Uma separação da Katie Kitamura

Uma separação da Katie Kitamura (Companhia das Letras, 2021) é um romance angustiante sobre uma mulher e seu processo de luto após o fim do casamento. Christopher, seu ex-marido, pede que a separação fique um tempo em segredo e a protagonista da história, que não sabemos o nome, acolhe seu pedido. Apesar de não sabermos o nome da nossa narradora, ela será a personagem com quem travaremos mais intimidade durante a narrativa. Uma intimidade moldada pela perda, pela dor, pela despedida e uma maneira pouco usual de lidar com todos esses sentimentos.


Quando imaginamos o cenário psicológico do fim de um casamento, é inevitável não pensarmos em drama. Imaginamos pelo menos um dos lados envoltos em um sofrimento traduzido em lágrimas, discussões, gritos e por vezes até agressões. A história de “Uma separação” nos surpreende por mostrar um término regido pelo acordo. Isso não quer dizer que não exista dor, mas acima dela está a certeza da necessidade do fim, do fechamento de um ciclo.

Como conhecemos apenas o ponto de vista da esposa e o que ela quer nos mostrar sobre si (que não é pouco) e sobre quem está a sua volta (que é sempre duvidoso), suas reflexões serão a régua pela qual mediremos os sentimentos explorados no livro. A segunda surpresa vem pela forma mais fria e calculista com que ela resolve todos as questões envolvidas com sua situação. Consegue ser pragmática diante da dor. É impossível imaginá-la levantando o tom de voz e muito menos se debulhando em lágrimas. A sua dor funciona por outra ordem e é essa ordem que acompanhamos na narrativa.

Quando recebe um telefonema de Isabella, sua ex-sogra, perguntando sobre o paradeiro do filho, a narradora precisa lidar com o peso do segredo da separação e com o fato de que não tem notícias de Christopher a bastante tempo. Apesar de não poder dizer nada sobre a separação, ela não tem escolha a não ser assumir que também não sabe onde Christopher está. Assim, Isabella acaba descobrindo que seu filho está passando uma temporada, aparentemente a trabalho, em uma ilha grega. Nossa narradora embarca para uma viagem com lugar muito bem definido que a levará para lugares internos ainda não acessados.

Começou com um telefonema de Isabella. Ela queria saber onde Christopher estava, o que me botou na posição constrangedora de ter que lhe dizer que eu não sabia. Isso deve ter soado inacreditável para ela. Eu não lhe disse que Christopher e eu estávamos separados fazia seis meses e que eu não falava com o filho dela havia quase um mês.

“Uma separação” tem como pano de fundo uma ex-esposa a procura de notícias do ex-marido, mas não é um livro de mistério. A narradora se movimenta na busca pelo ex-marido, mas não é um livro sobre Christopher. É uma narrativa com camadas mais profundas. Como nem mesmo ela sabe se quer ou não ter notícias sobre o ex-marido, a viagem para a Grécia se torna mais uma possibilidade de encontro com seu próprio eu.

Na busca por Christopher, ela começa a pensar sobre as raízes da decisão de manter a separação em segredo. Começa a ver com os olhos da razão todo o histórico de seu relacionamento com o ex-marido e com os sogros. Passa a observar as pessoas a sua volta, como a população do vilarejo e os funcionários do hotel, e esses momentos nos mostram diversos outros elementos sobre sua personalidade.

Quando imaginamos o cenário geográfico do fim de um casamento, pensamos em quartos fechados em busca de solidão. Katie Kitamura subverte essa ideia e coloca a personagem em movimento, lidando com estranhos e caminhando por um vilarejo que recentemente ardeu em chamas. E o que seria o fim de um casamento senão um terreno que acabou de arder em chamas e agora precisa lidar com o horizonte de cinzas até que novo sinal de vida brote. 



Vergonha da Brittainy C. Cherry

Vergonha da Brittainy C. Cherry (Editora Record, 2022) é um romance que focou em utilizar todos os clichês possíveis para contar uma história de amor. É recheado de reviravoltas, traições, descobertas, revoluções internas e questionamentos sobre formas de sobreviver depois de se quebrar emocionalmente. Grace e Jackson, os protagonistas, são como uma espécie de revisitação da história clássica da Bela e a Fera, em uma narrativa onde ambos precisam enfrentar as próprias dores e cicatrizes para encontrar alguma espécie de conforto. Brittainy usa e abusa dos temas universais e do embate entre família, religião e conservadorismo para prender a atenção dos leitores até a última página.


A capa do livro acaba por nos remeter a uma ideia de que estamos diante de um livro erótico, mas a verdade é que seria muito melhor se fosse. Por mais que a construção da personalidade e aparência de Jackson e Grace tenha tudo para que o livro embarcasse por esse caminho, a escritora não segue por aí e talvez a obra ganhasse mais força se tivesse uma ou outra descrição de sexo mais explícita. O que os leitores vão encontrar são dois personagens vivendo uma grande crise existencial até se encontrarem.

Grace é uma jovem que acabou de se separar do marido. Seu casamento entrou em ruína depois de um certo distanciamento do companheiro e de um processo depressivo originado pelos vários abortos que vivenciou. Mesmo estando a meses vivendo separados, Grace esconde de sua família, que vive em uma cidade pequena e tradicional, a quantas anda a sua relação. 

Você não precisa saber o que é amor para saber o que não é amor.

Além de carregar o peso do rompimento, ainda precisa se preparar para as consequências que isso irá gerar em sua família e em uma comunidade que vela a vida alheia tanto quanto velam a Deus. O pai, que é o pastor da igreja e sua mãe, uma mulher fria e controladora comandam a igreja e as relações sociais da comunidade. Grace e sua irmã sempre tiveram que se colocar em um lugar de perfeição para garantir a boa imagem da família perante todos.

Todo dia eu rezava para que meu marido voltasse a me amar. Depois de quinze anos juntos, ele me abandonou e foi para os braços de outra. Eu não sabia como lidar com isso. Não conhecia meu próprio valor. Não me imaginava vivendo sem ele ao meu lado. Tudo o que eu queria era que ele voltasse para mim.

Jackson já representa o contrário. Ele e seu pai são vistos como parias nessa mesma cidade. Enquanto Jackson possui um passado marcado pelo vício das drogas, diversas ocorrências de brigas e envolvimentos em casos extra - conjugais, seu pai vive quase sempre bêbado pela cidade e possui diversas passagens pela polícia. Quase toda a cidade parece odiá-los e mesmo diante desse histórico os dois decidem não se afastar da cidade por alguns motivos que vão se revelando durante a leitura.

Jackson carrega uma grande ferida relacionada à forma com que seu pai e sua mãe se separaram enquanto ele ainda era criança. Quando se trata especificamente da história de Jackson o livro vai permeando capítulos entre o seu passado e o seu presente, uma escolha narrativa que ajuda a demonstrar o quanto alguns episódios familiares o transformaram em um adulto que usa de estratégias para afastar qualquer tipo de afeto. Jackson parece se importar apenas com seu pai e seu velho cachorro que fora o último presente de sua mãe. Ele usa da raiva, do ódio e o preconceito da cidade para se manter ainda mais afastado de tudo e de todos. Os dois nutrem um ódio ainda maior pela família de Grace por conta de alguns mistérios do passado.

Quando Grace decide voltar para sua cidade de origem ainda com esperanças de salvar o casamento, seu caminho cruza de forma inesperada e intensa com o de Jackson. Com o tempo os dois vão baixando a guarda e decidem embarcar numa relação temporária cheia de regras para não se tornar uma relação que envolva sentimentos, pois, inicialmente o que eles desejam é afogar suas mágoas um no outro. Um plano que previsivelmente acaba por sair do controle e juntos eles vão encontrando no apoio mútuo as peças para retomar o rumo de suas vidas e curar feridas.

Grande parte do livro foca no adestramento que a religião pode significar na vida das pessoas, e principalmente das mulheres. Grace é o retrato da mulher que precisou represar todas as suas vontades e desejos para suprir o que se entende como uma vida dedicada a Deus e a religião. O fato de seus pais serem os responsáveis pela comunidade religiosa aumentou ainda mais as responsabilidade de Grace e sua irmã de seguirem à risca os preceitos religiosos. A separação e o encontro com Jackson levam Grace a um encontro com sua própria individualidade. 
Às vezes era difícil ser uma seguidora de Deus, quando os sussurros do demônio pareciam bem mais satisfatórios.
“Vergonha” é um livro de fácil leitura, cheio de lugares comuns e situações que desafiam a nossa suspensão da realidade, mas ainda assim é uma ótima pedida para quem curte um romance do tipo bestseller. É ideal para aqueles momentos em que queremos ler apenas pelo entretenimento. A construção da história se dá de forma interessante e a construção das personagens permite que a gente se sinta bem próximo de seus dramas, mas fiquei bastante frustrado com a conclusão da obra. Acredito que Brittainy optou por algumas soluções que contradizem todo o processo de libertação e descobertas que ela explorou em todo o livro, pintando um mundo cor de rosa que não é nada crível.



O cometa e O fim da supremacia branca de W.E.B Du Bois e Saidiya Hartman

O Cometa do W.E.B. Du Bois (Editora Fósforo, 2021) é um conto escrito há mais de cem anos e que nos surpreende tanto pela coragem ao tratar sobre as questões das classes sociais e do preconceito racial, como pelo fato de ainda se encaixar com a realidade que vivemos hoje. Du Bois conta a história de um homem negro chamado Jim que realiza trabalhos subalternos em um banco e que um dia, após ser enviado para executar mais uma tarefa “perigosa demais para homens valiosos”, ao voltar se depara com o silêncio de um mundo morto. Um cometa passou muito próximo da Terra e ao soltar seus gases, aparentemente matou a todos. Quando começa a pensar que é o único sobrevivente, uma mulher branca cruza o seu caminho e os dois passam a caminhar juntos pela própria sobrevivência e para descobrir o que acontecera com os seus.



A edição da Editora Fósforo transformou “O cometa” em uma publicação única. A obra vem acrescida de um ótimo texto da professora de Columbia Saidiya Hartman, que com uma espécie de artigo analisa o conto de Du Bois e ajuda a ampliar nosso olhar e compreensão. Hartman não chega para explicar o conto e sim para contextualizar o momento em que o mesmo fora escrito e o quanto ele está permeado de denúncias sobre a violência da segregação racial americana.

“O cometa” não cita especificamente os acontecimentos históricos em relação aos conflitos, mas utiliza de simbologias que transportam para a narrativa a tensão social da época. Os EUA haviam testemunhado recentemente um período transcorrido entre os meses de abril e outubro de 1919, chamado de “verão vermelho”, durante o qual se abateu enorme violência contra os negros americanos. “Vermelho” representando o sangue dos negros que foi derramado nesses meses. 

O conto demarca muito bem o lugar que Jim ocupa na sociedade enquanto homem negro. Uma estratégia interessante de Du Bois é que ele utiliza a palavra “negro” ou “homem negro” em momentos muito propícios do texto. Na maioria das vezes ele transmite ao leitor a mensagem de que se trata de um homem negro pela forma como ele é tratado, pela forma como ele é visto pelas outras pessoas e até por ele próprio. O texto carrega uma sensação de não-lugar, de invisibilidade e de explosões de violências que ajudam a demarcar o racismo em um tempo e um espaço.

Ele ficou por um instante na escadaria do banco, observando o rio humano que descia agitado pela Broadway. Poucos o notavam. E, quando o faziam, era de um modo hostil.
No início do conto já percebemos que as pessoas estavam cientes do tal cometa que se aproximava, e como já era de se esperar pairava no ar um descrédito, uma falta de crença na verdadeira proporção que tal evento poderia tomar. E de repente, pouco antes do meio dia o fato é consumado. A cidade de Nova York é dizimada e Jim só se dá conta ao retornar dos subterrâneos do banco, lugar em que estava no momento do desastre.

A quietude da morte reinava por toda parte, e por toda parte curvavam-se, vergavam-se e estiravam-se as formas silenciosas dos homens.

A partir daí a história se torna uma grande metáfora sobre a condição das pessoas negras diante do racismo em uma ficção especulativa muito bem construída. Du Bois faz isso de forma totalmente literária, utilizando de forma inteligente da ficção para falar sobre uma realidade assustadora. O cometa e a morte das pessoas é o que propicia a Jim alguma sensação de vida negra livre. É apenas quando as pessoas e, portanto, a sociedade morre que Jim se vê com a permissão de transitar pela cidade sem se preocupar com um olhar de raiva ou desprezo, sem ouvir um comentário maldoso ou de asco, sem o medo de sofrer uma agressão física na próxima esquina. É quando também Jim se vê autorizado a caminhar por onde quiser e acessar lugares da cidade em que jamais poderia entrar.

Sabia que deveria ficar firme e manter a calma, caso contrário enlouqueceria. Primeiro, devia ir a um restaurante. Subiu pela Quinta Avenida até um hotel famoso e entrou por seus salões deslumbrantes e fantasmagóricos. Lutando contra a náusea, tomou uma bandeja de mãos defuntas e apressou-se para a rua, onde comeu vorazmente, escondendo-se para não ser visto. ‘Ontem eles não teriam me servido”, murmurou, enquanto se esforçava a comer.

Logo Jim se depara com Julia e salva sua vida. Mais uma vez o autor explora a discussão sobre o racismo, só que agora através da investigação do olhar de uma outra pessoa sobre a figura de Jim.

Ela olhou para ele, forte e confiante. Ele não parecia os outros homens, os homens como ela sempre imaginou; contudo, agia como um, e isso a contentava.

Julia se vê diante de um homem que não fazia parte de seu mundo e que raramente ocupava sua mente como a representação de um homem. Hartman diz brilhantemente no texto “O fim da supremacia branca” que para Julia “ele era alguma coisa a mais que um desconhecido.” Ao mesmo tempo o próprio Jim, ao se deparar com um mundo aparentemente desprovido da violência usual chega a proferir em um diálogo com Julia: “Sim. Ontem, eu não era humano”. E Hartman segue no texto de análise com a provocação de que somente no fim do mundo a negritude consta como vida e o negro como humano.

Para além da ótima narrativa de “O cometa” e da charmosa edição da editora Fósforo fiquei com uma grande curiosidade em conhecer mais sobre vida e obra do W.E.B. Du Bois, uma personalidade que já ousava a falar sobre racismo em uma sociedade que se valia praticamente do direito de violentar a população negra num grau ainda maior que o de hoje. Du Bois foi sociólogo, historiador, ficcionista, poeta e editor, além de um importante ativista pela igualdade racial.



Luxúria da Raven Leilani

Luxúria da Raven Leilani (Companhia das Letras, 2021) é um livro que surpreende pela forma como olha para a juventude. Com uma escrita honesta, sarcástica, engraçada e por vezes sensível, a autora faz uma radiografia sobre o que é ter vinte e poucos anos vivendo em uma cidade grande, lutando para manter um emprego mediano, se aventurando entre encontros casuais e amores complicados, históricos familiares difíceis. Além de explorar diversos anseios típicos da juventude, Raven nos faz mergulhar em uma narrativa sob o ponto de vista de uma mulher negra e jovem escrevendo sobre uma personagem negra e jovem. Uma proximidade que permite a construção de um texto ficcional que parece quase uma confissão.



Ao contar a história de Edie, a autora faz o retrato de uma geração que precisa se equilibrar entre a competição e o discurso do cuidado com a saúde mental, entre a frivolidade dos aplicativos de relacionamento e o desejo de uma relação sólida, entre a cobrança por dedicação aos estudos e a falta de empregos, entre a apatia e a busca de prazer, entre o se dar bem na vida e a falta de empatia por histórias alheias. É um livro onde as dualidades se escancaram e no caso da protagonista Edie, tudo ganha ares ainda mais intensos, pois somados às suas lutas e descobertas está a sua condição de mulher negra e pobre em uma sociedade machista e racista. Isso é feito através de um texto que beira o improvável pela maneira como a personagem debocha da vida. Edie utiliza de uma ironia inteligente e engraçada para enfrentar a vida e acabamos dando algumas gargalhadas com a sua forma de interpretar a realidade. 

No caso dele, no entanto, parece que isso é novidade. Não só sair com alguém que não é a mulher dele e que é algumas décadas mais jovem, mas também sair com uma mulher que por acaso é negra. Eu percebo pela extrema cautela com que ele diz afrodescendente. Pela forma como ela jamais fala a palavra negra. Via de regra, eu evito tirar esse cabaço. Eu me recuso a ser a primeira mulher negra com quem um homem branco se relaciona. Não tolero as tentativas trêmulas dos brancos de cantar rap underground, a óbvia insistência na linguagem coloquial, a empáfia do homem cor-de-rosa que usa tecido estampado de Gana. 

Basicamente acompanhamos o dia a dia de Edie, uma moça de temperamento forte, raciocínio rápido e boas reflexões sobre a realidade. Ela trabalha em uma editora de livros e seu campo de trabalho está mais voltado para as publicações juvenis. O tempo todo Edie se mostra consciente de que sua cabeça está a prêmio e que logo poderá ser demitida. Além de ser uma mulher negra sem medo de se colocar, o que incomoda boa parte da equipe majoritariamente branca, Adie ainda não se priva de aventuras sexuais com alguns colegas de trabalho.

Adie foi por muito tempo a única mulher negra em seu trabalho e após a chegada de outra no setor, o que poderia se tornar uma relação pautada na sororidade e até uma espécie de apoio racial acaba caminhando mais para o campo do desencontro, principalmente na forma como se defendem do preconceito, revelando assim mais uma faceta do racismo.

E depois eu me equivoquei. Mostrei raiva demais cedo demais. Muitos desses brancos não têm jeito mesmo. Muito fuck the police. Nós duas estudamos na escola do Dobro de Qualidade pela Metade do Mérito, mas pelo jeito ela ainda acha que vale a pena pagar esse preço para entrar no clube. Até hoje ela se ajeita toda, esperando que a escolham. E vão escolher. Porque é uma arte – ser negra, perseverante e inofensiva. Ela é tudo isso e fica constrangida por quem eu sou.
Através de contato por um aplicativo, Edie conhece Erick, um homem branco de meia idade e casado que vive um relacionamento aberto com sua esposa Rebecca. É uma relação que obedece a uma série de combinados e regras que logo serão quebradas. Edie se encanta rapidamente pela figura de Erick e eles passam a se encontrar com frequência dando início a um relacionamento bastante peculiar e intenso.

A diferença de idade não me incomoda. Homens mais velhos têm uma vida financeira mais estável e uma percepção diferente do clitóris, mas, para além disso, o desequilíbrio de poder é uma droga muito potente. Assim como se ver no limbo doloroso que separa o desinteresse e a perícia de outra pessoa. O pavor que a pessoa sente da indiferença crescente do mundo. A revolta e o fracasso da vida adulta, canalizados para o esforço de reduzir o corpo de alguém, e nesse caso o seu, as partes brilhantes e elásticas


A autora vai traçando um contraponto entre a vida aparentemente estruturada de Erick e sua esposa e um certo caos que ronda a vida de Edie. A própria representação do apartamento que a garota vive, serve como uma metáfora para os desafios da juventude, para a busca por estabilidade financeira e amorosa, para a falta de oportunidades. Seu apartamento é assustadoramente infestado de ratos e baratas e a forma como Raven relata isso no livro não deixa de trazer uma angústia para o leitor.

Infelizmente, meu vibrador morreu. Tento achar pilhas, mas não encontro nenhuma AA. Tento usar a mão, mas uma barata atravessa o teto quando estou quase gozando. Quando me olho no espelho, um dos meus cílios postiços sumiu. Espero que isso tenha acontecido há pouco tempo e que eu não tenha passado o dia todo com um olho triste e cheio de cola.

Se existe um incômodo que perpassa a vida financeira de Edie, por outro lado existe uma forma de falar e refletir sobre sexo e sexualidade que é muito livre e transgressora, principalmente em boca de mulher.

Porque tem homens que são uma resposta a uma imposição biológica, que eu mastigo e engulo, e tem homens que guardo na boca até dissolverem.

Após alguns acontecimentos, Edie perde o emprego e sua situação a leva a morar na mesma casa que Erick e Rebecca. Uma dinâmica estranha e por vezes constrangedora passa a rondar a relação dos três. Edie conhece Akila, a filha adotiva do casal. Ela é uma menina negra na faixa dos treze anos de idade e sem referências de pessoas que sejam como ela, pois vive em um bairro onde é a única negra. Edie e Akila vão se aproximando aos poucos e logo percebemos que o convite para que Edie passasse um tempo naquela casa não foi em vão. Erick e Rebecca estão meio apavorados com a experiência de serem pais e ao mesmo tempo não medem esforços para cumprirem bem esse papel.

A gente não pode deixar Akila fazer o que quer só porque ela é negra, Rebecca diz. Isso não é feminismo interseccional, é só uma desculpa para sermos pais ruins.
Quando nos deparamos com o título “Luxúria”, logo imaginamos que estaremos diante de uma obra que olha apenas para o aspecto excitante e sensual do sexo. Na verdade não é isso que encontramos. Apesar de Edie ser uma jovem pragmática e que diz o que precisa dizer e que não tem receio de transar apenas para saciar um pedido do corpo, podemos entender que a Luxúria de que se trata o livro é menos a sexual e mais a da busca de prazer pela vida, pela busca de um propósito, de um lugar no mundo, da ansiedade de entender e lidar com a sociedade e com a própria individualidade. É um relato poderoso sobre a vivência e a voz de uma mulher negra. 


A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab

A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab (Galera Record, 2021) é um romance que trata sobre a liberdade usando a metáfora da imortalidade. Para tanto, se agarra a elementos fantásticos interessantes. Addie Larue é uma jovem que vive em um pequeno vilarejo no interior da França em meados de 1714 e que sempre se incomodou com quão pequeno era seu mundo. Uma curiosidade que até então almejava apenas conhecer a cidade mais próxima, foi se transformando em um anseio por conhecer o mundo, por conhecer outras possibilidades de vida para além do pedaço de terra em que nascera. Addie Larue tinha uma certeza: "Não quero morrer do mesmo jeito que vivi." Quando se vê obrigada a casar, seguindo a tradição da época e que se enterraria de vez naquele povoado, a jovem acaba selando um pacto com uma entidade que caminha pela escuridão.


Tomada pelo desespero, Addie ignorou um dos principais ensinamentos de Estele, uma espécie de bruxa e curandeira da região: "Não faça preces aos deuses que atendem depois do anoitecer." No meio da noite, em uma hora decisiva para seu destino, ela clama para que qualquer deus a salve daquela situação, e de repente, suas preces são atendidas. Uma entidade que se alimenta de almas só atende pessoas em situação de desespero e quando estamos nesse estado é impossível se ater com atenção a todas as palavras e nuances do acordo que está para selar. Um pacto é um pacto - por vezes, irrevogável. É um contrato com algo que pode ser um deus ou um demônio e que sempre custa muito caro.

- Eu não quero pertencer a outra pessoa - diz ela, com veemência repentina. As palavras são uma porta escancarada, e agora ela despeja todo o resto. - Não quero pertencer a ninguém além de mim mesma. Quero ser livre. Livre para viver e encontrar meu próprio caminho, para amar ou ficar sozinha, mas que seja por escolha própria. Estou tão cansada de não ter nenhuma escolha, tão assustada de ver os anos se passando diante dos meus olhos. Não quero morrer do mesmo jeito que vivi, porque isso não é vida...

A garota entrega um prato cheio à escuridão. Addie despeja tantas palavras e tantos desejos que terão consequências até então inimagináveis. Ela pede, roga para que tenha liberdade e tempo para conhecer e viver tudo o que deseja viver e nesses termos um grande pacto é selado com beijo e sangue.

Quando Addie acorda de uma espécie de transe, está exatamente onde se lembrava de estar, a mesma floresta, o mesmo vilarejo, o mesmo anseio de fuga e o encontro com a criatura da escuridão parece ter sido apenas um sonho. Mas é quando volta para casa, ao encontro de seus pais, que ela descobre que toda lembrança sobre sua existência fora apagada. Addie não existe mais para seus pais, nem para o povo do Vilarejo e com o tempo vai perceber que nunca mais será lembrada por ninguém.

Um ano que passou aprisionada dentro do prisma daquele pacto, forçada a sofrer sem morrer, a passar fome sem definhar, a desejar sem enfraquecer. Cada momento ficou impresso na sua memória, enquanto ela mesma desaparece da memória dos outros sem o menor motivo, apagada por uma porta que se fecha, por se perder de vista por um segundo, por um momento de sono. Incapaz de deixar uma marca em qualquer pessoa, ou em qualquer coisa.

No pacto selado Addie não envelhece, não é acometida por doenças, mas nunca mais ninguém conseguirá se lembrar dela. Cada pessoa que passa pela sua vida a esquecerá a cada vez que uma porta se fechar, que uma parede se colocar entre elas numa interpretação exata e cruel do seu desejo de não pertencer a ninguém.

Mas agora Addie sabe muito bem que essas histórias estão repletas de seres humanos tolos que fazem tolices, que são fábulas de alerta sobre deuses, monstros e mortais gananciosos que desejam coisas demais e não conseguem compreender o que perderam. Até que pagam o preço, e é tarde demais para voltar atrás.

O livro mescla capítulos que viajam entre o vilarejo da França em 1714 e a atualidade, que seria o ano de 2014 em Nova York. De cara já sabemos que trezentos anos se passaram, que Addie viajou pelos quatro cantos do mundo, que aprendeu diversas línguas, pois agora o que não falta a ela é tempo. Se por um lado não falta tempo, por outro Addie não pode acumular nada para si, não pode dizer seu verdadeiro nome e quando o tenta a voz simplesmente não sai. Ela não pode alterar drasticamente a realidade, como destruir coisas, aparecer em fotos ou mesmo escrever. Addie não pode deixar sua marca no mundo. "O que é uma pessoa, se não as marcas que deixa para trás? Ela aprendeu a caminhar entre os espinhos, mas não consegue evitar alguns cortes."

A escritora V.E. Schwab começa então a brincar com a ideia da existência de uma pessoa que assiste ao desenrolar da história da humanidade em trezentos anos. Quantas coisas não aconteceram em trezentos anos? Quantas coisas não foram inventadas em trezentos anos? E quanto não se pode aprender nesse mesmo tempo? Addie passeia pelo mundo e também pela nossa história, se encontra com personalidades lendárias e são essas possibilidades que não a deixam sucumbir e por fim entregar sua alma. Inicia um jogo perigoso com a escuridão.

A entidade sombria que a garota passa a chamar de Luc a visita a cada aniversário do pacto oferecendo rendição e o incrível é que quanto mais Addie vive mais sente que a vida nunca para de surpreender e que há sempre algo novo a ver e aprender. Apesar de precisar viver morando em lugares improvisados, roubando comida e roupas, estabelecendo relações que não duram mais que um dia, Addie vai encontrando, sorrateiramente, algumas maneiras de deixar sua marca no mundo até que um dia encontra com alguém que se lembra dela no dia seguinte.



O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia

 O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia (Editora Rocco, 2021) é um livro que reúne uma coletânea de contos originais de diversos escritores e escritoras que giram em torno da pandemia causada pela Covid 19. As histórias se passam naqueles primeiros meses em que as cidades começaram a implantar lockdown e as ruas se tornaram desertas. Todos os contos foram selecionados pelos editores da New York Times Magazine, que embarcaram na ideia a partir de uma proposta da romancista Rivka Galchende de fazer um novo "decamerão" inspirado na obra de Giovanni Boccaccio, um clássico da literatura, escrito entre 1348 e 1353. 


No Decamerão escrito na Idade Média um grupo de jovens se afasta das cidades que foram atingidas pela epidemia da peste negra, doença que matou mais de 25 milhões de pessoas e se refugiam em uma casa de campo como uma forma de se protegerem da doença. Lá instalados os jovens criam sua própria dinâmica de convivência e entre as atividades está a troca, o compartilhamento de histórias. A obra foi considerada um marco para o período da Idade Média pela forma como explorou as vivências humanas. Diante do medo da morte é como se as lembranças aflorassem de forma ainda mais vivaz, portanto ao invés de trocarem histórias especificamente sobre morte, sofrimento, angústia, os jovens embarcam em uma jornada cheia de histórias que exploram também o humor, a ironia, o improvável, a sensualidade, o sexo e o anticlericalismo. 


No Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia deparamos com a mesma ideia. Os editores da New York Times Magazine propuseram o mesmo tipo de imersão e a resposta dos escritores e escritoras foi muito parecida com as dos personagens do antigo Decamerão. Escolheram falar sobre a pandemia sem falar sobre a pandemia. Acontecem algumas menções ao período e boa parte das histórias se passa no tempo e espaço do isolamento social, mas os autores jogam vivência particulares e reveladoras em com desse cenário. O Projeto Decamerão é quase que uma declaração de vida diante da eminência da morte. 


O livro conta com autores desconhecidos do grande público e também com nomes como Margaret Atwood, Tommy Orange, Mia Couto, o brasileiro Julián Fuks, Colm Tóibín e o vencedor do National Book Award 2020 Charles Yu. Os contos são muito bem escritos e cada um deles nos leva para reflexões diferentes tendo o comportamento humano como âncora. O livro confirma nosso susto, incredulidade e impotência diante de um vírus desconhecido que mata e se torna um registro importante desse momento histórico que vivemos. "Quando a realidade é surreal, só a ficção pode lidar com ela." 

O Horror de Dunwich de Howard Phillips Lovecraft

 O Horror de Dunwich de Howard Phillips Lovecraft (Raposa Vermelha, 2019) foi minha primeira leitura do cultuado escritor de terror. Assim como sou fissurado em filmes e séries de horror, achei que já era hora de conferir uma publicação do autor, uma vez que é considerado um dos maiores do gênero. O que ainda estava me impedindo de ler algo do escritor foram os inúmeros comentários que expõe o racismo de Lovecraft. Um racismo que se manifestou nas opiniões do homem público em vida e em sua obra. Ainda assim resolvi encarar e me vi em uma situação inusitada, pois fiquei entre a angústia do racismo inegável de sua produção e o encantamento pela sua destreza em contar uma ótima história de terror. 


Eu não sei qual é a régua e nem como se faz a medida de até onde é possível separar obra e autor. Acho que estamos todos aprendendo isso. Com a geração do cancelamento e de um politicamente correto que nem sempre possui caráter educativo e que foca mais no linchamento público, fica ainda mais difícil saber até onde podemos ir. No caso da literatura a situação se complica ainda mais, devido a necessidade que essa arte possui de ser livre e desafiadora, de quebrar os paradigmas e nem sempre dizer o que queremos ouvir. 


Acontece que Lovecraft passa do tom. O racismo que encontramos em sua obra vai além da manifestação "natural" de sua vivência em um contexto de uma sociedade puritana, protestante e de extrema segregação racial. Lovecraft transformou essas vivências em ódio racial. Isso é muito perigoso e motor para o fascismo. Ele transporta de seu imaginário para a escrita toda a repulsa advinda de seus preconceitos, daquilo que fugiu da norma vigente da época, ou seja, o que era diferente e portanto considerado inferior. É nítido na sua escrita a transformação desse sentimento de repulsa e até de medo em história. E na sua história o diferente representa o mal. Por vezes um mal desumanizado. Lovecraft cria personagens com ares demoníacos e perturbadores que fazem referências sutis, e as vezes nem tão sutis assim, a negros, imigrantes e homossexuais. Isso para ele era parte do seu terror particular, portanto parte de sua obra. E bem sabemos que a desumanização dos negros, por exemplo, foi um dos fatores que justificaram séculos de escravidão.

- Vou dizer uma coisa , sra. Corey, está andando por aí uma coisa que não devia estar por aí e eu garanto que aquele Wilbur preto que teve o fim ruim que merecia está no fundo de tudo isso. Ele não era totalmente humano, sempre digo para todo o mundo; e acho que ele e o velho Whateley devem ter criado alguma coisa naquela casa cheia de tábuas pregadas que também não era muito humana, como ele. 


Em "O Horror de Dunwich" o personagem Wilbur Whateley é o remanescente de uma família com uma história perturbadora. Membro de uma espécie de clã que faz parte do imaginário macabro da comunidade de Dunwich por se envolverem em histórias bizarras. Eles tem o costume de subir o monte e fazer cultos satânicos no alto de uma pedra e toda a cidade sabe disso. É nesse clima de mistério que vamos embarcando na aura da história que é tão densa e pesada a ponto de fazer o leitor sentir uma espécie de mal estar com as descrições do que se sente só de passar pelo povoado. 


É sempre um alívio deixar aquele lugar e seguir a estrada estreita que contorna o sopé das colinas e atravessa a região plana até voltar à estrada de Aylesbury. Depois ficamos sabendo que passamos por Dunwich.


 


Ninguém, nem mesmo quem tem conhecimento dos fatos ligados ao horror recente, é capaz de dizer exatamente o que ocorre em Dunwich; embora lendas antigas falem de ritos e conclaves profanos de índios, em meio aos quais invocavam obscuros vultos proibidos das colinas arredondadas...

Quando o assunto é narrativa de terror a qualidade da escrita de Lovecraft é inegável. Uma das maiores destrezas do autor estava em criar um horror que focava mais em transmitir uma sensação de medo do que em fazer sangue e lodo espirrar.  A forma como ele descreve Dunwich, por exemplo, é tão imersiva que o próprio vilarejo se torna quase que uma entidade do mal. Caminhando entre as casas úmidas e decrépitas do vilarejo, onde o som de folha seca sendo esmagada pelos pés poderá acordar um espírito maligno ou um demônio a qualquer momento. Lovecraft consegue deixar o leitor apreensivo e quase chega a nosso nariz o mal cheiro que paira pela cidade e que é descrito no livro, assim como os sons misteriosos que surgem do meio da mata e do alto das montanhas. Quase sem mostrar nada o narrador nos faz ter a certeza de que algo perturbador ronda Dunwich. Existe um ronco de ódio que vive por baixo daquela cidade.


Um outro ponto empolgante da obra é quando Wilbur se coloca à caça da versão latina de um livro chamado Necromonicon, que supostamente possui códigos e cifras com poder de ressuscitar deuses e demônios do submundo. Wilbur é também um pesquisador do sobrenatural e suas pesquisas fazem com que ele viaje para outra cidade. Ele chega até a biblioteca de uma universidade, para tentar acessar um exemplar do Necromonicon, mas é barrado pelo bibliotecário (pela sua má fama e aparência). O bibliotecário transmite um alerta a todos os outros bibliotecários da região para que Wilbur não tenha acesso a obra a fim de evitar uma grande maldição. Nesse ponto existe uma exploração bem interessante sobre o poder da biblioteca e do bibliotecário que também são envoltos em uma aura mística juntamente com a biblioteca enquanto espaço e repositório de conhecimentos e segredos infindáveis. 


A edição que tive em mãos está um primor. Inclusive foi um dos fatores que fizeram o livro furar minha lista de leituras. A capa está muito chamativa e as ilustrações do ilustrador argentino Santiago Caruso dão um toque todo especial para a publicação. Santiago parece ter captado bem toda a mística que ronda a história e transportou isso para o papel de forma que texto e imagem fazem uma dobradinha perfeita no objetivo de angustiar o leitor. As ilustrações não tem só um primor técnico, mas também uma força narrativa que nos coloca dentro de Dunwich. 


Acredito que quase todo livro vale a pena ser lido. Quase todo livro possui algum potencial em acessar algo no íntimo do leitor que as vezes não é da ordem do entendimento. Tem livro que toca e tem livro que não se aproxima do nosso "eu leitor". No caso de "O horror de Dunwich" posso dizer que é um dos melhores livros de terror que já li. É um livro que vale a pena ser lido por quem é fã do gênero de terror, segmento onde é muito difícil encontrar narrativas que não caem na armadilha do óbvio. Isso não quer dizer que simplesmente deixei de lado toda a problemática racista que envolve obra e autor. Penso que também se faz necessário ler com olhos de ler, ciente de que temos ali a representação de um capítulo muito triste mas real da história da humanidade. Toda leitura possui inúmeras camadas e "O horror de Dunwich", possui uma camada fantástica que de alguma forma ferve nosso sangue de excitação e uma outra que causa incomodo e que será para sempre o preço a ser pago por quem deseja conhecer o universo de H.P Lovecraft. 


Deus ajude essa criança da Toni Morrison

 Deus ajude essa criança (Editora Companhia das Letras, 2018) é um romance instigante de autoria da grande escritora Toni Morrison, vencedora de um Nobel de Literatura, sendo a primeira mulher negra a receber tal prêmio. "Deus ajude essa criança" é um livro de impactos e o maior deles está na exploração do racismo na infância e como essa experiência de violência pode se manifestar na história das pessoas. O racismo é uma temática bastante presente na obra de Morrison, mas nesse livro podemos ver uma exploração maior sobre as questões da pele, do dito "colorismo". Esse tema é inserido ao acompanharmos o nascimento de Lula Ann Bridewell, uma menina que já nasce sendo repelida pelos próprios pais por ter a pele muito mais retinta do que eles julgavam "aceitável". 


Não levou mais de uma hora depois que tiraram a criança do meio das minhas pernas pra perceberem que tinha alguma coisa errada. Muito errada. Ela era tão preta que me assustou. Preto meia-noite, preto Sudão. Eu tenho a pele clara, o cabelo bom, o que chamam de pele oliva, e o pai de Lula Ann também. Não tem ninguém na minha família com uma cor daquela. Alcatrão é o que chega mais perto, só que o cabelo dela não combina com a pele. É diferente: liso mas ondulado, igual ao daquelas tribos nuas da Austrália. Dá pra pensar que ela é uma agressão, mas agressão pra quê? 

Nesse trecho da obra já podemos perceber diversas nuances de como o racismo se manifesta. O racismo tem raízes tão profundas no modelo de sociedade que construímos, sendo possível a existência de uma escala de cor de pele aceitável, inserida também entre os próprios pretos como uma forma violenta de auto preservação, de defesa. Lula Ann é filha de pais negros, mas nasceu com a pele mais escura, mais retinta que a pele dos seus pais. Movido por uma desconfiança o pai acaba abandonando a família e Lula Ann passa a lidar com o desprezo da própria mãe e as demais consequências do racismo em uma sociedade que quanto menos preto você parecer, melhor. 

Quando impera o medo, obedecer é a única opção de sobrevivência. E eu era boa nisso.


Para além dessas questões de âmbito familiar, Lula Ann acaba sendo ainda na infância a peça chave da conclusão de um julgamento. Ela ajuda a condenar uma pessoa por um crime que supostamente presenciara. Esse acontecimento acaba por melhorar um pouco a relação com sua mãe, que acha uma grande coisa sua filha negra ajudando a condenar e mudar o destino de uma pessoa branca, algo muito simbólico nesse livro, mas também se torna meio que uma obsessão, um fantasma que acompanha os dias da menina e que reverbera na sua vida adulta. 


Quando constrói a fase de Lula Ann adulta na história, Toni Morrison faz algo genial que é nos mostrar as estratégias da Lula mulher para driblar o racismo e enfrentar (ou reprimir) suas memórias. Ela se torna uma mulher bem sucedida, trabalha na área de cosméticos e inclusive fora a responsável pela criação de uma linha de cosméticos e maquiagem muito celebrada. Lula Ann que agora adotara o nome Bride, algo muito significativo no que diz respeito a suas memórias, usa de sua beleza como escudo, de sua ascensão econômica e social para garantir um local de sossego e descanso do preconceito, ainda que sua eficácia não seja cem por cento. 

Os retalhos da vida que ela havia remendado: glamour pessoal, controle em uma profissão excitante, criativa até, liberdade sexual e , acima de tudo, um escudo que a protegia de qualquer outro sentimento intenso demais, fosse raiva, vergonha ou amor. 

Bride passou a viver uma vida que muitas vezes parecia ser monitorada por aparelhos anti tensão. Acontece que as questões referentes à sua própria história, à sua família de origem, às violências que viveu ou presenciaram acabam batendo à porta e Bride começa um movimento que parece uma revisitação desses traumas e desses dores, como se fosse seu inconsciente, sua história pregressa a tomando de assalto.  


"Deus ajude essa criança" se aproxima muitas vezes de algo que beira a fantasia para ilustrar a reforma íntima e a luta com a própria consciência que é travada pela protagonista da história. É uma narrativa que olha para a sociedade, com intuito de demonstrar o quanto ela é cruel e a inserção das crianças no texto não é aleatória. Tive a impressão de que Toni Morrison decidiu utilizar a figura da criança, que no livro são expostas a diversos tipos de violência, como uma estratégia de sensibilização, como a ideia de que se uma criança em estado de vulnerabilidade e violência extrema não for capaz de provocar reflexão e abrir os olhos de uma pessoa para as injustiças do mundo, o que mais será capaz de promover esse acordar? 

O quarto de Giovanni de James Baldwin

 O quarto de Giovanni do James Baldwin (Companhia das Letras, 2018) é uma das obras mais conhecidas desse autor norte americano que nasceu em 1924 na cidade de Nova York.  Sua primeira edição é de 1956 e se hoje temas como sexualidade e homossexualidade ainda são alvo da hipocrisia de muitos, podemos dizer que Baldwin foi muito corajoso ao escrever um romance que não só trás a questão da sexualidade de forma bem demarcada, como explora a vivência dessa sexualidade entre homens gays. David, um americano que está morando em Paris e esperando Hella, sua noiva, que está passando uma temporada na Espanha, acaba se apaixonando por Giovanni, um garçom italiano de beleza estonteante que conhece em uma noite. A identificação entre eles acontece de forma intensa e os dois decidem dividir um pequeno quarto de empregada em que Giovanni já vivia. Passam a viver uma história onde o mundo parece ser habitado apenas por eles, em uma realidade que ao mesmo tempo vive assombrada por uma situação financeira instável, por suas histórias de origem e pelo iminente retorno de Hella que pode significar o fim do romance. 

 


James Baldwin era um escritor negro e homossexual que abraçou na vida pessoal e na literatura a representação das minorias. Seus livros são fortemente marcados pelo tema da sexualidade e da questão racial. Especificamente em "O quarto de Giovanni", o autor optou por escrever uma história protagonizada por brancos, portanto, não temos uma discussão marcadamente racial. Esse fato causou muita polêmica quando da publicação do livro e Baldwin chegou a ser questionado sobre essa tomada de decisão. Os editores acreditavam que o autor poderia ser abandonado por aqueles que o liam, ou seja, pessoas que o viam como referência nos temas já citados. Acrescentavam ainda que além de perder um público já conquistado, que Baldwin talvez não alcançaria novos leitores (brancos) que também já o viam como um porta voz das questões raciais. 


James argumentou que a proposta de "O quarto de Giovanni" em optar por personagens brancos foi uma maneira encontrada de poder focar apenas na temática da sexualidade e homossexualidade  e conseguir mais facilmente ser publicado e lido. Acreditava que a temática da homossexualidade acrescida da questão racial, poderia encontrar ainda mais entraves, levando em consideração que estamos falando dos anos 50. Isso não significou um abandono dos temas que habitavam a mente e as vivências de Baldwin, que retornaria em outros livros, mas uma escolha estratégica e literária pontual. 


Esse é um fato que pode nos levar a diversas reflexões e uma delas é sobre a liberdade de escritores e escritoras em escrever sobre o que quiserem, sem se preocuparem com nichos e rótulos. Um escritor negro pode escrever sobre o que quiser, assim como uma mulher escritora pode escrever sobre o que quiser e que não necessariamente precisa estar vinculado ao universo feminino. Relegar aos artistas negros a obrigação de terem apenas as questões raciais e o racismo como experiência de vida, de narração e exploração de sua arte é limitar suas possibilidades criativas e interferir em uma das características mais bonitas da literatura: viver e vivenciar outras realidades. 


Sabemos que o recorte das narrativas negras tem cada vez ocupado mais seu espaço de direito no meio editorial, e isso é valido, pois representa uma reação eficaz a séculos de silenciamentos e apagamentos. Só precisamos estar atentos a um movimento silencioso que pode tentar nos enquadrar novamente e definir o que podemos ou não dizer. Precisamos falar de nossas dores e da violência sofrida pelo povo preto, mas temos também muito o que dizer na poesia, no conto, na crônica, na ficção científica, nos ensaios, na literatura técnica que perpassam outros pontos.  


Cada figura que passeia pelo livro é explorada com uma densidade muito interessante. Principalmente David e Giovanni. Na primeira parte do livro, somos apresentados a um período da infância e juventude de David que mais para frente servirá de instrumento para entendermos algumas de suas atitudes e decisões. David sempre foi obrigado a frear seus desejos por conta do contexto social e das demais questões que afetam a vida de um homossexual. Dessa forma, a construção de sua sexualidade impactou no adulto que ele se tornou e na forma como se relaciona amorosamente com as pessoas. Sua namorada Hella é exposta sem saber a relação com um homem obrigado psicologicamente a estar em uma relação heterossexual com tudo de preocupante que esse fato carrega. Giovanni é exposto a relação com um homem que tem vergonha de si, de seus desejos, de quem é, e que vê a relação como algo com data para terminar. Diante disso o quarto de Giovanni se torna um refúgio, mas também um local que expõe todas as máculas de sua falta de aceitação própria. 

Eu tremia. Pensei: se não abrir a porta agora mesmo e sair daqui, estou perdido. Mas eu sabia que não podia abrir a porta, sabia que era tarde demais; e em pouco tempo era tarde demais para fazer outra coisa que não gemer. Ele apertou-me contra si, jogando-se em meus braços como se quisesse que eu o carregasse, e lentamente deitou-me junto com ele naquele cama. Tudo dentro de mim gritava Não!, e no entanto o somatório de mim suspirava Sim. 

Giovanni é representado como um italiano irresistivelmente bonito e a forma como transita entre as pessoas demonstra que possui um magnetismo que encanta as pessoas. No bar em que trabalha é desejado por quase todos os homens que veem em sua figura uma promessa de satisfação dos desejos e das fantasias homossexuais mais intensas. Giovanni tem consciência do poder de sua aparência e usa isso a seu favor. Ainda assim, percebemos que existem capítulos não contados de sua história, que fazem com que a melancolia, a depressão e até o pensamento suicida estejam sempre presentes em sua vida. David passa a representar para Giovanni uma possibilidade de sentir vontade de viver no mais bonito e perigoso que isso possa parecer. 

Jacques percebera, e eu percebera, enquanto avançávamos em meio à multidão em direção ao bar - era como entrar no campo de força de um imã, ou como aproximar-se de um pequeno círculo de calor - , a presença de um barman novo. Insolente, moreno e leonino, cotovelo apoiado na caixa registradora, dedilhando o próprio queixo, ele contemplava a multidão. Era como se estivesse num promontório e nós fôssemos o mar.


Baldwin também recorre a uma estratégia de exploração do "ser estrangeiro" de David e Giovanni para falar sobre descoberta, mas também inadequação. Para falar da busca de si mesmo, mas também do não-lugar. Para falar de amor, mas também das impossibilidades que a homoafetividade pode enfrentar. O sentimento de não pertencimento, do não lugar funcionam como uma ótima analogia a quem ousa viver da forma diferente das quais as pessoas precisam seguir um roteiro. Quando seguimos um caminho diferente, automaticamente nos tornamos estrangeiros. 

 Giovanni sorriu. "Porque você vai voltar pra casa e então vai descobrir que não é mais a sua casa. Aí é que vai ficar mal mesmo. Enquanto estiver aqui, você pode sempre pensar: um dia vou voltar pra casa.". Ele brincou com meu polegar e sorriu. "N'est-ce pas?"

"Bela lógica", retruquei. "Quer dizer que eu tenho uma casa para onde posso voltar, desde que não vá pra lá?"

Ele riu. "Mas não é isso mesmo?" Você só passa a ter uma casa quando vai embora dela, e depois, quando foi embora, você nunca mais pode voltar."


 A cidade e a vida urbana exerce uma força singular para a narrativa. A Paris boêmia dos anos 50 se torna o cenário perfeito para essa dualidade entre efervescência e tradição. A paixão de David por Giovanni parece as vezes acompanhar a paixão de David por Paris - um sentimento com muitos altos e baixos. A mesma sensualidade e a mesma ira são utilizadas para descrever a relação de David com Giovanni e com a cidade. 

A pedra de que era feita a cidade, antes luminosa e mutante, foi se apagando pouco a pouco, mas de modo decidido, até voltar a ser cinzenta. Claramente, era dura. A cada dia iam desaparecendo do rio os pescadores, até que as margens do Sena ficaram vazias. Os corpos dos rapazes e moças começaram a ser deformados pela roupa de baixo grossa, os suéteres e cachecóis, chapéus e mantos. Os velhos pareciam mais velhos; as velhas, mais vagarosas. As cores do rio morreram, a chuva começou, e o nível da água subia. Era evidente que o sol em breve desistiria do esforço tremendo que lhe custava passar algumas horas todos os dias em Paris. 

Em "O quarto de Giovanni" estamos diante de um livro com uma escrita deliciosa e com uma maturidade literária que o coloca na lista das leituras inesquecíveis. Não é um livro sobre heróis e vilões, é uma leitura sobre as circunstâncias da vida onde não interessa o que é certo ou errado, mas a reflexão sobre os passos que tomamos, sobre os desejos que silenciamos, sobre as individualidades que violentamos. É um livro que nos mostra que poucas coisas podem ser mais bonitas e mais insuportáveis que a liberdade. 



A outra volta do parafuso de Henry James

 A outra volta do parafuso de Henry James (Companhia das Letras, 2011) é um romance norte americano que foi publicado inicialmente em partes na Revista Collier's em 1898. Foi reeditado, se tornou um clássico e recebeu inúmeras adaptações para TV e cinema. Conforme vamos lendo a obra, entendemos o porque de tanta celebração sobre uma narrativa, uma vez que o livro nos leva a uma história de assombrações que carrega consigo muitas camadas e é um exemplo do exercício da literatura enquanto arte. Em "A outra volta do parafuso" cada diálogo, cada descrição de personagens, ambientes e situações parecem cuidadosamente construídos para compor um universo muito bem pensado por Henry James que flerta com suspense, terror e mistério. O arrepio dos pelos da nuca e uma ligeira queda de temperatura em contato com as aparições parecem acontecer de fato enquanto lemos. Henry James consegue evocar sensações através das palavras. 


Como o texto de Henry James trabalha muito com sugestões e sensações essa aura não poderia ficar de fora do título da obra. "A outra volta do parafuso" pode nos direcionar para várias formas de interpretação por conta de seu caráter subjetivo, mas acredito que todas elas vão se ligar à ideia de "uma outra maneira de enxergar", "o outro lado do que está posto", "o avesso", "aproximação de um outro estado de realidade", "um ponto de virada". Se existe uma volta do parafuso que aperta e prende, a outra volta do parafuso poderia ser aquela que solta e permite a vivência de um outro paradigma, de um terceiro olho, de algo diferente e "se uma criança dá ao fenômeno outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças...? 


Na história acompanhamos a chegada de uma jovem a uma propriedade para cuidar de duas crianças e ser uma espécie de governanta na mansão Bly. As duas crianças são órfãs e ficaram sob a tutela de um tio rico. Percebemos que a educação e até o afeto que essas crianças receberam sempre foram relegados a empregados da propriedade e esse tio inclusive, passa a maior parte do tempo longe das crianças e uma das condições ao contratar a governanta foi a de que ela deveria tratar de todos os problemas referentes às crianças e à casa sem o consultar. Inicialmente a moça da qual não sabemos o nome se vê vislumbrada pela propriedade campestre e pelas duas crianças que teria que cuidar. A menina se chama Flora e o menino se chama Miles. 


Uma das portas de entrada para introdução do clima de apreensão e mistério está na chegada de Miles à propriedade depois de ser expulso do internato em que vivia por motivos que ninguém sabe ao certo. Só sabemos que é período de férias e que Miles não poderá voltar a escola. Henry James nos coloca diante de um personagem que pode ser o mal encarnado ou apenas a vítima de um boato ou injustiça. É isso que a governanta começa a buscar e conta com a ajuda de uma outra empregada da mansão, a preceptora Grose, que apesar de conhecer muito sobre a história da mansão e da família, parece não querer que saibamos disso. 


Aos poucos a governanta vai começando a desconfiar de tudo aquilo que até então estava em perfeita ordem aos seus olhos. Seriam essas crianças tão perfeitas? Seria esse um emprego tão satisfatório assim? E esse lugar seria assim tão belo? Tudo isso se agrava quando a moça começa a esbarrar com pessoas que não deveriam estar ao redor da propriedade. Ela logo percebe que é testemunha de aparições de fantasmas de pessoas que supostamente foram funcionários da mansão e passa a desconfiar de que existe alguma relação dessas aparições com as crianças. 


"A outra volta do parafuso" é um livro que precisa ser lido com atenção. Seu texto não é de enorme complexidade, mas pede uma atenção maior para absorver detalhes, intenções e até a estrutura que Henry James pensou para a obra. Além de todos os aspectos que disse anteriormente e que prende a atenção do leitor, acredito que esse livro utiliza de um artifício muito perspicaz para nos entreter, que é o uso de diversos elementos da contação de histórias, bem ao estilo das histórias contadas numa roda de amigos ou ao pé de uma fogueira. O livro já se inicia dessa maneira, antes de conhecermos os relatos da governanta onde o primeiro narrador, inicialmente, vai passando um "mel" na boca do leitor, adiando o início da narrativa, como a nos preparar para algo muito surpreendente. O narrador está munido de escritos registrando a história que será contada pela passou que passou pelos fatos. 

O caso, devo dizer, era o de uma aparição surgida numa casa velha semelhante àquela em que estávamos reunidos no momento - uma aparição, das mais terríveis, testemunhada por um menininho que dormia no quarto com a mãe e que a acordou apavorado; acordou-a não para que ela dissipasse seu medo e o tranquilizasse, e ele então voltasse a dormir, mas para que ela própria defrontasse, antes de conseguir fazê-lo, com a mesma visão que o abalara. 


Henry James consegue fazer a gente se sentar ao redor dessa fogueira e a esperar ansiosos pelo que vai acontecer. O autor nos ganha já nas primeiras linhas usando a curiosidade como estratégia de imersão. Estamos diante de uma narrativa que bebe da tensão e usa e abusa de um clima psicológico onde as respostas não são importantes e sim as dúvidas.  

Primeira página da publicação seriada de The Turn of the Screw no Collier’s Weekly



A estrada da noite de Joe Hill

A estrada da noite do Joe Hill (Editora Arqueiro, 2007) foi o primeiro livro do autor. Na obra, Joe nos leva  para uma viagem por uma estrada com muitos trechos de arrepiar. Judas Coyne é um cinquentão que vive recluso, aproveitando de algumas mordomias e a estabilidade de ser uma lenda do rock. Uma série de acontecimentos fizeram com que Jude se afastasse  dos holofotes e fosse viver uma  vida onde a música passou  a ser mais um hobbie do que sua profissão.


Durante a narrativa vamos conhecendo mais detalhes  sobre a vida de Jude, mas inicialmente, o que encontramos é um homem com traumas familiares, lidando com consequências de uma juventude regada à álcool, drogas e com extrema dificuldade de dar e receber afeto.

Judas Coyne nomeia cada mulher  com que se relaciona  com o nome do Estado de onde elas vieram. Geralmente, essas mulheres são fãs dos tempos áureos de sua banda e de suas músicas, e por isso acabam se sujeitando a uma relação onde se assemelham mais a um objeto a serviço de Jude. Pela vida de Jude passaram muitas mulheres góticas carregando como apelido os nomes de seus Estados de origem, mas será a relação estabelecida com Florida e Geórgia que irá modificar para sempre sua história.

Judas Coyne é um homem que coleciona objetos e todo tipo de coisa que tenha um histórico sombrio , que estejam vinculados a acontecimentos brutais e assombrosos. Essa é umas das excentricidades desse astro da música pesada.

Jude tinha uma coleção particular. Tinha desenhos emoldurados dos Sete Anões na parede do estúdio, entre seus discos de platina. John Wayne Gacy, o "Palhaço Assassino" , fizeram os esboços quando estava na cadeia e os mandara para ele. Gacy gostava da Disney dos anos dourados quase tanto quanto gostava de molestar crianças pequenas, quase tanto quanto gostava dos discos de Jude. Jude tinha o crânio de um camponês do século XVI, que fora perfurado para os demônios saírem. Guardava um monte de canetas enfiadas no buraco no centro do crânio. Tinha a confissão de 300 anos atrás assinada por uma feiticeira...

Um certo dia, seu assessor chega com uma notícia de que uma pessoa estava vendendo um paletó assombrado na internet. O anúncio dizia que quem o comprasse levaria junto o fantasma de um homem idoso que não se afastava daquele objeto. A excentricidade de Jude fala mais alto e ele arremata a peça nesse leilão suspeito sem nem desconfiar que a partir da chegada do paletó do homem morto ele não teria mais paz. O homem morto passaria  a ser presença  constante nos corredores da casa de Jude em aparições cada vez mais assustadoras e violentas traçando uma trama cheia de reviravoltas e sustos.

Joe Hill é filho de Stephen King, o mestre do terror. Quem gosta das obras de King provavelmente também gostará da proposta narrativa de "A estrada da noite". Hill não copia as estratégias narrativas de seu pai, mas assim como ele consegue usar muito bem dos clichês do terror para criar uma história que prende pela sua condução, pelas características das personagens e pelas boas descrições dos momentos apavorantes que estão em nosso imaginário.



Dois garotos se beijando do David Levithan

No mês de junho celebramos o mês do orgulho LGBTQIA+ e indicarei alguns livros escritos por pessoas da nossa comunidade ou que mesmo que não tenham sido escritos por nós, tem o nosso universo, nossa realidade como foco narrativo para além dos estereótipos. Os livros que falam sobre nós estão saindo dos porões e mostrando que todos precisam se ver representados em todas as expressões artísticas. Escrevi a resenha de "Dois garotos se beijando" do David Levithan a alguns anos, mas achei importante resgata-la, pois é um livro que gosto e que costumo indicar para todos os jovens que estão se encantando pela leitura e principalmente para jovens que fazem parte da comunidade queer. É um livro que começa a contar a história de como chegamos até aqui, apesar de toda a violência. 



Hoje enquanto parei em um banco de praça pra retomar o fôlego de um dia de trabalho eu vi dois garotos de mãos dadas, e não fui só eu que vi, alguns olhos raivosos também viram. E enquanto os dois garotos andavam, indiferentes a indignação alheia, fiquei pensando o que poderia acontecer se eles estivessem abraçados, ou muito melhor, se estivessem se beijando. Esse episódio fez com que eu retomasse a ideia de escrever sobre um dos livros que li recentemente: "Dois Garotos se Beijando"(Galera Record, 2015)  do escritor norte americano David Levithan.

A história do livro gira em torno de um beijo de 32 horas e alguns minutos entre os personagens Harry e Craig, que com isso pretendem quebrar o recorde do Guinness Book de beijo mais longo. Beijo que é também um protesto contra a homofobia e mobiliza uma cidade e a mídia enquanto as histórias paralelas de Peter e Neil, Ryan e Avery e Cooper se cruzam a dos garotos se beijando. São histórias diferentes que acontecem ao mesmo tempo e que segundo o próprio autor são inspiradas em fatos reais. 

Quando decidi ler o livro do Levithan a motivação inicial foi sanar uma curiosidade sobre o que andam escrevendo por aí sobre garotos gays e seus relacionamentos, no que intitulam de literatura para jovens adultos - e confesso que é algo que gostaria de ter tido a oportunidade de ter lido aos quinze anos de idade. 

Comecei a leitura também com três receios, primeiro pela qualidade literária do texto, segundo pela minha eterna desconfiança de livros que são sucesso de mercado e terceiro por uma ligeira implicância com o título do livro, que inicialmente achei vazio e meio bobo.  Pois me surpreendi com a criatividade e fluidez da narrativa, com a inteligência dos diálogos, com a grande sacada do autor que é a figura do narrador, quer dizer, dos narradores. A história é contada pelos fantasmas de gays do passado, por homossexuais que passaram pela epidemia de AIDS, por agressões violentas à diversidade e militantes responsáveis por muitos dos avanços que testemunhamos hoje. O interessante disso tudo é que esses narradores onipresentes acabam por fazer links com o passado ao acompanhar a histórias dos personagens, fazendo um paralelo do que era ser gay a algumas décadas atrás e o que é ser gay hoje.

Vocês não tem como saber como é para nós agora; sempre estarão um passo atrás. Agradeçam por isso. Vocês não tem como saber como era para nós antes; sempre estarão um passo à frente. Agradeçam por isso também. Acreditem em nós: existe um equilíbrio quase perfeito entre o passado e o futuro. Enquanto nos tornamos o passado distante, vocês se tornam o futuro que poucos de nós poderiam ter imaginado.

Assim somos introduzidos na narrativa de "Dois garotos se beijando". Lendo o livro fui desconstruindo meus receios, possíveis preconceitos com título, autor e lista de mais lidos do The New York Times e David foi justificando, ao menos para mim, todo o propósito do título do livro e após o seguinte trecho que transcrevo abaixo eu me entreguei completamente à história:

Dois garotos se beijando. Vocês sabem o que isso quer dizer.
Para nós, era um gesto tão secreto. Secreto porque sentíamos medo. Secreto porque sentíamos vergonha. Secreto porque era uma história que ninguém estava contando.
Mas que poder isso tinha. Quer nós disfarçássemos com a desculpa de Você será o garoto e eu serei a garota, quer chamássemos de forma desafiadora pelo nome correto, quando nos beijávamos era quando sabíamos o quanto era um gesto poderoso. Nossos beijos eram sísmicos. Quando vistos pela pessoa errada, podiam nos destruir. Quando compartilhados com a pessoa certa, tinham o poder da confirmação, a força do destino.
Se juntarmos armários suficientes, temos o espaço de um quarto. Se juntarmos quartos suficientes, temos o espaço de uma casa. Se juntarmos casas suficientes, temos o espaço de uma aldeia, de uma cidade, de uma nação, do mundo.
Sabíamos do poder particular de nossos beijos. Depois veio a primeira vez em que fomos testemunhas, a primeira vez que vimos acontecer abertamente. Para alguns de nós, foi antes de termos sido beijados. Saímos de nossas cidadezinhas, fomos para a cidade grande e, ali nas ruas, vimos dois garotos se beijando pela primeira vez. E o poder agora era o poder da possibilidade. Ao longo do tempo, não era só nas ruas ou nas boates ou nas festas que organizávamos. Estava no jornal. Na televisão. Nos filmes. Todas as vezes que víamos dois garotos se beijando assim, o poder aumentava. E agora... ah, agora. Há milhões de beijos para serem vistos, milhões de beijos a um clique de distância. Não estamos falando de sexo. Estamos falando de ver dois garotos que se amam se beijando. Isso tem muito mais poder do que o sexo. E mesmo se tornando lugar-comum, o poder ainda está presente. Todas as vezes que dois garotos se beijam, o mundo se abre um pouco mais. Seu mundo. O mundo que deixamos. O mundo que deixamos para vocês.
Este é o poder de um beijo:
Ele não tem o poder de matar você. Mas tem o poder de trazer você à vida.
De vazio e bobo o livro não tem nada. Está cheio de posicionamento político, discussões de direitos humanos, representatividade, diversidade, entre outros temas universais aos relacionamentos humanos sejam eles gays, héteros, bissexuais, enfim. Não é um livro bobo, é um livro sério que faz uma retrospectiva sem didatismo pedante, sobre a trajetória de luta dos homossexuais para que a geração de hoje pudesse estar vivendo com um pouco mais de dignidade e que muitas vezes parecemos esquecer daqueles primeiros militantes que começaram a lutar contra o processo de invisibilização dos LGBT's. 

Dois garotos se beijando é colocado no livro como um ato de amor, mas também um ato político. O título do livro trás consigo leveza e dor ao mesmo tempo, pois para muitos dois garotos se beijando é algo muito simples e bonito, como um beijo deve ser, e para outros é visto como algo abominável e que pode gerar ondas de violência, discursos de ódio e negação de direitos. O que estou dizendo pode ser comprovado simplesmente pela exposição da capa do livro e as expressões faciais que a mesma gera. Inclusive a capa da edição americana de Two Boys Kissing gerou um grande burburinho quando o livro foi lançado, e ela nada mais é do que a fotografia de dois garotos se beijando e que portanto é o tema do livro.

À esquerda edição americana do livro e à direita a edição brasileira

Dois garotos se beijando é uma bandeira de igualdade e liberdade. É um grande avanço que livros como esse estejam sendo publicados no Brasil em tempos de tanta mediocridade e hipocrisia. Com isso não estou de forma alguma dizendo que essa temática nunca foi tratada no país por escritores nacionais, pois temos e tivemos escritos primorosos de figuras como Caio Fernando Abreu, João Silvério Trevisan e Hebert Daniel que são citados numa coluna que li sobre "literatura gay" como "aqueles que ousaram e ousam a escrever sobre o amor que não se diz o nome". Literaturas como essa, que reconhecem "minorias" e contribuem com a representatividade de pessoas e grupos perseguidos acabam por cumprir um papel transformador nas mentes e na sociedade pois como dizia Sartre "só a liberdade pode tornar inteligível uma pessoa em sua totalidade, mostrar essa liberdade em luta contra o destino, primeiro esmagada por suas fatalidades, depois voltando-se contra elas, digerindo-as pouco a pouco (...)"



A mulher na janela de A.J. Finn

A mulher na janela do A.J. Finn (Editora Arqueiro, 2018) é um thriller de suspense que acompanha a vida de Anna Fox, uma mulher que sofre de agorafobia após uma tragédia que assola sua família. Essa condição psicológica a impede de sair de casa. Como já está há quase um ano sem contato direto com o exterior, uma das distrações de Anna é acompanhar a vida de seus vizinhos através da janela. Um dia ela pensa ter presenciado um crime na casa em frente e é a partir desse acontecimento que muitas coisas começam a mudar em sua vida. O crime realmente aconteceu ou é fruto da cabeça de Anna que vive a base de fortes remédios e do uso abusivo de álcool? É isso que Anna tenta descobrir.


"A mulher na janela" é um livro cheio de clichês do gênero de suspense, mas isso não seria um problema se fossem usados com mais criatividade e inteligência. Nos primeiros capítulos já conseguimos sacar um dos principais pontos de reviravolta da trama, o chamado plot twist. Sinceramente, acho que um bom plot twist é aquele que você não está esperando e que portanto não imagina que irá acontecer, mas na obra de Finn a gente só fica juntando os pontos e aguardando ele confirmar nossas suspeitas - o que acontece. Essa facilidade da leitura, que diria que nem está ligada à escrita de A.J. Finn que é até fluida, mas a previsibilidade dos fatos acaba prejudicando a obra.

O autor consegue apresentar bem as personagens. Anna Fox tem uma personalidade rica, sua profissão é algo relevante para a narrativa, uma vez que ela é terapeuta especialista em crianças, e também sua condição psicológica aliada ao fato de seu isolamento social poderiam ter sido exploradas de forma a dar mais camadas à história. O autor joga um tapete cheio de possibilidade de trama aos nossos pés, mas depois não faz nada com isso.

As partes mais interessantes do livro estão na relação de Anna Fox com o cinema. Anna é cinéfila e possui um grande acervo de filmes antigos em casa. Em muitas passagens o autor consegue brincar utilizando diálogos de filmes famosos para nos mostrar quem é Anna, em que tipo de história ela está inserida, e até mesmo a própria personagem utiliza de sua paixão pelo cinema para interpretar sua condição e tentar entender seu próprio mistério.

A mulher na janela é um livro para aqueles momentos em que você quer ler apenas por distração. É uma obra que não desafia o leitor e que em pouco tempo pode se tornar irrelevante para sua trajetória leitora. Se existe a tal da literatura de entretenimento, esse é um livro que pode ser catalogado nessa seção. Um filme baseado nesse thriller já foi produzido e acredito que na mão de um bom diretor pode se tornar maior que o livro.