O livro é estruturado de tal maneira, onde acompanhamos três grandes histórias em uma só. Temos o arco narrativo onde conhecemos de perto a Justine e todas as suas questões. A garota vive em uma cidade pequena com seus avós e seu primo Jules, que considera um irmão. Enquanto os avós são puro silêncio, Jules é uma das poucas experiências de afeto de Justine.
Mas eu não sei a partir de que idade se vira velho. A sra. Le Camus, minha gerente, diz que é a partir do momento em que a pessoa não consegue mais cuidar da própria casa sozinha. Que tudo começa quando é preciso deixar o carro na garagem porque viramos um perigo, e tudo termina com uma fratura na cabeça do fêmur. Eu acho que começa com a solidão. Quando o outro se vai. Para o céu ou para outra pessoa.
“Os esquecidos de domingo” é um romance que trata de diversos temas, mas a questão que se destaca é a do envelhecimento e do lugar afetivo e social em que colocamos os idosos. O interessante é que em nenhum momento a obra chega a ser piegas, e isso se deve a própria natureza dos personagens. O afeto de Justine pelos idosos e principalmente por Hèléne, tem origem na sua carência de afeto familiar. Justine embarca na vida de Hèléne, por nunca ter tido a oportunidade de embarcar na vida dos próprios avós, que apesar de a criarem, sempre deixarem algumas barreiras intransponíveis na relação. Justine se encontra na profissão de cuidar dos idosos, porque desenvolveu uma urgência em ouvir.
Meu cotidiano é assim, sabe? A gente tem que escutar tudo com urgência, porque o silêncio nunca está muito longe.
Justine enxerga os idosos como sujeitos. Isso faz toda a diferença para o seu trabalho e também para sua percepção de vida. Quando olha para cada um dos residentes da casa Hortênsias, Justine enxerga lembranças, memórias, saudades, amores, pessoas dotadas de “bibliotecas íntimas”. “Essas bibliotecas onde amo passar as horas”.
Ao tratar da temática da velhice, o livro embarca em discussões sobre memória e esquecimento, velhice e abandono, amor e perda, identidade e passado. O próprio ritmo da escrita nos carrega por uma aventura que obedece ao ritmo de quem conta uma história a alguém, e que conforme vai se lembrando de episódios do passado, ajuda a tecer o fio da vida. A alternância temporal da narrativa funciona como uma ilustração do jogo da memória.A morte também é uma presença constante no romance, seja caminhando pelos corredores da casa de repouso, na revisitação do passado de Hèléne, que antes da realidade do envelhecimento, teve que enfrentar a realidade da guerra, seja nas saudades de quem já se foi e também no silêncio causado pela morte dos pais de Justine.
Na França, temos dificuldade com essa palavra, e, na Hortênsias, somos proibidos de mencioná-la. Os residentes com frequência usam eufemismos irônicos para falar da morte: bater as botas, abotoar o paletó, ir dessa para melhor, esticar as canelas, dar o peido-mestre, virar estrela, dar o último suspiro. Os funcionários devem usar palavras dignas: partir, falecer, descansar, ir-se, dormir o sono eterno.Com uma linguagem sensível, poética e emocional, Valérie Perrin nos leva a refletir sobre o que permanece quando envelhecemos e o que podemos fazer enquanto vemos a vida passar diante de nossos olhos. É uma história sobre a importância do olhar, da valorização das pessoas que nos rodeia e da importância de ouvir e registrar histórias. Diante da morte, que um dia chegará para todos nós, a principal marca que poderemos deixar estará nas histórias que vivemos com os outros.
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