Escafandrista do Louraidan Larsen

Escafandrista do roteirista e escritor Louraidan Larsen (2020) é um livro composto por pequenos textos que passeiam pelas características do conto e da crônica e nos faz mergulhar em histórias aparentemente comuns, mas que guardam em sua essência algumas reflexões sobre o que é ser e estar no mundo. Às vezes, levantamos o olhar para ver as estrelas, mas não percebemos o extraordinário e as diversas histórias que acontecem nas esquinas. Louraidan nos convida a olhar para o lado e brincando com a rotina, apresenta um livro que transforma o dia a dia em uma narrativa envolvente. O projeto gráfico feito pelo Estúdio Lampejo é impecável. Possui prefácio da cartunista Laerte Coutinho e ilustrações do Fernando Poletti.


Livros, músicas e demais expressões artísticas que dedicam um olhar atento ao considerado comum, simples ou banal sempre me chamam bastante atenção. Acho muito mais difícil demonstrar a beleza ou o extraordinário daquilo que desfila diante de nós o tempo todo e que, portanto, se torna invisível, do que a exaltação daquilo que é incomum ou fora da curva, onde a narração da sua própria imprevisibilidade já dita o tom.

Existe uma crônica da escritora Marina Colasanti, chamada “Pelo menos, por hoje” onde ela faz um exercício interessante de percepção daquilo que é comum. O texto em questão parte da rotina e da previsibilidade até de como organizamos os dias e as semanas, um após o outro, demonstrando que nem mesmo isso nos afasta do imprevisto que pode ocorrer no intervalo de segunda a segunda. O texto de Louraidan me remeteu a esse mesmo tipo de olhar atento ao que acontece desde que acordamos até a hora que fechamos os olhos para dormir novamente.

Lendo a obra de Louraidan é impossível não revisitarmos a nossa própria memória entre um conto e outro. Seja por identificação com alguma história similar que já tenha acontecido com a gente (ou que tenhamos presenciado), seja pelo simples fato de lembrarmos de algo que também daria um conto. A narrativa de Louraidan acontece na rua, no elevador, na padaria, no ônibus, no supermercado e até mesmo quando ela vai parar lá em Havana, é o mistério do cotidiano e o que se desenrola a nossa volta que continua no radar. Cada um dos espaços, são vistos pelos olhos curiosos de um escritor e sabemos que um escritor quando procura (e até mesmo quando não) acha.



Um outro ponto de identificação com a obra, principalmente para quem vive em Belo Horizonte, é que a cidade também acaba se tornando personagem nos textos. Louraidan passa por ruas e outros lugares muito familiares aos belorizontinos. Conseguimos perceber facilmente a dinâmica de como a cidade funciona.

A rua no centrão de Belo Horizonte estava cheia. A calçada, com muita gente vendendo, oferecendo coisas. Enquanto eu passava, percebi uma moça distribuindo folhetos. Como eu estava muito apressado, não consegui pegar nenhum. Logo entrei no local onde vou uma vez por mês para colocar crédito no meu cartão de ônibus.


O livro é dividido em três grandes atos intitulados “Conversas com pessoas desconhecidas”, “Histórias que ouço nas ruas” e “As surpresas da vida”. Assim como o olhar atento, a oralidade também exerce uma função fundamental na obra, pois ajuda a desenhar um panorama com diversas vozes, realidades e personagens que vivem a vida das mais diversas maneiras em uma narrativa que preza pelo respeito ao indivíduo e foge do juízo de valor.


O diabo e outras histórias de Liev Tolstói

O diabo e outras histórias do Liev Tolstói (Companhia das Letras, 2020) é um livro que reúne cinco contos escritos entre 1858 e 1904 e considero um bom ponto de partida para quem quer conhecer a obra do escritor e até mesmo começar a ler literatura russa. Os contos “Três mortes”, “Kholstómer”, “O diabo”, “Falso cupom” e “Depois do baile” apresentam um bom compilado dos ingredientes utilizados nas narrativas de Tolstói contista e romancista.



No primeiro conto chamado “Três mortes”, o meu preferido do livro, Tolstói narra literalmente três mortes diferentes: uma senhora da aristocracia russa, um camponês russo, também chamado de mujique e de uma árvore. De forma genial o autor demonstra que por mais que a morte seja aquilo que no fim iguala a todos nós, os procedimentos, os ritos, as cerimônias e até mesmo a importância que se dá a cada morte também obedece a convenções e condições sociais.

Enquanto uma senhora da aristocracia viaja de carruagem rumo a um impossível tratamento para sua enfermidade na Itália, cercada de empregados e um médico para garantir seu conforto, o mujique jazia no chão, lidando com as piores dores e aguardando pelos últimos suspiros de vida.

Um mês depois erigiu-se um jazigo de pedra sobre a sepultura da morta. Sobre a do cocheiro ainda não havia nenhuma campa, apenas uma relva verde-clara brotava do montículo de terra, único vestígio de um homem que havia passado pela existência.

No segundo conto chamado “Kholstómer” Tolstói narra a história de um cavalo que era de puro sangue mas acabou nascendo com o pelo malhado. Essa característica, que acabou por diferenciá-lo dos demais cavalos daquela linhagem passa então a moldar toda a sua trajetória de vida, uma vez que o pelo malhado passa a ser visto como um defeito. Um ponto de vista narrativo que a primeira vista parece meio insano se transforma em um conto muito bem construído e que serve de alegoria para muitas questões sociais.

Em “O diabo” nos deparamos com a história de um homem rico, administrador de fazenda que acaba se envolvendo com uma camponesa como um artifício para satisfazer seus desejos sexuais, sendo que todo o foco de sua vida está no trabalho. O homem acaba posteriormente se casando com uma outra mulher e com o tempo ele passa a lutar contra o desejo de continuar se encontrando com a mulher e a manutenção de sua fidelidade no casamento. É um conto onde responsabilidade e desejo se chocam e o final é bem inesperado. A história possui dois finais e muitos dizem que ele é um tanto quanto autobiográfico.

Em “Falso cupom” diversas histórias se entrelaçam tendo como ponto de congruência a emissão de um falso cupom que equivalia na época a dinheiro, ou até mesmo um cheque ou uma carta de crédito. É um conto que nos leva a refletir bastante sobre o ciclo da corrupção, sobre relações de poder, sobre justiça e injustiça. A história nos mostra como nossas ações, nas maiorias das vezes, não se manifestam apenas no âmbito individual. Nossas ações podem reverberar e contribuir com verdadeiras tragédias.

“Depois do baile” o último conto do livro, narra a história de um rapaz que se vê diante de uma paixão avassaladora. É mais um conto onde Tolstói insere a influência da sociedade, do meio em que vivemos para analisar ações e consequências. É uma história de amor que esconde análise social, política, decadência da aristocracia e análise do eu e das nossas vontades.

Todos os contos desta edição foram traduzidos diretamente do russo, então podemos perceber um cuidado com o texto e também com a diagramação da obra. “O diabo e outras histórias” é mais um exemplo da mestria da literatura russa em criar grandes cenários, em explorar nuances da sociedade e existência humana.


Antiquário do Igor Tavares

Antiquário do Igor Tavares (Esqueça Edições, 2021) é um livro que reúne seis contos que giram em torno de objetos. O autor coloca em cima da mesa uma arandela, um punhado de moedas, uma cruz, uma taça, uma caixa de sapatos, um peso de porta e na mística mais fascinante que essa palavra possa representar o autor parte da observação, da nossa relação com coisas animadas e inanimadas para colocar em prática o simples e rebuscado ato de contar histórias.



É muito comum tentarmos nomear tudo que está a nossa volta. Isso nos dá uma sensação de entendimento das coisas, de controle da situação, de alívio perante o desconhecido e as vezes até a falsa ideia de que sabemos o que estamos fazendo. O interessante das narrativas de Antiquário é que Igor Tavares consegue virar essa lógica um pouco do avesso. Ele pega seis objetos que já sabemos bem o que são, o que significam e para que servem para inseri-los dentro da incompreensão, para dar uma outra função.

A arandela não está aqui para iluminar, as moedas não aparecem como esquema de troca, a cruz não vem com status de conexão com o sagrado, a taça não é apenas um repositório de bebida, a caixa de sapatos não guarda calçado dentro e o peso de porta elevou sua função a um outro grau. Cada um dos objetos que dão nomes aos contos do livro se desconfiguram de sua função e sua forma para virar metáfora de coisas fundantes. A partir da primeira página do primeiro conto não interessa qual é a funcionalidade de cada objeto, mas sim como ele se insere no cotidiano das personagens como um elemento constituinte do exercício de viver.

Objetos não são nada desconectados de pessoas e de vivências e essa realidade se apresenta no livro ao fazer uma conexão entre pessoas e a manutenção de uma memória que também é afetiva. Ao colocar cada um dos objetos do livro como ponto de partida das memórias o autor faz ao mesmo tempo uma homenagem a um dos elementos que nos humaniza: as histórias. Um bom contador de história busca um ponto de partida para embarcar numa viagem que pode ser tão densa como o próprio pensamento e quando história, escrita e memória se encontram ficamos diante da própria vida em movimento. 

Havia tanto sofrimento no mundo que sua parte talvez fosse lançar baldes de tinta em telas acinzentadas, embalar causos, enfeitar o mundo pela voz de um avô que senta-se numa fogueira e, como quem não quer nada, diz aos netos: - vou contar uma história para vocês.

Antiquário, assim como as demais obras de Igor Tavares, explora diferentes formas de contar uma história com um pé na realidade e outro no fantástico, um pé no afeto e outro na indignação, um pé no certo e um pé no errado. É uma mesa posta, um altar de possibilidades onde você pode rezar pela razão que bem desejar. 


Nauseado de Matheus Peleteiro

Nauseado do Matheus Peleteiro (Selo Faça Ocê Mesmo, 2021) é um livro que reúne 21 contos e nos apresenta a um catálogo de náuseas ao tratar de temas como nossa relação com o planeta, bullying, manipulação, sexualidade, internet, corrupção, literatura, música e outros assuntos. A ânsia que precede a náusea e a náusea que precede o vômito vai se mostrando até mesmo em lugares que a gente não gostaria que estivessem e nos levando a uma reflexão de que até mesmo a boa vontade pode ter sua chave virada para servir a outros propósitos. Matheus é perspicaz ao fazer um retrato do Brasil atual com uma sensação de náusea que as vezes nem chega a ser dor, mas que sempre será uma reação, uma resposta, um sintoma.



A sua dor se dava por saber que não estava louco. Que os outros é que estavam ensandecidos, que o mundo inteiro estava desvairado, de cabeça para baixo, e ele não.


O que é que te causa náusea? O que é que te deixa com um nível de desconforto impossível de ignorar? Em cada um dos contos revisitamos náuseas particulares, experimentamos náuseas alheias e descobrimos algumas novas que passam a ser nossas também. Aquilo que nos causa náusea é particular e pelo olhar curioso e sarcástico de Matheus Peleteiro vamos investigando, juntos, cada forte desconforto e mal-estar na região da boca do estômago que se manifesta a cada página, a cada história. Os desconfortos são reações a vivências antigas e atuais que nos permeiam enquanto sociedade, aquelas das quais não aprendemos a falar sobre e, portanto, não chegamos perto do possível prognóstico.

Matheus fala sobre uma sociedade que quer a todo custo evitar o vômito, mas que não entende que o tratamento da náusea depende do que está causando o sintoma. Os contos revelam diversas facetas de uma sociedade doente por não entender a própria identidade, que quer se dar bem apesar de tudo e de todos, que quer amar sem refletir sobre o que é amor, que quer transar sem saber que sexo é troca, que quer ser respeitada sem doar respeito a cada pessoa que passa por sua história.

O autor vai aplicando suas provocações como quem administra um remédio e sem se preocupar com a dosagem. Peleteiro parte do grandioso ao colocar nas mãos de uma mulher o poder de exterminar a humanidade no conto intitulado “A Alavanca” até a exploração do ego das intenções artísticas no conto chamado “Os Sete pecados literários”. Em “Até o último coach” sua crítica à sociedade do empreendedorismo e do "trabalhe enquanto eles dormem" se transfigura em um serial killer de coachs, além de reflexões interessantes que esbarram na forma como usamos e vendemos nossa imagem na internet hoje.

A prosa de Matheus é questionadora e convida para conversar. Faz um chamamento para um movimento diferente do que a internet e seus algoritmos fazem hoje aos nos verem apenas como consumidores em potencial. O autor olha para a sociedade como um organismo vivo, particular e dividido que clama por uma salvação que não sabem de onde virá, como virá e que cara tem, e por isso acreditam que possa vir pelas mãos de quem fala mais alto.


Estórias tétricas de Hugo Tavares

Estórias Tétricas do Hugo Tavares (Editora Trevo, 2020) é um livro que nos apresenta pequenas e fortes narrativas sobre como a violência se manifesta em nosso cotidiano. Uma violência que pode acontecer simplesmente pelo acaso e outras tantas, onde nos colocamos como arquitetos da mesma. Um diferencial que chama atenção na obra do escritor paraense H. Tavares é que podemos dizer que "Estórias Tétricas" se trata de um livro de histórias policiais, mas o que confere a característica "policial" embarca em um viés um pouco mais profundo que o mistério e a investigação. "Estórias Tétricas" aborda, por meio do texto literário, o quanto andamos sempre de mãos dadas com a violência e o que podemos definir como sua carga social.


O livro foi mais uma grata surpresa. Cada vez mais fico entusiasmado com o que vem sendo produzido pelos jovens escritores brasileiros. É animador perceber o quanto a nossa literatura contemporânea segue forte, sem medo de apostar nas temáticas e experimentando no que diz respeito às formas de se trabalhar com as narrativas e as palavras. Hugo Tavares aposta em uma escrita rápida, nua e crua que diz o que se propõe a dizer sem deixar de abrir brecha ao que é da conta do leitor: o direito de ler e interpretar conforme suas próprias vivências.

O título do livro é um grande indicador do tipo de leitura que iremos embarcar. Se formos buscar, literalmente, o significado de 'tétrico' no dicionário veremos que ele nos diz que tétrico é: 1. muito triste, fúnebre/ 2. que causa horror; horrível, medonho. Os onze contos do livro caminham exatamente por esse caminho, apostando em uma escrita que é medonha por apresentar manifestações da violência que geram sangue e morte, mas também aquelas que afetam a mente e a forma com que os personagens passam a viver após uma vida muito próxima do que há de mais violento na natureza humana.

A figura do policial, aquele sujeito que dedica a vida ao combate ao crime e a violência e que as vezes se torna o próprio executor desses atos, é apresentado de uma forma nua e crua e, portanto, muito humana. Temos aquele policial que acredita no que faz e que repete sempre para si o mantra da importância de se "atuar dentro da lei" e aquele que após tanta proximidade com a maldade resolve fazer justiça com as próprias mãos ou usar a justiça como uma forma de manutenção do poder.

Em alguns dos contos, que inclusive foram os meus preferidos, acontece um flerte com a literatura fantástica. Enquanto os contos mais realistas exploram a realidade crua das ruas e da realidade, criando uma aura de cigarro, cerveja, violência e corrupção, os fantásticos nos colocam de forma muito sutil atrás de uma cortina de fumaça cheia de insinuações abertas à interpretação.

As histórias ambientadas em Belém do Pará são fortemente marcadas por esse posicionamento geográfico, então podemos perceber muito de Brasil, mas também de algo que é muito regional em histórias que poderiam estar nas manchetes de grandes jornais como também na boca do povo.

Vamos da violência doméstica ao crime urbano em histórias que vemos as pessoas experimentando situações limite e até de vida e morte. Algumas passagens são pesadas e duras e outras apostam em um humor ácido. O tempo todo vamos nos perguntando qual é o limite entre a humanidade e a selvageria, assim como aquilo que nos faz humanos ou seres tomados da urgência de sobreviver custe o que custar.



O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia

 O Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia (Editora Rocco, 2021) é um livro que reúne uma coletânea de contos originais de diversos escritores e escritoras que giram em torno da pandemia causada pela Covid 19. As histórias se passam naqueles primeiros meses em que as cidades começaram a implantar lockdown e as ruas se tornaram desertas. Todos os contos foram selecionados pelos editores da New York Times Magazine, que embarcaram na ideia a partir de uma proposta da romancista Rivka Galchende de fazer um novo "decamerão" inspirado na obra de Giovanni Boccaccio, um clássico da literatura, escrito entre 1348 e 1353. 


No Decamerão escrito na Idade Média um grupo de jovens se afasta das cidades que foram atingidas pela epidemia da peste negra, doença que matou mais de 25 milhões de pessoas e se refugiam em uma casa de campo como uma forma de se protegerem da doença. Lá instalados os jovens criam sua própria dinâmica de convivência e entre as atividades está a troca, o compartilhamento de histórias. A obra foi considerada um marco para o período da Idade Média pela forma como explorou as vivências humanas. Diante do medo da morte é como se as lembranças aflorassem de forma ainda mais vivaz, portanto ao invés de trocarem histórias especificamente sobre morte, sofrimento, angústia, os jovens embarcam em uma jornada cheia de histórias que exploram também o humor, a ironia, o improvável, a sensualidade, o sexo e o anticlericalismo. 


No Projeto Decamerão: 29 histórias da pandemia deparamos com a mesma ideia. Os editores da New York Times Magazine propuseram o mesmo tipo de imersão e a resposta dos escritores e escritoras foi muito parecida com as dos personagens do antigo Decamerão. Escolheram falar sobre a pandemia sem falar sobre a pandemia. Acontecem algumas menções ao período e boa parte das histórias se passa no tempo e espaço do isolamento social, mas os autores jogam vivência particulares e reveladoras em com desse cenário. O Projeto Decamerão é quase que uma declaração de vida diante da eminência da morte. 


O livro conta com autores desconhecidos do grande público e também com nomes como Margaret Atwood, Tommy Orange, Mia Couto, o brasileiro Julián Fuks, Colm Tóibín e o vencedor do National Book Award 2020 Charles Yu. Os contos são muito bem escritos e cada um deles nos leva para reflexões diferentes tendo o comportamento humano como âncora. O livro confirma nosso susto, incredulidade e impotência diante de um vírus desconhecido que mata e se torna um registro importante desse momento histórico que vivemos. "Quando a realidade é surreal, só a ficção pode lidar com ela." 

Verás que tudo é mentira de Mário Baggio

 Verás que tudo é mentira do Mário Baggio (Editora Coralina, 2020) é um livro de contos onde o autor explora mais uma vez as realidades, o fantástico, o maravilhoso, o assustador, o surpreendente e o comportamento humano em narrativas curtas e dilacerantes. Na escrita de Mário, encontramos uma dedicação sobre o olhar, a percepção da vida, das pessoas e dos acontecimentos sob outra ótica. O fantástico trabalha como lupa para tratar da realidade e é essa ampliação dos fatos através da ficção o mais fascinante em sua obra. Nos contos percebemos a mentira como protagonista e a mesma não é explorada apenas em seu caráter pejorativo, da mentira como problema, como inverdade, como pecado, mas também como estratégia de sobrevivência, manutenção das boas relações, escudo contra as dores e como algo inerente ao ser humano enquanto ser narrativo independente de suas intenções. 


Dostoiévski dizia que “a mentira é o único privilégio do homem sobre todos os animais” e acredito que a literatura é um dos principais instrumentos onde podemos fazer uso desse privilégio quase que impunemente. Mário utilizou de seu privilégio de escritor e escancarou as mentiras em seus mais diversos formatos. Lemos sobre uma mentira que mata, mas também sobre uma mentira que salva, assim como diversas provocações sobre as mentiras que engolimos desde cedo, por assim termos encontrado o mundo. Lemos sobre aquelas mentiras que sabemos muito bem o que são e que é mais fácil fingir serem verdades. Lemos sobre mentiras que realmente acreditamos nelas e nem por isso deixam de ser mentiras. Lemos sobre mentiras que são manifestações de ódio e também de amor. 

Tudo isso é trabalhado muito bem, textualmente falando. E imageticamente também. Mário Baggio narra com precisão em poucas linhas e faz com que a gente fique vários minutos olhando para o nada, com o livro pendendo sob os dedos a cada leitura. Nos conectamos com situações e momentos que são íntimos, que são engraçados, que são dolorosos, que são extremamente irônicos e que demonstram o tempo todo como somos um universo de beleza e barbárie, de verdades e mentiras. 

Heleninha

Claro que aquela sirigaita da Heleninha não era perfeita. Não era o anjo que as freiras diziam que era. Grande coisa que era a mais bonita que nós, as outras, as coitadas, como a madre superiora gostava de falar. A Heleninha não, não era uma coitada, tinha uma beleza marmórea semelhante à dos querubins e por isso era sempre colocada na frente - na fila do pátio, na sala de aula, no refeitório, na hora de canta o hino. As freiras até paravam de respirar quando ela passava perto. É feita de porcelana, diziam. 

Os cachos do querubim eram de um amarelo irreal, perfeito, e estava sempre com o uniforme impecável, sem nenhum amassadinho. Seus sapatos, então, eram como um espelho de tão reluzentes. Se nós, as coitadas, nos colocássemos muito perto dela na fila, podíamos ver o nosso rosto refletido no couro imaculado de seus calçados. Isso nos dava arrepios, parecia coisa de bruxa. 

Na aula, quando a professora não estava olhando, a angelical criatura metia suas unhas rosadas e redondas no braço de quem estivesse perto e, segundo ela, atrapalhando sua concentração - como alguém pode ter unhas assim, tão perfeitas? Se a vítima soltasse um gritinho e a professora se virasse, o querubim sorria com doçura, fingindo copiar a lição da lousa. A verdade é que tínhamos medo dela e do seu jeito dissimulado. Uma atriz, sem dúvida. Poderia ser uma artista de muito sucesso no futuro, se chegasse a ter um futuro. Não teve. 

A boneca de pele de alabastro morreu anteontem e nenhuma de nós fingiu pesar porque tínhamos certeza de que não era um anjo. Se fosse, teria que voar quando a colocamos descalça e sozinha no parapeito do sexto andar e demos um empurrãozinho de leve. Não voou. Azar dela. 


No conto acima e em muitos dos outros presentes no livro, podemos perceber esses elementos onde verdade e mentira são manipuladas a bel prazer das personagens e em prol de uma narrativa edificante, de uma justificativa, do ataque, da defesa e da manutenção das aparências. Em outros as personagens são vítimas de uma mentira que parece não ter origem e ser uma regra de vida. Algo que adoro também na narrativa de Baggio é seu rompimento com o politicamente correto, o que confere uma maior liberdade para sua escrita. Quando se despe de medos e de travas sobre o que se pode ou não escrever, o autor se veste de possibilidades para devassar a existência e as relações. 


Quando falamos de mentira, também falamos sobre verdade, assim como o imã que parece sempre atrair amor e ódio, vida e morte. E mentira e verdade nada mais são do que construções que vão ser influenciadas por diversos fatores e que se tornam impossíveis de serem enquadradas em uma regra. A escritora Marina Colasanti, em uma crônica recente que fala sobre "realidade", outra faceta da "verdade/mentira" nos diz brilhantemente que "a realidade é a miragem pela qual orientamos nossas vidas. A solidez inexistente. A rocha-nuvem." Mário Baggio nos deixa um recado muito parecido sobre a mentira. Ela está aí e faz parte do jogo da vida, as vezes pode ser mensurada, as vezes não, pode fazer tão mal quanto bem e a gente usa. Quem diz nunca mentir mente para si mesmo. 


Mário Baggio é jornalista, escritor e blogueiro. Mantém o blog homem de palavra, em que divulga sua produção literária. Para adquirir um exemplar de "Verás que tudo é mentira" é só acessar o site da Editora Coralina AQUI!

Ecumênico de Igor Tavares

 Ecumênico de Igor Tavares (Edição do autor, 2021) é o quinto livro do autor que sempre disponibiliza suas obras gratuitamente na internet em formato digital. Igor também é o responsável pela diagramação e ilustração de seus livros. Em Ecumênico ele se debruça sobre os mais variados temas, mas que tem como norte a exploração de uma das facetas da nossa existência, a exaltação, a adoração das crenças. Entenda aqui a crença para muito além do universo religioso, pois em Ecumênico encontramos diversas formas de como a crença se apresenta em nossa vida em seu sentido de busca de uma verdade ou na eterna necessidade ou possibilidade de que algo exista, de que algo aconteça, de que algo se manifeste, de que algo seja tomado de posse, de que algo ajude a provar que estamos vivos. 


Durante toda a leitura do livro fiquei me perguntando qual seria a minha crença. A cada conto lido somos instigados a fazer essa análise íntima de quais são os objetivos e desejos que se tornaram nossas crenças. Uma outra reflexão muito forte que a leitura me trouxe foi sobre a linha tênue que separa uma crença da obsessão, que separa uma crença dos preceitos éticos que a sociedade nos apresenta. O ser humano, quando colocado diante da real possibilidade de alcançar de alguma forma o foco de sua crença, pode facilmente abrir mão de escrúpulos, pois o que ocupa esse lugar em nossa mente alcança um status de convicção. Não é atoa que o autor dedica essa obra "aos conflitos dentro e fora."

Para além dessa brincadeira literária de explorar a crença para além da religião, Igor consegue conceber um discurso que ilustra o caráter ecumênico do que é o desejo humano e como eles estão por aí, jogados no mundo, se esbarrando, se entrelaçando e se concretizando ainda que por vias completamente diferentes. O título do livro é muito claro ao propor uma reflexão sobre o processo de busca de uma união para além das diferenças, algo que só será possível ao percebermos que "a única coisa maior que o nosso ego é a nossa irrelevância."


Ecumênico também possui algumas características, que como leitor de todas as obras de Igor, me arrisco a dizer que estão presentes de alguma forma em todas elas. O autor utiliza muito de ironia, de um olhar sobre o absurdo, como também para a fantasia. Tudo isso agarrado a uma necessidade de expor de alguma forma, mesmo que "literariamente" sua indignação com as incongruências e hipocrisias da sociedade e do mundo. Podemos ler muito sobre as impressões pessoais do autor, a visão de mundo de um jovem que "iria para um bairro legal, com casas e padarias e gente na rua", mas que também "está farto de Deuses."


Leia gratuitamente: https://cutt.ly/ecumenico

Onde estivestes de noite de Clarice Lispector

Onde estivestes de noite da Clarice Lispector (Editora Rocco, 1999) é um livro que reúne diversos contos da autora em uma linguagem que muitas vezes se assemelham às crônicas. Em "Onde estivestes de noite" encontramos mais uma vez a Clarice fazendo um uso cirúrgico do trabalho de escrita, mas aliado à exploração de sentimentos, reflexões e olhares que ultrapassam qualquer regra. Ela utiliza o suporte da palavra e da literatura com todas as possibilidades para falar de coisas tão íntimas, tão efêmeras e do fundo dos poros, que somente a literatura daria conta de representar. 


Em "Onde estivestes de noite" também encontramos um humor, uma ironia, uma forma mais divertida de embarcar nas reflexões já conhecidas da autora. Existem personagens com características que não chegam a beirar a caricatura, mas que representam a personificação dos sentimentos e das temáticas que Clarice pretende discutir. Como no conto "A procura de uma dignidade", onde a Sra. Jorge B. Xavier se vê diante de uma busca hilária e labiríntica onde ela mal parece o que procurar. 

A Sra. Jorge B. Xavier simplesmente não saberia dizer como encontrara. Por algum portão principal não fora. Pareceu-lhe vagamente sonhadora ter entrado por uma espécie de estreita abertura em meio a escombros de construção em obras, como se tivesse entrado de esguelha por um buraco feito só para ela. O fato é que quando viu já estava dentro. 

E a Sra. Jorge vai seguindo por labirintos, a procura de algo onde o que parece importar é mais a jornada, o chegar, do que o objetivo em si. É um conto gostoso de ler, com ótimas sacadas e um ritmo que vai conduzindo o leitor para as demais histórias do livro, que por vezes se tornam bem psicodélicas. 


No conto "A partida do trem" que é o meu preferido do livro, vemos a construção de uma narrativa brilhante que explora os pensamentos de duas mulheres, a jovem Angela Pralini e a já idosa Dona Maria Rita Alvarenga Chagas Souza Melo. Elas não se conhecem, mas se sentam frente a frente, ambas a caminho de uma viagem que mudará o rumo de suas vidas. Enquanto a jovem foge de um amor tóxico, a senhora segue a caminho de uma vida de cuidados na casa de um filho, destino final de quem tem a idade muito avançada. 


As duas trocam poucas palavras, mas se analisam muito. Clarice constrói todo o conto explorando as reflexões de ambas, tanto em relação de uma pra outra, quanto da própria vida e dos motivos que as colocaram naquele trem. O conto vira um conflito de gerações e ao mesmo tempo mostra que certas questões são universais, independente do tempo. O texto faz reflexões interessantes sobre a velhice, sobre a solidão, sobre a condição da mulher principalmente em relação ao amor e o afeto familiar.

Dona Maria Rita pensava: depois de velha começara a desaparecer para os outros, só a viam de relance. Velhice: momento supremo.

Clarice pega o cotidiano, a dita banalidade e o dia a dia nas mãos e aperta até a essência sair entre os dedos. Impossível ler Clarice sem transcender, sem acessar uma outra ordem, sem exercitar um novo olhar. "Onde estivestes de noite" pede por imersão e mais do que isso, que o leitor esteja aberto a captar as nuances da vida e a enxergar o que se esconde atrás do improvável. 

Soteropolitanos de Matheus Peleteiro

 Soteropolitanos (Edição do autor, 2020) é uma antologia de contos de escritoras e escritores da Bahia. O livro conta com a organização do Matheus Peleteiro que também é baiano e assina um dos contos. Além desse projeto, Matheus é autor de seis livros que transitam pelos gêneros do romance, conto e poesia. Peleteiro já publicou em parceria com editoras e também possui publicações lançadas de forma independente, como é o caso de Soteropolitanos que chega com participação de outros 27 escritores. Matheus Peleteiro chama atenção pela qualidade de seu trabalho literário e pela sua atuação em prol da democratização do acesso à leitura no que diz respeito à escrita onde "Soteropolitanos" representa mas um capítulo com seu chamado de vozes consagradas e iniciantes da Bahia para exaltar a literatura enquanto expressão criativa. Publicar de forma independente no Brasil é uma maneira de se posicionar contra uma realidade onde poucos falam e de mostrar a força da nossa literatura que floresce apesar da falta de incentivo e de políticas públicas de leitura. 


Preparava a minha coletânea de contos oriundos de histórias baseadas em relatos de acontecimentos que escutei pela cidade de Salvador, até então planejada para ser um dia publicada sob o título "Soteropolitanos", quando fui acometido pela ideia de que, por mais que aquelas histórias tivessem sido vivenciadas por sujeitos reais, algo de maior simbolismo urgia para carregar tal denominação.


Foi assim que Matheus resolveu colocar outros autores na roda de forma a construir uma obra que carregasse mais vozes e que pudesse contribuir com a criação de mais um espaço de divulgação da literatura contemporânea da Bahia.  Peleteiro salienta em seu texto de apresentação a impossibilidade de representar as inúmeras vozes que formam o cenário literário da Bahia, mas que essa é uma inciativa que ajuda a demonstrar a vastidão das narrativas e a diversidade de olhares dessas produções. Esse olhar para o próprio local de origem é algo interessante, pois ao mesmo tempo que abraça os seus faz um movimento de romper barreiras levando essas histórias para outros lugares.  


Através de contos curtos e profundos os autores apresentam uma diversidade de temas. Encontramos histórias sobre encontros e desencontros amorosos, afetividade, sexo, diversidade sexual, solidão, pandemia, violência, saúde mental, desigualdade social, perdas, religião, relação com a cidade, morte, entre outros. Mesmo aqueles contos que nos levam a caminhar por caminhos reais da famosa cidade de Salvador, optam por não nos levar a lugares comuns e ideias pré-concebidas do que é a Bahia ou do que é ser baiano, mostrando que existe uma infinidade de maneiras de ser, estar e viver em uma certa localidade. 


Em um dos contos intitulado "Só o amor une pessoas especiais" escrito pelo Edgard Abbehusen temos uma história que inicia dizendo: "Se Ana soubesse que, ao sair de casa, naquele dia, daria de cara com seu grande amor, capricharia mais no look". E Ana se encontra com um amor romântico em um conto que é também um amor pela cidade. Um amor sem filtros que consegue olhar para as mazelas que assolam as ruas - "negro, numa cidade de maioria negra, mas construída para brancos, maquiada para turistas, repleta de desafios e preconceitos."


A diversidade sexual aparece em mais de um conto como no "Contorno" de Jaisy Cardoso que relata o desalento da perda de um amor. Um rapaz assiste a partida do homem da sua vida sem poder fazer nada e por estar amarrado por uma das correntes que sustentam a homofobia. "Os anos se passaram e eu sabia que Leo era o amor da minha vida, mesmo me negando o direito de gritar isso ao mundo". E foi em Contorno que também descobri que lá em Salvador existe uma Avenida Contorno como aqui em Belo Horizonte. 


No conto "O sal da Terra" o Breno Fernandes transcreve de forma criativa e muito divertida uma conversa de telefone com um objetivo muito justo. Foi um conto que me fez rir pela forma realista que retrata uma conversa informal entre duas pessoa íntimas, relatando um episódio banal do ambiente de trabalho e que revela muito sobre nossas ações quando em grupo, quando confrontados, quando diante de nossas superstições. 


Em "A Falta" do Matheus Peleteiro as vivências de uma mulher em situação de rua são apresentadas de forma chocante e realista. É um conto que consegue nos fazer questionar sobre esse sistema que permite a existência de pessoas que simplesmente não tem onde morar e como essas pessoas precisam encontrar as próprias artimanhas para poderem continuar vivas. "É um negócio esquisito, mas quem vive em situação de rua sabe que é preciso incentivar a piedade alheia para não dormir de barriga vazia." 


Essa fuga dos estereótipos e dos clichês sobre a Bahia, esses fortes posicionamentos sobre a realidade, elevam a qualidade das narrativas e nos apresenta a autores com intenções que vão mais para a entrega e a confissão de uma criação literária genuína e muitas vezes confessional do que para lugares comuns e que poderiam ser considerados mais palatáveis ou vendáveis. Sentimos um gostinho do que os soteropolitanos tem a nos mostrar e ficamos com sede de mais. Na obra os paralelepípedos do Pelourinho e tantos outros locais conhecidos e desconhecidos de Salvador são apenas passarelas onde desfilam personagens reais que verdadeiramente são o alicerce da Soterópolis.




Do seu coração partido de Marina Colasanti

Do seu coração partido da escritora Marina Colasanti (Editora Global , 2009) leva os leitores para mais uma viagem por um universo fantástico através dos elementos clássicos dos contos de fadas. É um livro que se torna mais um exemplo da potência dos contos de fadas  de nos colocar diante de sentimentos e sensações muito íntimas através de histórias míticas. 



São doze contos com uma densidade que pede ao leitor uma leitura atenta para alcançar todas as nuances propostas pela autora e para se conectar com o que irá emergir da experiência individual de leitura. Do se coração partido conversa com a gente. 

Nos contos fantásticos da Marina nada aparece em vão. Cada personagem, cada situação, cada virada de arco das historias, e até mesmo a construção das frases fazem parte de uma estrutura muito bem pensada. O "era uma vez" nem sempre aparece materializado em palavras e existe mais dentro do clima de era uma vez que Marina aprendeu a evocar através de seus anos de experiência dentro do gênero.

Os aspectos mágicos dos contos bebem das narrativas milenares, utiliza de metáforas e arquétipos para nos fazer pensar sobre cultura, sociedade, relacionamentos, violência, amor, desamor, liberdade, ódio, entre outros temas universais.

Mais uma vez Marina nos entrega seu olhar sobre os próprios contos com ilustrações que também são de sua autoria utilizando da técnica de gravura em metal.





Com certeza tenho amor de Marina Colasanti

 Com certeza tenho amor da Marina Colasanti (Editora Global, 2009) é um livro de contos de fadas onde é possível experimentar as narrativas da escritora nesse gênero fantástico que diferente do que propaga o senso comum, é um tipo de livro que não possui faixa etária definida. As histórias tratadas versam sobre diversas questões em relação a vida, a existência e a morte de forma metafórica e que se conectará com cada leitor de uma maneira diferente. Marina possui uma grande produção dentro desse gênero literário e suas histórias transitam entre o fantástico e o real utilizando dos elementos mais clássicos que os contos maravilhosos podem oferecer. 


Nas histórias de "Com certeza tenho amor" visitamos castelos, vilas, florestas e vemos aflorar sentimentos de amor, amizade, ódio que culminam nas mais diferentes experiências que tanto podem unir personagens, como podem retratar a grande fome de quem anseia pelo poder, como podem tratar da questão das mulheres, como podem caminhar por campos de batalhas e verter sangue. 


Ninguém sai impune após a leitura de um livro de contos de fadas, pois eles tem o poder de em diferentes níveis, nos colocar diante de um raio x de nossas próprias vivências e sentimentos. Eles nos colocam diante da beleza, como muitas pessoas esperam, principalmente quando o público alvo são as crianças, mas também nos colocam diante da tristeza, da dor, da morte e dos diversos obstáculos que também possuem sua beleza, uma vez que são partes indissociáveis da experiência humana e que também precisam fazer parte do universo das crianças. Os contos de fadas são um importante instrumento de formação da personalidade. 


Em um dos contos chamado "A morte e o rei" e que é um dos meus preferidos acompanhamos diálogos entre um monarca e a morte que durante a narrativa é chamada por vários nomes. A morte chega para cumprir seu papel de levar o rei para o reino dos mortos e esse usa de diversas estratégias para barganhar com a morte e adiar a partida. Enquanto o rei acredita estar prestes a vencer "a temível" aos poucos o conto vai nos mostrando que ninguém engana a morte e que cada passo dado por ela é sempre para chegar em um mesmo destino, ainda que alguns atalhos sejam tomados. É um conto que através da metáfora, do fantástico e de uma narrativa muito envolvente nos diz sobre a certeza da morte e sobre a necessidade de vivermos tudo aquilo que temos para viver, pois a vida é uma viagem única. 


Em "São os cabelos das mulheres" Marina nos apresenta a uma narrativa que para quem tem olhos de ver será uma imersão pela condição feminina e como as mulheres sempre tiveram que lidar com o sentimento de culpa. Para manutenção dessa ideia vale tudo, inclusive incorporar preceitos e ideias antigas de uma sociedade que mudou, mas onde essa mudança obedece à conveniência das situações.  


Naquela aldeia de montanha perdida entre neblinas, a chuva havia começado há mais tempo do que era possível lembrar. Só água vinha do céu, em fios tão cerrados que as nuvens pareciam cerzidas ao chão. As plantações haviam-se transformado em charcos, as roupas já não secavam junto aos fogos fumacentos, e pouco ou nada restava para comer. 

Reuniram-se os velhos sábios em busca de uma resposta, e longamente deliberaram  estudando as antigas tradições. 

- São os cabelos das mulheres - disseram por fim. E obedecendo aos pergaminhos, ordenaram que fossem cortados. 


 Marina Colasanti além de escritora, possui formação em artes plásticas e alguns de seus livros recebem suas ilustrações, que na maioria das vezes são feitas através da técnica de gravura em metal.



Com certeza tenho amor é uma ótima indicação para quem gosta de contos de fadas e também pode ser uma porta de entrada para conhecer a obra da escritora Marina Colasanti. Seus contos possuem muitas camadas e uma densidade que nos convida a olhar para a vida com olhos mais poéticos e também mais críticos, entendendo que a reflexão, a apreciação das artes e as narrativas podem nos levar a lugares até então inimagináveis. 

Um amigo para sempre de Marina Colasanti

 Um amigo para sempre de Marina Colasanti (Editora FTD, 2017) é um livro que trás um conto inspirado em uma história real. Narra o encontro entre um preso político e um passarinho que o visita em seu horário de banho de sol. O preso político é o escritor José Luandino Vieira. Nascido em Portugal no ano de 1935, foi bem jovem para Luanda (Angola) onde trabalhava a escrita da língua portuguesa através do quimbundo. Seu trabalho literário caminhava de mãos dadas com o político, portanto, durante a ditadura que assolou os países africanos colonizados por Portugal, acabou condenado à prisão e foi onde produziu grande parte de seu trabalho literário. O próprio Luandino contou para Marina Colasanti sobre seu encontro com um pequeno pardal em ocasião de uma vez que estiveram juntos em Cuba. Marina transformou esse episódio de anseio de afeto e liberdade em um belo conto para todas as idades. 


A história narra de forma muito poética o passar dos dias e a presença constante da rotina de quando se está recluso e poucas coisas possuem o poder de diferenciar os dias. O homem preso só tem a oportunidade de sentir ar puro e de experimentar o sol em breves períodos por dia, quando sai para o pátio do prédio onde está preso. Ele caminha para um lugar que chama de jardim pelo simples fato de encontrar algumas flores. O nome jardim serve como uma forma de minimizar a ideia de carcere. Nesses momentos, geralmente sua companhia era a leitura, mas algo começa a mudar quando ele percebe ao longe a presença de um passarinho. 


O homem passa a tentar chamar atenção do passarinho, que é um pardal, utilizando de pequenas migalhas do pão que sempre levava consigo para o pátio. Como possuía paciência e tempo de sobra, o homem começa um processo lento de conquista do passarinho. Dispunha migalhas no chão e se afastava para que o pequeno pássaro se sentisse seguro e os dias foram se passando nessa dança em busca da confiança do pequeno pássaro.


Agora, além de esperar ansioso pelo momento de tomar seu banho de sol, Luandino aguardava pelo momento de rever aquela pequena presença que acabou lhe dando mais um propósito de viver os dias, mais uma distração, uma possibilidade de diálogo e uma experimentação de algo que voa e que representa  um sentimento e uma busca de liberdade. 


Essa era a forma que tinham de conversar. E para o homem, que não falava com ninguém, era uma longa conversa. Um dia, recuou um passo a menos. O passarinho hesitou, mas veio. Percebendo que tinha feito uma conquista, o homem deu tempo para que o seu pequeno amigo se acostumasse. 


 Cada encontro era mais um passo dado na construção da amizade entre o homem e o passarinho. A notícia sobre esse ritual acabou chegando aos outros presos que passaram a acompanhar a missão de Luandino de dentro de suas celas, através de suas pequenas janelas. Todos queriam de alguma forma fazer parte daquela história que trazia esperança de dias melhores e momentos de esquecimento sobre a situação em que estavam. A missão de Luandino era fazer com que o passarinho comesse em sua mão.

 

Além da escrita sempre genial de Marina Colasanti o livro conta com ilustrações certeiras de Guazzelli. As imagens criadas conseguem nos transportar para dentro de paisagens hora claustrofóbicas, hora voltadas para uma amplidão, brincando com essa dualidade existente entre o estar preso e o estar livre para voar. 



O milagre dos pássaros contado por Jorge Amado

O milagre dos pássaros contado por Jorge Amado (Editora Record, 1997) é uma história bem curta, mas que nos remete ao encantado universo da literatura fantástica genuinamente brasileira. Quando pensamos em fantasia em nossa literatura, é impossível não lembrar logo de Jorge Amado. O autor consegue extrair da nossa cultura, do nosso povo, dos nossos costumes e principais figuras os elementos para criação de histórias surpreendentes e de pés descalços. Quando digo dos pés descalços, me refiro a uma produção que olha para o céu, mas que se conecta com o que há de mais nacional, de mais brasileiro, que nos remete a pontos de origem e que nos faz rir e chorar de emoção, que consegue nos aproximar por identificação.


A edição do livro é bem especial. Consegue ser simples e ao mesmo tempo rebuscada, exatamente como o universo do conto pede. O formato do livro foi pensado de forma a quase caber na palma da mão, e é todo encapado em tecido de vermelho bem vibrante. O livro é acompanhado de uma capinha também de tecido e vermelha que além de ajudar a preservar o exemplar, também lhe dá aspecto de presente, de algo a ser posto em canto especial.

No conto iremos encontrar personagens fascinantes e que nos fazem ficar presos na narrativa. Toda a história gira em torno de Ubaldo Capadócio, um literato de cordel que viaja de cidade em cidade, de Estado em Estado para vender sua poesia e poder sustentar suas três esposas ilegítimas e seus nove filhos.

O trovador Ubaldo Capadócio tinha estampa, arrebatava corações. Caboclo alto e garboso, um galalau, cabeleira esgrouvinhada, riso fácil, conversa de salão salpicada de ditos engraçados e palavras de dicionário, mal chegava, logo a roda de prosa se estabelecia. Na vastidão dos sertões da Bahia e de Sergipe onde habitualmente exercia deveres, cuidados e alegrias, era figura popular e requisitada. Vinham buscá-lo de longe para animar batizados, casamentos, velórios: não havia igual num brinde aos noivos, melhor contador de casos numa vigília, capaz de fazer o próprio defunto rir e chorar. 

E o milagre a que esse conto se refere se deu na cidade de Piranhas, às margens do Rio São Francisco em Alagoas. O famoso Capadócio se vê as voltas com mais uma sedução, só que dessa vez de mulher alheia e que vai colocá-lo numa situação de vida e morte. A pequena cidade de Piranhas inteira acompanha o fato, e cada uns dos personagens que aparece são dignos de nota, pois é onde encontramos boa parte das delícias e fantasias da história. São personagens ao mesmo tempo tão fantásticos e tão comuns em nossas pequenas cidades brasileiras. 

Na cidade de Piranhas reside Jarde Ramalho, coronel que se vangloria de ter lutado contra o bando de Lampião. Heloísa Ramos, que parece achar que ser viúva é profissão. O nosso herói Ubaldo Capadócio, que sustenta três famílias com proventos dos folhetos de cordel, da harmônica e da viola, com a voz rouquenha e as rimas de poesia. Ubaldo inventa de se meter, literalmente, com Sabô, mulher de Lindolfo Ezequiel, capitão com reputação de valentia e crueldade. Dizem que matou centenas de pessoas pelos motivos mais torpes. Sabô é narrada como a única pessoa da localidade a não ter respeito pela patente do marido, faz dele gato e sapato. Encontraremos também o Mestre Calazans Neto e Florisvaldo Matos, famosos por terem presenciado o momento em que o defunto Aristóbulo Negritude dera uma gargalhada por conta de uma história engraçada em seu próprio enterro. Além de figuras como Carybé, pintor e mentiroso inveterado.

Em pouco mais de trinta páginas Jorge Amado nos apresenta sem pressa a todas essas figuras. Nós leitores, saímos maravilhados e querendo saber mais sobre todas essas pessoas e de boca aberta com o tal do milagre dos pássaros, mais um acontecimento que fará parte do imaginário e das histórias do povo de Piranhas. O milagre dos pássaros é a transformação de uma história oral em narrativa escrita pelas mãos e imaginário eficientes de Amado que ajuda a alçar ao posto merecido mais uma grande história da tradição popular do sertão nordestino.






Furta - cor de Igor Tavares

Furta - cor de Igor Tavares (edição do autor, 2020) é um livro composto por oito contos ilustrados pelo autor que exploram a realidade, o dia a dia, a rotina e as relações sob um olhar que se permite perceber também o fantástico, o espanto, as barbaridades por trás de atos, escolhas e formas de viver.


O título do livro não poderia representar melhor o fio que conduz todas as histórias. Cada uma delas se debruça de formas diferentes na exploração das nuances que existem para além do que está sendo narrado, numa  eterna pergunta se a banalidade existe.

E se formos pensar que o conceito da expressão furta - cor diz exatamente sobre "as cores cambiantes, as tonalidades alteradas conforme a luz se projeta sobre elas" podemos dizer que a escrita de Igor apresenta o conto e nos sugere que as vezes, o que vemos superficialmente, é apenas uma fração das cores que compõe um todo. Fica a cargo de nós, leitores, captar as furta - cores possíveis e que vão de encontro a nossas vivências ou visão de mundo.

O vilarejo de Raphael Montes

O vilarejo de Raphael Montes (Editora Suma, 2015) é um livro que inspira a leitura de um fôlego só. É tão envolvente, bem escrito e bem estruturado que a gente não consegue largar. Raphael consegue fazer muito em poucas páginas e o resultado é um livro de contos para ser lido, relido, dividido com amigos e uma ótima opção para clubes e rodas de leitura. Os sete contos presentes na obra se referem a sete nomes de demônios, que de forma arguta nos leva a assistir a derrocada de um vilarejo e seus habitantes em história de terror e suspense da melhor qualidade.



Além da escrita que é muito fluida, um outro êxito do livro é a sua temática. Em "O vilarejo" você não encontrará um terror barato, pois o que Raphael Montes construiu ali, foi uma aventura muito bem pensada e cheia de links que vão nos surpreendendo a cada conto. São links com histórias clássicas, mas também com uma nova forma de experimentar uma narrativa e de utilizar do próprio livro e sua estrutura como elementos importantes para contar as histórias. "O vilarejo" já começa a tomar forma no prefácio, onde o próprio escritor se torna uma personagem e acontece um arremate dos contos no posfácio. Dos poucos livros que li por e-book, esse é um que funciona muito bem nessa outra ferramenta, justamente por sua estrutura. 

Como dito antes, cada conto faz relação com um demônio e cada demônio representa um pecado capital, sendo assim, cada história irá se debruçar sobre as consequências dos próprios atos das personagens. Sempre que pensamos em demônios nas diversas histórias, já mentalizamos uma figura monstruosa, de grandes chifres, soltando fogo e ódio pelas ventas. A escolha criativa desse livro foi mostrar que cada demônio mora em cada tomada de decisão que muitas vezes sabemos erradas mas que são encorajadas por outros interesses ou necessidades humanas.

As coisas de Tobias Carvalho

As coisas de Tobias Carvalho (Editora Record, 2019) é o livro de estreia do autor e de cara foi vencedor do prêmio Sesc de Literatura de 2018. É gratificante ter acesso a uma obra como essa por diversos motivos, sendo alguns deles a percepção que através de muita resistência, novos autores estão sendo publicados e pelo fato de "As coisas" ser um livro que abraça a diversidade ao narrar histórias vividas por uma personagem gay de forma a contribuir com a representatividade no meio editorial. As vivências amorosas, sexuais, familiares e profissionais de um homem gay são contadas sem medo de demarcar nossa existência explorando aquilo que temos de comum e de peculiar ao fazer parte da comunidade LGBTQIA+. "As coisas" é um convite para ler com orgulho.



O Tobias Carvalho é de Porto Alegre, cursa Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e já participou de oficinas literárias. Ele chega nesse livro de estreia com uma grande potência ao nos apresentar uma literatura forte, realista e comprometida em contar histórias ainda negligenciadas pela nossa literatura.

Livros que se propõe a contar as histórias das ditas minorias, ainda são vistos como nichos dentro do mercado. Felizmente essa é uma realidade que vem mudando, porque a sociedade está em transição e aqueles a quem essas histórias se referem estão ocupando seus legítimos lugares de escritores das próprias narrativas, de donos de suas próprias histórias e dispostos a diminuir um enorme abismo criado pelos diversos tipos de preconceitos que assolam a sociedade.

Solitários de Miller Britto

Solitários de Miller Britto (Edição do autor, 2019) é um livro de apenas um conto que explora elementos interessantes para introduzir o leitor em uma trama que trata de temas como solidão, depressão, relações sociais, entre outros, que fazem parte dos segredos que vão sendo apresentados ao longo das páginas. Miller é um escritor mineiro, mais especificamente de Nova Lima, e como a própria descrição do autor em seu livro diz "se rendeu de vez à tarefa de sobreviver como autor independente em um país dominado pelas grandes editoras."


A solidão entra em jogo através da apresentação da protagonista da história. Márcia é uma mulher solitária, que está em um momento da vida onde não consegue enxergar novas perspectivas. Seu estado de isolamento se soma ao sentimento de não pertencimento e aumenta sua vulnerabilidade emocional.

Esse quadro, é claro, colabora para que a personagem apresente séries indícios de depressão que se refletem na forma como se sente como mulher, em uma grande insatisfação com o próprio corpo e nos cuidados com a própria saúde. Interfere na sua dedicação ao trabalho - que também é um dos motivos da desmotivação de Márcia que saiu de sua cidade a alguns anos para conseguir construir uma vida e carreira de sucesso.

Espantos para uso diário de Mário Baggio

Espantos para uso diário de Mário Baggio (Editora Coralina, 2019) é um livro de contos que convida o leitor a olhar. Acontece que para olhar é necessário ver e isso tem o seu preço. A escrita de Mário Baggio faz a gente se aproximar do dito banal e olhar a verdadeira natureza de alguns acontecimentos, de algumas circunstâncias, de algumas dores. É uma metáfora feroz sobre o modelo de sociedade que está posto visto por um raio-x. São espantos que você pode tomar de uma dose ou receber pequenas aplicações diárias.


Os contos são curtos e muito incisivos no que se propõe a explorar. Não faz rodeios para explicitar o absurdo e a violência que mora nas pequenas coisas, nos detalhes, nos atos corriqueiros, nas regras, no conceito de família, na ideia de progresso, no amor, na religião, no sexo, na condição da mulher, no desejo de vingança, no acostumar-se a ser ou estar, na morte e na vida.

Mário Baggio faz um jogo textual interessante em muitos dos contos ao escancarar dubiedades, ao chocar realidades e interpretações distintas. Um objeto que descreveria perfeitamente o universo do livro (além de uma radiografia) seria uma pilha. Sim, estou falando do dispositivo de produção de corrente elétrica com seu lado positivo e negativo. Um exemplo dessa relação que também pode ser interpretada como lado A e lado B é o incrível conto chamado "Invenções".

Na alcova: Três histórias licenciosas

Na alcova: Três histórias licenciosas foi publicado pela editora Companhia das Letras em 2001. Reúne três contos franceses clássicos que são "Cartas portuguesas" de Gabriel de Lavergne, visconde de Guilleragues. "O silfo" de Claude-Prosper Jolyot de Crébillon, dito Crébillon filho e "Por uma noite" de Dominique Vivant Denon.


O livro é uma delícia de ler, pois as três histórias representam mais de um século de ficção e são escritas com caractrísticas literárias distintas, apesar de se tratarem de um mesmo gênero - o conto.

No primeiro "Cartas portuguesas" temos acesso literalmente a cartas de uma mulher extremamente apaixonada e também extremamente magoada perante a ausência e o abandono de seu grande amor. São cartas que não poupam o teor de sofrimento e entrega e que consegue transmitir ao leitor toda a dor da remetente Mariana, uma mulher seduzida e abandonada em seu convento por um oficial francês.