longo dos poemas, podemos percebê-las como espécies que habitam esse mar sem fundo que é a gente mesmo. As questões que nos permeiam, que nos formam e nos transformam são como a calda de uma baleia, que as vezes se mostram na superfície, mas que são bem maiores em sua essência. São como um navio naufragado, que desceu para os confins, que não é mais perceptível no horizonte, mas que está lá no fundo, se desmanchando em ruínas e virando essência. Assim como Nina finaliza o poema “água mole em pedra dura” dizendo que “no vácuo, tudo ecoa/ explosão é silêncio.”


Uma separação da Katie Kitamura

Uma separação da Katie Kitamura (Companhia das Letras, 2021) é um romance angustiante sobre uma mulher e seu processo de luto após o fim do casamento. Christopher, seu ex-marido, pede que a separação fique um tempo em segredo e a protagonista da história, que não sabemos o nome, acolhe seu pedido. Apesar de não sabermos o nome da nossa narradora, ela será a personagem com quem travaremos mais intimidade durante a narrativa. Uma intimidade moldada pela perda, pela dor, pela despedida e uma maneira pouco usual de lidar com todos esses sentimentos.


Quando imaginamos o cenário psicológico do fim de um casamento, é inevitável não pensarmos em drama. Imaginamos pelo menos um dos lados envoltos em um sofrimento traduzido em lágrimas, discussões, gritos e por vezes até agressões. A história de “Uma separação” nos surpreende por mostrar um término regido pelo acordo. Isso não quer dizer que não exista dor, mas acima dela está a certeza da necessidade do fim, do fechamento de um ciclo.

Como conhecemos apenas o ponto de vista da esposa e o que ela quer nos mostrar sobre si (que não é pouco) e sobre quem está a sua volta (que é sempre duvidoso), suas reflexões serão a régua pela qual mediremos os sentimentos explorados no livro. A segunda surpresa vem pela forma mais fria e calculista com que ela resolve todos as questões envolvidas com sua situação. Consegue ser pragmática diante da dor. É impossível imaginá-la levantando o tom de voz e muito menos se debulhando em lágrimas. A sua dor funciona por outra ordem e é essa ordem que acompanhamos na narrativa.

Quando recebe um telefonema de Isabella, sua ex-sogra, perguntando sobre o paradeiro do filho, a narradora precisa lidar com o peso do segredo da separação e com o fato de que não tem notícias de Christopher a bastante tempo. Apesar de não poder dizer nada sobre a separação, ela não tem escolha a não ser assumir que também não sabe onde Christopher está. Assim, Isabella acaba descobrindo que seu filho está passando uma temporada, aparentemente a trabalho, em uma ilha grega. Nossa narradora embarca para uma viagem com lugar muito bem definido que a levará para lugares internos ainda não acessados.

Começou com um telefonema de Isabella. Ela queria saber onde Christopher estava, o que me botou na posição constrangedora de ter que lhe dizer que eu não sabia. Isso deve ter soado inacreditável para ela. Eu não lhe disse que Christopher e eu estávamos separados fazia seis meses e que eu não falava com o filho dela havia quase um mês.

“Uma separação” tem como pano de fundo uma ex-esposa a procura de notícias do ex-marido, mas não é um livro de mistério. A narradora se movimenta na busca pelo ex-marido, mas não é um livro sobre Christopher. É uma narrativa com camadas mais profundas. Como nem mesmo ela sabe se quer ou não ter notícias sobre o ex-marido, a viagem para a Grécia se torna mais uma possibilidade de encontro com seu próprio eu.

Na busca por Christopher, ela começa a pensar sobre as raízes da decisão de manter a separação em segredo. Começa a ver com os olhos da razão todo o histórico de seu relacionamento com o ex-marido e com os sogros. Passa a observar as pessoas a sua volta, como a população do vilarejo e os funcionários do hotel, e esses momentos nos mostram diversos outros elementos sobre sua personalidade.

Quando imaginamos o cenário geográfico do fim de um casamento, pensamos em quartos fechados em busca de solidão. Katie Kitamura subverte essa ideia e coloca a personagem em movimento, lidando com estranhos e caminhando por um vilarejo que recentemente ardeu em chamas. E o que seria o fim de um casamento senão um terreno que acabou de arder em chamas e agora precisa lidar com o horizonte de cinzas até que novo sinal de vida brote. 



Arlindo da Luiza de Souza (Ilustralu)

Arlindo, quadrinho escrito e ilustrado pela Luiza de Souza, Ilustralu (Editora Seguinte, 2022) carrega importantes discussões sobre amor, amizade, família, sexualidade, identidade e diversas questões dentro do contexto da adolescência. Acompanhamos a rotina do jovem Arlindo, um menino sensível e sonhador, que assim como a maioria dos meninos gays, precisa lidar com a própria sexualidade muito antes de estar pensando sobre isso. A homofobia é tão cruel que ela se antecipa ao próprio processo de descoberta que deveria ser individual e que passa a ser de domínio público à medida que qualquer sinal considerado “fora da norma” seja detectado. 


A Ilustralu conseguiu criar uma história que causa bastante identificação nos leitores por diversos motivos. O primeiro deles se refere a forma leve, bonita e responsável com que trata da diversidade sexual. É uma história que não deixa de falar sobre as micro e macro violências vividas pela comunidade LGBTQIA+ e aproveita para a partir delas, falar sobre a força de se entender enquanto sujeito para a formulação da própria identidade e da própria individualidade. Existem alguns trechos que batem forte, principalmente para quem precisa o tempo inteiro justificar a própria existência.

Assim como Heartstopper, o quadrinho se coloca em um lugar de tratamento da temática da diversidade, da descoberta enquanto LGBT, do namoro e da paixão adolescente através de um olhar mais positivo e humano. A gente torce muito pelo Arlindo e seus amigos. O ótimo texto da Luiza, junto à exploração de uma ilustração que aposta no amarelo, rosa e preto vívidos, prendem nosso olhar na página e é difícil deslocar a atenção daquelas cores tão vibrantes dando vida a um traço muito divertido.


Um outro motivo que vale exaltação é a ambientação da história. Arlindo vive numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. Então vemos desenrolar a nossa frente uma história brasileira até os ossos. É divertida a forma como a Luiza utiliza de muitas características que ajudam a demarcar muito bem a brasilidade da história e vai ainda mais fundo ao utilizar de alguns termos ou jargões típicos de quem é do norte. Acho sempre válida a popularização de histórias que fogem do eixo do Sudeste, mostrando que o Brasil é muito mais rico e diverso do que nos é oferecido para consumo nas grandes livrarias.

Luiza usa e abusa também das referências do final dos anos 90 e início dos anos 2000. Essa ideia foi uma das mais felizes na minha opinião. Seja no cantinho de uma estante do quarto de Arlindo, numa música que está tocando, num filme que estão escolhendo na locadora (que não pode esquecer de rebobinar), nas próprias vestimentas e referências da cultura pop, vemos uma homenagem a um período recente, mas que já deixa aquela nostalgia para quem foi adolescente nos anos 2000. Arlindo se diverte e sofre ao som de Sandy e Júnior e Pitty, os personagens trocam mensagens através do saudoso msn, leem as revistinhas da Turma da Mônica, entre outras referências que acaba se tornando divertido procurar, pois muitas delas aparecem de forma muito sutil nas ilustrações.


Para além de tudo temos a personalidade cativante de Arlindo. Tanto a descrição do personagem, quanto o traço escolhido para representa-lo fazem com que o leitor já se identifique muito rápido com o garoto. Arlindo é muito especial e assim como milhares de garotos só gostaria de ter a oportunidade de viver as habituais etapas da vida. A sua trajetória é atravessada pelo preconceito e pela homofobia, mas também fortificada pela sua capacidade de buscar seu lugar no mundo e de poder contar com uma importante rede de apoio no âmbito das amizades, da escola e da comunidade em que vive. Arlindo é um quadrinho mais do que indicado para todas as idades.

Pequena enciclopédia de seres comuns da Maria Esther Maciel

Pequena enciclopédia de seres comuns da Maria Esther Maciel (Editora Todavia, 2021) é um livro divertido que convida os leitores a conhecer alguns seres bastante íntimos e outros nem tanto, que habitam nosso planeta e nosso imaginário. A autora brinca com a estética dos clássicos manuais naturalistas utilizando de um texto que mistura elementos científicos e biológicos com escrita poética. As ilustrações da Julia Panadés aparecem como um importante elemento, pois, somado à escrita de Maria Esther nos transporta para o universo dos seres comuns com boas pitadas daquilo que também faz parte do imaginário social em relação a cada ser catalogado na obra.


Este livro talvez não exista. Ou melhor: sua inexistência é o que, provavelmente, o justifica enquanto livro. Foi escrito por uma bióloga que não é bióloga, mas finge ser uma, na medida do impossível. Já os seres vivos nele incluídos – todos classificados segundo certas peculiaridades de seus nomes comuns – têm uma realidade irrefutável: seja pela ciência, pela literatura ou por nenhuma das duas.

Maria Esther Maciel separou o livro em três partes. A primeira dedicada a todos os seres que são conhecidos para além de seu nome científico e apelidados de “marias – alguma coisa”. Nada mais brasileiro que isso. Um exemplo é a Maria-dormideira, “que é uma planta sensitiva que recolhe suas folhas em resposta a alguns estímulos” e que fez parte da infância de muitos brasileiros. Quem nunca se divertiu passando o dedo nas folhas da “Maria-dormideira” só pra ver ela se fechar lentamente diante de nossos olhos? O livro apresenta também a “Maria - sem vergonha”, que recebeu esse nome por ser “uma planta fácil, que se adapta sem problema a qualquer terreno”. É daquele tipo de planta que nasce em areia e também em asfalto.

A segunda parte do livro é dedicada aos joões. Entre “João – baiano”, “João – bobo”, “João – cachaça” e outras dezenas de joões destaco, como diz a autora, “o joão mais óbvio do reino dos bichos”: o João-de-barro.

De dorso marrom-avermelhado e cor ocre no ventre, tem sobrancelhas explícitas. As cores da pena variam de acordo com o território em que ele vive. Na Argentina, por exemplo, onde é tido como a ave símbolo do país, elas tendem a uma certa palidez cinza. Por ser arisco, prefere o aconchego de sua moradia. Aliás, é um arquiteto de primeira, construindo sua casa de forma exímia, junto com sua parceira. Feita de barro, palha e esterco, tem formato de forno e pode pesar até doze quilos.



Na terceira parte desfilam os seres nomeados “viúvas e viuvinhas”, como o pássaro “Viuvinha – de – óculos” que possui uma auréola ao redor dos olhos, lembrando óculos. A famosa e temida aranha “Viúva – negra” cuja fama “se deve ao fato de que devora o parceiro após a cópula”.

Na quarta parte aparecem os “Híbridos”. São aqueles seres que recebem nomes conjugados de espécies completamente diferentes por estabelecerem algum tipo de similaridade (muitas vezes apenas física), como o “Arbusto-borboleta”, o “Bagre-sapo”, o “Besouro-rinoceronte”, o “Bromélia-zebra, e outros seres que nos causam divertimento e diversos tipos de outros sentimentos e sensações por sua aparência. São seres que se parecem com outros e que por isso acabam recebendo nomes populares divertidos. O “Besouro-rinoceronte” é um inseto com chifre curvo no meio da testa, a “Gazela- girafa” um antílope com pescoço e pernas super longas, o famoso “Peixe-boi-da-amazônia”, um grande vegetariano com corpo de morsa e traços bovinos.

A diagramação do livro dá destaque aos nomes populares de cada um dos seres e logo em seguida apresenta seu nome científico. Assim, a obra funciona também como uma espécie de livro informativo e divertido sobre os tais seres comuns. Para além disso, chama atenção a forma leve e despretensiosa com que a autora construiu o texto, que apresenta informações científicas de cada ser, mas também incrementa com uma ou outra informação que tem a ver com sabedoria popular, crendices, culturas regionalizadas e demais facetas da nossa imaginação na relação com os animais e as plantas.

Há poucos dias li um tweet da escritora Noemi Jaffe, onde ela dizia que: “quem olha para a floresta e vê árvores, terra e bichos, tem a si mesmo e ao outro assegurados e pode viver com alegria. Quem olha para a floresta e vê madeira, metais e pasto, não reconhece a si e nem ao outro e precisa da destruição para compensar esse buraco.” O “Pequena enciclopédia de seres comuns” me remeteu exatamente a essa visão. Maria Esther Maciel olha com olhos de ver para os seres e através de seu texto poético nos lembra que somos todos, bichos, plantas, flores e seres humanos partes de um mesmo sistema.