O expresso de Tóquio do escritor japonês Seicho Matsumoto (Editora Todavia, 2025) é um romance policial inovador e que inaugurou uma outra maneira de escrever mistério, onde a minúcia toma o lugar da violência e do sangue. O livro é considerado de grande importância para o romance policial japonês, por apostar em uma narrativa que se apega aos detalhes para decifrar os enigmas da trama. Temos um investigador metódico como figura central e a construção de um personagem humano e crível, confere ares mais realistas para uma investigação cheia de reviravoltas e com um clima que remete ao Japão do pós-guerra.


Dois corpos são encontrados em uma praia deserta e tudo leva a crer que estamos diante de um pacto suicida entre dois amantes. Acontece que o homem que jaz morto nessa praia, estava de alguma forma envolvido em um grande escândalo de corrupção política e a mulher era uma garçonete de temperamento mais recluso que até o momento em que são vistos embarcando em um trem, até o momento em que seus corpos são encontrados lado a lado, nunca haviam sido vistos juntos antes.

Mesmo diante de um cenário, que aparentemente se explica por si só, os investigadores Torigai e Mihara não se veem convencidos da motivação da morte dos jovens e partem em busca de detalhes que parecem insignificantes para decifrar a real história por trás daquelas mortes. É aí que a magia acontece, pois eles partem de evidências que nenhum outro investigador alçaria ao status de importância.

Mihara olhava as anotações, pensativo. Esses itens eram como quatro rochas empilhadas uma sobre a outra, praticamente inquebrantáveis. Porém, era necessário destruí-las. Sim, era preciso fazê-lo a qualquer custo.
Mihara se vê desde o início convencido de que essa história esconde uma motivação maior do que um pacto de morte romântico e inicia uma verdadeira viagem pelo Japão utilizando de pistas e hipóteses aparentemente frágeis, mas que vão demonstrando sua incrível capacidade de observação e decifração da realidade e dos depoimentos que colhe.

Os horários de chegada e partida dos trens da estação de Tóquio, funcionam como pontos chave para elucidação da trama e a forma como o autor destrincha a tabela de horários das estações é genial. Todo o clímax da narrativa está na decifração de enigmas e não na caçada ou no embate corpo a corpo com um assassino perigoso. Ainda assim, nos vemos completamente vidrados pela forma lenta e inteligente com que a investigação vai se destrinchando.

Não importava por que ângulo se analisasse, não havia dúvida de que tinha sido um duplo suicídio amoroso. E residia aí a contradição. Por que pessoas que não mantinham um relacionamento amoroso cometeriam suicídio juntas?

“O expresso de Tóquio” é uma obra de leitura rápida, mas que ao mesmo tempo demanda muita atenção do leitor. O uso dos horários de trens e a circulação entre as estações contribuem para a originalidade do enredo e nos coloca mais interessados nas pistas e nos enigmas do que nas cenas de perseguição e violência que estamos acostumados a ler em histórias ocidentais do mesmo gênero. O mistério é resolvido principalmente por uso de dedução lógica e pela obsessão do investigador Mihara pelo caso. Apesar de ter sido publicado nos anos 50, a obra chama atenção pela sua narrativa moderna, onde muitas vezes temos a impressão de estar lendo algo mais próximo da nossa década.