O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia

 O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia (Editora Rocco, 2021) é um livro que reúne uma coletânea de contos originais de diversos escritores e escritoras que giram em torno da pandemia causada pela Covid 19. As histórias se passam naqueles primeiros meses em que as cidades começaram a implantar lockdown e as ruas se tornaram desertas. Todos os contos foram selecionados pelos editores da New York Times Magazine, que embarcaram na ideia a partir de uma proposta da romancista Rivka Galchende de fazer um novo "decamerão" inspirado na obra de Giovanni Boccaccio, um clássico da literatura, escrito entre 1348 e 1353. 


No Decamerão escrito na Idade Média um grupo de jovens se afasta das cidades que foram atingidas pela epidemia da peste negra, doença que matou mais de 25 milhões de pessoas e se refugiam em uma casa de campo como uma forma de se protegerem da doença. Lá instalados os jovens criam sua própria dinâmica de convivência e entre as atividades está a troca, o compartilhamento de histórias. A obra foi considerada um marco para o período da Idade Média pela forma como explorou as vivências humanas. Diante do medo da morte é como se as lembranças aflorassem de forma ainda mais vivaz, portanto ao invés de trocarem histórias especificamente sobre morte, sofrimento, angústia, os jovens embarcam em uma jornada cheia de histórias que exploram também o humor, a ironia, o improvável, a sensualidade, o sexo e o anticlericalismo. 


No Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia deparamos com a mesma ideia. Os editores da New York Times Magazine propuseram o mesmo tipo de imersão e a resposta dos escritores e escritoras foi muito parecida com as dos personagens do antigo Decamerão. Escolheram falar sobre a pandemia sem falar sobre a pandemia. Acontecem algumas menções ao período e boa parte das histórias se passa no tempo e espaço do isolamento social, mas os autores jogam vivência particulares e reveladoras em com desse cenário. O Projeto Decamerão é quase que uma declaração de vida diante da eminência da morte. 


O livro conta com autores desconhecidos do grande público e também com nomes como Margaret Atwood, Tommy Orange, Mia Couto, o brasileiro Julián Fuks, Colm Tóibín e o vencedor do National Book Award 2020 Charles Yu. Os contos são muito bem escritos e cada um deles nos leva para reflexões diferentes tendo o comportamento humano como âncora. O livro confirma nosso susto, incredulidade e impotência diante de um vírus desconhecido que mata e se torna um registro importante desse momento histórico que vivemos. "Quando a realidade é surreal, só a ficção pode lidar com ela." 

O Horror de Dunwich de Howard Phillips Lovecraft

 O Horror de Dunwich de Howard Phillips Lovecraft (Raposa Vermelha, 2019) foi minha primeira leitura do cultuado escritor de terror. Assim como sou fissurado em filmes e séries de horror, achei que já era hora de conferir uma publicação do autor, uma vez que é considerado um dos maiores do gênero. O que ainda estava me impedindo de ler algo do escritor foram os inúmeros comentários que expõe o racismo de Lovecraft. Um racismo que se manifestou nas opiniões do homem público em vida e em sua obra. Ainda assim resolvi encarar e me vi em uma situação inusitada, pois fiquei entre a angústia do racismo inegável de sua produção e o encantamento pela sua destreza em contar uma ótima história de terror. 


Eu não sei qual é a régua e nem como se faz a medida de até onde é possível separar obra e autor. Acho que estamos todos aprendendo isso. Com a geração do cancelamento e de um politicamente correto que nem sempre possui caráter educativo e que foca mais no linchamento público, fica ainda mais difícil saber até onde podemos ir. No caso da literatura a situação se complica ainda mais, devido a necessidade que essa arte possui de ser livre e desafiadora, de quebrar os paradigmas e nem sempre dizer o que queremos ouvir. 


Acontece que Lovecraft passa do tom. O racismo que encontramos em sua obra vai além da manifestação "natural" de sua vivência em um contexto de uma sociedade puritana, protestante e de extrema segregação racial. Lovecraft transformou essas vivências em ódio racial. Isso é muito perigoso e motor para o fascismo. Ele transporta de seu imaginário para a escrita toda a repulsa advinda de seus preconceitos, daquilo que fugiu da norma vigente da época, ou seja, o que era diferente e portanto considerado inferior. É nítido na sua escrita a transformação desse sentimento de repulsa e até de medo em história. E na sua história o diferente representa o mal. Por vezes um mal desumanizado. Lovecraft cria personagens com ares demoníacos e perturbadores que fazem referências sutis, e as vezes nem tão sutis assim, a negros, imigrantes e homossexuais. Isso para ele era parte do seu terror particular, portanto parte de sua obra. E bem sabemos que a desumanização dos negros, por exemplo, foi um dos fatores que justificaram séculos de escravidão.

- Vou dizer uma coisa , sra. Corey, está andando por aí uma coisa que não devia estar por aí e eu garanto que aquele Wilbur preto que teve o fim ruim que merecia está no fundo de tudo isso. Ele não era totalmente humano, sempre digo para todo o mundo; e acho que ele e o velho Whateley devem ter criado alguma coisa naquela casa cheia de tábuas pregadas que também não era muito humana, como ele. 


Em "O Horror de Dunwich" o personagem Wilbur Whateley é o remanescente de uma família com uma história perturbadora. Membro de uma espécie de clã que faz parte do imaginário macabro da comunidade de Dunwich por se envolverem em histórias bizarras. Eles tem o costume de subir o monte e fazer cultos satânicos no alto de uma pedra e toda a cidade sabe disso. É nesse clima de mistério que vamos embarcando na aura da história que é tão densa e pesada a ponto de fazer o leitor sentir uma espécie de mal estar com as descrições do que se sente só de passar pelo povoado. 


É sempre um alívio deixar aquele lugar e seguir a estrada estreita que contorna o sopé das colinas e atravessa a região plana até voltar à estrada de Aylesbury. Depois ficamos sabendo que passamos por Dunwich.


 


Ninguém, nem mesmo quem tem conhecimento dos fatos ligados ao horror recente, é capaz de dizer exatamente o que ocorre em Dunwich; embora lendas antigas falem de ritos e conclaves profanos de índios, em meio aos quais invocavam obscuros vultos proibidos das colinas arredondadas...

Quando o assunto é narrativa de terror a qualidade da escrita de Lovecraft é inegável. Uma das maiores destrezas do autor estava em criar um horror que focava mais em transmitir uma sensação de medo do que em fazer sangue e lodo espirrar.  A forma como ele descreve Dunwich, por exemplo, é tão imersiva que o próprio vilarejo se torna quase que uma entidade do mal. Caminhando entre as casas úmidas e decrépitas do vilarejo, onde o som de folha seca sendo esmagada pelos pés poderá acordar um espírito maligno ou um demônio a qualquer momento. Lovecraft consegue deixar o leitor apreensivo e quase chega a nosso nariz o mal cheiro que paira pela cidade e que é descrito no livro, assim como os sons misteriosos que surgem do meio da mata e do alto das montanhas. Quase sem mostrar nada o narrador nos faz ter a certeza de que algo perturbador ronda Dunwich. Existe um ronco de ódio que vive por baixo daquela cidade.


Um outro ponto empolgante da obra é quando Wilbur se coloca à caça da versão latina de um livro chamado Necromonicon, que supostamente possui códigos e cifras com poder de ressuscitar deuses e demônios do submundo. Wilbur é também um pesquisador do sobrenatural e suas pesquisas fazem com que ele viaje para outra cidade. Ele chega até a biblioteca de uma universidade, para tentar acessar um exemplar do Necromonicon, mas é barrado pelo bibliotecário (pela sua má fama e aparência). O bibliotecário transmite um alerta a todos os outros bibliotecários da região para que Wilbur não tenha acesso a obra a fim de evitar uma grande maldição. Nesse ponto existe uma exploração bem interessante sobre o poder da biblioteca e do bibliotecário que também são envoltos em uma aura mística juntamente com a biblioteca enquanto espaço e repositório de conhecimentos e segredos infindáveis. 


A edição que tive em mãos está um primor. Inclusive foi um dos fatores que fizeram o livro furar minha lista de leituras. A capa está muito chamativa e as ilustrações do ilustrador argentino Santiago Caruso dão um toque todo especial para a publicação. Santiago parece ter captado bem toda a mística que ronda a história e transportou isso para o papel de forma que texto e imagem fazem uma dobradinha perfeita no objetivo de angustiar o leitor. As ilustrações não tem só um primor técnico, mas também uma força narrativa que nos coloca dentro de Dunwich. 


Acredito que quase todo livro vale a pena ser lido. Quase todo livro possui algum potencial em acessar algo no íntimo do leitor que as vezes não é da ordem do entendimento. Tem livro que toca e tem livro que não se aproxima do nosso "eu leitor". No caso de "O horror de Dunwich" posso dizer que é um dos melhores livros de terror que já li. É um livro que vale a pena ser lido por quem é fã do gênero de terror, segmento onde é muito difícil encontrar narrativas que não caem na armadilha do óbvio. Isso não quer dizer que simplesmente deixei de lado toda a problemática racista que envolve obra e autor. Penso que também se faz necessário ler com olhos de ler, ciente de que temos ali a representação de um capítulo muito triste mas real da história da humanidade. Toda leitura possui inúmeras camadas e "O horror de Dunwich", possui uma camada fantástica que de alguma forma ferve nosso sangue de excitação e uma outra que causa incomodo e que será para sempre o preço a ser pago por quem deseja conhecer o universo de H.P Lovecraft. 


Klara e o Sol de Kazuo Ishiguro

 Klara e o Sol do Kazuo Ishiguro (Companhia das Letras, 2021) é uma espécie de conto de fadas moderno misturado com ficção científica. Kazuo não prepara de forma alguma o terreno para que o leitor entenda logo de cara do que a história trata e quem é o narrador. Conforme vamos lendo e depois de um estranhamento que nos acompanha por algumas páginas nossa visão vai se abrindo e nos descobrimos enlaçados pelas estratégias narrativas que Ishiguro teceu sorrateiramente. Klara, a protagonista da história, é uma espécie de autômato, um robô com inteligência artificial super avançada muito popular no tempo e espaço onde a história se passa e que não sabemos qual é. Esses robôs (apesar da história não usar esse nome para defini-los) são adquiridos pelas crianças para serem uma espécie de melhor amigo e fazem todo tipo de acompanhamento, desde as brincadeiras, até a educação. Tudo o que conhecemos da história acessamos pelo olhar de Klara que inicia o livro apenas com a visão que possui da vitrine de sua loja. 


 O Sol é a maneira como os AA's (como são chamados na história) recarregam sua bateria. Klara se refere sempre ao Sol como "a nutrição" e apesar de já serem programados com inteligência para apreender o mundo, os AA's também necessitam de experimentação para entender a lógica de vida dos humanos. De cara Klara entende que esse Sol tão essencial para ela possui igual importância para a vida humana. Inicialmente a vitrine da loja se torna uma escola para Klara e aos poucos ela vai entendendo que o mundo é muito maior do que aquele pedaço de asfalto, edifício, carros, pessoas e céu que se projeta a sua frente. 

Aqui devo confessar que, para mim, sempre houve outro motivo para querer ficar na vitrine, que nada tinha a ver com a nutrição do Sol ou com ser escolhida. Ao contrário da maior parte dos AAs, mesmo de Rosa, eu sempre quis ver mais do lado de fora - e com todos os detalhes.


É durante sua "morada" na vitrine da loja que Klara é avistada pela menina Josie, que depois de alguns desencontros acaba levando-a para casa. Acontece que o que Klara conhece do mundo é o que ela avistava da vitrine. Aos poucos, ao observar a menina Josie, sua família e um grupo problemático de amigos que frequenta a casa da menina, Klara começa a entender mais sobre o caráter, as reações, os dilemas e problemáticas que envolvem a vida humana em sociedade. É como se Klara tivesse passado um bom tempo vivendo como na metáfora de Platão sobre o mito da caverna. De repente ela se vê diante daquilo que é chamado "real" e ela utiliza a seu favor a grande destreza que possui para observação. 

Você acredita no coração humano? Não estou falando do órgão em si, claro. Estou falando no sentido poético. O coração humano. Você acha que existe uma coisa assim? Uma coisa que faz com que cada um de nós seja especial, único? E digamos que exista.


Kazuo nos coloca diante de uma grande alegoria para falar sobre a sociedade e humanidade. O livro é quase que um alerta para a forma como estamos construindo um mundo que prima pela tecnologia, pela informação rápida, pela comodidade e se esquecendo que ao deixar a dinâmica das relações de lado, estamos criando algo que ruirá de uma forma ou de outra. É uma história que nos leva a pensar sobre a essência do que é ser humano e do que estamos fazendo com as nossas relações e  com o planeta. 


O autor explora a ideia de que trabalhamos sempre com a manutenção das relações de subserviência, onde quem tem mais, quem dita as ordens, quem emprega se torna dono de mundos particulares. Na casa daquela família, Klara entra quase que como uma serviçal, assim como a humana que também trabalha na casa de Josie, a qual Klara aprendeu a chamar de Melania empregada doméstica, como se sua função fosse seu sobrenome. 


Por vezes temos a impressão de que Klara e a forma como foi programada possui mais possibilidade de empatia e amor ao próximo do que os próprios personagens humanos. Acredito que uma das grandes questões que o livro nos deixa é sobre o que significa ser humano? Em certo momento da história, Klara irá se ver diante de uma missão grandiosa e que colocará humanos e AA's quase que em pé de igualdade, ressaltando que a intenção do autor não era a de escrever um livro sobre tecnologia, mas sim o de maximizar ao máximo um cenário tecnológico que nos deixa nus enquanto seres humanos. 



A visão das plantas da Djaimilia Pereira de Almeida

 A visão das plantas da Djaimilia Pereira de Almeida (Editora Todavia, 2021) encara de frente um dos maiores dilemas enfrentados pela religião, pela filosofia, pelos poetas e diversas outras instâncias do pensamento: o que é ser bom ou ser mal? Mas é claro que a autora não tem a pretensão de dar uma resposta definitiva pra gente, pois então não estaríamos falando de literatura. Djaimilia coloca muitas outras questões em nossa cabeça e isso tudo com uma escrita poética de tirar o fôlego de tão artística, profunda e desafiadora. Se falar de bem e mal é explorar dualidades, a autora aproveitou dessa característica para criar uma narrativa que também é pura dualidade. Desde a personalidade do protagonista, até a representação do que poderia significar a lida e o cuidado com as plantas, existem dois mundos a serem explorados, uma espécie de Yin e Yang mostrando que na vida tudo tem mais lados do que poderíamos imaginar. A ideia para escrever essa história nasceu após a autora ter lido o livro "Os Pescadores" do Raul Brandão. O trecho que chamou a atenção de Djaimilia está na introdução de A visão das plantas.


Djaimilia conta a história de um capitão de navio negreiro que após se aposentar retorna a Portugal, para a casa abandonada de sua família com uma trajetória de violências e atrocidades. Ele sabe muito bem de tudo que fez e seus vizinhos, a comunidade para a qual retorna também conhece seus mal feitos. Carregando essa bagagem, uma trajetória assombrosa, o Capitão Celestino se joga com afinco nos cuidados de um jardim. Cercado por flores e plantas dos mais diversos tipos, Celestino se fecha cada vez mais em seu próprio mundo. A lida com as plantas parece ser a sua maneira de realizar algo de bom e delicado antes do fim de sua existência. 

Nenhuma flor lamentava a morte dos escravos que Celestino sufocara em mar alto. Os homens despejaram a cal no porão, saco a saco. Os negros viram que um pó caía sobre eles, mas não entenderam o que se passava. Os sacos de cal foram vazados no porão e a porta fechada por Celestino. Ouviram-se gemidos, pedidos de socorro e, passado algum tempo, um silêncio que apaziguou os piratas. O rapaz que lhes abrira o porão pela calada manteve-se a um canto, aturdido.

Na minha leitura, não consegui perceber um sentimento real de arrependimento pelas monstruosidades cometidas por Celestino. Acredito que o homem mantinha vívida todas as suas concepções de mundo, e o que ele fizera foi se render ao cansaço, se recolher à própria solidão por saber que boa parte das pessoas não comungariam com o que fizera durante toda a vida. Celestino começou a se ver diante de um outro mundo que não aceitaria  a sua história. 


As plantas aparecem como algo que significa o belo, o estético e o prazer para Celestino, mas também como companhias, que encheriam sua vida de beleza, que ocupariam seu tempo e o mais importante, não o julgariam. 


O retorno de Celestino para casa, para Portugal, serve como uma ótima alegoria para demonstrar a mudança de um tempo, o processo de transição da sociedade. Quando Celestino volta pra casa ele se vê em um lugar que faz parte da sua história, onde estão suas maiores lembranças, onde passou a sua infância, acontece que como ele não é mais o mesmo, aquele lugar também não teria como ser o mesmo. "A mobília não saudou o seu regresso. Não tinha mais ninguém na vida." A partir daí Djaimilia é muito perspicaz a dar vida à casa, às plantas, aos móveis e a própria poeira da casa a muito fechada. 

Abriu as portadas e o ar entrou nela como um esconjuro. Os lençóis sobre os móveis esvoaçaram e o capitão teve medo de que a alma da casa saísse pela janela e se perdesse na rua. Fechou-as de novo e, em silêncio, respirou o pó.

... a missão do jardim desgovernado era penetrar nas frinchas das portas, apodrecer a água do poço com fungos venenosos, apoderar-se da mobília, entrar nas gavetas, alastrar os ramos até aos olhos dos quadros dos velhos e levar a memória do que fora a vida humana que um dia ali tinha habitado.

Seguindo na aposta pela dualidade a única pessoa com a qual Celestino conversa e recebe visita é a do Padre Alfredo. O homem tenta convencê-lo a se confessar, a enfrentar de frente seu passado, mas naquele momento de vida de Celestino, um homem velho, rechaçado pelas pessoas e quase cego o que menos deseja é verbalizar suas atrocidades. Celestino, apesar de aparentar não fazer mais nenhuma das maldades que fazia parte do seu dia a dia, faz questão em manter sua fama de abominável viva. Assim ele mantém as pessoas longe. 

O homem previdente que ali vivia só plantava as flores do seu sepulcro. Sozinho com ele, padre Alfredo não se atreveu no passado do pirata. Tinha diante de si um jardineiro. As mãos, que outrora haviam de ter cheirado a rum e a sangue, cheiravam agora a coalho e a terra cultivada.

Celestino, que sempre fora um homem duro, bruto, um assassino, no fim da vida se ajoelha para cuidar de plantas e com um cuidado e um amor que saltam aos olhos, tanto pela dedicação como pela beleza do seu jardim. Uma mão que levantou faca, porrete e pólvora, de repente se vê podando, aguando e retirando ervas daninhas. O delicado substitui a brutalidade em devoção e silêncio. 


"A visão da plantas" trabalha com uma beleza que pode ser a beleza por si só, como também uma beleza mórbida. No livro plantas e protagonista são explorados a fundo. O silêncio de Celestino fala mais do que se a publicação se estendesse por mais de mil páginas e toda a simbologia das plantas, a sua necessidade de contenção para que não tome conta de tudo, e sua quase que indiferença ao que está a sua volta, ajudam a criar um clima em torno da leitura que é poético, mas que também é tenso. Assim como toda a história de vida de Celestino, também a lida com as plantas o aproxima da relação vida e morte. Vida e morte continuam em suas mãos. 


O livro se torna muito ousado ao mostrar um outro lado de uma pessoa com uma história pavorosa. Não é uma história de pequenos erros, é a história de um assassino genocida. É de uma coragem imensa escrever sobre a humanidade que possa existir (e existe de alguma forma) também nessas pessoas que devassam vidas. A máxima de que ninguém é só mal permeia todo o livro e de forma alguma Celestino ganha um perdão dos leitores por isso. O certo e errado, assim como bem e mal deixam de pedir uma definição para ganhar exploração. Assim, podemos refletir e conversar, deixando um pouco o julgamento de lado, e indo um pouco mais a fundo tentando entender sobre o que leva alguém a ser o que é. Djaimilia consegue se manter como uma narradora completamente imparcial e joga a história de Celestino em nossa cara. O leitor faz o que quiser com ela. 

 


Cachorro Velho de Teresa Cárdenas

 Cachorro Velho da Teresa Cárdenas (Editora Pallas, 2010) é uma obra prima. O livro foi o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas, um dos mais importantes do mundo de fala hispânica e conta a história de um negro escravizado que ainda criança recebeu o apelido de Cachorro Velho. O livro apresenta um histórico de fácil compreensão para quem conhece minimamente os impactos da escravidão em nosso país. A forma como Brasil e Cuba viveram esse período de extrema violência é bastante parecido, inclusive em detalhes como a data de abolição. Cuba aboliu a escravidão apenas dois anos antes do Brasil, em 1886. Durante toda a sua vida Cachorro Velho foi escravo em um engenho de açúcar e enquanto acessamos suas memórias, já idoso e cansado, deparamos com toda a crueldade e violência do racismo e suas consequências para corpo, alma e subjetividade de um ser humano. 


Quantos anos de vida lhe restavam: três, quatro, vinte? Toda uma eternidade? Difícil saber. Os escravos nasciam com a morte dentro de si e, as vezes, esta se mostrava de maneira caprichosa. Ou não se manifestava tão rapidamente quanto alguns prefeririam ou aparecia quando menos esperavam.


"Cachorro Velho" trás uma reflexão que para boa parte da humanidade é inconcebível se medir. Pode-se ler sobre, mas impossível alcançar uma dimensão próxima como a de quem teve o corpo marcado a ferro e chicotadas. Quais os reflexos para a alma e o dia a dia de alguém que vive escravizado? Que tem um dono a quem precisa obedecer como a um deus? A alguém que possui o "direito" de fazer o que bem entender com o seu corpo, inclusive matar? No livro Teresa Cárdenas explora essas questões de uma forma muito sensível e também chocante. A personalidade de Cachorro Velho serve de instrumento para ilustrar o absurdo da escravidão. Quando começamos a leitura "Cachorro Velho" está olhando para si, para o barracão em sua volta, para sua amiga Beira e para sua própria trajetória de vida que não o pertencia, pensando que "nunca em sua vida havia ultrapassado a cancela do engenho. Tinha setenta anos e não se lembrava de ter vivido em outro lugar."

No almoço, quando o patrão descia até o pátio da fazenda, todos deviam olhar para o chão. E se o senhorzinho cismasse de sair cavalgando pela propriedade, então Cachorro Velho devia abrir a cancela, cabisbaixo, e sem dar um pio. Para o porteiro, todos aqueles senhores eram um só. Quer tivessem cruz, bengala, cavalo, arnica, chicote, breviário ou coroa de espinhos, dava tudo no mesmo. Um escravo nunca poderia ficar ereto diante deles, e muito mesmo fitá-los nos olhos. Os escravo sabiam que o patrão era dono de suas vidas, seu senhor, aquele que decidia se eles mereciam viver ou não, se estavam prontos para constituir família, se podiam ficar com os próprios filhos, ou se estes seriam vendidos como cestas de frutas. O patrão deliberava sobre tudo que se relacionasse às suas vidas e mortes, com mais poder do que Deus, e do que todos os santos dos quais o vigário falava nos domingos. Um escravo era apenas um pedaço de carne malcheirosa, e mais nada. 

 Além de lidar com todas as agruras do trabalho escravo, Cachorro Velho, agora um senhor de 70 anos, também se vê em risco maior por conta do avançar da idade. Fora colocado como porteiro do engenho. Ele já perdeu grande parte de sua força de trabalho e teme sobre seu futuro, uma vez que um escravo que não dá conta do trabalho pode ser simplesmente descartado pelo senhor de engenho.


Uma parte tocante do livro é quando Cachorro Velho reflete sobre sua relação com o amor, com a vida amorosa. Nos vemos diante de mais uma violência do racismo, que é a proibição também dos afetos. Por medo da violência e do poder de decisão dos patrões sobre sua vida, Cachorro Velho, durante toda sua sobrevivência, acaba fazendo de tudo para impedir que o amor romântico se manifeste. O mesmo movimento de afastamento foi feito após nosso protagonista perder um amigo de forma violenta. Na narrativa percebemos o quanto a morte de seu amigo Ulundi, pelas mãos dos senhores, fez com que o afeto deixasse de ser uma opção em sua vida. 

O porteiro tinha conhecido a tristeza, a dor incessante de todas as suas perdas, a inquietação do medo que não ia embora, o cheiro ameaçador da tortura e da morte. No entanto, desconhecia qualquer coisa que tivesse a ver com o amor. Duvidava que seu coração tivesse a força ou a resistência necessárias para encontrar o caminho correto e chegar aquele sentimento.  

Assim como o amor e o afeto encontra suas formas de se manifestar na vida de Cachorro Velho, devagar e sorrateiramente, o desejo de liberdade também brota como erva daninha. Tivera uma vida inteira de privação e após um acontecimento no engenho, Cachorro Velho vê brotar o desejo de uma fuga, de alcançar os morros e chegar a um Quilombo. Nessa altura o livro nos mostra que é da natureza humana a resistência e o desejo de viver. 

Cartas para a minha mãe de Teresa Cárdenas

 Cartas para a minha mãe da Teresa Cárdenas (Editora Pallas, 2010) é um livro epistolar que é quase um pedido de socorro. Não com o intuito de que apareça um salvador para tirar a protagonista do ambiente de violência parental em que vive, mas como um auto socorro. Nele uma menina escreve cartas para sua mãe morta e em seus escritos fica nítido o amor, a admiração e as saudades que sente dessa realidade. Escrever se torna então refúgio, lembranças de tempos bons, manutenção de sua memória afetiva e desabafo, já que na casa em que mora com uma tia e suas primas precisa fingir não existir. Sua avó também está sempre presente na história e assim como os demais parentes é incapaz de uma demonstração de carinho para a menina órfã. 

Parece que vovó nasceu velha e amarga, com pouco carinho. Às vezes tenho vontade de tirar o lenço de sua cabeça e fazer carinho em seus cabelos brancos, suas mãos, seu coração. Mas tenho medo. Ela não quer que ninguém lhe dê carinho. Diz que não adianta nada, se não serve pra comer.

A cada carta endereçada à memória da mãe, como leitores vamos acessando também a história de uma família que guarda dores e tragédias. Acessamos um pouco da construção social de Cuba em relação aos pobres, a um racismo arraigado nas relações, e muito sobre o poder das crenças e da religião sobre a vida das pessoas. 


O livro expõe uma nuance do racismo que violenta fortemente a construção das identidade, pois existe uma manifestação do preconceito que convence os próprios negros da sua inferioridade. Quando consegue fazer com que o negro abrace a ideia de que está exatamente na situação em que devia estar por conta da sua cor, o racismo garante sua manutenção do controle e do poder. 

A velhinha das flores me explicou que o Deus dos negros se chamam Olofi, mas é o mesmo Deus dos brancos, só que cada um coloca nele a cor e o nome que tiver vontade... Imagino que muitos brancos não conhecem essa história. Eles não gostariam de adorar um Deus preto retinto e beiçudo, por mais misericordioso que fosse. Não iam achar bonito.

 Ao mesmo tempo que as cartas revelam as dores e violências que a menina precisa enfrentar, vai também mostrando como pouco a pouco ela foi reencontrando sua força. O livro nos deixa angustiado do começo ao fim, pois escancara a realidade da violência contra uma criança, algo que infelizmente acontece muito. Mas a menina, sempre que possível, exerce sua ironia perante a vida, reconhece intenções, atos e falas destrutivas, questiona o porque de alguns acontecimentos e por vezes temos momentos bem engraçados, que serve como um respiro para os leitores. 


Existe uma não aceitação de seu núcleo familiar que tem a ver com o racismo e um outro lado que tem raiz na história familiar. No que se refere ao racismo, Teresa Cárdenas faz algo muito interessante que é colocar a personagem principal no lugar de questionadora. Enquanto suas primas a perseguem por conta da cor da pele, do cabelo, das suas feições de menina negra, a mesma ao questionar o porque dos ataques vai chegando à conclusão do absurdo de tudo. Ela transforma a violência em auto afirmação. 


Mãezinha, encontrei um pedaço de espelho na rua. Agora, passo o tempo todo me olhando. A testa, os olhos, o nariz, a boca... Sabe de uma coisa? Descobri que meus olhos são parecidos com os seus, que não podiam ser mais bonitos, e que minha boca e meu nariz são normais... Se Deus existe, com certeza está furioso por ouvir tanta gente criticando sua obra.

Um outro acontecimento que será muito importante para a libertação da menina será a relação familiar que passará a estabelecer com outras pessoas que entrarão em sua vida. Uma velha tida como bruxa na comunidade com quem conversa e se refugia do sofrimento. E um jovem que estuda na mesma escola e que também enfrenta problemas familiares. Com ele a menina começa a descobrir o amor. 


Podemos dizer que "Cartas para a minha mãe" é um livro que exalta a liberdade, o auto conhecimento, a libertação. Ele também demonstra como nós, seres humanos, somos seres que necessitam da interação e do afeto dos nossos para enfrentar melhor os desafios da vida. Estamos diante de cartas que registram o amadurecimento e o crescimento de uma menina que utilizou das perdas irreparáveis para construção da sua individualidade. A menina escrevia para a mãe e também para si. 



A palavra que resta de Stênio Gardel

 A palavra que resta de Stênio Gardel (Editora Companhia das Letras, 2021) é o livro de estreia do autor. Stênio entrega uma prosa poética arrebatadora e coloca "A palavra que resta" entre os grandes lançamentos do ano. Com muita sensibilidade e uma escrita com um estilo muito bem marcado, o livro nos conta a história de Raimundo, um homem que ousou se apaixonar por outro homem ainda na juventude, morando em uma comunidade rural regida por princípios conservadores e convenções sociais que demarcam rigidamente os papéis de gênero. Raimundo se apaixona por Cícero, é correspondido, e ambos tem ciência de que precisam esconder a relação a todo custo. "Foi aos dezessete, num forró na quadra do grupo, que os olhos cor de terra de Cícero lavraram Raimundo." Quando são descobertos passam a conhecer de fato a natureza brutal da homofobia e suas histórias tomam caminhos diferentes. Enquanto a narrativa passeia cá e lá pelo tempo, mostrando o Raimundo jovem do sertão e o Raimundo que caiu no mundo, Stênio vai transportando para a literatura as questões sociais que impactaram a vida do personagem e sua família, como também as questões que vão de encontro à trajetória de vida de alguém que precisou se calar, por não poder levantar sua própria voz e explicitar seus desejos, como pelo fato de não saber ler e escrever. De Cícero ficaram o sentimento de amor, a saudade e uma carta nunca lida. 


A história já começa nos apresentando a um Raimundo velho. Aos 71 anos ele resolveu aprender a ler e escrever. Enquanto era jovem não teve a oportunidade de estudar, pois desde muito cedo precisou lidar com o trabalho no campo junto com seu pai. O mesmo pai que dizia que "a letra era para menino que não precisava encher o próprio prato." Na juventude e vida adulta se prendeu a trabalhos temporários e que não tinham pouso fixo. Por todos os lugares que Raimundo passou a carta de Cícero estava com ele, lacrada e quase como a representação de uma presença. 

Raimundo Gaudêncio de Freitas, traço incerto, arredio ao toque de papel. Lápis danado, domado, e ele escrevia o nome completo pela primeira vez. Setenta e um anos e essa invenção, como ele diz, de aprender a ler e escrever depois de velho. Raimundo não foi difícil. Complicado era Gaudêncio, denso de saudade, as cinco vogais e acentuado. Freitas era feito de sangue.

 A palavra que resta é uma obra sobre muitas questões. Temos ali a homofobia nua e crua, ainda que o texto não use esse termo em nenhum momento. A homofobia aparece escondida atrás da formação religiosa, da tradição, das convenções sociais e das regras ditas e não ditas sobre o papel de cada gênero em nossa sociedade. Está atrás da máscara que precisamos assumir desde muito cedo para ganhar o mínimo de respeito. Um respeito que pode custar a própria individualidade. O preconceito e o medo acabam por germinar em Raimundo e Cícero o sentimento de que são um erro, uma abominação, e como não conseguem conter o desejo acabam se contentando com um amor clandestino. 

Se encontravam quase todo dia. O risco era grande. Tudo na moita. Na moita mesmo se escondiam dos outros e se mostravam um para o outro. Homem e homem, e se entendiam muito bem, se gostavam. Gosto bom mas que deixava um ranço arranhando as ideias. 


 A vista de Raimundo escapulia até o corpo do outro, de peito duro descamisado, coberto de suor e poeira. Paisagem que desperta num pássaro preso o desejo de voar. Raimundo gaiola. 

A carta deixada por Cícero, que sabia ler e escrever, para Raimundo que não sabia, exerce um papel narrativo muito interessante para a trama. A carta ao mesmo tempo que representa toda a repressão que os dois sofreram, o sigilo da relação, a dúvida sobre um futuro juntos e sobre o destino tomado por Cícero, também representa o grande problema que é a miséria, que consequentemente pode levar ao analfabetismo. A carta representa um silêncio, que está no amor impossível e na impossibilidade de ler e escrever. 

Que invenção, Raimundo! e tu ainda consegue aprender alguma coisa? quanto mais ler e escrever, nessa altura da vida a gente tem que sonhar baixo, que a mente não alcança, nem o corpo, se tinha saúde, só a pressão um pouco alta e essa dor nas costas mas os braços e as pernas obedecendo, estava bom, e a cabeça sem esquecer também, as pessoas de ontem e de hoje, mas mesmo depois de velho parece que a gente não deixa de querer, o bom da vida é teimar...

Somado a tudo isso temos o peso do analfabetismo na vida de uma pessoa idosa. A obra passa a discutir sobre a oportunidade de resgatar um tempo perdido e de que sempre é tempo para aprender algo novo. Vamos percebendo que a trajetória de Raimundo está sempre nesse limiar entre a desistência e a resistência. Independente de todas as adversidades Raimundo acaba sempre escolhendo seguir em frente, mesmo que tardiamente.  

Sabia assinar, não tinha motivo para ficar com o documento só com a marca do dedo e ainda um carimbo vermelho, analfabeto. Tinha que trocar, que ele era outro. Saber ler e escrever estava fazendo isso mesmo. 

 "Que ele era outro". Essa passagem tem um poder muito forte de ilustrar toda a trajetória de vida de Raimundo. Ele sempre foi outro, nunca foi aquele que esperavam que fosse. Ser outro quando ninguém quer que você o seja tem um alto custo e Raimundo decide pagar por ele. Enquanto o conteúdo da carta de Cícero se torna uma expectativa para nós leitores, para Raimundo o adiamento de sua leitura parece o evitar do fim. É como se lendo a carta estivesse colocando um ponto final em uma grande história de amor. Raimundo carregou uma carta lacrada por cinquenta anos porque era como se assim continuasse caminhando ao lado de Cícero. 

Apesar de possuir passagens bem dolorosas, principalmente as que tem relação com a família de origem de Raimundo e Cícero, também mergulhamos em uma história que mostra o poder de se reinventar, de descobrir quem é e onde quer estar no mundo. É um livro que mostra que as dores podem servir como aprendizado. "A palavra que resta" fala muito sobre a exclusão que aparece das mais variadas formas, mas também fala de resistência e ressignificação. Raimundo é destruído por muitos mas também é reerguido por outros. Toda essa potência é possível porque tem como suporte uma escrita que explora a força da linguagem. Stênio se mostra um grande narrador, com um texto que tira o leitor do lugar comum e mostra que "tem palavras que a gente escuta na vida que parece poesia."


Menina a caminho de Raduan Nassar

 Menina a caminho do Raduan Nassar (Editora Companhia das Letras, 1997) é um livro de contos que trás cinco pequenas histórias. Foi o primeiro trabalho do autor que ficou muito famoso com a publicação do romance "Lavoura Arcaica." Menina a caminho foi escrito nos anos 60, mas só ganharia publicação em 1997. Dos quatro contos breves que completam este volume, três datam do início da década de 70: "Hoje de madrugada", "Ventre seco" e "Aí pelas três da tarde". "Mãozinhas de seda", o único texto inédito deste livro, é de 1996. Em "Menina a caminho" Raduan transita por diversos assuntos e alegorias, cada conto escolhe narrativas e até uma escrita completamente diferentes umas das outras. No conto que dá título ao livro, por exemplo, iremos encontrar uma escrita parecida com a que conhecemos com "Lavoura Arcaica", enquanto que nas demais histórias esse ritmo é quebrado, como se o livro fosse também uma espécie de experimentação de Raduan. 


O conto "Menina a caminho" se destaca muito na obra. Conta a história de uma garota que vive em uma cidade interiorana que não sabemos qual é. Podemos afirmar isso pela forma como Raduan explora o olhar dessa menina diante da cidade, das pessoas, das conversas, dos costumes e de um cotidiano bucólico. Também não sabemos o nome dessa menina. Ela exerce uma função no conto que é muito interessante: ela apenas observa tudo e é literalmente uma menina a caminho. Esse caminho que ela percorre é físico, pois ela transita pelas ruas dessa pequena cidade observando tudo a sua volta, como também é um caminho que pode representar o amadurecer, o aprendizado, o processo de se tornar mulher. De uma forma muito perspicaz o autor consegue representar esse amadurecimento e essa interação da menina com o mundo através da observação do cotidiano, das conversas entre as pessoas, das atitudes que elas executam, das reações a essa e aquela situação. A menina a caminho, por vezes se assusta com uma ocasião ou outra que presencia e percebemos que naquele momento ela teve contato com algo que até então não fazia parte de seu universo.  

Vindo de casa, a menina caminha sem pressa, andando descalça no meio da rua, às vezes se desviando ágil para espantar as galinhas que bicam a grama crescida entre as pedras da sarjeta. O vestido caseiro, costurado provavelmente com dois retalhos, cobre seu corpo magro feito um tubo; a saia é de um pano grosso e desbotado, a blusa do vestido é de algodão acetinado, um fundo preto e brilhante, berrando em cima uma estampa enorme de cores vivas, tão grande que sobre o peito liso da menina não aparece mais que o pedaço de uma folha tropical. Deve dormir e acordar, dia após dia, com as mesmas tranças, uns restos amarrotados. 

Enquanto a menina caminha em direção a algum lugar e observa atentamente os acontecimentos a sua volta, o leitor vai recebendo fragmentos de conversas, de episódios e de nomes que para aquela comunidade parecem muito familiares, mas que pra gente são mais como fofocas pela metade. Não sabemos muito bem os desdobramentos de tudo aquilo, o que também parece ser uma estratégia de Raduan para explorar um olhar infantil sobre as coisas, um olhar que está recebendo as informações e tentando organizar em um fluxo de pensamento., Nesse fluxo de informações onde muitas coisas ainda não são tão palpáveis para as vivências de uma criança, ela lida também com algo que ronda o universo infantil, que é a invisibilidade.  


 Chega a uma certa altura do conto que percebemos um dos objetivos dessa caminhada da menina e a partir dessa constatação abre-se um leque de metáforas e alegorias que continuam vinculadas a esse processo de amadurecimento, muitas vezes forçado, pelo qual algumas crianças passam. Como também a realidade de que algumas crianças carregam consigo um peso que não deveriam ser delas e sim dos adultos responsáveis por sua criação. Acontecem episódios muito simbólicos como a perda de um laço de cabelo e um vômito desenfreado que ilustram pra gente essas mensagens que Raduan desenhou em relação ao peso que uma infância pode carregar. 


Aqueles que queimam livros do George Steiner

 Aqueles que queimam livros do George Steiner (Editora Âyiné, 2020) é uma espécie de ensaio e uma declaração de amor aos livros. Apesar de ser um livro curto, Steiner consegue introduzir discussões que são basilares para entendermos o livro enquanto objeto, enquanto arte, instrumento emancipatório, depositório de informação, apreciação estética, assim como as questões de perseguição, censura e o futuro do livro. Há também reflexões sobre alguns conceitos de leitura que vão além do ato de ler e que se aproximam também da relação dos leitores com autores e personagens: "lemos o livro, porém, mais profundamente, pode ser o livro que nos lê." Acontece também uma abordagem sobre a autoridade implicada pelo texto, sobre a perenidade dos livros, mesmo aqueles esquecidos no tempo, guardados em estantes empoeiradas. Há espaço para a revolução tecnológica e a ascensão da internet que estão mostrando outras maneiras de compartilhar e ler e o autor possui uma visão bem otimista em relação a esse ponto. George Steiner escreveu um texto que mostra o livro como um fenômeno, como um encontro excitante entre texto e percepção. Grandes perguntas ficam no ar: os livros nos tornam pessoas melhores? O que motiva os censores de livros? O que os fazem tanto medo? 

Através de um breve passeio pela história do livro e sua importância o autor nos mostra como que "desde os sumérios, os livros foram os mensageiros e os cronistas do encontro do homem com Deus." Quando o livro torna-se esse objeto que também carrega o sagrado, isso alça o livro a um outro patamar e podemos mesmo refletir que essa "sacralidade" que ele ainda hoje carrega, possui resquícios dessa época. Isso somado ao fato de que o acesso ao livro era algo exclusivo a pequenos grupos. A história dos judeus é um grande exemplo utilizado na obra, pois ao ter como mandamento "estudará todo dia a Torá" os judeus não só resguardaram sua identidade, como também assumem que "nossa verdadeira pátria sempre foi e sempre será um texto."

Sob todos os aspectos, mesmo por trás de uma aparente ligeireza, os atos da escrita e sua consagração nos livros manifestam relações de força. O despotismo exercido por padres, pela classe política, pela lei, sobre os iletrados ou os subletrados, não é mais que a expressão exterior dessa verdade absolutamente fundamental. A autoridade implicada pelo texto, a posse e os usos dele por uma elite letrada são sinônimos de poder. 

Após avançar na leitura, percebemos que a intenção de George Steiner não é tanto discorrer sobre o que diz o título, mas sim tecer um panorama, uma colcha de retalhos para nos permitir refletir sobre o porque da perseguição aos livros, quais são os fatos que colocam os livros nesse lugar e quais os poderes, as autoridades que a cultura escrita carrega consigo. O que os livros causam nas pessoas? 


O encontro com o livro, assim como com o homem ou a mulher destinado a mudar nossa vida, frequentemente em um instante de reconhecimento do qual não se está consciente, pode ser completamente casual. O texto que vai nos converter a uma fé, que vai nos fazer aderir a uma ideologia, que dá a nossa existência um fim e um critério, pode estar a nos esperar na estante dos livros de ocasião, usados, com desconto. Talvez empoeirado e esquecido, na estante ao lado do livro que procurávamos.

Enquanto um texto sobrevive em algum lugar desta terra, ainda que em silêncio ininterrupto, é sempre capaz de ressuscitar. 

"Aqueles que queimam livros" é uma obra que consegue abrir um leque de questões para quem gosta dos livros e pretende se embrenhar pelo estudo mais aprofundado da história do livro e do livro como suporte. É também um diálogo inicial sobre a importância do livro para uma sociedade e para guarda e democratização do conhecimento. George Steiner se mostra um teórico apaixonado e também muito atento a questões atuais e que vão se inserindo no universo do livro e nos dando um vislumbre sobre o futuro desse suporte. Com essa publicação temos em mãos uma ótima fonte de discussões para o povo do livro e aqueles que queiram se embrenhar por esse universo encantador e desafiador da leitura. 

Enquanto os dentes de Carlos Eduardo Pereira

 Enquanto os dentes (Editora Todavia, 2017) é o livro de estreia do Carlos Eduardo Pereira. O fato de estarmos diante da primeira publicação de um autor não necessariamente significa que o mesmo seja um escritor iniciante. É essa a sensação que fica após ler "Enquanto os dentes". Carlos faz uma literatura digna daqueles que já tem muita destreza com as palavras e tempos narrativos. Através de um texto curto, fluido e de ritmo contínuo, passamos a dividir nosso tempo com o personagem Antônio e suas reflexões e inquietações passam a ser também um pouco nossas. O livro é narrado em terceira pessoa, então é como se estivéssemos ali, assistindo uma peça sobre a vida de um personagem complexo, analítico e por vezes um pouco frio. O texto vai passeando por episódios da vida de Antônio sem a preocupação com uma linearidade. Um episódio pode mudar de um parágrafo para o outro, as vezes de uma frase para outra, e conseguimos captar quase que instantaneamente essa mudança de cena, como em um filme. Antônio atravessa diversos cenários da sua própria vida, enquanto atravessa cenários pertencentes a cidade. 


O Antônio é um homem que cresceu em uma casa onde a palavra do pai era lei, tanto para ele como para a mãe e onde as possibilidades de diálogo eram bem limitadas. Diante de um pai que dominava o ambiente familiar com autoritarismo e violência não seria muito de se espantar que o mesmo também dominasse as escolhas de seu filho. É assim que Antônio começa a trilhar uma carreira na Escola Naval (que depois será trocada pelos caminhos da filosofia e das artes). O narrador vai nos apresentando a personalidade de Antônio sem floreios e sem filtros. Isso nos ajuda a perceber muitos dos traumas que assolam sua mente e que o levaram a se tornar um adulto regido por uma certa passividade que foi agravada após um acidente, um capotamento que o colocou em uma cadeira de rodas. 


"Enquanto os dentes da boca deram conta, ele mordeu, sustentou a vida que havia construído tijolo a tijolo, só que agora não dá mais. Agora ele sabe que acabou."

Aos poucos a narrativa vai nos mostrando todas as camadas de Antônio e todas elas são apresentadas com muita calma. Vamos conhecendo as vivências de um homem negro, gay e cadeirante que sabe muito bem cada desafio que precisa enfrentar ao pensar nessas características. Ainda assim, o texto de "Enquanto os dentes" está longe de ser uma literatura panfletária e justamente por isso cumpre muito bem o seu papel de contar uma história diferente daquelas que já lemos muito por aí. A questão da homossexualidade por exemplo, aparece de uma forma tão inerente ao texto e ao personagem, com uma função de descrever uma das tantas características de Antônio, da mesma forma como se descreveria a cor dos olhos e dos cabelos. 


Um dos pontos de destaque do livro é a forma como o autor nos apresenta ao mundo pelos olhos de uma pessoa cadeirante. Estamos diante de uma cidade que já ouvimos falar diversas vezes e que muito se assemelha a maioria das grandes capitais brasileiras, mas ao descrever a cidade diante dos desafios de mobilidade e de interação social acabamos por encontrar uma outra realidade. Com as limitações de sua condição física a forma de viver e circular pela cidade também muda e essa cidade que encontramos não é nada receptiva. O autor Carlos Alberto também é cadeirante, portanto conseguiu construir um texto que sabe muito bem o que diz, que fala sobre o processo de adequação que vai desde a nova maneira de tomar um banho, de dirigir, de circular pelas praças e demais espaços da cidade. 


Durante o livro Antônio está em processo de mudança. Está deixando seu apartamento antigo para voltar para a casa dos pais. Enquanto faz sua travessia de balsa é como se ele entrasse em um transe de preparo para uma outra grande travessia que se tornou sua vida. Com a necessidade de reaprender a se locomover, a lidar com as pessoas ao seu redor e de entender o funcionamento de seu próprio corpo, Antônio passa a reviver toda sua história de vida até então. 

Um cadeirante não consegue se pesar numa balança de farmácia, ou de consultório médico. O sujeito que usa uma cadeira de rodas precisa estar sempre se olhando no espelho, comparando seu reflexo com o do dia anterior: se a cara está mais larga, é porque ganhou peso; se está mais fina, é porque perdeu.

"Enquanto os dentes" não é um livro sobre superação, se é isso que possa parecer ao ler um pouco de sua sinopse. É um livro que faz a gente olhar para a própria vida e ver os diversos episódios que fizeram ser o que somos desfilando diante de nossos olhos. É uma história que nos pergunta nas entrelinhas quem somos e se percebemos onde é que moram as micro e macro violências que violentam nossas vidas. É uma narrativa que convoca a força e a importância de nossas memórias.