Úrsula da Maria Firmina dos Reis (Penguin Classics, 2018) é um romance brasileiro escrito no ano de 1859 e considerado por estudiosos como o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. Além de todo seu pioneirismo ao tratar de temas como a voz e a condição das mulheres, escravidão, abolicionismo, negritude e luta de classes, soma-se a isso o fato de que Maria Firmina dos Reis era uma mulher negra. Talvez este seja o principal motivo para que a obra caísse em esquecimento por quase cem anos, uma vez que fora lançada em pleno período escravocrata. Podemos dizer que “Úrsula” é o nascimento do que hoje chamamos de literatura afro-brasileira.


Na história conhecemos Tancredo, um jovem branco de família abastada que após sofrer uma grande desilusão amorosa e um acidente grave de montaria, é salvo e cuidado por Túlio, um negro escravizado. O encontro que começa de forma trágica, acaba sendo responsável pelo nascimento de uma amizade sincera que mudará o rumo de suas vidas. Através de Túlio, Tancredo se aproximará da família de Úrsula, uma jovem negra de origem simples, de beleza marcante e o apaixonamento é imediato.

Era tão caridosa... tão bela... e tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio, que lágrimas de tristeza e de sincero pesar lhe escaparam dos olhos, negros, formosos, e melancólicos. Úrsula, com a timidez da corsa vinha desempenhar à cabeceira desse leito de dores os cuidados, que exigia o penoso estado do desconhecido.
Toda a trama é desenhada seguindo fortemente as características e o sentimentalismo exacerbado do romantismo. O amor aparece de forma idealizada, como algo que prende o coração e os sentidos, assim como a figura da mulher é retratada como algo belo, angelical e quase intocável. O amor se apresenta pela ordem do impossível e do proibido, uma vez que Úrsula e Tancredo não só enfrentam a diferença de classe e de raça, como também possuem um algoz violento em seu rastro. Úrsula é perseguida pelo seu tio poderoso e impiedoso, que também envereda por um amor obsessivo e quase irracional pela jovem. Ele entra numa busca por vingança por não conseguir o coração da moça, que devota todo seu amor a Tancredo.

Ainda que a obra explore de forma visível as características do romantismo, ao mesmo tempo consegue subverter e romper de forma muito natural com algumas visões conservadoras do período. Úrsula, por exemplo, é uma mulher que coloca o seu amor e a sua vontade à frente do que determinava as estruturas patriarcais da época. O faz ao apostar em um relacionamento interracial e ao lutar com bravura para não ter seu corpo e sua liberdade sequestrados.

Por trás da clássica e universal história do amor que precisa lutar contra tudo e contra todos para se concretizar, Maria Firmina dos Reis desenha, pela ordem do texto literário, a realidade de uma sociedade escravocrata e a forma como se dava a violência estrutural da escravidão.

Para além disso, ela fez um feito grandioso, que foi colocar personagens negros e escravizados no centro de uma trama em pleno ano de 1859. O povo negro aparece como personagens dotados de singularidades, sentimentos, memórias e voz própria. Não é uma história que aposta apenas no relato dos horrores da escravidão e dos escravizados, mas também na sua humanização.

“Úrsula” é uma obra lançada a exatos 167 anos e ainda assim podemos utilizá-la como fonte para discutir sobre as desigualdades históricas no Brasil e outras temáticas como racismo estrutural e violência de gênero.