O grande dia: uma micro-odisseia carnavalesca de Pierre Cormon

O grande dia: uma micro-odisseia carnavalesca do escritor suíço Pierre Cormon (Editora Quixote, 2025) acompanha um dia na vida de três personagens a poucas horas do grande desfile de carnaval na Sapucaí. Em cada capítulo, seguimos de perto os passos de um personagem, que inicialmente parecem não ter ligação, mas que fazem parte da roda que faz girar a maior festa popular do planeta. Dandara, Tainá e Ronildo representam o grande amor do brasileiro pelo carnaval e como essa celebração possui raízes identitárias e sociais muito fortes.


Último dia do Carnaval do Rio. Dandara se prepara para desfilar pela primeira vez no sambódromo, Tainá ajuda a organizar o evento e Ronildo fica pronto para uma noite de loucura com um bate-bola. Mas, na Cidade Maravilhosa, a sedução, o acaso ou a violência podem inviabilizar até os projetos mais bem preparados...
As três histórias principais do livro se entrelaçam e traçam um panorama interessante sobre o carnaval, sobre a cidade do Rio de Janeiro e as desigualdades que assolam o nosso país. O autor consegue demarcar muito bem como funciona a lógica que separa o povo do morro do povo do asfalto e como o carnaval insere, ainda que por pouco tempo, uma nova lógica de acesso à cidade. A Cidade Maravilhosa vira um grande palco e o povo preto e periférico são os protagonistas.

Empurrou com ambos os pés, mas o chão ficava firme debaixo dos seus pés, como se lhe dissesse que ela não pertencia a esse mundo abaixo, que tinha que ficar na superfície, onde tiroteios podiam ocorrer a qualquer momento, onde cada tempestade destruía casas na comunidade, onde se estudava sabendo que havia poucas chances de levar a boa vida que as pessoas do asfalto conseguiam sem esforço.
O transitar de nossos personagens se assemelha ao roteiro de um hino de escola de samba. Todos os elementos estão ali. Na história de Cormon a tensão se torna quase corpórea ao acompanharmos cada detalhe para que um grande desfile de uma escola aconteça. As quadras se tornam uma espécie de energia vital para quem está prestes a realizar o sonho na avenida e a bateria marca o compasso do coração dos personagens, assim como os vários trechos da obra que são cheios de tensão.

Para quem acompanha pelas arquibancadas ou pela TV todo o universo da Comissão de Frente, Mestre-sala e porta-bandeira, Baianas, Bateria, Puxador, Passistas, Velha Guarda, Ala Carnavalescos, Samba-enredo, Enredo, Fantasias e Alegorias pode não ter a noção de como o carnaval é também um rito transcendental e ao mergulhar na intimidade dos personagens, percebemos o carnaval para além da celebração.

No romance samba enredo de Cormon, desfilam diante de nós alguns aspectos importantes sobre o fazer da cultura em nosso país. O carnaval, propriamente dito, se torna revolucionário e transgressor ao nadar contra a maré de uma sociedade elitista e racista. Ao mesmo tempo em que o autor descreve com minúcias todos os sacrifícios e a dedicação dos personagens para que o carnaval aconteça, a violência e o racismo estrutural do Rio de Janeiro se manifesta em pequenos e grandes atos que não conseguem conter a alegria, a sensualidade e a magia do carnaval.

O jornalista e escritor Pierre Cormon possui uma relação muito bonita com o Brasil e o Rio de Janeiro. Ele diz que sua fascinação nasceu por pura sorte já na primeira visita. Imediatamente se encantou pela paisagem, pela cultura, pelo samba e também encontrou o amor no Rio. É admirável a destreza de Pierre ao escrever sobre o Brasil e o Rio de Janeiro utilizando de elementos e maneirismos muito brazucas. A cada página percebemos a admiração que ele sente por nossa terra. O autor escreveu o romance diretamente do português.


Pequena coreografia do adeus da Aline Bei

Pequena coreografia do adeus da Aline Bei (Companhia das Letras, 2021) é um livro que confirma o fato de que Aline é uma das mais interessantes revelações da literatura brasileira nos últimos anos. Se o seu livro anterior, “O peso do pássaro morto”, já surpreendeu por sua estrutura literária e densidade, em seu segundo livro a autora vem com uma escrita ainda mais madura e exploratória. A prosa poética de Aline é algo que transporta os leitores para lugares muito íntimos e consegue aliar texto poético a uma estrutura que conduz os leitores não só pela narrativa, mas também por pausas, respirações, sussurros e imagens que são fundamentais para a história. A pequena coreografia que abre um leque de interpretações também se manifesta pela forma que nossos olhos dançam ao passear por palavras que se organizam de formas diferentes, para além da trama palavra após palavra que já conhecemos.




A forma como Aline Bei estrutura o texto é algo bem significativo na sua produção e um dos pontos altos de sua obra. Olhamos para um texto onde narrativa e imagem trabalham juntas para movimentar o leitor, além de demonstrar uma liberdade inspiradora de criação da autora. Aline tem liberdade para tecer o texto, por tanto utiliza de espaçamentos, maiúsculas e minúsculas, quebras de página que não aparecem de forma aleatória, elas conferem sentido às emoções que estão sendo transmitidas.

O livro conta a história de Julia Terra, uma personagem que ainda muito cedo precisou acessar um sentimento devastador: o abandono. Quando digo cedo, me refiro exatamente à infância. Em uma etapa da vida onde apoio, afeto e exemplo são fundamentais para formação do caráter e da própria individualidade, Julia se vê extremamente só, vivendo no meio da crise conjugal de seus pais, que por não saberem lidar com as próprias dores a projetam pelas paredes da casa.

Julia se vê entre uma mãe que já possuía um temperamento frio e a separação intensifica seu distanciamento, a transformando em um retrato angustiante do sofrimento, que por vezes explode em raiva e agressividade. Sua mãe não se permite seguir em frente após o término do casamento e cada dia se torna um lembrete do ato, seja por palavras duras ou simplesmente por um olhar que denuncia tristeza e vazio.



em casa

minha mãe arrastava as suas dores como um Manto

ao mesmo tempo que marchava

seu velho soldado

era ele quem lhe causava uma falsa sensação de controle

enquanto o Manto emanava uma aura de respeito

como se dissesse: não se aproxime, sou uma ilha, sou A Mulher que Sofreu.



Julia está também diante de um pai que abomina completamente o fato de já ter sido casado. Se a esposa veste o manto da dor, o marido veste o manto do desapego, uma vez que seguir em frente sempre foi mais fácil e socialmente permitido aos homens. Julia experimenta uma espécie de invisibilidade que vem de ambos os lados, que se manifestam de formas diferentes e que nem por isso deixam de roubar seu direito de viver a própria infância e até mesmo a própria dor.




Eu só queria ter um pai que não fosse eternamente o

homem que deixou a minha mãe.



Todas as vivências que Julia experimentou em sua infância vão se refletindo na jovem mulher em que se transformou. A dor e a melancolia de um lar fraturado impacta diretamente nas conexões que a jovem passa a fazer com outras pessoas que entram em sua vida adulta. Algo notável durante toda a história é o caráter extremamente reflexivo da protagonista. Julia carrega consigo uma força de persistência que vai se traduzindo e se fortalecendo em uma relação sempre presente com as artes, principalmente a escrita. Aos poucos vai percebendo que seu caminho é o de entender a própria existência pela arte e que sempre esteve na busca de referências afetivas, principalmente femininas. É quando começa a dançar a coreografia de despedida do lar de origem que novas possibilidades começam a se abrir.

“Pequena coreografia do adeus” é um livro que explora com muita sensibilidade alguns processos que são muito violentos. A narrativa se mostra ainda mais densa por tratar de uma violência que vem do seio familiar e que se projeta na falta de afeto, no desinteresse, nas palavras duras. A forma como Julia aprende a olhar para sua própria mãe é um exemplo disso:


Ela usava óculos escuros

que lhe caíam bem, é verdade

agora ela vendia perfume na casa das pessoas

e assim, de longe



até que parecia ser uma boa mãe.





e que seria perder a minha mãe?

não é a mesma coisa que perder uma boa mãe

perder a minha

seria uma dor e um alívio cheio de culpa, então

até o alívio

se transforma em Dor

e eu teria que me acostumar

com as minhas cicatrizes

órfãs de seu carrasco


Uma das características mais interessantes de Julia Terra é que durante toda a vida ela sempre recebeu violência como resposta, mas isso nunca fez com que ela devolvesse na mesma moeda. O que vinha de mais pesado era despejado em seu diário, saía dela e ia direto para o papel. Ainda que a violência tenha sido presença constante em sua vida, Julia consegue romper com o ciclo, romper com o trauma e o carma. Acredito que isso tenha a ver com a realidade de que por sempre ter buscado afeto, visibilidade e acolhimento, Julia sabia exatamente as consequências de se oferecer o contrário.


“Pequena coreografia do adeus” é um livro que apesar de muitas passagens tristes e angustiantes consegue transmitir também uma energia de redenção, movimento e descoberta. A violência, o abandono e a solidão são as pequenas coreografias com que Julia precisa lidar e aos poucos ela vai entendendo que se despedir não é abandonar e que pequenas mortes, pequenas despedidas e o adeus em si são formas de manter a vida em movimento.



A filha perdida da Elena Ferrante

A filha perdida da Elena Ferrante (Intrínseca, 2016) é um livro com uma narrativa envolvente. A cada página conhecemos um pouco mais da história e dos pensamentos mais íntimos de uma protagonista que parece carregar uma personalidade completamente diferente daquilo que costumamos ver e ouvir por aí, mas que no fundo são apenas manifestações íntimas e reais de questões que as mulheres foram obrigadas a guardar para si. “A filha perdida” é uma história sobre vozes femininas, sobre os medos, os desejos, as obrigações, os amores, os desamores, e principalmente sobre as suas revoluções silenciosas.


Leda sai de férias para uma região litorânea da Itália e durante esse tempo que terá consigo começa a explorar diversos pensamentos sobre seus próprios sentimentos e sua história. Logo se torna uma rotina para Leda a observação de uma família grande e barulhenta que também passa férias na mesma praia que ela. Inicialmente ela sente apenas uma espécie de raiva e repulsa daquelas pessoas, mas aos poucos vamos percebendo que esse incômodo tem relação com o quanto aquela família faz com que ela se lembre da sua família de origem e o quanto que “as coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender”.

Eu os via, naquele dia, não como um espetáculo a ser contemplado, em uma comparação dolorosa com o que me lembrava da minha infância em Nápoles; eu os via como o meu tempo, como a minha própria vida pantanosa, para a qual eu escorregava de vez em quando.


Leda irá deter a maior parte de sua atenção para Nina e sua filha pequena Elena que estão sempre acompanhadas de uma boneca. Assim parecem formar um trio. De longe, ela observa a relação de mãe e filha, suas conversas e suas brincadeiras, que também vão suscitando algumas narrativas que tanto podem ser reais como apenas fruto da imaginação de Leda.

Partindo dessa rotina de observação, a família desconhecida vira uma espécie de luneta para que Leda observe a sua própria família através de suas memórias. Olhando para Nina, Elena e a boneca, ela passa a olhar para sua relação com suas duas filhas que foram morar no Canadá com o pai.

Quando minhas filhas se mudaram para Toronto, onde o pai vivia e trabalhava havia anos, descobri, com um deslumbre constrangedor, que eu não sentia tristeza alguma – pelo contrário, estava leve, como se só então as tivesse definitivamente posto no mundo. Pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas.

Uma das questões mais interessantes do livro está justamente na exploração da ideia de maternidade. Como estabelecemos contato direto com os pensamentos de Leda, acabamos conhecendo um lado da maternidade que começou a ser exposta a pouco tempo pelos livros, filmes e demais expressões artísticas: a maternidade real e vinculada a ideia de uma mulher como ser humano dotado de peculiaridades. Ainda é muito comum ouvirmos apenas o discurso da maternidade como missão divina e do amor incondicional. Coitada da mulher que falasse sobre as dores, as incertezas, as dúvidas e os sofrimentos que também caminham junto com a maternidade. Com a história de Leda esse outro lado ganha voz.

Para além disso ainda temos um outro aspecto importante da obra que são os vultos geracionais que rondam a formação de Leda. Conforme ela vai nos contando sobre o dia a dia daquelas férias, de sua observação da família desconhecida, das lembranças das filhas e de seu casamento, ela também volta lá para a sua infância e para as mulheres que a antecederam.

O que eu tinha feito de tão terrível, afinal? Anos antes, havia sido uma garota que se sentia perdida, isso era verdade. Todas as esperanças da juventude já me pareciam destruídas, era como se eu estivesse caindo para trás na direção da minha mãe, da minha avó, da cadeia de mulheres mudas ou zangadas da qual eu derivava.

“A filha perdida” é uma história que carrega muitas histórias, é um livro sobre várias filhas perdidas, pois no processo de viver nós vamos nos perdendo em alguns pontos e nos encontrando em outros, formando uma colcha de retalhos de cada um dos momentos com potencial de construir nossa trama. Aqui temos mais um exemplo de uma obra que consegue abarcar questões muito sensíveis sobre amor, maternidade, encontros, desencontros, famílias e demais temas de uma forma que consegue causar fortes identificações nos leitores. É um livro misteriosamente interessante assim como o mistério que envolve a verdadeira identidade de Elena Ferrante.

A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab

A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab (Galera Record, 2021) é um romance que trata sobre a liberdade usando a metáfora da imortalidade. Para tanto, se agarra a elementos fantásticos interessantes. Addie Larue é uma jovem que vive em um pequeno vilarejo no interior da França em meados de 1714 e que sempre se incomodou com quão pequeno era seu mundo. Uma curiosidade que até então almejava apenas conhecer a cidade mais próxima, foi se transformando em um anseio por conhecer o mundo, por conhecer outras possibilidades de vida para além do pedaço de terra em que nascera. Addie Larue tinha uma certeza: "Não quero morrer do mesmo jeito que vivi." Quando se vê obrigada a casar, seguindo a tradição da época e que se enterraria de vez naquele povoado, a jovem acaba selando um pacto com uma entidade que caminha pela escuridão.


Tomada pelo desespero, Addie ignorou um dos principais ensinamentos de Estele, uma espécie de bruxa e curandeira da região: "Não faça preces aos deuses que atendem depois do anoitecer." No meio da noite, em uma hora decisiva para seu destino, ela clama para que qualquer deus a salve daquela situação, e de repente, suas preces são atendidas. Uma entidade que se alimenta de almas só atende pessoas em situação de desespero e quando estamos nesse estado é impossível se ater com atenção a todas as palavras e nuances do acordo que está para selar. Um pacto é um pacto - por vezes, irrevogável. É um contrato com algo que pode ser um deus ou um demônio e que sempre custa muito caro.

- Eu não quero pertencer a outra pessoa - diz ela, com veemência repentina. As palavras são uma porta escancarada, e agora ela despeja todo o resto. - Não quero pertencer a ninguém além de mim mesma. Quero ser livre. Livre para viver e encontrar meu próprio caminho, para amar ou ficar sozinha, mas que seja por escolha própria. Estou tão cansada de não ter nenhuma escolha, tão assustada de ver os anos se passando diante dos meus olhos. Não quero morrer do mesmo jeito que vivi, porque isso não é vida...

A garota entrega um prato cheio à escuridão. Addie despeja tantas palavras e tantos desejos que terão consequências até então inimagináveis. Ela pede, roga para que tenha liberdade e tempo para conhecer e viver tudo o que deseja viver e nesses termos um grande pacto é selado com beijo e sangue.

Quando Addie acorda de uma espécie de transe, está exatamente onde se lembrava de estar, a mesma floresta, o mesmo vilarejo, o mesmo anseio de fuga e o encontro com a criatura da escuridão parece ter sido apenas um sonho. Mas é quando volta para casa, ao encontro de seus pais, que ela descobre que toda lembrança sobre sua existência fora apagada. Addie não existe mais para seus pais, nem para o povo do Vilarejo e com o tempo vai perceber que nunca mais será lembrada por ninguém.

Um ano que passou aprisionada dentro do prisma daquele pacto, forçada a sofrer sem morrer, a passar fome sem definhar, a desejar sem enfraquecer. Cada momento ficou impresso na sua memória, enquanto ela mesma desaparece da memória dos outros sem o menor motivo, apagada por uma porta que se fecha, por se perder de vista por um segundo, por um momento de sono. Incapaz de deixar uma marca em qualquer pessoa, ou em qualquer coisa.

No pacto selado Addie não envelhece, não é acometida por doenças, mas nunca mais ninguém conseguirá se lembrar dela. Cada pessoa que passa pela sua vida a esquecerá a cada vez que uma porta se fechar, que uma parede se colocar entre elas numa interpretação exata e cruel do seu desejo de não pertencer a ninguém.

Mas agora Addie sabe muito bem que essas histórias estão repletas de seres humanos tolos que fazem tolices, que são fábulas de alerta sobre deuses, monstros e mortais gananciosos que desejam coisas demais e não conseguem compreender o que perderam. Até que pagam o preço, e é tarde demais para voltar atrás.

O livro mescla capítulos que viajam entre o vilarejo da França em 1714 e a atualidade, que seria o ano de 2014 em Nova York. De cara já sabemos que trezentos anos se passaram, que Addie viajou pelos quatro cantos do mundo, que aprendeu diversas línguas, pois agora o que não falta a ela é tempo. Se por um lado não falta tempo, por outro Addie não pode acumular nada para si, não pode dizer seu verdadeiro nome e quando o tenta a voz simplesmente não sai. Ela não pode alterar drasticamente a realidade, como destruir coisas, aparecer em fotos ou mesmo escrever. Addie não pode deixar sua marca no mundo. "O que é uma pessoa, se não as marcas que deixa para trás? Ela aprendeu a caminhar entre os espinhos, mas não consegue evitar alguns cortes."

A escritora V.E. Schwab começa então a brincar com a ideia da existência de uma pessoa que assiste ao desenrolar da história da humanidade em trezentos anos. Quantas coisas não aconteceram em trezentos anos? Quantas coisas não foram inventadas em trezentos anos? E quanto não se pode aprender nesse mesmo tempo? Addie passeia pelo mundo e também pela nossa história, se encontra com personalidades lendárias e são essas possibilidades que não a deixam sucumbir e por fim entregar sua alma. Inicia um jogo perigoso com a escuridão.

A entidade sombria que a garota passa a chamar de Luc a visita a cada aniversário do pacto oferecendo rendição e o incrível é que quanto mais Addie vive mais sente que a vida nunca para de surpreender e que há sempre algo novo a ver e aprender. Apesar de precisar viver morando em lugares improvisados, roubando comida e roupas, estabelecendo relações que não duram mais que um dia, Addie vai encontrando, sorrateiramente, algumas maneiras de deixar sua marca no mundo até que um dia encontra com alguém que se lembra dela no dia seguinte.



Copo vazio da Natalia Timerman

 Copo vazio da Natalia Timerman (Editora Todavia, 2021) é um romance que trata sobre o luto e ele se apresenta de forma a colocar o vazio em palavras. Vazio e dor passam a fazer parte da rotina de Mirela, uma mulher jovem e bem sucedida que de repente, sem a menor explicação, é abandonada por Pedro, um homem que conheceu em um aplicativo de encontros. Uma relação de poucos meses, acaba se eternizando na vida dessa mulher e se transformando em um desejo que parece ficar maior através da falta. Copo vazio tece a narrativa passeando entre alguns tempos verbais, então acompanhamos diferentes estágios da dor de Mirela ao acessarmos seu hoje, seu antes e seu depois. 


A escritora Natalia Timerman também é médica psiquiatra e esse fato acaba se espelhando em sua escrita literária, principalmente ao tratar de amor, paixão, relacionamento e abandono, temas que se conectam com nossos desejos, expectativas, alegrias e dores. Isso não quer dizer que você encontrará termos e jargões da psiquiatria na obra, apenas quer dizer que o mergulho na intimidade da personagem em sofrimento é bem escrito, profundo e sabe muito sobre o que diz. 


Terminar um relacionamento é um processo dolorido e na história de Mirela essa dor se multiplica, uma vez que ela precisa lidar com o silêncio de Pedro que um dia resolve sumir e não responder mais suas mensagens. Até então não tinha conhecimento sobre o termo e ele não é utilizado no livro, mas o ato de "terminar" um relacionamento de forma abrupta, sem explicação e desaparecendo completamente é chamado de "ghosting". É fácil encontrar artigos na internet que tratam sobre essa questão e analisam as consequências desse tipo de rompimento na cabeça de uma pessoa apaixonada. Alguns especialistas afirmam que as novas tecnologias, como os aplicativos, estão tornando o ghosting uma prática comum, uma faceta não tão nova assim das relações líquidas tão discutidas pelo Zygmunt Bauman


Agora imagina você estar completamente apaixonada, tendo a certeza de que seu último encontro com essa pessoa foi normal e sem sobressaltos como todos os outros, mas que a partir daquele último contato você nunca mais a veria. Algo que você só descobre quando não consegue mais contato. 

Percorre a memória atrás de palavras afiadas, atrás de culpa. Percorre a memória atrás de palavras afiadas, atrás de gestos que sinalizassem aquele fim, mas não encontra.


É com isso que Mirela lida, com uma presença ausente que tira sua vida do eixo, desequilibra suas emoções, implanta dúvidas, coloca sua carreira em risco e a faz mergulhar num misto de sentimentos que passam pela dor, pela humilhação e pela vergonha. Embarcamos na intimidade de Mirela em uma uma história que acaba criando identificações com "pessoas que já choraram a perda de um amor, que já foram visitadas pela dor rasgada de uma ausência abrupta, que já se sentiram mutiladas por alguém que foi embora."

Talvez o tenha amado sim, lá atrás, quando estiveram juntos, mas depois, depois não. Ou será que nunca chegou de fato a amá-lo e seu gostar, ainda embrionário, comum, então do tamanho certo, se expandiu a partir do vácuo súbito da ausência dele, assim como as leis da física?


O livro nos coloca diante de uma dor comum, que faz parte da maioria das vivências amorosas e que nem por isso deixa de ser intensa. O luto e a dor da perda de um amor é apresentado como um sentimento comum que bate de forma diferente em cada pessoa e essa é uma das riquezas da narrativa. Conhecemos a dor particular de Mirela, uma dor que tem a ver com as expectativas e o investimento afetivo que ela empregou na relação. Se a forma de se dedicar a uma pessoa é particular não tinha como a dor ser diferente. Uma dor que por mais que as pessoas digam "saia desse lugar" - a porta de saída parece estreita e pequena demais para caber o volume de dor que você carrega no momento. Viver a dor é particular e se livrar dela também.


Mirela passa por um processo longo de negação e ele começa antes mesmo de Pedro ir embora. Ele deixa muitos sinais, de forma consciente ou não, de que não está ali por completo, o que é confirmado por falas, gestos e olhares. Mirela parece algumas vezes enxergar os sinais para em seguida, como uma forma de defesa, encontrar uma justificativa, uma questão que poderia explicar aquela apatia, um traço de personalidade que explicasse os posicionamentos de Pedro. Em um trecho da obra onde eles conversam sobre as pessoas que fazem e fizeram parte de suas vidas e sobre as amizades construídas Pedro diz: 

- Eu também vejo pouco meus amigos. Mas também, morando longe não tem como. Eu fui fazendo uma turma de amigos em cada lugar e tive que ir deixando pra trás. Pelas circunstâncias da vida. 

- Um abandonador de pessoas mesmo. 

Após o abandono Pedro se torna uma obsessão e a ideia do copo vazio pode ser interpretada de inúmeras maneiras. Pedro entra na vida de Mirela em uma fase que nem mesmo ela própria botava fé na possibilidade de uma relação. Ela chega a verbalizar seu desconforto com a ideia de fazer um perfil em um aplicativo de relacionamentos. Tinha o pensamento de que aquilo era como se colocar "num catálogo de pessoas para, em troca, ter acesso a outro." e por ansiar por possibilidades diferentes de encontro. 

Imaginava que história de amor têm que ter começos poéticos, pontilhados de fatos aparentemente casuais que só depois se mostrarão parte do todo daquele encontro: o destino. Sentia-se ridícula por pensar assim aos trinta e dois anos, era uma fá frágil.

A interpretação mais forte que tive sobre o copo vazio se relaciona com a própria Mirela enquanto mulher e da Mirela enquanto um corpo. Um corpo que estava esvaziado dos anseios de uma relação, inclusive por ter saído de um namoro anterior ao Pedro e que não dera certo. E em momentos como os quais ela dizia a sua irmã "mas quem disse que eu quero estar com alguém?" - denota a sua posição de distanciamento protetivo, seu status de copo vazio, onde copo também é corpo.

Eu tinha um tesão sem tamanho e foi a primeira vez que eu engoli porra sem nojo nenhum. Achando gostoso. Amor, né? Dizem que é.


 Quando Pedro aparece seu copo se enche novamente, seu corpo volta a ser doador e receptor de desejos e de uma forma pela qual não temos controle quando acontece, para logo em seguida se esvaziar completamente mais uma vez. Pedro quebra o copo. 


O livro nos diz muito sobre a lógica dos relacionamentos e principalmente sobre as formas de lidar com aquilo que se vai independente da nossa vontade. Também nos diz sobre uma necessidade de se afirmar enquanto ser forte e dotado de ferramentas que não destruam a própria individualidade quando deixamos de dividir a vida com alguém. Abre brechas para reflexões sobre a opressão vivida pelas mulheres quando colocadas em uma verdadeira missão onde o objetivo de vida é conquistar alguém.


A gente passa a vida toda escutando que precisa ter alguém, a gente mulher, né?, e nem só escutando, a gente passa a vida toda assistindo filme de conto de fadas, novela, viveram felizes para sempre, essas coisas, a gente passa a vida toda ouvindo de mãe, de tia, de vó, de pai, a vida toda desde criança já sabendo que uma mulher precisa ter alguém, precisa ser em dupla, ter um par, senão é como se fosse menos, ou até se fosse nada, a gente não tem a chance de se perguntar, será que eu quero estar com alguém?



Vejo o copo vazio como esse alguém que precisa aprender a ser e estar no mundo independente de ser par. De ser alguém que consegue aproveitar cada etapa de uma relação, que consegue se perceber enquanto indivíduo com desejos e necessidades singulares e que algumas delas não precisam deixar de existir para atender ao outro, que consegue sair de si e se levar junto. 

Minha Luta 1: A morte do pai de Karl Ove Knausgård

 Minha Luta 1: a morte do pai de Karl Ove Knausgård (Companhia das Letras, 2015) é um romance grandioso, nos moldes do que o próprio autor sempre sonhara em escrever. Exatamente aí que mora a grande surpresa do livro, pois Karl parte da sua própria história de vida para escrever uma grande saga. O que poderia ser apenas presunção se tornou uma autobiografia sensível, corajosa, reflexiva e sincera que transporta os leitores para pensamentos sobre vida e morte, família, carreira, amores, decepções, vícios, música, amizade, literatura e outras inúmeras questões que cabem dentro de uma vida. Nesse primeiro volume Karl Ove explora minuciosamente sua relação com o pai. Somos colocados diante das vivências problemáticas de um filho que sempre quis entender um pai completamente fechado, por vezes agressivo e insensível. Em "A morte do pai" somos cúmplices do autor. Por vezes parece que estamos escondidos ouvindo todas as suas sessões de terapia e tentando entender junto com ele as cicatrizes que essa relação provocara. 


A morte do pai inicia dizendo que: "Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para." É uma ótima introdução de livro que se conecta de forma inteligente com a última frase do livro. Na sequência, Karl faz um relato sobre um corpo que morre e como esse processo se dá conforme a natureza dita. Ele o narra com paciência, detalhismo e por mais que a gente não queira entendê-lo assim, com muita calma. Quando chega a hora de um corpo se desligar o processo é o que é. Assim como a vida obedece a sua própria regra. A introdução da obra, assim como seu título, nos prepara para uma morte que virá. Enquanto o autor nos entrega a vida, a morte fica como um pássaro empoleirado no nosso pescoço.


O autor faz também uma discussão interessante sobre como lidamos com a morte. Ele chega a exemplificar que talvez existam duas concepções de morte que nos rodeia. Estamos acostumados com notícias sobre mortes, sobre tragédias e muitas vezes este assunto, quando visto de longe, é quase um entretenimento. Mas quando a morte encosta a questão muda. Karl dá um ótimo exemplo dizendo da nossa aversão, medo ou susto diante de um cadáver que nada mais que a consequência da morte. 


Pode, portanto, parecer que a morte se divide em dois sistemas distintos. Um é associado ao ocultamento e à discrição, à terra e à escuridão, o outro tem a ver com a abertura e a leveza, com o éter e a luz.


Karl Over nos conta sobre suas vivências e de grande parte das pessoas que de alguma forma foram importantes em sua caminhada. Sendo assim, os personagens da obra são sua própria família, seus amigos, conhecidos, namoradas e até as músicas que embalaram as diversas fases de sua vida. Mas a relação com o pai é o grande norte do livro. Ao mesmo tempo que é uma autobiografia, torna-se também uma auto investigação sobre quem era esse pai, o porque dele não se enquadrar no estereótipo do pai herói e muito pelo contrário - por ter sido um pai que muitas vezes aflorou o ódio dos filhos. Karl tem um irmão mais velho chamado Yngve Knausgård mas durante grande parte da obra ele é apenas citado como uma lembrança, exatamente por ter "fugido" da relação com o pai na primeira oportunidade. Os dois voltam a se conectarem com a morte desse pai que em nenhum momento sabemos o nome. 

Eu tinha oito anos naquele fim de tarde, meu pai trinta e dois. Embora até hoje eu não possa afirmar que o compreendia ou sabia que tipo de pessoa ele era, o fato é que agora sou sete anos mais velho que ele na época, e isso torna mais fácil entender certas coisas. Por exemplo, como é abissal a diferença entre nossas vidas. Enquanto meus dias eram repletos de significado, cada passo levando a uma nova oportunidade, e cada oportunidade me preenchendo, de um jeito hoje difícil de entender, o significado dos seus dias não se limitava a eventos individuais, mas abrangia áreas tão extensas que não era possível compreendê-las senão em termos abstratos. 

Durante todo o livro percebemos o quanto Karl Ove ansiava, as vezes sem perceber, a oportunidade de ocupar o lugar de filho, algo que não era correspondido. Não podemos dizer que seu pai não amava os dois filhos, mas existia no íntimo daquele homem um entrave do qual ele não conseguia se livrar e nem expressar de uma forma além de uma espécie de indiferença. Esse algo o acompanhou durante toda a vida e também o levou a morte. Karl Ove está sempre pelos cantos observando o pai de forma sorrateira, com medo de que o mesmo perceba. É como se ele esperasse pelo momento em que o pai deixaria escapar por acidente os motivos de sua reclusão afetiva. 


Karl Ove fala pouco sobre sua mãe, mas quando fala é com muito carinho e respeito. Por conta de sua profissão ela passa muitos dias longe de casa. Quando fala da mãe ele diz que a sua presença muda a atmosfera da casa e sua ausência o obriga a ter alguns momentos de interação com o pai. Assim, Karl Ove passa a aprender na medida do possível a ler seu pai. 

Eu conhecia seus estados de ânimo e, havia muito tempo, aprendera a prevê-los, com a ajuda de uma espécie de sistema subconsciente de categorias, me dei conta mais tarde, no qual a relação entre algumas constantes bastava para determinar o que me esperava, de modo que eu teria como me preparar. Uma espécie de meteorologia da mente... A velocidade do carro subindo em direção à casa, o tempo que ele levava para desligar o motor, pegar suas coisas e descer, a maneira como olhava em torno ao trancar a porta do carro, as nuances dos diversos ruídos que provinham do hall de entrada quando ele tirava o casaco, tudo era um sinal, tudo podia ser interpretado. 

Acompanhamos tantas fases de Karl Ove que nos sentimos íntimos. Conhecemos diversas músicas e bandas que embalaram sua adolescência, as primeiras paixões, a descoberta da bebida e do cigarro, o afloramento dos desejos sexuais, as tentativas desastrosas de formar uma banda de rock. A música se apresenta como uma parte importante dessa autobiografia e também como uma forma de Karl Ove expressar a sua visão de mundo. 

Pois além dos meus ideais políticos eu tinha outros, ligados à música, que eram muito diferentes de aparentar ser cool, o que, por sua vez, tinha a ver com a época em que vivíamos, era aquilo que precisava ser expresso, e não o lado relacionado às paradas de sucesso, às roupas de tom pastel e aos penteados com gel, pois esse era o aspecto ligado ao comércio, à superficialidade e ao entretenimento, não, a música que precisava ser expressa era a inovadora mas consciente da tradição, profunda mas esperta, inteligente mas simples, ostensiva mas genuína, a música que não era dirigida a qualquer um, que não vendia muito, mas que expressava as experiências de uma geração, da minha geração.


É muito interessante a forma como o autor descreve também a importância da escola para sua socialização. A escola para Karl não era apenas um lugar para aprender mas onde ele também desempenhava um papel, se sentia alguém. "Nas aulas era diferente... e lá eu desempenhava um papel, tinha um lugar, podia falar, responder a perguntas, debater, resolver exercícios, ser alguém." As aulas de norueguês também eram momentos especiais para ele e onde começou a entender o poder da palavra e que realmente gostava de escrever. "Com o norueguês... eu o associava aos escritores de vida boêmia, além disso não era matéria possível de decorar, era algo mais, um sentimento, um talento natural, requeria personalidade."


 O tempo do livro não é linear, portanto, em momentos Karl Ove relata fatos e lembranças de sua infância, para em seguida falar um pouco da adolescência e suas vivências no colégio, como pode falar também de sua vida adulta e sua busca pela escrita de um grande romance e de rompante, como num fluxo de pensamento voltar para a infância. Como leitores, conseguimos acessar um recorte amplo da vida do narrador, acompanhando sua leitura sobre os passos de seu pai e de um Karl Ove num tempo presente, falando sobre a experiência de ter seus próprios filhos. 


Sua atuação enquanto pai e escritor passam a tomar conta da escrita. Karl Ove reflete sobre os desafios da paternidade e como parece temer que a rotina incessante de criar os filhos possa jogar seus objetivos como escritor para um segundo plano. Lemos sobre um pai carinhoso mas que também não esconde sua insatisfação com as mudanças da paternidade. Karl não nos apresenta uma ideia romântica sobre ser pai, ele expõe um outro lado que pouco se fala pelo medo do julgamento.

Sempre tive uma grande necessidade de estar sozinho, preciso ter meu quinhão de isolamento, e, quando não consigo, como nos últimos cinco anos, a frustração que surge pode às vezes se transformar em pânico ou agressividade. E, quando aquilo que me levou para a frente durante toda a vida adulta, a ambição de um dia escrever algo brilhante, de algum modo se vê ameaçado, meu único pensamento, que me corrói as entranhas, é que preciso fugir. O tempo está escapando de mim, escorrendo entre meus dedos como areia, enquanto eu... faço o que? Limpo o chão, lavo roupa, preparo o jantar, faço faxina, compras, brinco com as crianças em playgrounds, trago-as para casa, dou banho nelas, cuido delas até a hora de dormir, ponho-as na cama, penduro roupas no varal, dobro outras e guardo nas gavetas, arrumo a casa, arrumo a mesa, cadeiras e armários. 

Karl Ove relata sobre um viés da dessacralização da paternidade, e se expõe como um pai que sente raiva e perde o controle. Fazendo isso o autor vai se aproximando cada vez mais de um suposto motivo da impessoalidade de seu próprio pai. Se existe um molde ou uma regra do que é ser pai o seu não a seguiu e ele também parece não estar trilhando o caminho que geralmente se espera. Percebemos um confronto interno de Karl Ove em ainda querer entender o seu pai e também de não repetir o que ele fizera. Acontece que as implicações que ter um filho gera acaba o aproximando cada vez mais de uma personalidade que ele teme. 

Não tinha consciência de nada disso antes de ter filhos. Achava que tudo estaria bem se eu fosse bom para eles. O que é mais ou menos verdade, mas nenhuma das minhas experiências anteriores me preveniu da invasão de privacidade que ter filhos implica. A intimidade extrema que temos com eles, a maneira como nosso temperamento e humor, por assim dizer, se mesclam aos deles, tanto que nossos defeitos deixam de ser particulares, não podem mais ser encobertos, mas de certo modo assumem uma forma exterior e se voltam contra nós.  

A explosão desses dilemas é também o que serve de munição para Karl e sua profissão de escritor. A busca por entendimento e por dar sentido a alguns aspectos da vida só encontra berço na escrita. Sendo assim, o livro apresenta reflexões muito interessantes sobre a formação e o processo de escrita de Karl Ove. Com o tempo ele vai percebendo que sua própria vida é inspiração para a escrita e que suas grandes questões passam por sua história familiar. O ato de escrever passa a representar uma forma de resistência. "Resistir é a única  coisa que a vida me ensinou, sem jamais fazer perguntas, incendiando toda essa angústia através da escrita."


Com o tempo, ao relembrar as atitudes do pai, Karl Ove vai também percebendo que sempre existira uma sensação de não pertencimento ao redor de seu pai, como uma aura que quase podia ser vista e tocada. Era um homem que vivia sempre recluso e incomodado com algo. Essas percepções vieram até Karl ao relembrar os fatos após adulto e algumas questões passaram a fazer mais sentido.

De certo modo papai era muito grande para aquela mesa, pensei. Não fisicamente, havia espaço sobrando para acomodá-lo, era mais como se ele não se adequasse àquele lugar. Havia alguma coisa com ele, ou com o que emanava dele, que não combinava com aquela mesa. 

Os momentos em que o pai esboçava algum tipo de fragilidade eram raros e um episódio que fica marcante no livro acontece em uma tarde, quando Karl Ove chega em casa e o flagra sentado na poltrona ouvindo uma música e chorando. Ele se retira do ambiente antes que o pai perceba e passa a carregar a sensação de que vira algo que não deveria ter visto.

 

Karl Ove olha para sua realidade, usa da percepção do que está em volta, dos sons, das sensações, do caos e da imprevisibilidade para encontrar seu propósito na escrita. "É notável a semelhança entre os extremos, ao menos num certo sentido, pois, tanto no caos absoluto como num mundo rigorosamente regulado e cadenciado, o indivíduo não é nada, a vida é que é tudo." Com a morte do pai Karl se vê mais uma vez diante do encontro de extremos que se completam, pois é impossível falar de vida sem falar de morte. 


As circunstâncias da morte de seu pai são angustiantes. Depois de anos de um afastamento natural e auto protetivo os irmãos Knausgård se reencontram com o passado e mais uma vez precisam lidar metaforicamente e literalmente com a sujeira deixada pelo seu pai. Enquanto Karl Ove tenta se convencer de que não sente nada as lágrimas que correm sem controle pelo seu rosto dizem o contrário, mas dessa vez a morte acontece no plano real e se torna uma oportunidade para fechar ciclos. 

Ah, a única coisa que eu podia fazer era limpar. Esfregar e esfregar. Lavar sem parar. Ver como cada azulejo ficava brilhando de limpo. Imaginar que tudo que fora destruído ali seria recuperado. Tudo. Tudo. E que eu jamais, em nenhuma circunstância, iria acabar da mesma forma que ele acabara. 

Como a série Minha Luta é extremamente confessional Karl Ove teve que lidar com a insatisfação de sua família que não queriam que os livros fossem publicados. A série se tornou um bestseller na Noruega e alçou seu nome para a fama internacional. Apesar de ser uma autobiografia, a forma como Knausgård escreve nos prende como qualquer ótimo livro ficcional. Sua escrita é viciante a ponto de nos prender do começo ao fim numa trama que nada mais é que o dia a dia de vidas que as vezes são ordinárias, as vezes extraordinárias e por isso fascinantes. 


Criei uma playlist no Spotify com todas as músicas, bandas e álbuns que são citados no livro: 

Klara e o Sol de Kazuo Ishiguro

 Klara e o Sol do Kazuo Ishiguro (Companhia das Letras, 2021) é uma espécie de conto de fadas moderno misturado com ficção científica. Kazuo não prepara de forma alguma o terreno para que o leitor entenda logo de cara do que a história trata e quem é o narrador. Conforme vamos lendo e depois de um estranhamento que nos acompanha por algumas páginas nossa visão vai se abrindo e nos descobrimos enlaçados pelas estratégias narrativas que Ishiguro teceu sorrateiramente. Klara, a protagonista da história, é uma espécie de autômato, um robô com inteligência artificial super avançada muito popular no tempo e espaço onde a história se passa e que não sabemos qual é. Esses robôs (apesar da história não usar esse nome para defini-los) são adquiridos pelas crianças para serem uma espécie de melhor amigo e fazem todo tipo de acompanhamento, desde as brincadeiras, até a educação. Tudo o que conhecemos da história acessamos pelo olhar de Klara que inicia o livro apenas com a visão que possui da vitrine de sua loja. 


 O Sol é a maneira como os AA's (como são chamados na história) recarregam sua bateria. Klara se refere sempre ao Sol como "a nutrição" e apesar de já serem programados com inteligência para apreender o mundo, os AA's também necessitam de experimentação para entender a lógica de vida dos humanos. De cara Klara entende que esse Sol tão essencial para ela possui igual importância para a vida humana. Inicialmente a vitrine da loja se torna uma escola para Klara e aos poucos ela vai entendendo que o mundo é muito maior do que aquele pedaço de asfalto, edifício, carros, pessoas e céu que se projeta a sua frente. 

Aqui devo confessar que, para mim, sempre houve outro motivo para querer ficar na vitrine, que nada tinha a ver com a nutrição do Sol ou com ser escolhida. Ao contrário da maior parte dos AAs, mesmo de Rosa, eu sempre quis ver mais do lado de fora - e com todos os detalhes.


É durante sua "morada" na vitrine da loja que Klara é avistada pela menina Josie, que depois de alguns desencontros acaba levando-a para casa. Acontece que o que Klara conhece do mundo é o que ela avistava da vitrine. Aos poucos, ao observar a menina Josie, sua família e um grupo problemático de amigos que frequenta a casa da menina, Klara começa a entender mais sobre o caráter, as reações, os dilemas e problemáticas que envolvem a vida humana em sociedade. É como se Klara tivesse passado um bom tempo vivendo como na metáfora de Platão sobre o mito da caverna. De repente ela se vê diante daquilo que é chamado "real" e ela utiliza a seu favor a grande destreza que possui para observação. 

Você acredita no coração humano? Não estou falando do órgão em si, claro. Estou falando no sentido poético. O coração humano. Você acha que existe uma coisa assim? Uma coisa que faz com que cada um de nós seja especial, único? E digamos que exista.


Kazuo nos coloca diante de uma grande alegoria para falar sobre a sociedade e humanidade. O livro é quase que um alerta para a forma como estamos construindo um mundo que prima pela tecnologia, pela informação rápida, pela comodidade e se esquecendo que ao deixar a dinâmica das relações de lado, estamos criando algo que ruirá de uma forma ou de outra. É uma história que nos leva a pensar sobre a essência do que é ser humano e do que estamos fazendo com as nossas relações e  com o planeta. 


O autor explora a ideia de que trabalhamos sempre com a manutenção das relações de subserviência, onde quem tem mais, quem dita as ordens, quem emprega se torna dono de mundos particulares. Na casa daquela família, Klara entra quase que como uma serviçal, assim como a humana que também trabalha na casa de Josie, a qual Klara aprendeu a chamar de Melania empregada doméstica, como se sua função fosse seu sobrenome. 


Por vezes temos a impressão de que Klara e a forma como foi programada possui mais possibilidade de empatia e amor ao próximo do que os próprios personagens humanos. Acredito que uma das grandes questões que o livro nos deixa é sobre o que significa ser humano? Em certo momento da história, Klara irá se ver diante de uma missão grandiosa e que colocará humanos e AA's quase que em pé de igualdade, ressaltando que a intenção do autor não era a de escrever um livro sobre tecnologia, mas sim o de maximizar ao máximo um cenário tecnológico que nos deixa nus enquanto seres humanos. 



A palavra que resta de Stênio Gardel

 A palavra que resta de Stênio Gardel (Editora Companhia das Letras, 2021) é o livro de estreia do autor. Stênio entrega uma prosa poética arrebatadora e coloca "A palavra que resta" entre os grandes lançamentos do ano. Com muita sensibilidade e uma escrita com um estilo muito bem marcado, o livro nos conta a história de Raimundo, um homem que ousou se apaixonar por outro homem ainda na juventude, morando em uma comunidade rural regida por princípios conservadores e convenções sociais que demarcam rigidamente os papéis de gênero. Raimundo se apaixona por Cícero, é correspondido, e ambos tem ciência de que precisam esconder a relação a todo custo. "Foi aos dezessete, num forró na quadra do grupo, que os olhos cor de terra de Cícero lavraram Raimundo." Quando são descobertos passam a conhecer de fato a natureza brutal da homofobia e suas histórias tomam caminhos diferentes. Enquanto a narrativa passeia cá e lá pelo tempo, mostrando o Raimundo jovem do sertão e o Raimundo que caiu no mundo, Stênio vai transportando para a literatura as questões sociais que impactaram a vida do personagem e sua família, como também as questões que vão de encontro à trajetória de vida de alguém que precisou se calar, por não poder levantar sua própria voz e explicitar seus desejos, como pelo fato de não saber ler e escrever. De Cícero ficaram o sentimento de amor, a saudade e uma carta nunca lida. 


A história já começa nos apresentando a um Raimundo velho. Aos 71 anos ele resolveu aprender a ler e escrever. Enquanto era jovem não teve a oportunidade de estudar, pois desde muito cedo precisou lidar com o trabalho no campo junto com seu pai. O mesmo pai que dizia que "a letra era para menino que não precisava encher o próprio prato." Na juventude e vida adulta se prendeu a trabalhos temporários e que não tinham pouso fixo. Por todos os lugares que Raimundo passou a carta de Cícero estava com ele, lacrada e quase como a representação de uma presença. 

Raimundo Gaudêncio de Freitas, traço incerto, arredio ao toque de papel. Lápis danado, domado, e ele escrevia o nome completo pela primeira vez. Setenta e um anos e essa invenção, como ele diz, de aprender a ler e escrever depois de velho. Raimundo não foi difícil. Complicado era Gaudêncio, denso de saudade, as cinco vogais e acentuado. Freitas era feito de sangue.

 A palavra que resta é uma obra sobre muitas questões. Temos ali a homofobia nua e crua, ainda que o texto não use esse termo em nenhum momento. A homofobia aparece escondida atrás da formação religiosa, da tradição, das convenções sociais e das regras ditas e não ditas sobre o papel de cada gênero em nossa sociedade. Está atrás da máscara que precisamos assumir desde muito cedo para ganhar o mínimo de respeito. Um respeito que pode custar a própria individualidade. O preconceito e o medo acabam por germinar em Raimundo e Cícero o sentimento de que são um erro, uma abominação, e como não conseguem conter o desejo acabam se contentando com um amor clandestino. 

Se encontravam quase todo dia. O risco era grande. Tudo na moita. Na moita mesmo se escondiam dos outros e se mostravam um para o outro. Homem e homem, e se entendiam muito bem, se gostavam. Gosto bom mas que deixava um ranço arranhando as ideias. 


 A vista de Raimundo escapulia até o corpo do outro, de peito duro descamisado, coberto de suor e poeira. Paisagem que desperta num pássaro preso o desejo de voar. Raimundo gaiola. 

A carta deixada por Cícero, que sabia ler e escrever, para Raimundo que não sabia, exerce um papel narrativo muito interessante para a trama. A carta ao mesmo tempo que representa toda a repressão que os dois sofreram, o sigilo da relação, a dúvida sobre um futuro juntos e sobre o destino tomado por Cícero, também representa o grande problema que é a miséria, que consequentemente pode levar ao analfabetismo. A carta representa um silêncio, que está no amor impossível e na impossibilidade de ler e escrever. 

Que invenção, Raimundo! e tu ainda consegue aprender alguma coisa? quanto mais ler e escrever, nessa altura da vida a gente tem que sonhar baixo, que a mente não alcança, nem o corpo, se tinha saúde, só a pressão um pouco alta e essa dor nas costas mas os braços e as pernas obedecendo, estava bom, e a cabeça sem esquecer também, as pessoas de ontem e de hoje, mas mesmo depois de velho parece que a gente não deixa de querer, o bom da vida é teimar...

Somado a tudo isso temos o peso do analfabetismo na vida de uma pessoa idosa. A obra passa a discutir sobre a oportunidade de resgatar um tempo perdido e de que sempre é tempo para aprender algo novo. Vamos percebendo que a trajetória de Raimundo está sempre nesse limiar entre a desistência e a resistência. Independente de todas as adversidades Raimundo acaba sempre escolhendo seguir em frente, mesmo que tardiamente.  

Sabia assinar, não tinha motivo para ficar com o documento só com a marca do dedo e ainda um carimbo vermelho, analfabeto. Tinha que trocar, que ele era outro. Saber ler e escrever estava fazendo isso mesmo. 

 "Que ele era outro". Essa passagem tem um poder muito forte de ilustrar toda a trajetória de vida de Raimundo. Ele sempre foi outro, nunca foi aquele que esperavam que fosse. Ser outro quando ninguém quer que você o seja tem um alto custo e Raimundo decide pagar por ele. Enquanto o conteúdo da carta de Cícero se torna uma expectativa para nós leitores, para Raimundo o adiamento de sua leitura parece o evitar do fim. É como se lendo a carta estivesse colocando um ponto final em uma grande história de amor. Raimundo carregou uma carta lacrada por cinquenta anos porque era como se assim continuasse caminhando ao lado de Cícero. 

Apesar de possuir passagens bem dolorosas, principalmente as que tem relação com a família de origem de Raimundo e Cícero, também mergulhamos em uma história que mostra o poder de se reinventar, de descobrir quem é e onde quer estar no mundo. É um livro que mostra que as dores podem servir como aprendizado. "A palavra que resta" fala muito sobre a exclusão que aparece das mais variadas formas, mas também fala de resistência e ressignificação. Raimundo é destruído por muitos mas também é reerguido por outros. Toda essa potência é possível porque tem como suporte uma escrita que explora a força da linguagem. Stênio se mostra um grande narrador, com um texto que tira o leitor do lugar comum e mostra que "tem palavras que a gente escuta na vida que parece poesia."


Enquanto os dentes de Carlos Eduardo Pereira

 Enquanto os dentes (Editora Todavia, 2017) é o livro de estreia do Carlos Eduardo Pereira. O fato de estarmos diante da primeira publicação de um autor não necessariamente significa que o mesmo seja um escritor iniciante. É essa a sensação que fica após ler "Enquanto os dentes". Carlos faz uma literatura digna daqueles que já tem muita destreza com as palavras e tempos narrativos. Através de um texto curto, fluido e de ritmo contínuo, passamos a dividir nosso tempo com o personagem Antônio e suas reflexões e inquietações passam a ser também um pouco nossas. O livro é narrado em terceira pessoa, então é como se estivéssemos ali, assistindo uma peça sobre a vida de um personagem complexo, analítico e por vezes um pouco frio. O texto vai passeando por episódios da vida de Antônio sem a preocupação com uma linearidade. Um episódio pode mudar de um parágrafo para o outro, as vezes de uma frase para outra, e conseguimos captar quase que instantaneamente essa mudança de cena, como em um filme. Antônio atravessa diversos cenários da sua própria vida, enquanto atravessa cenários pertencentes a cidade. 


O Antônio é um homem que cresceu em uma casa onde a palavra do pai era lei, tanto para ele como para a mãe e onde as possibilidades de diálogo eram bem limitadas. Diante de um pai que dominava o ambiente familiar com autoritarismo e violência não seria muito de se espantar que o mesmo também dominasse as escolhas de seu filho. É assim que Antônio começa a trilhar uma carreira na Escola Naval (que depois será trocada pelos caminhos da filosofia e das artes). O narrador vai nos apresentando a personalidade de Antônio sem floreios e sem filtros. Isso nos ajuda a perceber muitos dos traumas que assolam sua mente e que o levaram a se tornar um adulto regido por uma certa passividade que foi agravada após um acidente, um capotamento que o colocou em uma cadeira de rodas. 


"Enquanto os dentes da boca deram conta, ele mordeu, sustentou a vida que havia construído tijolo a tijolo, só que agora não dá mais. Agora ele sabe que acabou."

Aos poucos a narrativa vai nos mostrando todas as camadas de Antônio e todas elas são apresentadas com muita calma. Vamos conhecendo as vivências de um homem negro, gay e cadeirante que sabe muito bem cada desafio que precisa enfrentar ao pensar nessas características. Ainda assim, o texto de "Enquanto os dentes" está longe de ser uma literatura panfletária e justamente por isso cumpre muito bem o seu papel de contar uma história diferente daquelas que já lemos muito por aí. A questão da homossexualidade por exemplo, aparece de uma forma tão inerente ao texto e ao personagem, com uma função de descrever uma das tantas características de Antônio, da mesma forma como se descreveria a cor dos olhos e dos cabelos. 


Um dos pontos de destaque do livro é a forma como o autor nos apresenta ao mundo pelos olhos de uma pessoa cadeirante. Estamos diante de uma cidade que já ouvimos falar diversas vezes e que muito se assemelha a maioria das grandes capitais brasileiras, mas ao descrever a cidade diante dos desafios de mobilidade e de interação social acabamos por encontrar uma outra realidade. Com as limitações de sua condição física a forma de viver e circular pela cidade também muda e essa cidade que encontramos não é nada receptiva. O autor Carlos Alberto também é cadeirante, portanto conseguiu construir um texto que sabe muito bem o que diz, que fala sobre o processo de adequação que vai desde a nova maneira de tomar um banho, de dirigir, de circular pelas praças e demais espaços da cidade. 


Durante o livro Antônio está em processo de mudança. Está deixando seu apartamento antigo para voltar para a casa dos pais. Enquanto faz sua travessia de balsa é como se ele entrasse em um transe de preparo para uma outra grande travessia que se tornou sua vida. Com a necessidade de reaprender a se locomover, a lidar com as pessoas ao seu redor e de entender o funcionamento de seu próprio corpo, Antônio passa a reviver toda sua história de vida até então. 

Um cadeirante não consegue se pesar numa balança de farmácia, ou de consultório médico. O sujeito que usa uma cadeira de rodas precisa estar sempre se olhando no espelho, comparando seu reflexo com o do dia anterior: se a cara está mais larga, é porque ganhou peso; se está mais fina, é porque perdeu.

"Enquanto os dentes" não é um livro sobre superação, se é isso que possa parecer ao ler um pouco de sua sinopse. É um livro que faz a gente olhar para a própria vida e ver os diversos episódios que fizeram ser o que somos desfilando diante de nossos olhos. É uma história que nos pergunta nas entrelinhas quem somos e se percebemos onde é que moram as micro e macro violências que violentam nossas vidas. É uma narrativa que convoca a força e a importância de nossas memórias. 

Torto Arado de Itamar Vieira Junior

 Torto Arado do Itamar Vieira Junior (Editora Todavia, 2019) fez algo que não se vê todo dia no meio literário: nasceu clássico. A obra consegue nos conectar com o que há de melhor na literatura brasileira no que se refere a escrita e seu poder de transportar os leitores para uma experiência que poderá ser apreendida e ressignificada de diversas maneiras. Os teóricos costumam dizer que um dos critérios para se considerar um livro como clássico é sua relevância e nesse quesito "Torto Arado" se encaixa com maestria. Algo notável é que Itamar conseguiu esse feito sem perder de vista a nossa atualidade e o fez ao colocar diante dos nossos olhos a importância que existe na história de cada um, na história daqueles que sempre foram invisibilizados. É um livro que se tornou sucesso de vendas e impressiona por isso, pois trata de uma temática que geralmente não domina as listas de vendas. O Brasil está lendo sobre o Brasil e isso nos dá um sopro de alívio em meio ao caos que vivemos hoje. "Torto Arado" foi vencedor do Prêmio Oceanos em 2020 e já havia sido premiado no Jabuti e no Prêmio Leya de Literatura, em Portugal, onde foi publicado primeiro.


O Brasil sofre as consequências por ter vivido durante 300 anos em processo de escravidão. Romper com o que foi construído durante três séculos não é algo fácil e ainda existem muitas pessoas, organizações, governos e diversas instâncias que apostam nas desigualdades que se entranharam na sociedade brasileira e seguem violentando e dizimando existências, principalmente da população negra através do racismo. Em "Torto Arado", podemos vislumbrar um recorte muito sincero sobre essa sociedade pós "abolição" através de vozes importantes para essa narrativa, as famílias negras descendentes de escravizados, que por não terem para onde ir, precisaram continuar trabalhando sem remuneração nas grandes fazendas. A dinâmica de trabalho de domingo a domingo para garantir um pedaço de terra para plantar nas poucas horas vagas e ainda assim ter que dividir a própria produção com o dono da fazenda, a construção de suas casas, que obrigatoriamente deviam ser de barro para não se criar uma ideia ou impressão de morada fixa, de dono da própria morada eram uma das regras.  

"Podia construir casa de barro, nada de alvenaria, nada que demarcasse o tempo de presença das famílias na terra."

A história que Itamar nos conta se passa quase que uma geração após a abolição e é angustiante perceber que basta uma pesquisa rápida para encontrarmos, nos dias de hoje, pessoas na mesma situação no chamado Brasil profundo e até mesmo em grandes centros, como a história de Madalena Gordiano, que viveu por 38 anos em Patos de Minas como empregada sem registro ou salário mínimo garantido. Desde os 8 anos viveu e trabalhou para a família Milagres Rigueira sem qualquer direito. O trabalho análogo à escravidão ainda é uma realidade em nosso país e vez ou outra nos deparamos com reportagens que denunciam essas condições. A narrativa de "Torto Arado" encaixa bem no contexto do início de 1900, como nos anos 30, como agora em 2021. 


Meu pai havido nascido quase trinta anos após declararem os negros escravos livres, mas ainda cativo dos descendentes dos senhores de seus avós. Minha avó, Donana, tinha dado à luz o filho José Alcino em meio a uma plantação de cana na Fazenda Caxangá. Ele nasceu no meio de um charco, porque não haviam permitido que sua mãe deixasse de trabalhar naquele dia.




Tendo como pano de fundo a história da família de Belonísia e Bibiana, duas irmãs que tem as vidas entrelaçadas pelas realidades, dores, amores e perdas que embrenhamos pela comunidade de Água Negra no sertão baiano. Belonísia e Bibiana são duas irmãs unidas, vivem uma rotina de lida com a casa e o trabalho com a plantação junto a seus pais e demais irmãos, já que tiveram que aprender muito cedo sobre a terra. O romance é narrado em primeira pessoa e alterna suas vozes. A primeira parte se chama "Fio de Corte" e é narrada por Bibiana. A segunda parte se chama "Torto Arado" e a narração é da Belonísia. Já a terceira parte chamada "Rio de Sangue" é contada por Santa Rita Pescadeira, uma das entidades que aparecem na história. É incrível a capacidade de Itamar Vieira Júnio de convocar três vozes distintas para contar uma história muito bem escrita e que completa muito bem seu ciclo narrativo. 

Quando retirei a faca da mala de roupas, embrulhada em um pedaço de tecido antigo e encardido, com nódoas escuras e um nó no meio, tinha pouco mais de sete anos. Minha irmã, Belonísia, que estava comigo, era mais nova um ano. Pouco antes daquele evento estávamos no terreiro da casa antiga, brincando com bonecas feitas de espigas de milho colhidas na semana anterior. Aproveitávamos as palhas que já amarelavam para vestir feito roupas nos sabugos. Falávamos que as bonecas eram nossas filhas, filhas de Bibiana e Belonísia. Ao percebermos nossa avó se afastar da casa pela lateral do terreiro, nos olhamos em sinal de que o terreno estava livre, para em seguida dizer que era a hora de descobrir o que Donana escondia na mala de couro, em meio às roupas surradas com cheiro de gordura rançosa. 


O que se desenrola a partir da curiosidade das irmãs e o que se encontra na mala é algo que irá modificar o rumo das vidas de Bibiana e Belonísia pelo resto de suas vidas, como também de toda a família. Por um lado, as irmãs se tornam ainda mais unidas por conta das circunstâncias de um acidente, ao mesmo tempo que alguns acontecimentos agirão como uma força reversa ao imã, tentando levar as irmãs para mundos completamente diferentes. Através do ponto de vista de cada uma delas, conhecemos a história dessa família que luta contra a chuva, contra a seca, contra a fome, contra o despejo. Que precisa encontrar estratégias diante da exploração dos donos de terra para garantir sua casa de barro. 

Se o contexto em que vivem é de muita exploração do trabalho, luta pela dignidade e pelo que comer, na família as irmãs irão encontrar um pouco mais de apoio, e diria que doses de ânimo para enfrentar uma vida difícil. Apesar da realidade dura, as meninas possuem pais que são muito dedicados ao bem estar de todos os filhos e que não poupam sacrifícios para amenizar as dores e as dificuldades. O pai de Bibiana e Belonísia, conhecido como Zeca Chapéu Grande é um personagem fascinante que se dedica também a ensinar seus valores e aprendizados sobre a vida e a terra. As problemáticas envolvendo opressão e patriarcado estão presentes, é claro, mas em "Torto Arado" temos também a manifestação da força da mulher do campo com toda sua potência. 


Poder estar ao lado do meu pai era melhor do que estar na companhia de dona Lourdes, com seu perfume enjoativo e suas histórias mentirosas sobre a terra. Ela não sabia por que estávamos ali, nem de onde vieram nossos pais, nem o que fazíamos, se em suas frases e textos só havia histórias de soldado, professor, médico e juiz.

 

Zeca se dedica como ninguém ao trabalho rural e também exerce uma função importante naquela comunidade, a de curador espiritual. Ele conversa com entidades, divindades, os chamados encantados. É uma liderança em Água Negra e todos acreditam que ele tem o poder de curar os males do corpo e da alma. 


De loucura meu pai entendia, assim diziam, porque ele mesmo já havia caído louco num período remoto de sua vida. Os curadores serviam para restituir a saúde do corpo e do espírito dos doentes, era o que sabíamos desde de o nascimento. O que mais chegava a nossa porta eram as moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias, apartada do próprio eu, sem se distinguir de uma fera perdida na mata. 

Zeca Chapéu Grande se apresenta para a sua família como um contraponto ao que elas assistem a sua volta. Enquanto no entorno veem surras, bebedeira, exploração, subserviência. Na casa de Zeca e Salu, sua esposa, acontece afeto, cuidado, diálogo, ensinamento e união, que nem sempre conseguem protegê-los da realidade, mas que ainda assim não abrem mão. As personalidades de Bibiana e Belonísia são frutos dessa criação. Sempre que possível fazem uso dos ensinamento e da honra que herdaram de seus pais. 

Com Zeca Chapéu Grande me embrenhava pela mata nos caminhos de ida e volta, e aprendia sobre as ervas e raízes. Aprendia sobre as nuvens, quando haveria ou não chuva, sobre as mudanças secretas que o céu ou a terra viviam. Aprendia que tudo estava em movimento - bem diferente das coisas sem vida que a professora mostrava em suas aulas. Meu pai olhava para mim e dizia: "O vento não sopra, ele é a própria viração", e tudo aquilo fazia sentido. "Se o ar não se movimenta, não tem vento, se a gente não se movimenta, não tem vida", ele tentava me ensinar. 


Cresci em meio às crenças de meu pai, de minha vó, e mais recentemente de minha mãe. Os objetos, os xaropes de raízes, as rezas, as brincadeiras, os encantados que domavam seus corpos, tudo era parte da paisagem do mundo em que crescíamos. 

 As questões religiosas se entrelaçam com a vida das personagens de uma forma muito bonita. Como vivem e trabalham na terra, muitas vezes a importância que dão ao território de onde tiram seu sustento, alcança uma dimensão mística, mágica e quase sobrenatural. A partir disso Itamar trabalha muito bem com o sentimento de pertencimento do povo com a terra, com a casa, com a comunidade. Muitas vezes sentimos que cada personagem se sente como que nascido daquela própria terra, mesmo aqueles que vieram de outras localidades. É também essa temática do pertencimento, da identidade, da memória que levanta uma das principais questões do livro: o não direito à terra. 


Além de explorar as dores e injustiças do trabalho análogo à escravidão, Itamar também constrói em sua narrativa o processo de despertar de uma comunidade oprimida em relação a seus direitos. Conforme os anos vão se passando e nossas protagonistas vão se tornando mulheres adultas e marcadas por muitos acontecimentos, vamos testemunhando também uma tomada de consciência sobre seus direitos. Direitos que possuem em uma terra que ajudaram a construir, onde nasceram, foram criadas e que nunca tiveram a permissão nem mesmo de construir uma casa que não fosse de barro. 


Lendo "Torto Arado" temos também a angústia como companhia ao percebermos que em alguns aspectos é como se o tempo não tivesse passado, como se estivéssemos presos no passado Ainda que muitos não queiram enxergar, o racismo ainda dita regras em nosso país e clamar por direitos humanos, por igualdade social e racial é mais que um dever, é um posicionamento político. "Torto Arado" é uma obra prima, é uma ficção concebida por um grande pesquisador que conhece bem sobre o que escreve, portanto é também um livro político. Poético e político da melhor maneira que isso possa ser. 



Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra de Mia Couto

 Um rio chamado tempo, uma casa chamada Terra de Mia Couto (Companhia das Letras, 2003) é um livro que abraça forte um projeto de literatura como arte. Essa é uma característica que podemos encontrar nos diversos textos de Mia Couto, que trabalha com as palavras de forma cirúrgica sem perder algo que garante fluidez de leitura e aproximação dos leitores das temáticas que propõe tratar. Em "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" encontraremos temas muito fortes e estruturantes para a história apresentada. Temos a morte como um dos temas centrais, e aqui a morte não aparece como eminência de fim, e sim como ponto de partida. Encontraremos a exploração das relações familiares sob diversas óticas e principalmente através do viés das lembranças e das memórias. Veremos o rio e a casa como simbologias para tempo, espaço, ciclo e movimento. Também teremos a beleza e o peso das tradições, assim como as questões sobre mestiçagem como um "não lugar", mas também como possibilidade de estar lá e cá, da construção das individualidades culturais, nacionais, coletivas e individuais. O livro é também um contraponto entre as tradições e as ditas modernidades e suas formas de coexistirem - algo que nem sempre ocorrerá de forma pacífica. 


A história do livro se passa em Luar do Chão, uma aldeia isolada que enfrenta diversos problemas advindos da desigualdade social e de um contexto político pós guerra civil. É nesse contexto que os personagens vão sendo desenhados e que o tema da mestiçagem vai sendo trabalhado de forma muito intensa. Marianinho, um jovem estudante universitário, chega a Luar do Chão por conta da morte de seu avô também chamado Mariano, e serve como nossos olhos, como nossos óculos a medida que vai retornando a seu lugar de origem, reencontrando familiares e histórias de sua família. 


Como Marianinho viveu processo de afastamento de sua aldeia para viver em um centro urbano, podemos perceber na história uma exploração das tradições em contraponto com o dito "mundo moderno". Lemos uma espécie de comparação entre as vivências de um espaço urbano das vivências de um ambiente de aldeia. Enquanto o espaço urbano acaba por promover um afastamento das tradições, o que é algo quase que inerente a ideia de globalização e modernidade que vivemos hoje, a aldeia aparece como o lugar que possibilita o contato com a tradição quase como algo sagrado e místico. O espaço de aldeia é apresentado como uma personificação das lutas pela manutenção das tradições. 

Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a cidade e a ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a sua própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais  longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas. 

Mia Couto vai passeando entre o moderno e as tradições, entre o real e o fantástico. A própria morte do avô Mariano serve como uma estratégia narrativa para isso. Quando Marianinho chega ao vilarejo percebe que seu avô ainda não fora clinicamente declarado como morto e que seu pulso apesar de estar extremamente fraco, ainda está ali pulsando. Enquanto esperam pelo desfecho, pelo último suspiro de Mariano as tradições em relação a morte vão desfilando pelas páginas, mostrando a morte como movimento, como renascimento. Diante do "fim" toda a família se move. "A morte, essa viagem sem viajante, ali estava a dar-nos destino."


O autor cria um universo que muito se aproxima do realismo fantástico latino americano do século XX. É como se ao atravessar o rio que leva a ilha de Luar do Chão estivéssemos também atravessando uma linha que divide o mundo moderno de um mundo místico, cheio de segredos e que vive sob lógicas que Marianinho vai passar a investigar. A história de cada personagem de Luar do Chão parece viver também sob as régias da natureza, com descrições fantásticas de encher os olhos. Mia Couto criou uma narrativa onde os segredos, os mistérios e os principais eventos que modificam uma vida são tão fortes a ponto de causar manifestações da natureza. 


Um outro ponto interessante do livro são os nomes que Mia Couto escolhe para as personagens. Alguns são quase literais a ponto de carregarem consigo uma grande característica da personalidade da pessoa que o carrega. Os nomes vão trazer consigo um caráter simbólico para a obra e serão mais um elemento para que o leitor entenda cada personagem. Tio Abstinêncio, Mariavilhosa, Ultímio e Admirança são alguns dos exemplos. A forma como Mia Couto brinca com algumas palavras também é algo que pede dos leitores uma total imersão na obra e no tipo de história que está sendo contada. Muitas vezes não entendemos se a construção de algumas palavras obedece a alguma tradição, dialeto de Moçambique ou se é algum analogismo. 


Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" Mia Couto trás o sagrado até a palavra e a palavra até o sagrado em uma troca que não busca explicações lógicas. O autor consegue torna o real algo realíssimo utilizando do fantástico em uma literatura que desafia nosso olhar acostumado apenas a leituras ocidentalizadas. O livro utiliza muito bem da fantasia, dos mistérios, dos sonhos, do suspense para criar uma obra que atravessa o rios e faz morada dentro das vivências de cada leitor. 

 

Deus ajude essa criança da Toni Morrison

 Deus ajude essa criança (Editora Companhia das Letras, 2018) é um romance instigante de autoria da grande escritora Toni Morrison, vencedora de um Nobel de Literatura, sendo a primeira mulher negra a receber tal prêmio. "Deus ajude essa criança" é um livro de impactos e o maior deles está na exploração do racismo na infância e como essa experiência de violência pode se manifestar na história das pessoas. O racismo é uma temática bastante presente na obra de Morrison, mas nesse livro podemos ver uma exploração maior sobre as questões da pele, do dito "colorismo". Esse tema é inserido ao acompanharmos o nascimento de Lula Ann Bridewell, uma menina que já nasce sendo repelida pelos próprios pais por ter a pele muito mais retinta do que eles julgavam "aceitável". 


Não levou mais de uma hora depois que tiraram a criança do meio das minhas pernas pra perceberem que tinha alguma coisa errada. Muito errada. Ela era tão preta que me assustou. Preto meia-noite, preto Sudão. Eu tenho a pele clara, o cabelo bom, o que chamam de pele oliva, e o pai de Lula Ann também. Não tem ninguém na minha família com uma cor daquela. Alcatrão é o que chega mais perto, só que o cabelo dela não combina com a pele. É diferente: liso mas ondulado, igual ao daquelas tribos nuas da Austrália. Dá pra pensar que ela é uma agressão, mas agressão pra quê? 

Nesse trecho da obra já podemos perceber diversas nuances de como o racismo se manifesta. O racismo tem raízes tão profundas no modelo de sociedade que construímos, sendo possível a existência de uma escala de cor de pele aceitável, inserida também entre os próprios pretos como uma forma violenta de auto preservação, de defesa. Lula Ann é filha de pais negros, mas nasceu com a pele mais escura, mais retinta que a pele dos seus pais. Movido por uma desconfiança o pai acaba abandonando a família e Lula Ann passa a lidar com o desprezo da própria mãe e as demais consequências do racismo em uma sociedade que quanto menos preto você parecer, melhor. 

Quando impera o medo, obedecer é a única opção de sobrevivência. E eu era boa nisso.


Para além dessas questões de âmbito familiar, Lula Ann acaba sendo ainda na infância a peça chave da conclusão de um julgamento. Ela ajuda a condenar uma pessoa por um crime que supostamente presenciara. Esse acontecimento acaba por melhorar um pouco a relação com sua mãe, que acha uma grande coisa sua filha negra ajudando a condenar e mudar o destino de uma pessoa branca, algo muito simbólico nesse livro, mas também se torna meio que uma obsessão, um fantasma que acompanha os dias da menina e que reverbera na sua vida adulta. 


Quando constrói a fase de Lula Ann adulta na história, Toni Morrison faz algo genial que é nos mostrar as estratégias da Lula mulher para driblar o racismo e enfrentar (ou reprimir) suas memórias. Ela se torna uma mulher bem sucedida, trabalha na área de cosméticos e inclusive fora a responsável pela criação de uma linha de cosméticos e maquiagem muito celebrada. Lula Ann que agora adotara o nome Bride, algo muito significativo no que diz respeito a suas memórias, usa de sua beleza como escudo, de sua ascensão econômica e social para garantir um local de sossego e descanso do preconceito, ainda que sua eficácia não seja cem por cento. 

Os retalhos da vida que ela havia remendado: glamour pessoal, controle em uma profissão excitante, criativa até, liberdade sexual e , acima de tudo, um escudo que a protegia de qualquer outro sentimento intenso demais, fosse raiva, vergonha ou amor. 

Bride passou a viver uma vida que muitas vezes parecia ser monitorada por aparelhos anti tensão. Acontece que as questões referentes à sua própria história, à sua família de origem, às violências que viveu ou presenciaram acabam batendo à porta e Bride começa um movimento que parece uma revisitação desses traumas e desses dores, como se fosse seu inconsciente, sua história pregressa a tomando de assalto.  


"Deus ajude essa criança" se aproxima muitas vezes de algo que beira a fantasia para ilustrar a reforma íntima e a luta com a própria consciência que é travada pela protagonista da história. É uma narrativa que olha para a sociedade, com intuito de demonstrar o quanto ela é cruel e a inserção das crianças no texto não é aleatória. Tive a impressão de que Toni Morrison decidiu utilizar a figura da criança, que no livro são expostas a diversos tipos de violência, como uma estratégia de sensibilização, como a ideia de que se uma criança em estado de vulnerabilidade e violência extrema não for capaz de provocar reflexão e abrir os olhos de uma pessoa para as injustiças do mundo, o que mais será capaz de promover esse acordar?