O grande dia: uma micro-odisseia carnavalesca do escritor suíço Pierre Cormon (Editora Quixote, 2025) acompanha um dia na vida de três personagens a poucas horas do grande desfile de carnaval na Sapucaí. Em cada capítulo, seguimos de perto os passos de um personagem, que inicialmente parecem não ter ligação, mas que fazem parte da roda que faz girar a maior festa popular do planeta. Dandara, Tainá e Ronildo representam o grande amor do brasileiro pelo carnaval e como essa celebração possui raízes identitárias e sociais muito fortes.


Último dia do Carnaval do Rio. Dandara se prepara para desfilar pela primeira vez no sambódromo, Tainá ajuda a organizar o evento e Ronildo fica pronto para uma noite de loucura com um bate-bola. Mas, na Cidade Maravilhosa, a sedução, o acaso ou a violência podem inviabilizar até os projetos mais bem preparados...
As três histórias principais do livro se entrelaçam e traçam um panorama interessante sobre o carnaval, sobre a cidade do Rio de Janeiro e as desigualdades que assolam o nosso país. O autor consegue demarcar muito bem como funciona a lógica que separa o povo do morro do povo do asfalto e como o carnaval insere, ainda que por pouco tempo, uma nova lógica de acesso à cidade. A Cidade Maravilhosa vira um grande palco e o povo preto e periférico são os protagonistas.

Empurrou com ambos os pés, mas o chão ficava firme debaixo dos seus pés, como se lhe dissesse que ela não pertencia a esse mundo abaixo, que tinha que ficar na superfície, onde tiroteios podiam ocorrer a qualquer momento, onde cada tempestade destruía casas na comunidade, onde se estudava sabendo que havia poucas chances de levar a boa vida que as pessoas do asfalto conseguiam sem esforço.
O transitar de nossos personagens se assemelha ao roteiro de um hino de escola de samba. Todos os elementos estão ali. Na história de Cormon a tensão se torna quase corpórea ao acompanharmos cada detalhe para que um grande desfile de uma escola aconteça. As quadras se tornam uma espécie de energia vital para quem está prestes a realizar o sonho na avenida e a bateria marca o compasso do coração dos personagens, assim como os vários trechos da obra que são cheios de tensão.

Para quem acompanha pelas arquibancadas ou pela TV todo o universo da Comissão de Frente, Mestre-sala e porta-bandeira, Baianas, Bateria, Puxador, Passistas, Velha Guarda, Ala Carnavalescos, Samba-enredo, Enredo, Fantasias e Alegorias pode não ter a noção de como o carnaval é também um rito transcendental e ao mergulhar na intimidade dos personagens, percebemos o carnaval para além da celebração.

No romance samba enredo de Cormon, desfilam diante de nós alguns aspectos importantes sobre o fazer da cultura em nosso país. O carnaval, propriamente dito, se torna revolucionário e transgressor ao nadar contra a maré de uma sociedade elitista e racista. Ao mesmo tempo em que o autor descreve com minúcias todos os sacrifícios e a dedicação dos personagens para que o carnaval aconteça, a violência e o racismo estrutural do Rio de Janeiro se manifesta em pequenos e grandes atos que não conseguem conter a alegria, a sensualidade e a magia do carnaval.

O jornalista e escritor Pierre Cormon possui uma relação muito bonita com o Brasil e o Rio de Janeiro. Ele diz que sua fascinação nasceu por pura sorte já na primeira visita. Imediatamente se encantou pela paisagem, pela cultura, pelo samba e também encontrou o amor no Rio. É admirável a destreza de Pierre ao escrever sobre o Brasil e o Rio de Janeiro utilizando de elementos e maneirismos muito brazucas. A cada página percebemos a admiração que ele sente por nossa terra. O autor escreveu o romance diretamente do português.