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Um mês depois erigiu-se um jazigo de pedra sobre a sepultura da morta. Sobre a do cocheiro ainda não havia nenhuma campa, apenas uma relva verde-clara brotava do montículo de terra, único vestígio de um homem que havia passado pela existência.
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Havia tanto sofrimento no mundo que sua parte talvez fosse lançar baldes de tinta em telas acinzentadas, embalar causos, enfeitar o mundo pela voz de um avô que senta-se numa fogueira e, como quem não quer nada, diz aos netos: - vou contar uma história para vocês.
Antiquário, assim como as demais obras de Igor Tavares, explora diferentes formas de contar uma história com um pé na realidade e outro no fantástico, um pé no afeto e outro na indignação, um pé no certo e um pé no errado. É uma mesa posta, um altar de possibilidades onde você pode rezar pela razão que bem desejar.
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A sua dor se dava por saber que não estava louco. Que os outros é que estavam ensandecidos, que o mundo inteiro estava desvairado, de cabeça para baixo, e ele não.
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O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia (Editora Rocco, 2021) é um livro que reúne uma coletânea de contos originais de diversos escritores e escritoras que giram em torno da pandemia causada pela Covid 19. As histórias se passam naqueles primeiros meses em que as cidades começaram a implantar lockdown e as ruas se tornaram desertas. Todos os contos foram selecionados pelos editores da New York Times Magazine, que embarcaram na ideia a partir de uma proposta da romancista Rivka Galchende de fazer um novo "decamerão" inspirado na obra de Giovanni Boccaccio, um clássico da literatura, escrito entre 1348 e 1353.
No Decamerão escrito na Idade Média um grupo de jovens se afasta das cidades que foram atingidas pela epidemia da peste negra, doença que matou mais de 25 milhões de pessoas e se refugiam em uma casa de campo como uma forma de se protegerem da doença. Lá instalados os jovens criam sua própria dinâmica de convivência e entre as atividades está a troca, o compartilhamento de histórias. A obra foi considerada um marco para o período da Idade Média pela forma como explorou as vivências humanas. Diante do medo da morte é como se as lembranças aflorassem de forma ainda mais vivaz, portanto ao invés de trocarem histórias especificamente sobre morte, sofrimento, angústia, os jovens embarcam em uma jornada cheia de histórias que exploram também o humor, a ironia, o improvável, a sensualidade, o sexo e o anticlericalismo.
No Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia deparamos com a mesma ideia. Os editores da New York Times Magazine propuseram o mesmo tipo de imersão e a resposta dos escritores e escritoras foi muito parecida com as dos personagens do antigo Decamerão. Escolheram falar sobre a pandemia sem falar sobre a pandemia. Acontecem algumas menções ao período e boa parte das histórias se passa no tempo e espaço do isolamento social, mas os autores jogam vivência particulares e reveladoras em com desse cenário. O Projeto Decamerão é quase que uma declaração de vida diante da eminência da morte.
O livro conta com autores desconhecidos do grande público e também com nomes como Margaret Atwood, Tommy Orange, Mia Couto, o brasileiro Julián Fuks, Colm Tóibín e o vencedor do National Book Award 2020 Charles Yu. Os contos são muito bem escritos e cada um deles nos leva para reflexões diferentes tendo o comportamento humano como âncora. O livro confirma nosso susto, incredulidade e impotência diante de um vírus desconhecido que mata e se torna um registro importante desse momento histórico que vivemos. "Quando a realidade é surreal, só a ficção pode lidar com ela."
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Verás que tudo é mentira do Mário Baggio (Editora Coralina, 2020) é um livro de contos onde o autor explora mais uma vez as realidades, o fantástico, o maravilhoso, o assustador, o surpreendente e o comportamento humano em narrativas curtas e dilacerantes. Na escrita de Mário, encontramos uma dedicação sobre o olhar, a percepção da vida, das pessoas e dos acontecimentos sob outra ótica. O fantástico trabalha como lupa para tratar da realidade e é essa ampliação dos fatos através da ficção o mais fascinante em sua obra. Nos contos percebemos a mentira como protagonista e a mesma não é explorada apenas em seu caráter pejorativo, da mentira como problema, como inverdade, como pecado, mas também como estratégia de sobrevivência, manutenção das boas relações, escudo contra as dores e como algo inerente ao ser humano enquanto ser narrativo independente de suas intenções.
Claro que aquela sirigaita da Heleninha não era perfeita. Não era o anjo que as freiras diziam que era. Grande coisa que era a mais bonita que nós, as outras, as coitadas, como a madre superiora gostava de falar. A Heleninha não, não era uma coitada, tinha uma beleza marmórea semelhante à dos querubins e por isso era sempre colocada na frente - na fila do pátio, na sala de aula, no refeitório, na hora de canta o hino. As freiras até paravam de respirar quando ela passava perto. É feita de porcelana, diziam.Os cachos do querubim eram de um amarelo irreal, perfeito, e estava sempre com o uniforme impecável, sem nenhum amassadinho. Seus sapatos, então, eram como um espelho de tão reluzentes. Se nós, as coitadas, nos colocássemos muito perto dela na fila, podíamos ver o nosso rosto refletido no couro imaculado de seus calçados. Isso nos dava arrepios, parecia coisa de bruxa.Na aula, quando a professora não estava olhando, a angelical criatura metia suas unhas rosadas e redondas no braço de quem estivesse perto e, segundo ela, atrapalhando sua concentração - como alguém pode ter unhas assim, tão perfeitas? Se a vítima soltasse um gritinho e a professora se virasse, o querubim sorria com doçura, fingindo copiar a lição da lousa. A verdade é que tínhamos medo dela e do seu jeito dissimulado. Uma atriz, sem dúvida. Poderia ser uma artista de muito sucesso no futuro, se chegasse a ter um futuro. Não teve.A boneca de pele de alabastro morreu anteontem e nenhuma de nós fingiu pesar porque tínhamos certeza de que não era um anjo. Se fosse, teria que voar quando a colocamos descalça e sozinha no parapeito do sexto andar e demos um empurrãozinho de leve. Não voou. Azar dela.
No conto acima e em muitos dos outros presentes no livro, podemos perceber esses elementos onde verdade e mentira são manipuladas a bel prazer das personagens e em prol de uma narrativa edificante, de uma justificativa, do ataque, da defesa e da manutenção das aparências. Em outros as personagens são vítimas de uma mentira que parece não ter origem e ser uma regra de vida. Algo que adoro também na narrativa de Baggio é seu rompimento com o politicamente correto, o que confere uma maior liberdade para sua escrita. Quando se despe de medos e de travas sobre o que se pode ou não escrever, o autor se veste de possibilidades para devassar a existência e as relações.
Quando falamos de mentira, também falamos sobre verdade, assim como o imã que parece sempre atrair amor e ódio, vida e morte. E mentira e verdade nada mais são do que construções que vão ser influenciadas por diversos fatores e que se tornam impossíveis de serem enquadradas em uma regra. A escritora Marina Colasanti, em uma crônica recente que fala sobre "realidade", outra faceta da "verdade/mentira" nos diz brilhantemente que "a realidade é a miragem pela qual orientamos nossas vidas. A solidez inexistente. A rocha-nuvem." Mário Baggio nos deixa um recado muito parecido sobre a mentira. Ela está aí e faz parte do jogo da vida, as vezes pode ser mensurada, as vezes não, pode fazer tão mal quanto bem e a gente usa. Quem diz nunca mentir mente para si mesmo.
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Ecumênico de Igor Tavares (Edição do autor, 2021) é o quinto livro do autor que sempre disponibiliza suas obras gratuitamente na internet em formato digital. Igor também é o responsável pela diagramação e ilustração de seus livros. Em Ecumênico ele se debruça sobre os mais variados temas, mas que tem como norte a exploração de uma das facetas da nossa existência, a exaltação, a adoração das crenças. Entenda aqui a crença para muito além do universo religioso, pois em Ecumênico encontramos diversas formas de como a crença se apresenta em nossa vida em seu sentido de busca de uma verdade ou na eterna necessidade ou possibilidade de que algo exista, de que algo aconteça, de que algo se manifeste, de que algo seja tomado de posse, de que algo ajude a provar que estamos vivos.
Durante toda a leitura do livro fiquei me perguntando qual seria a minha crença. A cada conto lido somos instigados a fazer essa análise íntima de quais são os objetivos e desejos que se tornaram nossas crenças. Uma outra reflexão muito forte que a leitura me trouxe foi sobre a linha tênue que separa uma crença da obsessão, que separa uma crença dos preceitos éticos que a sociedade nos apresenta. O ser humano, quando colocado diante da real possibilidade de alcançar de alguma forma o foco de sua crença, pode facilmente abrir mão de escrúpulos, pois o que ocupa esse lugar em nossa mente alcança um status de convicção. Não é atoa que o autor dedica essa obra "aos conflitos dentro e fora."
Para além dessa brincadeira literária de explorar a crença para além da religião, Igor consegue conceber um discurso que ilustra o caráter ecumênico do que é o desejo humano e como eles estão por aí, jogados no mundo, se esbarrando, se entrelaçando e se concretizando ainda que por vias completamente diferentes. O título do livro é muito claro ao propor uma reflexão sobre o processo de busca de uma união para além das diferenças, algo que só será possível ao percebermos que "a única coisa maior que o nosso ego é a nossa irrelevância."
Ecumênico também possui algumas características, que como leitor de todas as obras de Igor, me arrisco a dizer que estão presentes de alguma forma em todas elas. O autor utiliza muito de ironia, de um olhar sobre o absurdo, como também para a fantasia. Tudo isso agarrado a uma necessidade de expor de alguma forma, mesmo que "literariamente" sua indignação com as incongruências e hipocrisias da sociedade e do mundo. Podemos ler muito sobre as impressões pessoais do autor, a visão de mundo de um jovem que "iria para um bairro legal, com casas e padarias e gente na rua", mas que também "está farto de Deuses."
Leia gratuitamente: https://cutt.ly/ecumenico
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Onde estivestes de noite da Clarice Lispector (Editora Rocco, 1999) é um livro que reúne diversos contos da autora em uma linguagem que muitas vezes se assemelham às crônicas. Em "Onde estivestes de noite" encontramos mais uma vez a Clarice fazendo um uso cirúrgico do trabalho de escrita, mas aliado à exploração de sentimentos, reflexões e olhares que ultrapassam qualquer regra. Ela utiliza o suporte da palavra e da literatura com todas as possibilidades para falar de coisas tão íntimas, tão efêmeras e do fundo dos poros, que somente a literatura daria conta de representar.
Em "Onde estivestes de noite" também encontramos um humor, uma ironia, uma forma mais divertida de embarcar nas reflexões já conhecidas da autora. Existem personagens com características que não chegam a beirar a caricatura, mas que representam a personificação dos sentimentos e das temáticas que Clarice pretende discutir. Como no conto "A procura de uma dignidade", onde a Sra. Jorge B. Xavier se vê diante de uma busca hilária e labiríntica onde ela mal parece o que procurar.
A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como encontrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro.
E a Sra. Jorge vai seguindo por labirintos, a procura de algo onde o que parece importar é mais a jornada, o chegar, do que o objetivo em si. É um conto gostoso de ler, com ótimas sacadas e um ritmo que vai conduzindo o leitor para as demais histórias do livro, que por vezes se tornam bem psicodélicas.
No conto "A partida do trem" que é o meu preferido do livro, vemos a construção de uma narrativa brilhante que explora os pensamentos de duas mulheres, a jovem Angela Pralini e a já idosa Dona Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo. Elas não se conhecem, mas se sentam frente a frente, ambas a caminho de uma viagem que mudará o rumo de suas vidas. Enquanto a jovem foge de um amor tóxico, a senhora segue a caminho de uma vida de cuidados na casa de um filho, destino final de quem tem a idade muito avançada.
As duas trocam poucas palavras, mas se analisam muito. Clarice constrói todo o conto explorando as reflexões de ambas, tanto em relação de uma pra outra, quanto da própria vida e dos motivos que as colocaram naquele trem. O conto vira um conflito de gerações e ao mesmo tempo mostra que certas questões são universais, independente do tempo. O texto faz reflexões interessantes sobre a velhice, sobre a solidão, sobre a condição da mulher principalmente em relação ao amor e o afeto familiar.
Dona Maria Rita pensava: depois de velha começara a desaparecer para os outros, só a viam de relance. Velhice: momento supremo.
Clarice pega o cotidiano, a dita banalidade e o dia a dia nas mãos e aperta até a essência sair entre os dedos. Impossível ler Clarice sem transcender, sem acessar uma outra ordem, sem exercitar um novo olhar. "Onde estivestes de noite" pede por imersão e mais do que isso, que o leitor esteja aberto a captar as nuances da vida e a enxergar o que se esconde atrás do improvável.
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Soteropolitanos (Edição do autor, 2020) é uma antologia de contos de escritoras e escritores da Bahia. O livro conta com a organização do Matheus Peleteiro que também é baiano e assina um dos contos. Além desse projeto, Matheus é autor de seis livros que transitam pelos gêneros do romance, conto e poesia. Peleteiro já publicou em parceria com editoras e também possui publicações lançadas de forma independente, como é o caso de Soteropolitanos que chega com participação de outros 27 escritores. Matheus Peleteiro chama atenção pela qualidade de seu trabalho literário e pela sua atuação em prol da democratização do acesso à leitura no que diz respeito à escrita onde "Soteropolitanos" representa mas um capítulo com seu chamado de vozes consagradas e iniciantes da Bahia para exaltar a literatura enquanto expressão criativa. Publicar de forma independente no Brasil é uma maneira de se posicionar contra uma realidade onde poucos falam e de mostrar a força da nossa literatura que floresce apesar da falta de incentivo e de políticas públicas de leitura.
Preparava a minha coletânea de contos oriundos de histórias baseadas em relatos de acontecimentos que escutei pela cidade de Salvador, até então planejada para ser um dia publicada sob o título "Soteropolitanos", quando fui acometido pela ideia de que, por mais que aquelas histórias tivessem sido vivenciadas por sujeitos reais, algo de maior simbolismo urgia para carregar tal denominação.
Foi assim que Matheus resolveu colocar outros autores na roda de forma a construir uma obra que carregasse mais vozes e que pudesse contribuir com a criação de mais um espaço de divulgação da literatura contemporânea da Bahia. Peleteiro salienta em seu texto de apresentação a impossibilidade de representar as inúmeras vozes que formam o cenário literário da Bahia, mas que essa é uma inciativa que ajuda a demonstrar a vastidão das narrativas e a diversidade de olhares dessas produções. Esse olhar para o próprio local de origem é algo interessante, pois ao mesmo tempo que abraça os seus faz um movimento de romper barreiras levando essas histórias para outros lugares.
Através de contos curtos e profundos os autores apresentam uma diversidade de temas. Encontramos histórias sobre encontros e desencontros amorosos, afetividade, sexo, diversidade sexual, solidão, pandemia, violência, saúde mental, desigualdade social, perdas, religião, relação com a cidade, morte, entre outros. Mesmo aqueles contos que nos levam a caminhar por caminhos reais da famosa cidade de Salvador, optam por não nos levar a lugares comuns e ideias pré-concebidas do que é a Bahia ou do que é ser baiano, mostrando que existe uma infinidade de maneiras de ser, estar e viver em uma certa localidade.
Em um dos contos intitulado "Só o amor une pessoas especiais" escrito pelo Edgard Abbehusen temos uma história que inicia dizendo: "Se Ana soubesse que, ao sair de casa, naquele dia, daria de cara com seu grande amor, capricharia mais no look". E Ana se encontra com um amor romântico em um conto que é também um amor pela cidade. Um amor sem filtros que consegue olhar para as mazelas que assolam as ruas - "negro, numa cidade de maioria negra, mas construída para brancos, maquiada para turistas, repleta de desafios e preconceitos."
A diversidade sexual aparece em mais de um conto como no "Contorno" de Jaisy Cardoso que relata o desalento da perda de um amor. Um rapaz assiste a partida do homem da sua vida sem poder fazer nada e por estar amarrado por uma das correntes que sustentam a homofobia. "Os anos se passaram e eu sabia que Leo era o amor da minha vida, mesmo me negando o direito de gritar isso ao mundo". E foi em Contorno que também descobri que lá em Salvador existe uma Avenida Contorno como aqui em Belo Horizonte.
No conto "O sal da Terra" o Breno Fernandes transcreve de forma criativa e muito divertida uma conversa de telefone com um objetivo muito justo. Foi um conto que me fez rir pela forma realista que retrata uma conversa informal entre duas pessoa íntimas, relatando um episódio banal do ambiente de trabalho e que revela muito sobre nossas ações quando em grupo, quando confrontados, quando diante de nossas superstições.
Em "A Falta" do Matheus Peleteiro as vivências de uma mulher em situação de rua são apresentadas de forma chocante e realista. É um conto que consegue nos fazer questionar sobre esse sistema que permite a existência de pessoas que simplesmente não tem onde morar e como essas pessoas precisam encontrar as próprias artimanhas para poderem continuar vivas. "É um negócio esquisito, mas quem vive em situação de rua sabe que é preciso incentivar a piedade alheia para não dormir de barriga vazia."
Essa fuga dos estereótipos e dos clichês sobre a Bahia, esses fortes posicionamentos sobre a realidade, elevam a qualidade das narrativas e nos apresenta a autores com intenções que vão mais para a entrega e a confissão de uma criação literária genuína e muitas vezes confessional do que para lugares comuns e que poderiam ser considerados mais palatáveis ou vendáveis. Sentimos um gostinho do que os soteropolitanos tem a nos mostrar e ficamos com sede de mais. Na obra os paralelepípedos do Pelourinho e tantos outros locais conhecidos e desconhecidos de Salvador são apenas passarelas onde desfilam personagens reais que verdadeiramente são o alicerce da Soterópolis.
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Com certeza tenho amor da Marina Colasanti (Editora Global, 2009) é um livro de contos de fadas onde é possível experimentar as narrativas da escritora nesse gênero fantástico que diferente do que propaga o senso comum, é um tipo de livro que não possui faixa etária definida. As histórias tratadas versam sobre diversas questões em relação a vida, a existência e a morte de forma metafórica e que se conectará com cada leitor de uma maneira diferente. Marina possui uma grande produção dentro desse gênero literário e suas histórias transitam entre o fantástico e o real utilizando dos elementos mais clássicos que os contos maravilhosos podem oferecer.
Nas histórias de "Com certeza tenho amor" visitamos castelos, vilas, florestas e vemos aflorar sentimentos de amor, amizade, ódio que culminam nas mais diferentes experiências que tanto podem unir personagens, como podem retratar a grande fome de quem anseia pelo poder, como podem tratar da questão das mulheres, como podem caminhar por campos de batalhas e verter sangue.
Ninguém sai impune após a leitura de um livro de contos de fadas, pois eles tem o poder de em diferentes níveis, nos colocar diante de um raio x de nossas próprias vivências e sentimentos. Eles nos colocam diante da beleza, como muitas pessoas esperam, principalmente quando o público alvo são as crianças, mas também nos colocam diante da tristeza, da dor, da morte e dos diversos obstáculos que também possuem sua beleza, uma vez que são partes indissociáveis da experiência humana e que também precisam fazer parte do universo das crianças. Os contos de fadas são um importante instrumento de formação da personalidade.
Em um dos contos chamado "A morte e o rei" e que é um dos meus preferidos acompanhamos diálogos entre um monarca e a morte que durante a narrativa é chamada por vários nomes. A morte chega para cumprir seu papel de levar o rei para o reino dos mortos e esse usa de diversas estratégias para barganhar com a morte e adiar a partida. Enquanto o rei acredita estar prestes a vencer "a temível" aos poucos o conto vai nos mostrando que ninguém engana a morte e que cada passo dado por ela é sempre para chegar em um mesmo destino, ainda que alguns atalhos sejam tomados. É um conto que através da metáfora, do fantástico e de uma narrativa muito envolvente nos diz sobre a certeza da morte e sobre a necessidade de vivermos tudo aquilo que temos para viver, pois a vida é uma viagem única.
Em "São os cabelos das mulheres" Marina nos apresenta a uma narrativa que para quem tem olhos de ver será uma imersão pela condição feminina e como as mulheres sempre tiveram que lidar com o sentimento de culpa. Para manutenção dessa ideia vale tudo, inclusive incorporar preceitos e ideias antigas de uma sociedade que mudou, mas onde essa mudança obedece à conveniência das situações.
Naquela aldeia de montanha perdida entre neblinas, a chuva havia começado há mais tempo do que era possível lembrar. Só água vinha do céu, em fios tão cerrados que as nuvens pareciam cerzidas ao chão. As plantações haviam-se transformado em charcos, as roupas já não secavam junto aos fogos fumacentos, e pouco ou nada restava para comer.
Reuniram-se os velhos sábios em busca de uma resposta, e longamente deliberaram estudando as antigas tradições.
- São os cabelos das mulheres - disseram por fim. E obedecendo aos pergaminhos, ordenaram que fossem cortados.
Com certeza tenho amor é uma ótima indicação para quem gosta de contos de fadas e também pode ser uma porta de entrada para conhecer a obra da escritora Marina Colasanti. Seus contos possuem muitas camadas e uma densidade que nos convida a olhar para a vida com olhos mais poéticos e também mais críticos, entendendo que a reflexão, a apreciação das artes e as narrativas podem nos levar a lugares até então inimagináveis.
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Um amigo para sempre de Marina Colasanti (Editora FTD, 2017) é um livro que trás um conto inspirado em uma história real. Narra o encontro entre um preso político e um passarinho que o visita em seu horário de banho de sol. O preso político é o escritor José Luandino Vieira. Nascido em Portugal no ano de 1935, foi bem jovem para Luanda (Angola) onde trabalhava a escrita da língua portuguesa através do quimbundo. Seu trabalho literário caminhava de mãos dadas com o político, portanto, durante a ditadura que assolou os países africanos colonizados por Portugal, acabou condenado à prisão e foi onde produziu grande parte de seu trabalho literário. O próprio Luandino contou para Marina Colasanti sobre seu encontro com um pequeno pardal em ocasião de uma vez que estiveram juntos em Cuba. Marina transformou esse episódio de anseio de afeto e liberdade em um belo conto para todas as idades.
A história narra de forma muito poética o passar dos dias e a presença constante da rotina de quando se está recluso e poucas coisas possuem o poder de diferenciar os dias. O homem preso só tem a oportunidade de sentir ar puro e de experimentar o sol em breves períodos por dia, quando sai para o pátio do prédio onde está preso. Ele caminha para um lugar que chama de jardim pelo simples fato de encontrar algumas flores. O nome jardim serve como uma forma de minimizar a ideia de carcere. Nesses momentos, geralmente sua companhia era a leitura, mas algo começa a mudar quando ele percebe ao longe a presença de um passarinho.
O homem passa a tentar chamar atenção do passarinho, que é um pardal, utilizando de pequenas migalhas do pão que sempre levava consigo para o pátio. Como possuía paciência e tempo de sobra, o homem começa um processo lento de conquista do passarinho. Dispunha migalhas no chão e se afastava para que o pequeno pássaro se sentisse seguro e os dias foram se passando nessa dança em busca da confiança do pequeno pássaro.
Agora, além de esperar ansioso pelo momento de tomar seu banho de sol, Luandino aguardava pelo momento de rever aquela pequena presença que acabou lhe dando mais um propósito de viver os dias, mais uma distração, uma possibilidade de diálogo e uma experimentação de algo que voa e que representa um sentimento e uma busca de liberdade.
Essa era a forma que tinham de conversar. E para o homem, que não falava com ninguém, era uma longa conversa. Um dia, recuou um passo a menos. O passarinho hesitou, mas veio. Percebendo que tinha feito uma conquista, o homem deu tempo para que o seu pequeno amigo se acostumasse.
Além da escrita sempre genial de Marina Colasanti o livro conta com ilustrações certeiras de Guazzelli. As imagens criadas conseguem nos transportar para dentro de paisagens hora claustrofóbicas, hora voltadas para uma amplidão, brincando com essa dualidade existente entre o estar preso e o estar livre para voar.
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O trovador Ubaldo Capadócio tinha estampa, arrebatava corações. Caboclo alto e garboso, um galalau, cabeleira esgrouvinhada, riso fácil, conversa de salão salpicada de ditos engraçados e palavras de dicionário, mal chegava, logo a roda de prosa se estabelecia. Na vastidão dos sertões da Bahia e de Sergipe onde habitualmente exercia deveres, cuidados e alegrias, era figura popular e requisitada. Vinham buscá-lo de longe para animar batizados, casamentos, velórios: não havia igual num brinde aos noivos, melhor contador de casos numa vigília, capaz de fazer o próprio defunto rir e chorar.
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