A Fábrica da escritora japonesa Hiroko Oyamada (Editora Todavia, 2025) é um romance ousado e desafiador que apresenta os leitores a um complexo cinza gigantesco, com uma estrutura organizacional singular, ao qual conhecemos apenas como - a fábrica. Não sabemos o que eles produzem e nem onde estão localizados, mas aquela instituição, ironicamente, é o sonho de ascensão de qualquer trabalhador. Com um texto calculadamente metódico, remetendo ao ambiente sisudo e repressivo de uma fábrica, Hiroko Oyamada cria uma sátira surrealista sobre a alienação no trabalho moderno.
A autora faz uma escolha arriscada ao mesclar o fantástico a um tema que pode soar tão enfadonho como as questões do trabalho na contemporaneidade, mas no fim das contas, é exatamente essa junção do fascínio que a literatura fantástica carrega, com o bater de martelo da realidade que ajuda a criar um universo onírico e instigante. Em “A fábrica” cada diálogo e cada situação se constrói de modo a escancarar a falta de sentido que, por vezes, mora no dia a dia de uma fábrica e que molda a vida de um trabalhador.
Não me parece que alguém esteja conferindo os documentos depois que eu os reviso. Os envelopes com os documentos revisados desaparecem da prateleira onde são deixados. Eles são levados para algum lugar, mas ignoro qual seja ou quem os recebe. Também não sei se estou fazendo corretamente ou não o trabalho de revisão, o que impede qualquer progresso.
Dentro da fábrica se encontra de tudo. Seus funcionários tem acesso inclusive, a vários tipos de diversões. Toda a fábrica, que não é possível ver seu fim a olho nu, se molda de forma a dar a impressão de que sair dali não é necessário, sendo assim se encontra até moradias. A autora utiliza desse modelo, para tratar de questões muito atuais, como a simbiose entre a vida pessoal e a profissional, onde empregados são apenas parte da engrenagem de uma grande máquina.
Em vários momentos, Hiroko aproveita a própria mudança de parágrafos e de vozes entre os narradores, para causar confusão aos leitores. Por vezes, a voz narrativa muda e não sabemos qual dos três personagens principais está com a palavra, o que é uma estratégia inteligente de mostrar o nível de desumanização e o poder de massificação que alguns processos dentro do ambiente de trabalho submetem as pessoas. Os três personagens se misturam, de forma a dar uma unidade, uma formatação e um único modelo ao trabalhador substituível.
A voz de Hiroko Oyamada destaca-se na literatura japonesa contemporânea por sua abordagem sutil e incisiva das experiências de alienação no trabalho, um tema cada vez mais relevante em sociedades modernas. Explora a perda de identidade e a desumanização provocadas por ambientes corporativos rígidos e labirínticos e como essa imposição de um modo de viver se torna um desabafo ou uma denúncia sobre se perder no trabalho.
Sua escrita, marcada por um realismo estranho e inquietante, oferece uma crítica poderosa às estruturas laborais japonesas, ao mesmo tempo que dialoga com questões universais sobre rotina, conformismo e a fragilidade da individualidade. Dessa forma, Oyamada não apenas amplia os horizontes da literatura japonesa, mas também contribui de maneira significativa para a reflexão sobre o mal-estar contemporâneo no mundo do trabalho.


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