Água fresca para as flores da Valérie Perrin (Intrínseca, 2021) é um romance onde acompanhamos de perto a vida de Violette Toussant, uma mulher emocional e bastante devotada a seus amores. De forma não linear, embrenhamos nos pensamentos, sentimentos e dores de uma personagem que a vida e as circunstâncias transformaram em uma zeladora de cemitério. Através de uma escrita fluida e hipnótica, Valérie Perrin constrói uma atmosfera incomum e nada convencional sobre o que a cultura e o senso comum construíram em relação a um ambiente como o cemitério e em relação ao luto e a morte.


Eu me chamo Violette Toussaint. Fui vigia ferroviária e agora sou zeladora de cemitério. Degusto a vida, tomo-a em pequenos goles, como um chá de jasmin misturado com mel. E, quando a noite chega, depois que os portões do meu cemitério são fechados e a chave é pendurada na porta do meu banheiro, estou no paraíso.
Podemos dizer que “Água fresca para as flores” é um romance triste, mas a sua tristeza se apresenta de uma forma bastante peculiar e interessante. Dois elementos são principais para entender como a tristeza será abordada. De um lado, temos a Violette, uma personagem que irá cumprir a clássica trajetória da heroína passando por percalços de todos os tipos. Do outro temos a ambientação do cemitério.

Apesar de ser a heroína que sofre, Violette está longe de ser uma mulher fraca. Desde a juventude, se mostrava muito conectada a seus próprios prazeres e com uma coragem de se jogar em situações onde as consequências nem sempre se apresentavam de forma clara. Nessas condições que ela se apaixona perdidamente pelo belo e vagabundo Philippe Toussaint e viverá uma relação bastante problemática. Philippe será sua redenção e sua perdição.

Sabemos pouco sobre como é a rotina de alguém que trabalha e mora em um cemitério, mas somos cheios de certezas sobre essa questão, sendo uma das mais fortes a de que são pessoas tristes. Violette, além de romper com estereótipos relacionados ao luto e a morte, também apresenta o cemitério por uma outra ótica. O livro trata o cemitério não como um lugar macabro e assustador, mas como um lugar de encontros e histórias.

Os únicos fantasmas nos quais acredito são as lembranças. Sejam elas reais ou imaginárias. Para mim, as entidades, os mortos-vivos, os espíritos, todas essas coisas sobrenaturais só existem na cabeça dos vivos. Algumas pessoas se comunicam com os mortos, e acho que são sinceras, mas, quando alguém morre, morre. Se volta, é porque um vivo o ressuscitou através do pensamento. Se fala, é porque um vivo empresta sua voz; se aparece, é porque um vivo o projeta com seu espírito, como um holograma, uma impressora 3D.
Seguindo uma linha que é quase inerente às obras da Valérie Perrin, muitas outras histórias vão sendo costuradas em paralelo com a trama principal. Os enterros e os mortos que passeiam pela obra, acabam por funcionar como esse ponto de congruência entre as histórias de quem está vivo e de quem está morto, provando que o luto é também um meio de manutenção da memória. Alguns personagens tem sua introdução pelo ano de nascimento seguido de seu ano de morte, para logo em seguida viajarmos pelas suas histórias de vida e de morte. No cemitério de Violette os mortos não são apenas lápides frias.

A autora trabalha com a ideia de que “todas as profissões que têm a ver com a morte parecem suspeitas”, subvertendo a narrativa e criando personagens divertidos, carismáticos e cheios de pulsão de vida. Violette se junta à sua equipe de trabalho e transforma o cemitério em um espaço acolhedor e humano. Ela é a zeladora de cemitério que lida com um processo de luto pessoal profundo, mas que por baixo do sobretudo preto, sempre usa um vestido floral. Violette passa a viver na linha tênue entre o seu próprio sofrimento e a capacidade de ouvir e cuidar de cada um que a procura no cemitério.

Existem alguns mistérios que rondam toda a narrativa e eles vão sendo respondidos de forma gradual, enquanto a narrativa passeia entre presente, passado e diferentes pontos de vista. O estilo da escrita de Perrin passeia pela prosa poética e por uma melancolia que nos faz refletir sobre as temáticas que a obra apresenta. A obra deixa um forte apelo de que a vida nem sempre será justa ou honesta, mas que diante de qualquer situação sempre será possível oferecer água fresca para as flores.