Um lugar ensolarado para gente sombria da Mariana Enriquez

Um lugar ensolarado para gente sombria, da escritora argentina Mariana Enriquez (Editora Intrínseca, 2026) é um livro que reúne doze contos que apostam na temática do terror e do fantástico para falar dos fantasmas reais que rondam a nossa existência. Na obra, as situações grotescas ou inusitadas servem como metáfora para explorar temáticas como a pobreza, a violência urbana, a violência contra as mulheres, a decadência das cidades e das relações, como também a situação política, social e econômica da argentina. A maioria dos contos aposta no protagonismo feminino, o que ganha uma força através da narrativa singular da autora.


Ainda que o ponto de partida da obra seja o terror e o assombro, se faz necessário entender que o estilo de escrita da autora nos convida para uma fuga dos cenários clássicos das histórias macabras. Nos contos não vamos encontrar morcegos, sangue jorrando, cenários chuvosos e nem castelos assombrados. As histórias trabalham com o contraste entre luz e sombra, entre o real e o imaginário, a fim de nos mostrar que o verdadeiro terror está na realidade e na crueldade humana.


Nunca contei a ele que o fantasma do garoto vinha todas as noites para nos lembrar de nossa miséria, nossa mesquinharia e nossa covardia.


Os fantasmas que assombram os contos de “Um lugar ensolarado para gente sombria”, vão além das figuras do folclore e dos clássicos personagens do terror; eles encarnam as marcas indeléveis das ditaduras militares, o luto coletivo e as violências de Estado que continuam a ecoar na América Latina contemporânea. O passado nunca aparece como algo encerrado, mas sim sob a forma de ruínas, desaparecimentos e deformidades no qual as cicatrizes psicológicas e as heranças traumáticas das gerações se manifestam diretamente na vida de cada personagem.

O grande destaque da obra está na estética visceral e na voz narrativa inconfundível de Mariana Enriquez. Seu texto é dotado de muita ironia, ao mesmo tempo em que constrói um cenário de decadência que equilibra melancolia e horror psicológico. Os narradores passeiam por neuroses diárias e situações violentas e grotescas que ajudam a tornar o bizarro ainda mais perturbador.


Apesar da escrita ser bastante fluida, o texto não entrega explicações óbvias e muito menos reconfortantes. A escritora aposta em finais que intencionalmente recusam o conforto e o encerramento harmonioso, prolongando o incômodo no leitor e transformando a própria forma da escrita na principal ferramenta de sustentação do medo.

Água fresca para as flores da Valérie Perrin

Água fresca para as flores da Valérie Perrin (Intrínseca, 2021) é um romance onde acompanhamos de perto a vida de Violette Toussant, uma mulher emocional e bastante devotada a seus amores. De forma não linear, embrenhamos nos pensamentos, sentimentos e dores de uma personagem que a vida e as circunstâncias transformaram em uma zeladora de cemitério. Através de uma escrita fluida e hipnótica, Valérie Perrin constrói uma atmosfera incomum e nada convencional sobre o que a cultura e o senso comum construíram em relação a um ambiente como o cemitério e em relação ao luto e a morte.


Eu me chamo Violette Toussaint. Fui vigia ferroviária e agora sou zeladora de cemitério. Degusto a vida, tomo-a em pequenos goles, como um chá de jasmin misturado com mel. E, quando a noite chega, depois que os portões do meu cemitério são fechados e a chave é pendurada na porta do meu banheiro, estou no paraíso.
Podemos dizer que “Água fresca para as flores” é um romance triste, mas a sua tristeza se apresenta de uma forma bastante peculiar e interessante. Dois elementos são principais para entender como a tristeza será abordada. De um lado, temos a Violette, uma personagem que irá cumprir a clássica trajetória da heroína passando por percalços de todos os tipos. Do outro temos a ambientação do cemitério.

Apesar de ser a heroína que sofre, Violette está longe de ser uma mulher fraca. Desde a juventude, se mostrava muito conectada a seus próprios prazeres e com uma coragem de se jogar em situações onde as consequências nem sempre se apresentavam de forma clara. Nessas condições que ela se apaixona perdidamente pelo belo e vagabundo Philippe Toussaint e viverá uma relação bastante problemática. Philippe será sua redenção e sua perdição.

Sabemos pouco sobre como é a rotina de alguém que trabalha e mora em um cemitério, mas somos cheios de certezas sobre essa questão, sendo uma das mais fortes a de que são pessoas tristes. Violette, além de romper com estereótipos relacionados ao luto e a morte, também apresenta o cemitério por uma outra ótica. O livro trata o cemitério não como um lugar macabro e assustador, mas como um lugar de encontros e histórias.

Os únicos fantasmas nos quais acredito são as lembranças. Sejam elas reais ou imaginárias. Para mim, as entidades, os mortos-vivos, os espíritos, todas essas coisas sobrenaturais só existem na cabeça dos vivos. Algumas pessoas se comunicam com os mortos, e acho que são sinceras, mas, quando alguém morre, morre. Se volta, é porque um vivo o ressuscitou através do pensamento. Se fala, é porque um vivo empresta sua voz; se aparece, é porque um vivo o projeta com seu espírito, como um holograma, uma impressora 3D.
Seguindo uma linha que é quase inerente às obras da Valérie Perrin, muitas outras histórias vão sendo costuradas em paralelo com a trama principal. Os enterros e os mortos que passeiam pela obra, acabam por funcionar como esse ponto de congruência entre as histórias de quem está vivo e de quem está morto, provando que o luto é também um meio de manutenção da memória. Alguns personagens tem sua introdução pelo ano de nascimento seguido de seu ano de morte, para logo em seguida viajarmos pelas suas histórias de vida e de morte. No cemitério de Violette os mortos não são apenas lápides frias.

A autora trabalha com a ideia de que “todas as profissões que têm a ver com a morte parecem suspeitas”, subvertendo a narrativa e criando personagens divertidos, carismáticos e cheios de pulsão de vida. Violette se junta à sua equipe de trabalho e transforma o cemitério em um espaço acolhedor e humano. Ela é a zeladora de cemitério que lida com um processo de luto pessoal profundo, mas que por baixo do sobretudo preto, sempre usa um vestido floral. Violette passa a viver na linha tênue entre o seu próprio sofrimento e a capacidade de ouvir e cuidar de cada um que a procura no cemitério.

Existem alguns mistérios que rondam toda a narrativa e eles vão sendo respondidos de forma gradual, enquanto a narrativa passeia entre presente, passado e diferentes pontos de vista. O estilo da escrita de Perrin passeia pela prosa poética e por uma melancolia que nos faz refletir sobre as temáticas que a obra apresenta. A obra deixa um forte apelo de que a vida nem sempre será justa ou honesta, mas que diante de qualquer situação sempre será possível oferecer água fresca para as flores.

Os esquecidos de domingo da Valérie Perrin

Os esquecidos de domingo da Valérie Perrin (Editora Intrínseca, 2026) é o primeiro romance da autora, que hoje é uma das mais lidas da França. Na história, acompanhamos a vida de Justine, uma jovem que trabalha como auxiliar de enfermagem em uma casa de repouso com muito amor e afinco no trato com os idosos. A obra faz reflexões interessantes sobre vida, morte, amor, memória e envelhecimento, através da construção de personagens interessantes e que carregam consigo as contradições do ser humano.


O livro é estruturado de tal maneira, onde acompanhamos três grandes histórias em uma só. Temos o arco narrativo onde conhecemos de perto a Justine e todas as suas questões. A garota vive em uma cidade pequena com seus avós e seu primo Jules, que considera um irmão. Enquanto os avós são puro silêncio, Jules é uma das poucas experiências de afeto de Justine.

A família lida de forma silenciosa com o luto causado por um acidente de carro que matou os pais de Justine e Jules. Quatro pessoas morreram na mesma noite e parece haver um segredo sobre as reais circunstâncias do acidente. Acontece uma verdadeira investigação pessoal de Justine sobre sua família.

Na casa de repouso Hortênsias, Justine se mostra aberta a não só cuidar bem de cada um dos residentes, como também se interessa pela vida de cada pessoa que atende. Essa relação se torna ainda mais intensa nos momentos de convivência com Hèléne, senhora que viveu uma história de amor com carga de emoção e drama dignos do cinema e sua história se mistura com a história daquele pequeno vilarejo da Borgonha. Justine começa a registrar o que Hèléne lhe conta em um caderninho azul e esse é mais um dos arcos da narrativa. A vida de Hèléne é tão emocionante que é como se fôssemos apresentados a um livro dentro do outro.

Temos também um arco narrativo de mistério que nomeia o livro. “Os esquecidos de domingo” são aqueles idosos que recebem pouca ou nenhuma visita dos parentes nos fins de semana e acabam participando de atividades de socialização propostas pela casa de repouso. Acontece que alguém, que possui acesso a casa de repouso Hortênsias e aos dados desses idosos, começa a telefonar para os familiares dos “esquecidos de domingo” como se fosse a própria instituição, informando a “morte” dos idosos esquecidos que ainda estão vivos. Isso acarreta confusões, uma investigação, matérias na televisão, mas também aumenta a frequência de visitas.

Mas eu não sei a partir de que idade se vira velho. A sra. Le Camus, minha gerente, diz que é a partir do momento em que a pessoa não consegue mais cuidar da própria casa sozinha. Que tudo começa quando é preciso deixar o carro na garagem porque viramos um perigo, e tudo termina com uma fratura na cabeça do fêmur. Eu acho que começa com a solidão. Quando o outro se vai. Para o céu ou para outra pessoa.

“Os esquecidos de domingo” é um romance que trata de diversos temas, mas a questão que se destaca é a do envelhecimento e do lugar afetivo e social em que colocamos os idosos. O interessante é que em nenhum momento a obra chega a ser piegas, e isso se deve a própria natureza dos personagens. O afeto de Justine pelos idosos e principalmente por Hèléne, tem origem na sua carência de afeto familiar. Justine embarca na vida de Hèléne, por nunca ter tido a oportunidade de embarcar na vida dos próprios avós, que apesar de a criarem, sempre deixarem algumas barreiras intransponíveis na relação. Justine se encontra na profissão de cuidar dos idosos, porque desenvolveu uma urgência em ouvir.

Meu cotidiano é assim, sabe? A gente tem que escutar tudo com urgência, porque o silêncio nunca está muito longe.

Justine enxerga os idosos como sujeitos. Isso faz toda a diferença para o seu trabalho e também para sua percepção de vida. Quando olha para cada um dos residentes da casa Hortênsias, Justine enxerga lembranças, memórias, saudades, amores, pessoas dotadas de “bibliotecas íntimas”. “Essas bibliotecas onde amo passar as horas”.

Ao tratar da temática da velhice, o livro embarca em discussões sobre memória e esquecimento, velhice e abandono, amor e perda, identidade e passado. O próprio ritmo da escrita nos carrega por uma aventura que obedece ao ritmo de quem conta uma história a alguém, e que conforme vai se lembrando de episódios do passado, ajuda a tecer o fio da vida. A alternância temporal da narrativa funciona como uma ilustração do jogo da memória.

A morte também é uma presença constante no romance, seja caminhando pelos corredores da casa de repouso, na revisitação do passado de Hèléne, que antes da realidade do envelhecimento, teve que enfrentar a realidade da guerra, seja nas saudades de quem já se foi e também no silêncio causado pela morte dos pais de Justine.

Na França, temos dificuldade com essa palavra, e, na Hortênsias, somos proibidos de mencioná-la. Os residentes com frequência usam eufemismos irônicos para falar da morte: bater as botas, abotoar o paletó, ir dessa para melhor, esticar as canelas, dar o peido-mestre, virar estrela, dar o último suspiro. Os funcionários devem usar palavras dignas: partir, falecer, descansar, ir-se, dormir o sono eterno.
Com uma linguagem sensível, poética e emocional, Valérie Perrin nos leva a refletir sobre o que permanece quando envelhecemos e o que podemos fazer enquanto vemos a vida passar diante de nossos olhos. É uma história sobre a importância do olhar, da valorização das pessoas que nos rodeia e da importância de ouvir e registrar histórias. Diante da morte, que um dia chegará para todos nós, a principal marca que poderemos deixar estará nas histórias que vivemos com os outros.

Vovó vigarista de David Walliams

Vovó vigarista do David Walliams (Editora Intrínseca, 2013) é um livro infantojuvenil super divertido. O autor aposta em um texto cheio de ironias e piadas rápidas que conseguem arrancar risadas em leitores de todas as idades. Utilizando do humor, aborda temas importantes, sendo o principal deles a forma como tratamos os velhos e como vemos a velhice. Na história, um neto irá descobrir que sua avó é uma pessoa dotada de histórias, de individualidade, de desejos e que dedicar parte de seu tempo para conhecê-la melhor poderá mudar para sempre sua vida.


O texto de David Walliams começa muito bem, pois nos faz refletir sobre a maneira que tratamos e o tempo que dedicamos às pessoas mais velhas. É impossível ler a obra sem evocar lembranças de momentos que passamos com nossos avós. Por conta de fatores culturais, educacionais e do próprio conflito geracional, acabamos tornando nossos avós quase invisíveis e, às vezes, só percebemos isso no momento em que eles vão embora.

Virando a esquina, eles chegaram a Grey Close, onde ficava a casinha da vovó. Era apenas mais um de uma série de chalés pequenos e tristes, habitados principalmente por gente velha. O carro parou, e Ben lentamente virou a cabeça na direção da casa: lá estava a avó, olhando ansiosa pela janela da sala. Esperando. Esperando. Ela sempre estava à janela à espera dele.
Os pais de Ben sempre tiram a noite de sexta-feira para a própria relação, seja para irem a uma festa, um restaurante, um cinema ou assistirem ao “Dançando com as estrelas”, que é o programa de TV favorito do casal. Então, o garoto precisa ir para a casa da vó, que sempre o espera ansiosamente, enquanto para Ben a noite de sexta-feira é quase um martírio.

Ben se incomoda com tudo que tem relação com a sua avó, desde a forma como ela se veste, como ela fala e o que ela come. As reclamações sobre o que ela come são as únicas em que precisamos dar razão ao garoto, pois ela possui uma obsessão inexplicável em colocar repolho em tudo. A sensação de Ben é que qualquer coisa que ele poderia estar fazendo seria melhor que passar as sextas-feiras com a avó.

Aquela noite foi a mesma história de sempre. Vovó lhe deu sopa de repolho, seguida de torta de repolho e, de sobremesa, uma musse de repolho. Ela conseguira até achar em algum lugar um chocolate com sabor repolho.
O livro possui um texto bem dinâmico e que ganha ainda mais frescor com as ilustrações de Tony Ross. Algumas ilustrações aparecem como vinhetas que ajudam a dar mais detalhes sobre a história e que colaboram com o exagero e a caricatura propostas pelo autor. As imagens são tão engraçadas e absurdas quanto o texto.

Um outro ponto que acho interessante na obra, é que ela não tem medo de trabalhar com o quanto nós, seres humanos, somos complexos em relação ao que é considerado certo ou errado. Durante toda a história, são apresentados temas que algumas pessoas acreditam não ser indicados para crianças, como se elas vivessem em um mundo onde dor, sofrimento e crime não existissem. Todos os temas que possam ser considerados impróprios para as crianças por alguns, são tratados de forma responsável na obra e obedecem à sede inerente que as crianças possuem pelas aventuras. Tudo caminha para um final muito satisfatório. 

Na narrativa, Ben fica extremamente empolgado ao descobrir que sua avó, pessoa que até então ele definia como “chata”, pode possuir um grande segredo, uma vida dupla. E não é um segredo qualquer. Ele embarca em uma investigação sobre a rotina de sua avó e ao que tudo indica, ela pode ser uma grande vigarista.

 

A família perfeita de Lisa Jewell

A família perfeita  de Lisa Jewell (Editora Intrínseca, 2022) é um livro de suspense com uma receita difícil de dar errado: capítulos rápidos, várias reviravoltas e um narrador tão suspeito quanto a própria trama. A história começa com Libby, uma jovem que está completando 25 anos, recebendo uma carta que irá mudar sua vida. Na carta ela descobre a identidade de seus pais biológicos e que é a única herdeira de uma mansão que custa milhões. Como se já não fossem revelações suficientes, Libby ainda descobre que seus pais foram encontrados mortos na cozinha dessa mesma casa, ao lado de mais um homem cuja identidade nunca fora revelada. Os três corpos foram encontrados em estado de decomposição no que fora, aparentemente, resultado de um misterioso pacto suicida. Enquanto os corpos jaziam na cozinha, Libby, ainda um bebê de dez meses, chorava em um berço no andar de cima.


Vinte e cinco anos antes, a polícia foi ao casarão após receber o chamado de que havia um bebê chorando. Quando chegaram, os policiais encontraram uma menininha de dez meses, saudável, balbuciando alegremente em seu berço. Na cozinha, porém, jaziam três cadáveres em decomposição, todos vestidos de preto, ao lado de um bilhete rabiscado às pressas.
Para tentar entender a sua própria história, Libby se junta a Miller, um jornalista investigativo que, a anos atrás, escreveu uma extensa matéria sobre o caso, mas sem conseguir decifrar as motivações e circunstâncias das mortes. Visitando a mansão e indo em busca de outras pessoas que possam ter tido alguma relação com a casa e com seus pais, os dois vão se aproximando de verdades perturbadoras.

Ao avançarmos na história, descobrimos que Libby não era a única pessoa que estava à espera da carta. A narrativa volta no passado, para mostrar a história de outras pessoas que estavam vinculadas aos acontecimentos misteriosos da mansão. Retornamos para o início dos anos 80 para entender a história da casa e de algumas pessoas que acabaram se tornando moradores em circunstâncias bizarras.

Libby para e pensa em todos os outros mistérios revelados pela reportagem: as crianças que fugiram da casa, a pessoa que ficou para cuidar dela. Pensa nos rabiscos nas paredes e na tira de tecido pendurada no radiador, nos arranhões entalhados nas paredes, no bilhete estranho deixado pelos pais, nas rosas azuis pintadas no berço, nas folhas de papel arrancadas das paredes, nas manchas de sangue e nas fechaduras do lado de fora dos quartos das crianças.
Os capítulos, além de alternarem entre passado e futuro, também alternam entre pontos de vistas de três personagens diferentes, que são a Libby, a Lucy e o Henry. A forma como a autora traça a linha temporal e nos apresenta a cada um dos personagens é bastante empolgante. É aquele tipo de livro onde provavelmente você terá um narrador preferido. No meu caso são os capítulos onde Henry, um dos adolescente que morava na casa, defende o seu ponto de vista. Henry é um narrador enigmático e ao mesmo tempo muito convincente. Tudo em que ele se envolve é de forma extremamente intensa e passional, o que confere uma boa dose de drama e tensão para seus capítulos.

“A família perfeita” pode sim ser considerado um thriller de suspense, mas acredito que sua porcentagem de drama familiar seja o ponto principal. Jewell consegue a façanha de construir a tensão sem usar das formas gráficas de violência, pois ela aposta em uma tensão que é psicológica. Os perigos que rondam a trama estão mais voltados para a capacidade de destruição de vidas pela manipulação do que para os atos de violência física em si.

Variações enigma de André Aciman

Variações enigma do André Aciman (Intrínseca, 2018) é um romance que segue características parecidas com “Me chame pelo seu nome”, história que o popularizou no meio literário, ganhou uma adaptação cinematográfica e o Oscar. André volta a explorar a capacidade de um homem de se apaixonar loucamente e todas as idealizações e sofrimentos que um amor arrebatador pode causar. Tudo isso é feito com uma escrita poética, sincera e, por vezes sensual, que utiliza de elementos das artes e da cultura erudita. Em Variações enigma nos conectamos com Paul (ou Paolo) em fases diferentes da vida, onde o tom da história será sempre a forma pungente como ele lida com as relações amorosas.


A escrita de Aciman é algo que sempre me impressiona. Ela consegue ser poética e bruta ao mesmo tempo e em “Variações”, como se trata do fluxo de pensamentos do protagonista, a prosa de Aciman assume um caráter de discussão interna, bem nos moldes daquelas que temos com a gente mesmo. André Aciman sabe escrever lindamente sobre paixão e amor.

Ainda muito jovem, com apenas 12 anos e vivendo em um vilarejo no interior da Itália, Paolo se vê encantado por um marceneiro de vinte e poucos anos que aparece na casa de sua família para reformar um móvel antigo. Esse amor platônico servirá como um movimento de descoberta de uma das facetas da sexualidade de Paolo. O capítulo inicial, que para mim é um dos melhores do livro, já nos dará dicas interessantes de como funcionará a cabeça e os desejos do personagem na vida adulta.

- Sim, o passado é um país estrangeiro - falei -, mas alguns de nós são cidadãos de pleno direito, outros turistas ocasionais e outros itinerantes incertos, ansiosos por ir embora, mas sempre desejosos por voltar.
Para algumas pessoas, esse recorte do despertar da sexualidade e dos desejos de Paolo, ali pelo final da infância, pode gerar alguns incômodos. Particularmente, não vi problemas na forma como o autor explora o assunto. Aciman segue os passos de como se dá esse despertar de um sentimento que é algo muito novo e que surge ali, numa fase da vida onde a puberdade e os hormônios já estão ditando algumas regras. Fomos condicionados, culturalmente, a ignorar o florescer da sexualidade humana, que acontece muito mais cedo do que pensamos.

Os demais capítulos darão um salto no tempo e veremos Paolo como um jovem adulto, vivendo na cidade de Nova York e envolto em algumas tramas amorosas complicadas. É interessante a forma como Aciman constrói a personalidade de Paolo. Ele é um homem difícil de se decifrar, repleto de neuras e de atitudes que por vezes não entendemos muito bem. Exatamente por isso ele se torna um personagem bastante real.

As relações amorosas seguem sendo o calcanhar de Aquiles do personagem. Seja se relacionando com mulheres ou com homens, Paolo repete alguns ciclos de comportamentos que transforma as relações em tramas cheias de reviravoltas. Paolo parece não conseguir se firmar em um amor tranquilo e mesmo quando não há tensões ele acaba criando-as, ainda que seja apenas em sua mente. Ele parece se reconhecer enquanto sujeito quando envolto em caos.

O arrependimento é o modo como ansiamos por coisas que perdemos, mas nunca tivemos de verdade. O arrependimento é a esperança sem convicção, eu disse. Estamos divididos entre o arrependimento, que é o preço que pagamos pelas coisas que não fazemos, e o remorso, que é o preço que pagamos por fazê-las. Entre um e outro, o tempo se diverte com seus convidativos truques.
O livro é estruturado em cinco partes em uma escrita que se assemelha aos contos. Algo interessante é que cada um dos capítulos pode ser lido de forma aleatória e isso não irá interferir no entendimento da obra. Seguindo nessa ideia de aproximação dos contos, cada um dos capítulos possui uma espécie de ponto final, de conclusão, ainda que se tratem de episódios da vida amorosa de Paul. E cada um deles termina de forma inesperada, trazendo uma revelação difícil de se prever.


O primeiro a morrer no final do Adam Silvera

O primeiro a morrer no final do Adam Silvera (Intrínseca, 2022) é o segundo volume de uma saga iniciada com “Os dois morrem no final”. No primeiro livro, vemos uma sociedade que aprendeu a lidar com a existência da Central da Morte, empresa que alerta as pessoas sobre o dia que vão morrer e que estabeleceu diversos serviços de apoio aos chamados “Terminantes” para que eles tenham o melhor Dia Final possível - ainda que ninguém saiba como a instituição consegue prever as mortes. No segundo livro, o autor nos leva para sete anos antes dos acontecimentos do primeiro volume, no exato dia em que a Central da Morte está começando oficialmente a operar com um grande evento de inauguração na Times Square. O dia é 30 de julho de 2010. Com esse pano de fundo, conhecemos um pouco dos bastidores da empresa e os diversos embates éticos, morais e sociais que rondam o tema da morte.



A narrativa se desenrola em apenas um dia e por conta da boa escrita de Adam Silvera, 24 horas se tornam mais que suficientes para que a gente se apegue aos personagens. No centro da trama estão os jovens Valentino Prince e Orion, que vão precisar lidar com a eminência da morte por perspectivas completamente diferentes. Um dos grandes ganhos da história é a maneira responsável e reflexiva com que a morte é apresentada, principalmente se pensarmos em seu público alvo, que são os jovens adultos. O livro parte das experiências pessoais de cada personagem com a perda para “justificar” a forma que lidam com a morte quando ela encosta.

Apesar da temática da morte ser o fio condutor de toda a história e se apresentar inclusive no título, o livro se presta a fazer uma espécie de ode á vida. O fato do anúncio da morte já se apresentar no título, como se fosse um spoiler, é uma estratégia interessante para demonstrar a inevitabilidade do fim. Partindo da premissa de que “a vida não deveria estar prestes a acabar para alguém começar a viver”, os caminhos dos personagens e o temido alerta de morte servem de alegoria para falar sobre a potência de uma vida bem vivida. Pensando assim, saber quem vai morrer deixa de ser o ápice da obra. O que passa a importar é o que cada terminante fará de suas últimas horas de vida.

Eu não estou morto, mas com frequência sinto como se levasse uma vida de quase morte. Sei que aquele ceifador maldito se aproxima cada vez mais. É quase como se morasse junto com a gente: começou se acomodando no sofá, depois se sentiu sozinho e veio dormir num colchão inflável no meu quarto, mas sua ceifa furou o colchão, e ele passou a dormir de conchinha comigo na minha cama de solteiro. Eu sinto a respiração da morte na minha nuca, mas ainda estou aqui. 


Em “O primeiro a morrer no final” o Adam Silvera conseguiu explorar duas facetas que dão um grande fôlego para a continuidade da saga: a costura de personagens do primeiro livro com o segundo e o mistério sobre a natureza da metodologia de previsão da Central da Morte. Sabemos que ela é eficaz, mas não sabemos se surge da ordem das ciências ou do místico. 

De forma criativa, alguns personagens centrais de “Os dois morrem no final” cruzam o caminho dos personagens de “O primeiro a morrer no final”. Quem leu o primeiro livro, que tinha Rufus e Mateo como personagens centrais, irá reencontrá-los num passado recente, ainda crianças, e outros personagens importantes da trama. A forma como aparecem, além de nos dar mais detalhes sobre suas vidas e justificar alguns acontecimentos, acabam se tornando fundamentais para expansão da saga. É em um desses cruzamentos de personagens que a criação do aplicativo “Último Amigo” (fundamental no primeiro volume) tem sua origem apresentada. A personagem responsável por sua criação é mostrada de forma muito breve no primeiro livro, e no segundo ela já aparece em uma posição de destaque, onde conhecemos a motivação do surgimento do aplicativo.

Outro ponto relevante da obra é a apresentação da cidade de Nova York como personagem. Adam descreve a cidade com tanta intimidade, em sua glória e decadência, que nos sentimos inseridos em cada uma das ruas, esquinas e estabelecimentos que ele nos leva para visitar. A exploração urbana se mescla à exploração das diversas possibilidades de viver e isso nos coloca diante da realidade do quanto somos seres sociais. Quando cada terminante decide viver, é nos braços da cidade que eles se jogam.

Agora, abrindo o portão do prédio, me armo da coragem necessária para enfrentar o que espero que seja o melhor Dia Final que um terminante possa viver.

São muitas as vozes apresentadas em “O primeiro a morrer no final” e essa gama de pontos enriquece a história. No primeiro volume a Central da Morte era apenas um mistério que firmou seu lugar no mundo pela eficiência das previsões. No segundo volume Joaquin Rosa, o criador da instituição, é uma das vozes narrativas que aumenta ainda mais o mistério e aumenta a ansiedade dos leitores em relação ao segredo da procedência das previsões. Uma outra voz importante que surge é a dos telefonistas responsáveis por fazer os alertas de morte, chamados mensageiros.

A Central da Morte não ligou para Rolando Rubio, porque ele não vai morrer hoje, mas, segundo seu chefe, se alguém morrer sem saber que está vivendo seu Dia Final, a culpa será toda de Rolando. Só porque ele passou tempo demais no telefone com um Terminante. Que o universo o perdoe por se importar e lamentar a perda de um desconhecido.

Na intersecção entre vida e morte cabe tudo. Assim, Adam Silveira explora em seu livro temáticas diversas e com a licença poética de exagerar em cada sentimento, descoberta e sensação, uma vez que o livro passeia no limiar entre as pulsões de vida e morte. Na história cabe tudo, pois quando olhamos para a face da morte enxergamos a vida toda.

Os dois morrem no final do Adam Silvera

Os dois morrem no final do Adam Silveira (Editora Intrínseca, 2021) é uma história que encontrou uma maneira engenhosa de falar sobre a morte. Uma das certezas que temos na vida é a de que vamos morrer e no universo de “Os dois morrem no final” os personagens sabem o dia exato que isso irá acontecer. É uma distopia onde existe uma instituição chamada “Central da Morte” que liga para as pessoas avisando que elas morrerão nas próximas 24 horas. A partir do alerta essas pessoas passam a serem chamadas de “terminantes” e precisam escolher como passarão suas últimas horas.


Olá, aqui é a Central da Morte. Sinto muito em lhe informar que em algum momento ao longo das próximas 24 horas você terá um encontro prematuro com a morte. Em nome de toda a equipe da Central da Morte, sentimos muito a sua perda. Aproveite este dia ao máximo, está bem?
Acostumados a esse sistema que prevê o dia da morte, mas não a causa, toda a sociedade e as instituições se organizaram para acolher os terminantes. Em seu último dia eles tem acesso a alguns serviços gratuitos, existem “parques temáticos” oferecendo experiências radicais e seguras, aplicativos e demais serviços para que cada terminante passe seu último dia com dignidade.

Mateo Torrez e Rufus Emeterio, os dois garotos que morrem no final, não se conhecem, mas receberam o alerta da Central da Morte no mesmo dia. São dois adolescentes que esperavam tudo, menos a visita da morte em tão tenra idade. Quando recebem a ligação, após o susto inicial, passam a colocar a vida em perspectiva e vão percebendo que mesmo diante de um anúncio de morte, a única opção que lhes resta é viver.

Mateo e Rufus possuem personalidades bem diferentes. Mateo é um garoto tímido, que sempre evitou correr grandes riscos, com sensibilidade e gentileza afloradas e que tem o seu quarto e sua própria casa como refúgio. Já Rufus é um garoto que se sente vivo quando está em movimento, nas ruas, montado em sua bicicleta e rodeado por seu grupo de amigos que ele chama de “os plutões”.



O ponto em comum entre os garotos são suas histórias de perda, de luto e a maneira que lidam com isso. Mateo é órfão de mãe e no ponto em que a história do livro começa o seu pai, única referência de família, está em coma no hospital. Como seu pai não recebeu o alerta da Central da Morte, Mateo tem a certeza de que ele poderá despertará a qualquer momento.

A Central da Morte está me ligando com o aviso mais importante que recebemos durante a vida: vou morrer hoje. Esquece, “aviso” é uma palavra forte demais, já que avisos em geral sugerem algo que pode ser evitado, como um carro buzinando para um pedestre que atravessou a rua no sinal vermelho, dando a ele a chance de se afastar; isso é mais como um alerta.
Rufus perdeu toda a sua família em um trágico acidente. Carrega a dor de ter se despedido de seu pai, sua mãe e sua irmã e ter sido o único sobrevivente da família. Essa perda deixou marcas profundas em Rufus. Ele precisou se mudar para uma espécie de abrigo, lugar onde conheceu “os plutões”.

A Central da Morte está me ligando enquanto eu bato sem parar no novo namorado da minha ex. Ainda estou em cima do cara, pressionando seus ombros com meus joelhos, e a única coisa que me impede de continuar esmurrando os olhos dele é o barulho vindo do meu bolso, aquele toque alto da Central da Morte que todo mundo já conhece seja por experiência própria, pelos noticiários ou por causa de qualquer programa de merda que usa o alerta para efeitos dramáticos.
A vida dos dois garotos se cruza quando ambos decidem baixar um aplicativo exclusivo para terminantes que querem encontrar uma companhia para passar as últimas horas. Os terminantes que entram no aplicativo, buscam por algo que recebe a alcunha de “o último amigo”. É um espaço onde você pode encontrar a companhia tanto de um outro terminante, como de pessoas solidárias à situação e que doam seu tempo para amenizar a solidão dos últimos momentos.

A partir do momento que Mateo e Rufus se encontram, partimos em uma jornada interessante de autoconhecimento, de revisitação de dores e traumas e que demonstra o poder do amor, da amizade e da conexão entre as pessoas. A história explora a importância dos laços de afeto que criamos durante toda a vida em toda a sua diversidade.

A morte aparece na história como uma porta de entrada para tratar de temas diversos. Para além do clichê de que devemos viver a vida como se não houvesse amanhã, existe um aspecto importante no livro que se refere a própria discussão sobre a vida e sobre o tempo que perdemos com alguns medos. Com a perspectiva do fim Mateo e Rufus acabam encontrando apenas desejo de viver, não por mais algumas décadas, mas viver bem pelas poucas horas que lhes restam.

Como os dois decidiram usar da melhor forma suas últimas horas de vida, acompanhamos os garotos pela cidade com bastante ansiedade. Mateo e Rufus vão morrer e como não sabem qual será a causa da morte, precisam caminhar com cautela, evitar qualquer tipo de perigo e quando pensamos no contexto de uma cidade grande sob a perspectiva de um terminante, o perigo parece estar em toda parte.

O livro tem uma estrutura interessante. Cada capítulo apresenta uma voz narrativa diferente e a versão dos fatos de um mesmo momento por pontos de vistas diferentes. Em um capítulo temos o olhar de Mateo sobre Rufus, para em seguida acessarmos os pensamentos de Rufus sobre Mateo e essa escolha narrativa enriquece a trama e a construção dos personagens. Entendemos as suas intenções, seus medos e assim como os dois garotos ficam íntimos em apenas um dia, nós também nos sentimos próximos dos garotos e por mais que a gente já saiba que os dois morrem no final, acabamos torcendo para que isso não aconteça.

Kim Jiyoung, nascida em 1982 da Cho Nam-Joo

Kim Jiyoung, nascida em 1982 da Cho Nam-Joo (Intrínseca, 2022) é um romance coreano que nos conta em detalhes a trajetória de vida da personagem Kim Jiyoung. Numa primeira vista, Kim se enquadra naquelas características que o senso comum geralmente atribui às mulheres, onde ela poderia ser mais uma mulher comum que vive sua vida quase que completamente tomada pelo cuidado com a casa, com a filha e o marido. Acontece que o que “Nascida em 1982” faz é mostrar as micro e grandes violências que se escondem no papel social que as mulheres precisam se submeter e como a própria ideia de “lugar comum” e de “normalidade” ajudam a corroborar a opressão de gênero.


Sabemos sobre a discrepância que existe entre os gêneros nas sociedades e no caso deste livro, somos apresentados a um tipo de opressão bem difícil de combater, pois vem ancorada na ideia de tradição e cultura de um povo. Na Coreia do Sul, os lugares sociais destinados a homens e mulheres são muito bem demarcados e nem precisamos refletir muito para concluir o quanto as liberdades e os direitos das mulheres estão sempre em risco.

Kim Jiyoung, assim como muitas mulheres coreanas, precisou abrir mão de seu emprego quando engravidou. Essa é uma espécie de regra não dita na sociedade coreana e junto com a maternidade vem uma infinidade de atribuições que o machismo e as convenções sociais colocam apenas nos ombros das mulheres. Mas o que acontece quando uma mulher oprimida foge da norma e começa a agir de forma estranha?

O comportamento incomum de Jiyoung foi percebido pela primeira vez no dia 8 de setembro. Daehyun sabe a data exata porque era manhã de baengno (“orvalho branco”), após a primeira noite de outono em que a temperatura cai abaixo do ponto do orvalho.
Jiyoung começa a literalmente incorporar a identidade de outras mulheres. Como uma espécie de “possessão” no meio de uma conversa casual, ela toma para si o modo de falar e de agir de alguma mulher que tenha passado por sua vida. Seja essa personalidade viva ou morta. Jiyoung começa a falar como a própria mãe, ou como a sogra, como uma professora que conheceu anos atrás. É como se ela estivesse mimetizando todas as mulheres numa tentativa de fazer parte de algo, de estabelecer contato, de ampliar sua voz. 

Inicialmente o marido de Jiyoung pensa ser apenas uma brincadeira da esposa e tenta não se preocupar, mas aos poucos ele vai ficando confuso e também assustado com o quanto são idênticas e muito específicas as tais representações. Ele procura a ajuda de um psiquiatra e a partir daí que iremos conhecer a vida de Jiyung em detalhes.


A narrativa se divide entre sua infância, adolescência, início da vida adulta, casamento e a atualidade. A escritora Cho Nam – Joo mostra através de diversos episódios como o patriarcado dita regras que colocam as mulheres sempre em segundo lugar, principalmente se pensarmos numa escala hierárquica de gênero. Mostra como o machismo está entranhado em todas as formas que nos organizamos e se estabelece em um sistema que aparenta ser difícil de quebrar. Como no exemplo a seguir, que analisa a forma como a escola atua e também o próprio ambiente familiar:

Elas desenvolveram confiança e um olhar levemente crítico, mas ainda assim não conseguiam entender por que os meninos eram os primeiros da lista. O número um era um garoto, tudo começava com os garotos, e isso parecia ser o natural, o certo. Os meninos entravam na fila primeiro, os meninos lideravam qualquer caminhada, independentemente do destino aonde estivessem indo, os meninos se apresentavam primeiro, os meninos tinham a lição de casa corrigida enquanto as meninas esperavam por sua vez em silêncio, entediadas, às vezes até aliviadas por não serem as primeiras, mas sem nunca cogitar que se tratava de uma prática estranha. Exatamente como nunca questionamos por que a identidade dos homens começa com o número "1" e a das mulheres com o número "2".

Era bem estabelecido que o arroz fresco deveria ser servido na ordem pai, irmão e avó e que pedaços perfeitos de tofu e bolinhos eram do irmão, enquanto as garotas deveriam comer os que se despedaçavam. O irmão tinha pauzinhos, meias, ceroulas e mochila e lancheira que combinavam, enquanto as garotas se contentavam com o que houvesse de disponível. Se havia dois guarda-chuvas, as garotas dividiam. Se havia dois cobertores, as garotas dividiam. Se havia dois doces, as garotas dividiam. Na infância, não ocorreu a Jiyong que o irmão estivesse recebendo tratamento especial, portanto ela nem tinha ciúme. Sempre fora assim. Às vezes ela achava que alguma situação não era justa, mas estava acostumada a racionalizar as coisas, dizia a si mesma que era uma irmã mais velha generosa e que dividia tudo com a irmã porque as duas eram meninas.

É impressionante a forma como as escritoras contemporâneas estão utilizando a literatura para dar alguns gritos a muito engasgados. Tenho lido muitas obras onde a condição social da mulher tem sido explorada de forma genial, focando em temas onde antes só se falava sobre um lado romântico e idealista, como é o caso da maternidade.

O livro de Cho Nam-Joo é mais um exemplo disso e se torna ainda mais potente quando pensamos em sua ambientação e na coragem da autora de levar para as letras anseios e discussões imprescindíveis para que a gente se desenvolva enquanto indivíduos mais conscientes para construção de uma sociedade mais igualitária. Kim Jiyoung, nascida em 1982 utiliza de uma metáfora potente para nos dizer que talvez seja apenas assim, se colocando no lugar do outro que a gente conseguirá realmente enxergar nosso lugar no mundo. 



Pachinko da Min Jin Lee

Pachinko da Min Jin Lee (Editora Intrínseca, 2020) é um romance grandioso. A história nos apresenta a quatro gerações de uma mesma família que foi impactada de forma violenta pela guerra, através da ocupação japonesa na Coreia. A narrativa inicia em um período histórico de grande convulsão social e traça um relato importante sobre o papel das mulheres na cultura oriental, a degradação da guerra, questões de imigração, noções de identidade, pátria, racismo, costumes, crenças e a força de um povo que precisa resistir.


Durante algumas décadas a Coreia foi uma colônia do Japão e utilizando da força e da repressão da cultura e dos costumes coreanos, os invasores japoneses transformaram a população em cidadãos de segunda classe. O Japão explorava todos os recursos da Coreia e estabeleceu uma política que cobrava altos impostos. Com isso a Coreia se tornou um país extremamente pobre e proibido de explorar sua própria nacionalidade. Os nativos tiveram que fazer junções de seu nome coreano com nomes japoneses, fato que não os transformava em japoneses e que de fato servia para demarcar ainda mais uma posição de não-japoneses.

No arco principal da trama temos a personagem Sunja, uma moça jovem que vivia com a mãe em uma cidade costeira da Coreia ajudando na administração de uma pensão. Aqui, já estamos falando de uma Coreia extremamente pobre e sofrendo as consequências da invasão japonesa, onde o povo está sendo privado de proventos básicos como a comida. Sunja se envolve com um homem mais velho e de posses, acaba engravidando e quando vai dar a notícia a Hansu, descobre que ele é casado e pai de três filhas que moram no Japão.

Hansu se aproximou dela. Sunja sentiu o cheiro de seu sabonete e o aroma de gaultéria de seu gel de cabelo. Estava barbeado e lindo. Ela adorava a brancura de suas roupas. Porque ela se importava com isso? Os homens da pensão estavam sempre imundos. O trabalho emporcalhava todas as suas roupas, e, por mais que esfregasse, o cheiro de peixe não saía de suas camisas e calças. Seu pai a ensinara a não julgar as pessoas por coisas tão superficiais: as roupas e as posses de um homem não diziam nada a respeito de seu coração e seu caráter. Inspirou profundamente o aroma de Hansu misturado ao ar puro do bosque.
Fazendo jus ao peso que a cultura oriental tem em relação a honra, principalmente das mulheres, Sunja começa a esconder a gravidez o máximo possível e a viver com a desonra como sombra. Mãe e filha passam a caminhar sem saber qual seu destino e o da criança que não terá um sobrenome. Até que um dia, o jovem Isak, que está a caminho do Japão se hospeda na pensão e movido por um encantamento por Sunja se oferece para casar com ela e assumir a criança que está em sua barriga. Sunja parte com Isak para o Japão onde a história da família vai se desenrolando em uma verdadeira aula sobre contexto social, guerra, política, situação das mulheres, realidade dos imigrantes, pobreza, amor, morte e luto.

A narrativa de Pachinko trabalha com um marco temporal que se inicia em meados de 1910 e se desenrola até 1989. A história segue tendo a vida de Sunja como um fio condutor, mas ao seu redor vamos vendo toda uma árvore genealógica se construindo através das pessoas com as quais estabelece relação e a vida de seus filhos. Movida por um sentimento forte de gratidão e até mesmo carinho, Sunja, que vai se tornando mulher a medida que viramos as páginas, dedica toda sua vida para os cuidados com a família.

Min Jin Lee consegue desenhar o enredo de Pachinko com maestria, pois, ao mesmo tempo que nos apresenta de forma detalhada e emocional à trajetória de cada uma das personagens, também consegue mesclar a narrativa com o contexto social de cada década retratada na obra. Em Pachinko conhecemos alguns detalhes sobre a tensa relação entre coreanos e japoneses e como conflitos sociais e interesses políticos podem reduzir um povo a um status de quase escravidão. E até mesmo como se deu o processo que dividiu a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.

Os coreanos queriam que o Japão ganhasse a guerra? Claro que não, mas o que aconteceria com eles se os inimigos do Japão vencessem? Será que os coreanos conseguiriam se salvar? Não parecia provável. Então salve sua própria pele: era nosso que os coreanos acreditavam intimamente. Salve sua família. Encha sua barriga. Fique atento e seja cético em relação às pessoas que estão no comando. Se os nacionalistas coreanos não conseguirem recuperar seu país, deixe que seus filhos aprendam japonês e tente seguir adiante. Adapte-se. Não era simples assim? Para cada patriota lutando por uma Coreia livre, ou para cada coreano desgraçado lutando em nome do Japão, havia dez mil compatriotas no país e em outros lugares que estavam apenas tentando colocar um prato de comida na mesa. No fim das contas, o estômago era seu imperador.

O título “Pachinko” é algo muito sugestivo para a obra e só começa a fazer sentido lá pelo meio da história. O pachinko, que se trata de uma espécie de jogo de azar que é maquiado de forma a não ser nomeado como um jogo de azar, acaba em certo momento se tornando um dos sustentos da família coreana dentro do Japão. Como o pachinko é visto como uma atividade menor, por ficar entre o legal e o ilegal, se firma como uma das atividades possíveis para os homens coreanos que vivem no Japão, sendo que os mesmos também vivem no limiar entre o legal e o ilegal enquanto cidadãos. Partindo de um certo lugar de ilegalidade, os coreanos conseguem fazer fortuna. Ainda assim, é preciso salientar que não se trata de um livro sobre um jogo, mas sim sobre uma família que vai descobrindo que o jogo da vida é imprevisível.

Enquanto lemos “Pachinko” se torna inevitável o estabelecimento de algumas relações com o que já sabemos sobre a Coreia do Sul, que hoje se encontra no foco da atenção do mundo através da música, do audiovisual e da cultura pop. Min Jin Lee, mesmo através do texto literário, consegue mostrar fragmentos sobre a história do país, sobre a cultura e seu povo. Isso faz com que olhemos para a Coreia com um olhar mais consciente e também mais crítico de como chegaram a ser um dos países mais ricos e tecnológicos da atualidade. O que fica nítido é que veio, primeiramente, de uma grande vontade de sobreviver apesar de tudo.


A filha perdida da Elena Ferrante

A filha perdida da Elena Ferrante (Intrínseca, 2016) é um livro com uma narrativa envolvente. A cada página conhecemos um pouco mais da história e dos pensamentos mais íntimos de uma protagonista que parece carregar uma personalidade completamente diferente daquilo que costumamos ver e ouvir por aí, mas que no fundo são apenas manifestações íntimas e reais de questões que as mulheres foram obrigadas a guardar para si. “A filha perdida” é uma história sobre vozes femininas, sobre os medos, os desejos, as obrigações, os amores, os desamores, e principalmente sobre as suas revoluções silenciosas.


Leda sai de férias para uma região litorânea da Itália e durante esse tempo que terá consigo começa a explorar diversos pensamentos sobre seus próprios sentimentos e sua história. Logo se torna uma rotina para Leda a observação de uma família grande e barulhenta que também passa férias na mesma praia que ela. Inicialmente ela sente apenas uma espécie de raiva e repulsa daquelas pessoas, mas aos poucos vamos percebendo que esse incômodo tem relação com o quanto aquela família faz com que ela se lembre da sua família de origem e o quanto que “as coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender”.

Eu os via, naquele dia, não como um espetáculo a ser contemplado, em uma comparação dolorosa com o que me lembrava da minha infância em Nápoles; eu os via como o meu tempo, como a minha própria vida pantanosa, para a qual eu escorregava de vez em quando.


Leda irá deter a maior parte de sua atenção para Nina e sua filha pequena Elena que estão sempre acompanhadas de uma boneca. Assim parecem formar um trio. De longe, ela observa a relação de mãe e filha, suas conversas e suas brincadeiras, que também vão suscitando algumas narrativas que tanto podem ser reais como apenas fruto da imaginação de Leda.

Partindo dessa rotina de observação, a família desconhecida vira uma espécie de luneta para que Leda observe a sua própria família através de suas memórias. Olhando para Nina, Elena e a boneca, ela passa a olhar para sua relação com suas duas filhas que foram morar no Canadá com o pai.

Quando minhas filhas se mudaram para Toronto, onde o pai vivia e trabalhava havia anos, descobri, com um deslumbre constrangedor, que eu não sentia tristeza alguma – pelo contrário, estava leve, como se só então as tivesse definitivamente posto no mundo. Pela primeira vez em quase vinte e cinco anos, não senti mais aquela ansiedade por ter que tomar conta delas.

Uma das questões mais interessantes do livro está justamente na exploração da ideia de maternidade. Como estabelecemos contato direto com os pensamentos de Leda, acabamos conhecendo um lado da maternidade que começou a ser exposta a pouco tempo pelos livros, filmes e demais expressões artísticas: a maternidade real e vinculada a ideia de uma mulher como ser humano dotado de peculiaridades. Ainda é muito comum ouvirmos apenas o discurso da maternidade como missão divina e do amor incondicional. Coitada da mulher que falasse sobre as dores, as incertezas, as dúvidas e os sofrimentos que também caminham junto com a maternidade. Com a história de Leda esse outro lado ganha voz.

Para além disso ainda temos um outro aspecto importante da obra que são os vultos geracionais que rondam a formação de Leda. Conforme ela vai nos contando sobre o dia a dia daquelas férias, de sua observação da família desconhecida, das lembranças das filhas e de seu casamento, ela também volta lá para a sua infância e para as mulheres que a antecederam.

O que eu tinha feito de tão terrível, afinal? Anos antes, havia sido uma garota que se sentia perdida, isso era verdade. Todas as esperanças da juventude já me pareciam destruídas, era como se eu estivesse caindo para trás na direção da minha mãe, da minha avó, da cadeia de mulheres mudas ou zangadas da qual eu derivava.

“A filha perdida” é uma história que carrega muitas histórias, é um livro sobre várias filhas perdidas, pois no processo de viver nós vamos nos perdendo em alguns pontos e nos encontrando em outros, formando uma colcha de retalhos de cada um dos momentos com potencial de construir nossa trama. Aqui temos mais um exemplo de uma obra que consegue abarcar questões muito sensíveis sobre amor, maternidade, encontros, desencontros, famílias e demais temas de uma forma que consegue causar fortes identificações nos leitores. É um livro misteriosamente interessante assim como o mistério que envolve a verdadeira identidade de Elena Ferrante.

Os afetos de Rodrigo Hasbún

Os afetos de Rodrigo Hasbún (Editora Intrínseca, 2016) é um livro de ficção boliviana, que acompanha a jornada de uma família alemã que migra para a Bolívia logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Hans, o pai da família é um grande aventureiro que trabalhava como cinegrafista de Leni Riefenstahl, responsável pelos documentários de propaganda nazista na Alemanha e quando chega a Bolívia transmite suas inquietações para a procura de Paitití - lenda de uma antiga cidade inca que pode estar localizada no coração da selva amazônica.


O livro mistura personagens e acontecimentos reais com ficção e com diversas vozes narrativas. Essa alternância do narrador acontece a cada mudança de capítulo e vamos acostumando aos poucos com essa peculiaridade do livro. Eu tive um pouco de estranhamento nas primeiras páginas do livro, pois é preciso muita atenção na leitura para perceber quando o texto muda de narrador.

Os afetos é um livro sobre relações familiares e seus laços. Hans Ertl chega com sua esposa Aurelia, suas três filhas Monika, Heidi e Trixi e a situação de exílio já é por si só um grande desafio de sobrevivência das subjetividades, das memórias, dos vínculos, uma vez que essas pessoas se vêem imersas numa nova cultura e em uma nova língua.