Coelho Maldito, obra de estreia da escritora sul-coreana Bora Chung (Editora Alfaguara, 2024) é um livro que reúne dez contos que apostam no surreal, no grotesco e no insólito para falar de temas sociais. Bora Chung normaliza cenários e situações bizarras e ao fazê-lo, consegue mostrar o absurdo como absurdo. Os contos passeiam pelo terror, pelos contos de fadas, pela fábula, pelo realismo mágico e pela ficção científica, tendo a dura realidade da vida como fio condutor das narrativas. Ao dar olhares de exagero (emprestados da literatura fantástica) para todo o mal que banalizamos, um véu se desnuda diante de nossos olhos e nos vemos impactados pela banalidade da violência de gênero, das desigualdades, da ganância, do capitalismo.
O livro foi publicado na Coreia do Sul no ano de 2017. Após ser lançado nos Estados Unidos em 2022 foi finalista do International Booker Prize, o que ajudou a obra a se popularizar e o nome de Bora Chung entrou nos circuitos literários. Bora diz que os contos são uma junção de diversos trabalhos que escreveu em diferentes momentos de sua vida, e alguns partiram de experiências pessoais.
Sua escrita é bastante direta e sem floreios. A autora vai sempre direto ao ponto e muitos dos contos parecem se estruturar em um eterno estado de clímax que acaba ditando nosso ritmo de leitura. Apesar da simplicidade da proposta do livro, suas temáticas são complexas e a narrativa nunca se mostra previsível. A escritora fisga os leitores já no primeiro conto quando diz:
"Tudo que é usado em maldição deve ser bonito” era o que o meu avô sempre dizia.
Todo objeto tem a própria história. Esse abajur não foge à regra, principalmente porque também foi usado para rogar uma praga. Sentado na sua poltrona ao lado do abajur, meu avô conta e reconta essa história que eu já tinha ouvido inúmeras vezes.
Uma família recebe de presente um abajur amaldiçoado em formato de coelho, uma mulher conversa com uma cabeça que mora em seu vaso sanitário, uma mulher engravida por excesso de uso de anticoncepcional, um casal compra um prédio habitado por fantasmas e onde um dos inquilinos morre esquartejado em uma panela de sopa. Estas e outras situações dignas de um pesadelo, servem de ponto de partida para falar sobre a sociedade que vivemos e como lidamos com o horror diário.
É genial como o exagero funciona bem na narrativa de Bora Chung. É através dele que a autora consegue nos conduzir para as provocações que estão escondidas no texto. Em “Coelho maldito” o horror funciona como forma e conteúdo.
A escritora apresenta diversas nuances sobre o universo feminino e a atmosfera de terror de seus contos servem como uma estratégia para denunciar os pesadelos vividos pelas mulheres. Ela utiliza também do folclore coreano para falar sobre as exigências, o controle e as violências vividas pelas mulheres coreanas, mas são dilemas que são facilmente transportados para qualquer cultura. Muitos dos medos femininos passeiam pelas histórias de Bora, portanto suas temáticas podem gerar gatilhos em alguns leitores.
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