12321: o amor é um palíndromo da Marina Kon (Editora Penalux, 2022) é um romance que se estrutura como uma conversa entre dois amantes. Nas páginas da esquerda lemos os desabafos, reflexões e perguntas da mulher e nas páginas ao lado, temos os contrapontos do homem. É um diálogo que não necessariamente chega a respostas, pois partem de um desacordo emocional, de uma história a dois que está desmoronando - e o mais importante – onde a mulher está acordando para os abusos emocionais da relação e para o fato de que “estava amando sem reciprocidade”.
Marina Kon descreve com destreza os ciclos do abuso narcisista no posicionamento de um homem que manipula, distorce os fatos e mescla elogios com críticas para manter a vítima presa à relação. Por outro lado, a mulher vai se vendo cada vez mais confusa, com auto estima baixa, em estado de sofrimento e alimentando uma falsa esperança de que a relação melhore. Tudo isso acontece enquanto ela está totalmente quebrada e presa em um ciclo disfuncional "onde ficava feliz com coisa pouca".
Nas páginas de “O amor é um palíndromo” as dinâmicas do machismo são expostas de forma muito corajosa. O assustador é que por mais que estejamos diante de uma obra de ficção, ficamos embasbacados por quanto as situações parecem “normais” ou “comuns”. Existem acontecimentos e diálogos narrados na obra que soam familiares e isso demonstra o quanto os ciclos de dominação, controle, adestramento, traição e manipulação estão no cerne da sociedade patriarcal e nos faz esquecer seu alto grau de violência.
tenho vontade de machucá-la para que aquilo que dói em mim doa em você. eu penso que poderia lhe dizer absurdos e você ainda encontraria humor nas minhas palavras. quero antes suas lágrimas, confirmação do amor de quem sente a dor do outro. ser homem é muito duro às vezes. você beberia o meu sangue? morreria por mim? dizem que o maior prazer que você pode dar a uma pessoa é deixar que ela te mate.
Nos pegamos pensando em quantas vezes presenciamos um casal imerso em situações como a dos protagonistas do livro, dizendo as mesmas frases e repetindo os mesmos padrões de controle, dominação e manipulação. Conseguimos nos reconhecer na perpetuação de alguns ciclos de abuso emocional.
Por amá-lo, eu gostava um pouco menos de mim. Na tentativa de manter a mulher forte, eu me tornei ainda mais frágil. Eu não consegui ir embora sem olhar para trás. Mas você nunca me teve. Me ter só na hora que quer nunca será me ter por completo e as coisas apenas são na integridade. A palavra dor tem duas sílabas.
A escrita de Marina Kon é envolvente. Ao mesmo tempo em que nos toca profundamente ao materializar as angústias de alguém que sofre por amor, que está percebendo que está diante de uma relação que o outro “se recusa a lhe perder, mas também não a quer ganhar”, também consegue colocar em palavras a sensualidade latente de dois corpos, que mesmo partindo de projeções diferentes, se desejam profundamente. “Há sempre coisas rasgando dentro de mim e você compreende quando me engole”. Violência e sensualidade se tornam quase palpáveis.
Os corrompidos se reconhecem. Logo que te conheci, me deparei com a sua loucura. Acho que a gente só conhece alguém genuinamente quando há um pouco de insanidade na fala e no quarto. Você pegava a minha mão e entrelaçava os dedos, me atraindo com seu gesto pouco comum. Naquela época, eu não sabia que por trás das suas mãos dadas havia tanta posse e tão pouca entrega. No seu afeto, havia sempre uma agressão velada: os dedos roxos, a limitação dos movimentos, a violência disfarçada de cuidado. Você me destratava como fez com inúmeras mulheres, de forma que no início parecia apenas um amor mais feroz que os outros. Eu tenho esse vício que as pessoas chamam de intensidade: meu prato fundo. Ali só havia restos. E a fome não pôde ser ignorada por muito tempo. Ao enxergá-lo, eu me deparei com a minha própria escassez.
A exploração tão forte e íntima da dinâmica entre um indivíduo narcisista e sua vítima, transforma “o amor é um palíndromo” em uma obra necessária para todos os tipos de relações. Muito se fala sobre relacionamento tóxico e abusos emocionais, mas vê-los mapeados e dissecados em uma obra que consegue abranger as sequelas de estar em um relacionamento doentio, e também a redenção de se acordar para a realidade, coloca a temática em um lugar onde se torna impossível fingir que a violência não existe.
Postar um comentário