Ressuscitar mamutes da Silvana Tavano (Editora Autêntica, 2024) é uma leitura com teores cinematográficos. Ao mesclar ciência e literatura, nos sentimos imersos em uma espécie de documentário e esse tom ensaístico do texto não nos prepara para de repente cairmos em uma narrativa poética e memorialista. Em pouco mais de cem páginas, Silvana Tavano apresenta um texto original e que vai se desnudando aos poucos, por necessariamente precisar de um tempo de arqueologia e de polimento de fóssil para chegar em seu objetivo final.


Ressuscitar passados, inventar futuros: ciência e literatura viajam no tempo dos sonhos para chegar ao impossível. 
A autora faz o que chama de “o percurso dos mamutes” logo nas primeiras páginas da obra. Ela nos conta sobre estudos e notícias reais que falam sobre a possibilidade de ressuscitar mamutes e como essa ressurreição poderia contribuir para “evitar que perigosas quantidades de gás metano contaminem a atmosfera”.

Restituir os mamutes à vida soa como ficção, como pareciam ser os foguetes espaciais, os marca-passos, as cirurgias robóticas e centenas de achados fantásticos que se tornaram banais – a internet, os celulares, o mapeamento genético do DNA. A visão quântica de um corpo ocupando vários lugares ao mesmo tempo ou a imagem de uma Galáxia Fantasma, a trinta e dois milhões de anos-luz, registrada pelas lentes do Telescópio Espacial James Webb, ainda parecem um tipo de mágica. A que talvez também recrie mamutes.

Começar a leitura de “Ressuscitar mamutes” sem saber muito bem para onde a obra caminharia, foi algo positivo para minha experiência de leitura, pois embarquei de cabeça em seu convite para viajar pelo tempo e espaço. A cada página ficava surpreso e maravilhado com a destreza com que a autora foi apresentando temas como saudades, tempo e memória, tendo a importância da história por trás de todas as coisas como ponto de partida.

Os mamutes e todas as histórias e informações que se tem acesso após o estudo de um fóssil revelam um universo expandido e na obra de Silvana essa expansão nos levará para questões aparentemente banais, mas que também são dignas de arqueologia: as relações familiares.

Utilizando dos mamutes como uma grande metáfora, a narradora nos leva para uma investigação sobre a vida de sua mãe falecida. Como sua mãe era uma mulher extremamente discreta e de pouca fala, vemos a narrativa se transformar em um verdadeiro sítio arqueológico, onde os mínimos detalhes são de fundamental importância. É emocionante acompanhar como a narradora redescobre a própria mãe e com isso acaba se tornando também uma outra pessoa. A escrita funciona como um trabalho arqueológico das memórias.

A memória é colorida pela invenção. Encobrimos o que se apagou com os tons da imaginação, uma paleta de cores que refaz pessoas e cenários entre pinceladas de calma ou de fúria, com texturas ora aveludadas, ora vibrantes, retoques de última hora, às vezes sombrios. Mas quantas nuances se perdem quando tentamos recuperar uma tela do passado?
Em “Ressuscitar mamutes” vemos a literatura desempenhando seu papel mais bonito, que é o de eternizar histórias, sentimentos e pessoas. Fazer um contraponto com a arqueologia e tudo que emerge a partir da descoberta de um fóssil foi uma jogada de mestre e que abriu infinitas possibilidades de se discutir sobre a perenidade das coisas, algo que também se encaixa para as emoções e os afetos. Ao remontar a sua vida ao lado da mãe, a narradora faz um percurso que permite olhar para o passado, avaliar o presente e projetar um futuro.