As alegrias da maternidade de Buchi Emecheta (Editora Dublinense, 2018) conta a história de Nnu Ego, filha de um grande líder africano chamado Agbadi e da rebelde Ona, durante o período colonial na Nigéria. Nnu Ego pertence à etnia igbo, um grupo étnico social e culturalmente diverso que vive em sua grande maioria no sudeste do país e que vive em conflito com o povo iorubá que ocupa a parte ocidental do país. A obra utiliza dos costumes de algumas regiões do continente africano, para discutir sobre o papel e a condição das mulheres através da maternidade.
Nnu Ego, assim como todas as mulheres daquela cultura, nasceram com uma missão principal: gerar filhos. O cumprimento dessa missão será o que irá definir posições sociais, alguns privilégios e a alcunha de “mulher completa”. A escritora nigeriana Buchi Emecheta publicou o romance em 1979 e sua leitura soa bastante atual no recorte a que se propõe explorar.
Os homens... a única coisa em que eles estavam interessados era em bebês homens para dar continuidade a seu nome. Mas por acaso uma mulher não precisava trazer ao mundo a mulher-bebê que mais tarde geraria filhos? ‘Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?...
Através da vida de Nnu Ego, a narrativa vai desenhando as diversas formas de violência a que uma mulher é submetida através da definição de papéis sociais no trato com a família e na vida em sociedade. O interessante é que acompanhamos uma mudança de mentalidade da personagem a medida em que ela começa a perceber que algo está errado naquela estrutura onde as mulheres precisam gerar filhos homens para serem vista enquanto sujeitos.
Sou uma prisioneira de minha própria carne e de meu próprio sangue. Será que essa é uma posição tão invejável assim? Os homens nos fazem acreditar que precisamos desejar filhos ou morrer. Foi por isso que quando perdi meu primeiro filho eu quis a morte, porque não fora capaz de corresponder ao modelo esperado de mim pelos homens de minha vida, meu pai e meu marido, e agora tenho que incluir também meus filhos. Mas quem foi que escreveu a lei que nos proíbe de investir nossas esperanças em nossas filhas? Nós, mulheres, corroboramos essa lei mais que ninguém. Enquanto não mudarmos isso, esse mundo continuará sendo um mundo de homens, mundo esse que as mulheres sempre ajudarão a construir.“As alegrias da maternidade” é uma obra guiada pela urgência de uma mulher em cumprir o que sempre foi esperado dela enquanto mulher, e ao fazê-lo, acaba por expor um cenário de submissão e violência onde as mulheres não cabem mais.

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