Dois amores de Paulo Lins

 Dois amores do Paulo Lins (Editora Nós, 2019) é um livro curto e muito contundente por nos colocar cara a cara não só com dois amores mas também com duas formas de enxergar uma realidade que costuma ser vista por apenas um ponto de vista. Acompanhamos dois meninos pobres do Rio de Janeiro, ambos no início da adolescência e que já vivenciam as mazelas da rua. O diferencial da obra é que além de explorar o lado duro da história de vida de dois meninos privados de direitos básicos, a história também nos mostra esses garotos como sujeitos que possuem sonhos e necessidades típicos da adolescência e onde a luta para saciá-las passa pela régua da desigualdade social. Ser adolescente é uma saga ainda maior para quem é vítima do sistema. Algo que para muitos é simples e banal, como ter um tênis novo no pé para impressionar duas meninas só é alcançado depois de vender muita bala no sinal. 


Os dois garotos que são irmãos, passam a se dedicar ao trabalho de descer para o centro do Rio de Janeiro, saindo de Queimados na Baixada Fluminense, para vender balas no sinal e fazer diversos outros bicos com intuito de comprarem tênis novinhos e chegar causando no baile funk. Enquanto isso, a narrativa vai passeando pelas dores e alegrias de viver nas ruas. Com um texto inteligente e irônico, Paulo Lins vai trabalhando com diversos tipos de dualidades que desenham as realidades por outras lentes. O texto nos provoca a todo momento, desafiando o senso comum sobre o dia a dia das ruas, dos personagens que transitam pelas esquinas e da própria cidade do Rio de Janeiro. 

A solução ainda é a rua, mesmo que o ultravioleta não bata direito na veia, nem no desejo que se incendeia nos pênis dos meninos. A molecada queria baile funk, comprar tênis pra dançar funk, funk na quadra da escola de samba que rola aos domingos, beijar a boca de Soninha, beijar a boca de Celinha, dançar, segurando na cintura, fazer a dança da bundinha, se esfregar no corpo dela, Lulu na Soninha, Dudu na Celinha. Têm que estar bonitos, têm que estar na frequência da onda, pra dançar conforme a música, e têm que ter tênis que foi feito colorido, o publicitário foi lá e bolou, a TV veiculou, o Diabo abençoou e colou.

 "Dois amores" olha para o que os jovens querem e desejam para além e apesar da desigualdade social e da violência. Paulo Lins quebra com um ciclo da invisibilidade, mostrando que por trás de uma vivência que precisa pensar o que vai e se vai comer amanhã, existe um sujeito travando uma luta pelo direito de viver a subjetividade de ser humano. A saga em busca do tênis maneiro é uma metáfora para a busca de uma vida maneira onde se possa ter pelo menos o mínimo para viver com dignidade.

Queriam ter grana, parece que rico já nasce de tênis caro para não sofrer. 

A localização da história bem no período da adolescência ajuda a abrir diversos outros campos de interpretação para o livro. Em "Dois amores" a adolescência se torna um lugar por conta de todas as suas nuances, urgências, necessidades e descobertas. É uma fase onde corpo e mente estão a ponto de formar uma explosão, como uma supernova que poderá definir o trajeto de uma vida. 


Paulo Lins nos diz que "todo carioca é povo de rua" e explora muito bem a cultura, os costumes, os maneirismos e a linguagem do povo pobre do Rio. O autor mescla uma linguagem por vezes ácida e dura com uma prosa poética sensível e bonita que nos faz "saber as cores todas do pega-varetas."

Ganharam dois pares de tênis. Sujos, suados, deitaram em colchonetes imundos já de tênis novo no pé.

                                                                                      

A pediatra de Andréa Del Fuego

A pediatra da Andréa Del Fuego (Companhia das Letras, 2021) é um livro ousado e que nos faz pensar se existe alguém que não tenha pensamentos sórdidos na vida. É um questionamento que vem ancorado no quanto é possível se identificar com alguns dos pensamentos da personagem Cecília, uma pediatra que não gosta de crianças, uma mulher que não pensa duas vezes em ser a amante, que coloca suas opiniões como verdades incontestáveis, que tem posicionamentos classistas, machistas, homofóbicos, que cria narrativas irreais e preconceituosas sobre a maioria das pessoas que a rodeiam, que trata a empregada como alguém que pode ser facilmente descartada e que enxerga sua profissão como um estágio acima na esfera social. Cecília é uma personagem fascinante porque utiliza de uma das facetas mais maravilhosas da literatura, que é acessar o outro lado, uma outra vida, uma outra maneira de pensar. Cecília permite aos leitores experimentar a não coerência ao longo das cento e cinquenta e nove páginas do livro. Ela é o desenho perfeito de uma anti-heroína com traços assustadoramente reais. 


Na história acompanhamos mais os pensamentos do que as falas de Cecília. Quem nunca se pegou tendo um pensamento que se envergonharia e nunca diria em voz alta? Em "A pediatra" a voz que se manifesta é apenas essa, a voz da sordidez. E assim, como muitos de nós, Cecília não diz nada do que pensa e temos acesso a essa faceta de personalidade por ficarmos diante de sua voz narrativa politicamente incorreta. Andrea Del Fuego trouxe quase para o campo do real uma personagem que geralmente não assumiríamos uma admiração, por mais que existam muitas Cecílias por aí. O ambiente ficcional atenua a nossa culpa e nos deixamos seduzir por essa mulher sem filtro e pouco caráter. Chegamos a achar até irônico e engraçado Cecília olhar para um desafeto enquanto se imagina incendiando seu rosto para apagar o fogo com o sapato. 


Acredito que o que permite essa vivência leitora, entre muitos motivos, é um movimento parecido com o que acontece quando torcemos e incorporamos os bordões das vilãs das novelas das oito, quando vibramos pelo sucesso do serial killer de um thriller cinematográfico e vemos ou lemos com sangue nos olhos uma narrativa sobre vingança. De certa forma, acessamos um lado da nossa personalidade que precisa sempre ficar adormecido pela ética, pela moral, pelos bons costumes e convenções sociais. Cecília acaba sendo um retrato de cada um de nós em principalmente em relação a uma certa covardia ou uma tentativa de não ser processado ou preso, de nunca dizer realmente o que pensa e algumas pessoas poderão se sentir mais próximas do que gostariam de sua canalhice. 


A relação que a personagem estabelece com a própria profissão é algo muito comum de se encontrar se formos analisar detidamente as pessoas com quem convivemos. Apesar de sempre buscarmos a felicidade, a satisfação e o sucesso na vida profissional, é muito comum acontecer de fazermos aquilo que foi possível fazer ou aquilo que iria satisfazer uma terceira pessoa ou o desejo da família e com Cecília não é diferente. Ela tem total consciência de que a medicina não é sua paixão mas que também é possível ser muito competente no que se faz seguindo exatamente o que seu campo de trabalho pede enquanto técnica. 

Ninguém notava que eu tinha pouca vocação e paciência para ser médica, a boa formação garantia que eu não fosse processada, fazia bem-feito o feijão com arroz, procedimentos que qualquer pediatra faz escondiam minha inaptidão. Meu caso é comum, estudei medicina desapaixonada, com o pai no leme.

Cecília tem a pediatria como uma garantia de viver confortavelmente e de ocupar um cargo que lhe detêm um tipo de poder. Uma das formas que ela encontrou de não perturbar sua paz foi fugindo de casos complicados. Se uma criança aparece com algum sintoma para além dos habituais, ela logo encaminha para um outro especialista. Sempre em fuga das doenças crônicas.  "Detesto crianças e não sou eu quem as trata, mas a medicina que estudei."


A narrativa abraça com força a crueza de pensamento de Cecília. Andréa Del Fuego passou longe da prosa poética como uma forma de representar um fluxo de pensamento sem filtro, sem arrependimentos e cheio de certezas absolutas. Como Cecília conversa consigo mesma não há necessidade de floreios. Os capítulos são curtos e rasgados, como alguém que não está convidando para o diálogo e simplesmente vomitando sua visão de mundo independente de qualquer circunstância. Cecília olha para a realidade e tira suas próprias conclusões, como se estivesse aviando uma receita médica, só que diferentemente da medicina, onde ela tem a certeza da técnica e do conhecimento científico, na vida não existe receita que seja incontestável. 


Cecília trava uma guerra íntima contra Jaime, um pediatra que trabalha em parceria com as doulas e que estimula as técnicas de parto humanizado. Digo guerra íntima, pois é mais uma das opiniões de Cecília que ela guarda para si. Ela não ousa confrontar o pediatra e nem mesmo nenhuma das doulas de forma direta. Seu ódio pelas doulas, pelas parteiras e o parto humanizado vira uma obsessão, uma afronta para ela que acredita no método científico acima de tudo. 

Doulas procuram cursos de enfermagem obstétrica que, elas têm certeza, vão levá-las ao patamar de alguma coisa diplomada. Elas se aproximam de pediatras permissivos que acabam aceitando-as porque as mães passaram a exigir babás de mulher adulta ocupando espaço físico e emocional. São dependentes químicas, viciadas em parto natural, em que se deleitam com a aventura sem ter que subir a montanha, vampirizando o parto alheio para aspirar ocitocina, através da bruma potente do nascimento. Sem contar que, para elas, o médico pediatra em cena nada deve interferir no espetáculo da assistência natural, o médico fica em pé no canto do apartamentinho como fator de suporte psicossomático, faz de conta que temos médico, mas sem a medicina.

 

Cecília vai transitando entre suas obsessões. Tem uma facilidade de se obcecar por situações e pessoas e o mesmo acontece com a relação extra conjugal que vive com Celso, o pai de uma criança que ela ajudou a fazer o parto. Eles se tornam amantes e dessa história vão surgir diversas outras situações que mostram para o leitor até onde pode ir a capacidade da pediatra de criar suas narrativas sobre tudo e todos e como sua mente está adoecida. Nós só conhecemos cada personagem pelo olhar maldoso de Cecília, portanto, podemos dizer que não os conhecemos realmente, uma vez que muitas das interpretações da médica vão se mostrando irreais e bastante pessoais.  


"A pediatra" é um romance interessante para o contexto em que vivemos atualmente. Um tempo onde se cobra coerência o tempo todo, onde formas de se relacionar, de se pronunciar e de viver estão passando por uma grande revolução, onde o dito "cancelamento" está sempre a espreita. A apresentação de uma personagem como a criada por Andrea Del Fuego, nos coloca frente a frente com algumas questões, mostrando que não só Cecília, mas que também cada um de nós pintamos a vida sob a técnica do chiaroscuro e que nascer e viver também tem lá seus perigos. 



Suíte Tóquio de Giovana Madalosso

 Suíte Tóquio da Giovana Madalosso (Editora Todavia, 2020) é um livro que começa sem segredos. A primeira frase nos diz: "estou raptando uma criança." A partir daí, é quase impossível não embarcar em umas boas horas de dedicação à leitura, que a cada capítulo vai ampliando as vivências pessoais de duas mulheres de universos completamente diferentes e que se ligam pela condição de mulher e pela forma, também diferenciada, de como vivenciam a maternidade. Uma maternidade que ganha outras dimensões e nos convida a pensar além do que está posto, uma vez que por trás de toda mãe está uma mulher forjada por questões muito mais amplas que os papéis de gênero e que leva em conta que ser mãe também é uma construção social. 


Maju trabalha para Fernanda. É babá da pequena Cora. Enquanto Maju sonha com a possibilidade de ser mãe, Fernanda delega quase que todas as funções do que se espera de uma mãe dedicada a Maju. É assim que cresce um amor maternal entre a menina e a babá. Já Fernanda dedica toda sua atenção ao trabalho, do qual é muito bem sucedida e a um caso extra conjugal. 


Partindo dessa premissa de uma relação empregatícia, Giovana Madalosso constrói de forma muito inteligente uma narrativa que esbarra em questões sociais que são um retrato do nosso país. Maju praticamente molda toda sua vida de acordo com as necessidades de Fernanda e Cora, a ponto de, entre outros tantos absurdos, se estabelecer um momento de "visita íntima" entre Maju e seu companheiro, para que ela pudesse realizar o sonho de engravidar. É uma relação que esbarra na prisão e na posse. O próprio título do livro escancara essa espécie de exploração da elite com a classe trabalhadora. Suíte Tóquio é o apelido que Fernanda dá ao quartinho de empregada de Maju. Nome colocado como uma forma da patroa se sentir melhor, mesmo colocando-a em um cômodo apertado. 

Para compensar, transformei aquele quarto de empregada num lugar claro, descolado e dotado de amenidades como tevê e frigobar, um quarto que poderia muito bem ser a suíte de um hotel japonês. E por isso, e para me sentir menos escravocrata, batizei o cômodo de Suíte Tóquio.

 Fernanda também apelida as babás do bairro de "o exército branco" em referência ao conhecido uniforme que as babás dos bairros mais ricos usam no horário de trabalho. As ruas e as pracinhas tomadas por uma legião de babás que dedicam todo seu tempo a cuidar dos filhos dos patrões. 


Ficamos diante de duas maneiras distintas de pensar a maternidade. Maju aparenta ser uma mulher que doaria toda sua vida à criação dos filhos e Fernanda já se apresenta como uma mulher com necessidade de viver experiências para além da maternidade. Existe uma inadequação a esse posto de mãe e ela se encontra em um estágio onde consegue, não sem uma dose de culpa, questionar o lugar em que a mulher é colocada a partir do momento que se torna mãe.

Apesar de exausta, não consegui dormir. Fiquei pensando de onde vinha a raiva que a minha filha sentia de mim. Uma raiva por ser subjugada, talvez a mesma que eu sentia por ser subjugada pelo papel de mãe.

Fernanda escancara certos tipos de insatisfações e questionamentos que para muitos sequer pode passar pela cabeça de uma mãe. Ainda é um grande tabu pensar na figura da mãe como um ser humano dotado de particularidades. A sociedade quer crer na sacralização da maternidade e qualquer discurso que coloque em risco esse olhar sagrado não é visto com bons olhos. Sendo assim, o livro presta um grande serviço ao dar voz a esse lado vulnerável que as mulheres precisam enfrentar, mostrando uma personagem que talvez nem fosse mãe caso não existisse tanta cobrança social em torno dos papéis que precisam ser desempenhados pelas mulheres. 


"Suíte Tóquio" fala sobre os desafios de ser mãe para a mulher da classe média e da classe média baixa, mostrando algumas semelhanças e como as dificuldades aumentam quanto mais frágil essa mulher for no âmbito social. Criando esse pano de fundo de uma mulher que quer muito ser mãe e não consegue e de uma mulher que é mãe mas não consegue se adequar ao modelo do que se espera, Giovana cria uma história cheia de nuances e de frestas para se pensar em diversos outros recortes sobre a vivência feminina.


Maju decide sequestrar Cora e essa decisão parece ser um acerto de contas com sua vida, com sua história e com tudo o que lhe foi negado, sendo que uma parte dessa negação surgiu com uma certa manipulação de Fernanda, que através de seu poder aquisitivo criava situações para que Maju desistisse de sua própria vida para cuidar de outra família.


Algo interessante no livro é que por mais que trate nitidamente dos abismos sociais que nossa sociedade é formada, sua intenção não é de encontrar culpados ou definir quem é o vilão da história. "Suíte Tóquio" nos apresenta a realidades distintas e a algumas das circunstâncias que fizeram as coisas serem como são. Enquanto Maju enfrenta a estrada com Cora e passa por várias situações inusitadas, conseguimos sentir compaixão pela sua história e o mesmo acontece em relação a Fernanda.


O livro vai intercalando os pensamentos de Maju e de Fernanda e tanto a voz narrativa de Maju, quanto a de Fernanda vai nos mostrando perspectivas diferentes do que é ser mulher, do que é ser mãe, das relações de trabalho, das vivências amorosas, dos sonhos, dos desejos, das perdas. Quando nos coloca para refletir sobre essa idealização que existe em torno das relações de gênero e principalmente sobre o que é ser mãe, Giovana cria uma oportunidade interessante de debate sobre a condição das mulheres e inclusive o fato de que nem toda mulher precisa ser mãe. 



Estórias tétricas de Hugo Tavares

Estórias Tétricas do Hugo Tavares (Editora Trevo, 2020) é um livro que nos apresenta pequenas e fortes narrativas sobre como a violência se manifesta em nosso cotidiano. Uma violência que pode acontecer simplesmente pelo acaso e outras tantas, onde nos colocamos como arquitetos da mesma. Um diferencial que chama atenção na obra do escritor paraense H. Tavares é que podemos dizer que "Estórias Tétricas" se trata de um livro de histórias policiais, mas o que confere a característica "policial" embarca em um viés um pouco mais profundo que o mistério e a investigação. "Estórias Tétricas" aborda, por meio do texto literário, o quanto andamos sempre de mãos dadas com a violência e o que podemos definir como sua carga social.


O livro foi mais uma grata surpresa. Cada vez mais fico entusiasmado com o que vem sendo produzido pelos jovens escritores brasileiros. É animador perceber o quanto a nossa literatura contemporânea segue forte, sem medo de apostar nas temáticas e experimentando no que diz respeito às formas de se trabalhar com as narrativas e as palavras. Hugo Tavares aposta em uma escrita rápida, nua e crua que diz o que se propõe a dizer sem deixar de abrir brecha ao que é da conta do leitor: o direito de ler e interpretar conforme suas próprias vivências.

O título do livro é um grande indicador do tipo de leitura que iremos embarcar. Se formos buscar, literalmente, o significado de 'tétrico' no dicionário veremos que ele nos diz que tétrico é: 1. muito triste, fúnebre/ 2. que causa horror; horrível, medonho. Os onze contos do livro caminham exatamente por esse caminho, apostando em uma escrita que é medonha por apresentar manifestações da violência que geram sangue e morte, mas também aquelas que afetam a mente e a forma com que os personagens passam a viver após uma vida muito próxima do que há de mais violento na natureza humana.

A figura do policial, aquele sujeito que dedica a vida ao combate ao crime e a violência e que as vezes se torna o próprio executor desses atos, é apresentado de uma forma nua e crua e, portanto, muito humana. Temos aquele policial que acredita no que faz e que repete sempre para si o mantra da importância de se "atuar dentro da lei" e aquele que após tanta proximidade com a maldade resolve fazer justiça com as próprias mãos ou usar a justiça como uma forma de manutenção do poder.

Em alguns dos contos, que inclusive foram os meus preferidos, acontece um flerte com a literatura fantástica. Enquanto os contos mais realistas exploram a realidade crua das ruas e da realidade, criando uma aura de cigarro, cerveja, violência e corrupção, os fantásticos nos colocam de forma muito sutil atrás de uma cortina de fumaça cheia de insinuações abertas à interpretação.

As histórias ambientadas em Belém do Pará são fortemente marcadas por esse posicionamento geográfico, então podemos perceber muito de Brasil, mas também de algo que é muito regional em histórias que poderiam estar nas manchetes de grandes jornais como também na boca do povo.

Vamos da violência doméstica ao crime urbano em histórias que vemos as pessoas experimentando situações limite e até de vida e morte. Algumas passagens são pesadas e duras e outras apostam em um humor ácido. O tempo todo vamos nos perguntando qual é o limite entre a humanidade e a selvageria, assim como aquilo que nos faz humanos ou seres tomados da urgência de sobreviver custe o que custar.



A história de Ppibi de Song Jin-heon

 A história de Ppibi de Song Jin-heon (Editora Positivo, 2015) é um livro sensível que convoca texto e imagem para contar uma história com muitos aprendizados sobre respeito, diversidade, compaixão, convivência, tristeza e amadurecimento. O narrador lembra de sua infância e de sua breve aproximação de um garoto chamado Ppibi, que era tão conhecido quanto ignorado na comunidade em que vivia por todos o considerarem diferente. Ppibi estava sempre sozinho. 


Ppibi é um menino diferente dos outros: isolado, quieto, muito na dele. Certo dia o narrador da história, então um garoto, conhece Ppibi , e os dois começam uma silenciosa relação de amizade e confiança um no outro. Mas, com essa aproximação, o narrador começa a ser evitado pelos outros colegas, como Ppibi sempre tinha sido. Ele é obrigado, então, a fazer escolhas e a lidar com sentimentos complicados, como a tristeza, a compaixão e a culpa.

 A forma como o autor descreve a personalidade, os gestos e a forma de se fechar para o mundo, nos sugere que o garoto apresenta algum nível do transtorno do espectro autista, e por não conseguir agir da mesma forma que os outros garotos agem na escola e nos entornos de uma floresta local - lugar preferido para as brincadeiras das crianças, Ppibi anda sempre sozinho e é julgado pelos comentários e olhares de todos. Mas Ppibi parecia amar a floresta e seguia sempre com seu ritual de embrenhar por algumas trilhas. 

Ppibi levava um punhado de gravetos e batia na cabeça com um deles. Batia com força até o graveto quebrar. Depois começava a bater com outro. Fazendo esses ruídos secos, ele caminhava pela floresta. Até o sol se pôr e sua mãe vir buscá-lo e levá-lo para casa. 

Um dia, o narrador que já se sentia curioso em relação a Ppibi, resolve se aproximar enquanto brincava na floresta e aos poucos se torna uma espécie de companhia nas caminhadas de Ppibi. Nascia uma amizade que era feita de silêncio. O narrador se sentia confiante a embrenhar pela mata na companhia de Ppibi. Com ele não sentia medo. 


O silêncio e as pausas que fazem parte da narrativa do livro são estratégias interessantes para a história que Song Jin-heon nos conta. O silêncio e as pausas aparecem em formato de texto e também são explorados de forma imagética. Temos imagens do narrador em grupo, em convivência com outras crianças, mas sempre com olhos voltados para Ppibi, que até então era exemplo de excentricidade. Quando o narrador passa a caminhar ao lado de Ppibi, as ilustrações exploram uma espécie de abraço da floresta aos dois garotos e o que vemos é imersão e sensação de pertencimento a um espaço.


As ilustrações de Song Jin-heon que utilizam de uma forma belíssima da técnica do grafite, conseguem explorar as sensações e os sentimentos que são apresentados no texto e abrem brecha para que os leitores incluam também as suas. 


A chegada do Shaun Tan

 A chegada de Shaun Tan (Edições SM, 2011) é um livro ilustrado que presta homenagem às histórias de migrantes e imigrantes de todo o mundo. Utilizando apenas de imagens, a narrativa nos mostra o esfacelamento de uma família que precisa se separar de um pai que irá embarcar em uma jornada para uma terra desconhecida. Shaun Tan é um artista reconhecido pela beleza de seu trabalho gráfico e também pelo toque fantástico e surrealista que emprega a muitas de suas obras. Em "A chegada" essa característica aparece muito bem empregada na missão de transportar para os leitores sensações de não-pertencimento, deslocamento, estranhamento, medo do desconhecido e muitos dos choques culturais que fazem parte da partida de sua terra para um lugar desconhecido. 


Com uma edição primorosa, somos logo impactados pela imagem da guarda do livro. Ficamos diante de ilustrações de dezenas de rostos de imigrantes vindos de diversas regiões do mundo. Assim, o livro já faz um movimento contrário ao que se vê em relação às vivências de pessoas imigrantes - o estigma da não existência, do invasor. Para essas ilustrações, Shaun se inspirou em fotos reais de passaportes tiradas em Ellis Island, Nova York, no período entre 1892 e 1954. 


Partindo da história de uma família que precisará se dividir, vemos representados em cada página uma homenagem a cada pessoa que precisou se separar de sua família, de seu país e de seus costumes para conseguir sobreviver. Nas primeiras páginas, frame a frame vemos o desenhar dos afetos e das memórias daquela família que tem medo e também esperança de que esse seja um passo significativo para uma mudança de condição. Enquanto o pai embrulha seus poucos pertences, embrulha também suas memórias, suas lembranças. 


A história de "A chegada" poderia ser a história de milhares de famílias que tiveram seus direitos violentados, assim como também representa de forma subjetiva os diversos motivos que leva alguém a partir. Com muita sensibilidade e destreza Shaun Tan apresenta diversas situações e deixa muitas pistas nas imagens. Não sabemos se a família está buscando novas oportunidades por conta da fome, de uma guerra, de uma epidemia, de uma perseguição política, mas podemos dizer com toda certeza que esses e outros motivos estão representados ali pelo traço surrealista do artista. 


Uma ameaça paira sob uma cidade como a representação de todos os males que tornam a vida ali impossível para um grupo de pessoas. As cores utilizadas também nos dão alguns sinais das condições de vida daquela família e daquele povo. 


O que chama atenção na obra é também o fato de sua similaridade com o cinema. Vinheta após vinheta um filme vai se desenrolando na cabeça do leitor. As ilustrações são dispostas de uma maneira que explora ângulos que se assemelham a um movimento de câmera. Lemos a história hora de muita perto da cena, hora de longe ampliando o plano. As vezes estamos de cima e as vezes acompanhando até um movimento das mãos ao realizar um trabalho. Todos esses elementos desafiam a imaginação do leitor que vai criando a sua própria interpretação. 


O personagem esbarra com cenários fantásticos e surreais e até os animais são completamente estranhos. Podemos interpretar essa representação da realidade como a chegada de alguém a um lugar que não conhece, que não domina a língua, onde a cultura é completamente diferente e até os sabores dos alimentos são uma novidade. As diversas imagens das cidades pelas quais nosso personagem passa exploram esse estranhamento, medo e curiosidade perante o novo. É tocante alguns encontros que estabelece com outros personagens que passam por seu caminho e que contam suas histórias e as circunstâncias que os levaram a estar onde estão. 


"A chegada" é um livro recomendado para todas as idades. Shaun Tan consegue romper com a ideia de que livro ilustrado é só para crianças e nos apresenta uma obra que é também uma vivência literária e estética. Quebra também com a ideia de que a dita literatura infantil ou juvenil não pode falar sobre assuntos mais densos. Sem perder o caráter do encantamento "A chegada" é também uma obra sobre contexto histórico, sobre humanidade, artes, política, vida em sociedade, conflitos e direitos. 

HEARTSTOPPER: minha pessoa favorita (vol.2) da Alice Oseman

 HEARTSTOPPER: minha pessoa favorita da Alice Oseman (Editora Seguinte, 2021) é o segundo volume de uma série de quadrinhos que acompanha a aproximação, a amizade e a paixão de Charlie e Nick, dois adolescentes em idade escolar que vão aprendendo a lidar com os afetos, as descobertas e as dificuldades de ser adolescente LGBTQIA+. No primeiro volume acompanhamos cada passo rumo ao primeiro beijo e a euforia de se apaixonar. No segundo volume a paixão está ainda maior, mas agora precisa lidar com o processo de auto aceitação e de aceitação da escola, família e amigos. 


De forma leve e descontraída a HQ vai tratando dos dilemas da homoafetividade que se somam aos dilemas da adolescência. O texto é muito sensível ao propor uma discussão respeitosa sobre o momento em que cada um se sente preparado para encarar o mundo como uma pessoa que não se enquadra no modelo heteronormativo. Por conta da pressão social e de um preconceito ainda latente, infelizmente, o "sair do armário" é um ritual que permeia a vivência gay, que causa bastante ansiedade para um jovem em descoberta e que recebe muita pressão externa. A mesma sociedade que oprime é a sociedade que acha que pode ditar a norma, o tempo e a hora de quando se assumir ou não. 


Enquanto Charlie já havia sido tirado do armário de uma forma um pouco traumática e sofrido bullying, agora é Nick quem precisa lidar com essa questão, que se agrava ainda mais pelos estereótipos que carrega como garoto popular da escola e como atleta. Nick deseja assumir Charlie como namorado, mas possui seu próprio processo para isso, pois também está se descobrindo como um garoto bissexual e Charlie se mostra bastante compreensivo. 


 

A história traça um caminho muito interessante e de forma indireta, mostra aos jovens leitores a importância do auto cuidado, da criação de uma rede de proteção formada por amigos e da necessidade de ser sincero com os próprios sentimentos e com o que te faz feliz. É possível também se aproximar de discussões interessante sobre gênero e sexualidade que mostram que existem diferentes formas de ser, estar e amar nesse mundo. 

HEARTSTOPPER: Dois garotos, um encontro (vol. 1) da Alice Oseman

 HEARTSTOPPER: Dois garotos, um encontro da jovem inglesa Alice Oseman (Editora Seguinte, 2021) é um quadrinho que nasceu na internet como uma webcomic e uma forma de Alice explorar seu traço como ilustradora. Por conta do sucesso no número de acessos acabou ganhando uma versão física. Alice assina também o roteiro dessa história que nos apresenta aos adolescentes Charlie e Nick, dois garotos completamente diferentes que vão se apaixonando aos poucos e sentindo na pele todas as emoções  e intensidade da paixão na adolescência.


 Charlie Spring é um garoto sensível, dedicado aos estudos e marcado por episódios de bullying que sofrera na escola quando descobriram sua homossexualidade. Enquanto Nick Nelson é o cara do grupo dos populares, esportista e por incrível que pareça é um cara gentil. No início de mais um ano letivo, quando o professor de literatura está repensando a configuração da turma, Charlie e Nick acabam sentando um ao lado do outro e vai nascendo uma forte amizade entre eles. 

Um vai começando a fazer parte no universo do outro apesar das diferenças. Nick consegue convencer Charlie a se aventurar no time de rúgbi, algo completamente impensável para ele, enquanto Charlie apresenta para Nick sua rotina de membro da banda da escola como baterista. As diferenças, que antes pareciam alocar os dois garotos em mundos distintos, acaba sendo o motor para que o interesse de um pelo outro cresça.


Charlie tenta a todo custo não confundir seus próprios sentimentos, repetindo para si mesmo que Nick é hétero e, portanto, não tem chance alguma. Enquanto Nick Nelson devota a Charlie uma superproteção e carinho que começa a chamar atenção dos demais alunos da escola. A verdade é que sem perceberem os dois vão se fechando em seu próprio universo tamanho é a atração e o desejo de estarem sempre juntos. 


Heartstopper é uma obra que chama atenção pela forma singela que trata da descoberta da homoafetividade. Não seremos pegos de surpresa por uma grande tragédia, é apenas vida comum de adolescentes, mas a violência aparece implícita todo o tempo, no medo de "sair do armário", da reação da família e dos amigos, no receio do toque e da demonstração de afeto em público, que são experiências que a maioria das pessoas da comunidade LGBTQIA+ enfrentam. 

Sempre que me deparo com uma obra de temática LGBTQIA+ voltada para jovens que traz narrativas que falam sobre amor, descoberta, beijo, namoro e as demais palpitações que fazem parte do processo de apaixonar eu penso: como queria ter lido isso no início da minha adolescência. A falta de referências e de representatividade é um dos fatores que fazem parte do check list da 'não existência' e que legitima tantas violências. Só nos resta pensar "isso não é normal, eu não sou normal."

Então é sempre gratificante deparar com obras como Heartstopper, cheia de cores que nos ilustram para além da violência, que valoriza nossas vivências com uma história simples de dois garotos se apaixonando, com direito a frases de efeito e imagens fofinhas e todo um clímax até chegar no primeiro beijo. Em se tratando de obras de temática gay, as vezes, a gente precisa de uma boa dose de clichê e de água com açúcar. Poucas vezes tivemos a oportunidade de ver nossas histórias naturalizadas e com foco no afeto.

A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab

A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab (Galera Record, 2021) é um romance que trata sobre a liberdade usando a metáfora da imortalidade. Para tanto, se agarra a elementos fantásticos interessantes. Addie Larue é uma jovem que vive em um pequeno vilarejo no interior da França em meados de 1714 e que sempre se incomodou com quão pequeno era seu mundo. Uma curiosidade que até então almejava apenas conhecer a cidade mais próxima, foi se transformando em um anseio por conhecer o mundo, por conhecer outras possibilidades de vida para além do pedaço de terra em que nascera. Addie Larue tinha uma certeza: "Não quero morrer do mesmo jeito que vivi." Quando se vê obrigada a casar, seguindo a tradição da época e que se enterraria de vez naquele povoado, a jovem acaba selando um pacto com uma entidade que caminha pela escuridão.


Tomada pelo desespero, Addie ignorou um dos principais ensinamentos de Estele, uma espécie de bruxa e curandeira da região: "Não faça preces aos deuses que atendem depois do anoitecer." No meio da noite, em uma hora decisiva para seu destino, ela clama para que qualquer deus a salve daquela situação, e de repente, suas preces são atendidas. Uma entidade que se alimenta de almas só atende pessoas em situação de desespero e quando estamos nesse estado é impossível se ater com atenção a todas as palavras e nuances do acordo que está para selar. Um pacto é um pacto - por vezes, irrevogável. É um contrato com algo que pode ser um deus ou um demônio e que sempre custa muito caro.

- Eu não quero pertencer a outra pessoa - diz ela, com veemência repentina. As palavras são uma porta escancarada, e agora ela despeja todo o resto. - Não quero pertencer a ninguém além de mim mesma. Quero ser livre. Livre para viver e encontrar meu próprio caminho, para amar ou ficar sozinha, mas que seja por escolha própria. Estou tão cansada de não ter nenhuma escolha, tão assustada de ver os anos se passando diante dos meus olhos. Não quero morrer do mesmo jeito que vivi, porque isso não é vida...

A garota entrega um prato cheio à escuridão. Addie despeja tantas palavras e tantos desejos que terão consequências até então inimagináveis. Ela pede, roga para que tenha liberdade e tempo para conhecer e viver tudo o que deseja viver e nesses termos um grande pacto é selado com beijo e sangue.

Quando Addie acorda de uma espécie de transe, está exatamente onde se lembrava de estar, a mesma floresta, o mesmo vilarejo, o mesmo anseio de fuga e o encontro com a criatura da escuridão parece ter sido apenas um sonho. Mas é quando volta para casa, ao encontro de seus pais, que ela descobre que toda lembrança sobre sua existência fora apagada. Addie não existe mais para seus pais, nem para o povo do Vilarejo e com o tempo vai perceber que nunca mais será lembrada por ninguém.

Um ano que passou aprisionada dentro do prisma daquele pacto, forçada a sofrer sem morrer, a passar fome sem definhar, a desejar sem enfraquecer. Cada momento ficou impresso na sua memória, enquanto ela mesma desaparece da memória dos outros sem o menor motivo, apagada por uma porta que se fecha, por se perder de vista por um segundo, por um momento de sono. Incapaz de deixar uma marca em qualquer pessoa, ou em qualquer coisa.

No pacto selado Addie não envelhece, não é acometida por doenças, mas nunca mais ninguém conseguirá se lembrar dela. Cada pessoa que passa pela sua vida a esquecerá a cada vez que uma porta se fechar, que uma parede se colocar entre elas numa interpretação exata e cruel do seu desejo de não pertencer a ninguém.

Mas agora Addie sabe muito bem que essas histórias estão repletas de seres humanos tolos que fazem tolices, que são fábulas de alerta sobre deuses, monstros e mortais gananciosos que desejam coisas demais e não conseguem compreender o que perderam. Até que pagam o preço, e é tarde demais para voltar atrás.

O livro mescla capítulos que viajam entre o vilarejo da França em 1714 e a atualidade, que seria o ano de 2014 em Nova York. De cara já sabemos que trezentos anos se passaram, que Addie viajou pelos quatro cantos do mundo, que aprendeu diversas línguas, pois agora o que não falta a ela é tempo. Se por um lado não falta tempo, por outro Addie não pode acumular nada para si, não pode dizer seu verdadeiro nome e quando o tenta a voz simplesmente não sai. Ela não pode alterar drasticamente a realidade, como destruir coisas, aparecer em fotos ou mesmo escrever. Addie não pode deixar sua marca no mundo. "O que é uma pessoa, se não as marcas que deixa para trás? Ela aprendeu a caminhar entre os espinhos, mas não consegue evitar alguns cortes."

A escritora V.E. Schwab começa então a brincar com a ideia da existência de uma pessoa que assiste ao desenrolar da história da humanidade em trezentos anos. Quantas coisas não aconteceram em trezentos anos? Quantas coisas não foram inventadas em trezentos anos? E quanto não se pode aprender nesse mesmo tempo? Addie passeia pelo mundo e também pela nossa história, se encontra com personalidades lendárias e são essas possibilidades que não a deixam sucumbir e por fim entregar sua alma. Inicia um jogo perigoso com a escuridão.

A entidade sombria que a garota passa a chamar de Luc a visita a cada aniversário do pacto oferecendo rendição e o incrível é que quanto mais Addie vive mais sente que a vida nunca para de surpreender e que há sempre algo novo a ver e aprender. Apesar de precisar viver morando em lugares improvisados, roubando comida e roupas, estabelecendo relações que não duram mais que um dia, Addie vai encontrando, sorrateiramente, algumas maneiras de deixar sua marca no mundo até que um dia encontra com alguém que se lembra dela no dia seguinte.



Cartas para minha avó de Djamila Ribeiro

 Cartas para minha avó da Djamila Ribeiro (Companhia das Letras, 2021) é um livro que carrega consigo três vidas, três histórias e traça o retrato de três gerações de mulheres negras que enfrentaram (e enfrentam) o racismo e a opressão de gênero. Através das memórias de Djamila, que conversa de forma franca e afetuosa com sua avó que já partiu, fica nítido o quanto é possível quebrar ciclos de violência e opressão. No caso da história dessas três mulheres, a quebra se deu através de um histórico de proteção, de amor, de exemplo e da força dos olhares cúmplices. 

Enquanto faz o exercício de contar fatos corriqueiros e também decisivos de sua vida, Djamila vai mostrando aos leitores os impactos que as histórias de nossa família de origem podem causar em nossa formação. Contando sua história, Djamila mostra que sua carne também é feita das histórias de sua vó e de sua mãe. A autora usa cada página para agradecer, entender e fazer as perguntas que sempre quis fazer para sua avó, além de ser uma forma de participar mãe e vó de muitas de suas conquistas que as mesmas não tiveram a chance de testemunhar em vida. 


"Cartas para minha avó" é um livro autobiográfico, mas também um livro onde a reflexão sobre a vida, a situação das mulheres negras, o impacto do machismo, gênero e  sexualidade, educação, cultura e demais temas não poderiam deixar de existir, uma vez que fazem parte de quem Djamila se tornou. O mais bonito da obra é ver como a escritora consegue mapear a importância de sua família em cada passo de sua formação. Apesar de conter muitos trechos que narram sobre a dor e o sofrimento que enfrentaram em relação às questões corriqueiras da vida e em relação à violência do racismo, Djamila consegue ao mesmo tempo denunciar o que precisa ser denunciado e mostrar a beleza que existe na força do enfrentamento para se viver com dignidade. Djamila Ribeiro se tornou uma mulher de luta porque assim era a sua família que a fez perceber que "a sensação de direito adquirido era melhor que a sensação de dever cumprido."

Se as injustiças do mundo me deixam indignada, foi porque olhos altivos negros da cor da noite me acolheram antes que eu pudesse aprender as palavras, antes que eu soubesse o que era feminismo ou luta política. Olhos que me repreenderam quando eu estava errada e que me ensinaram a humildade de pedir desculpas. 

 A ideia de colocar em palavras tudo aquilo que não conseguiu dizer para sua avó em vida é algo emocionante. Conseguimos sentir a carga de emoção, de afeto e de verdade que Djamila coloca em cada frase. "Cartas para minha avó" é também um livro muito corajoso, pois Djamila não mostra nenhum medo de se expor e ao fazê-lo acabamos nos identificando com certas passagens de sua vida e aquelas que não servem de identificação ficam como partilhas, ensinamentos, lições e mais um motivo para admirar admirar Djamila Ribeiro como a grande pensadora que é.