Quando da Carla Madeira

Quando, da Carla Madeira (Editora Record, 2026) é um romance onde acompanhamos uma mãe vivendo um grande dilema. Após um acontecimento violento, ela se vê na obrigação de denunciar o próprio filho para a polícia. Enquanto lida com um misto de conformidade e culpa, a narrativa vai entregando aos poucos as condições do ato e nos apresentando a personagens interessantes que também foram atingidos pelo acontecido. Com uma escrita ágil e também poética, a autora nos leva a questionamentos sobre amor, família, criação e ética de uma maneira que já é bem peculiar da sua narrativa. Adentramos a casa de Viridiana, Margarida, Valquíria e Tito e assistimos às maneiras de sobrevivência que cada um definiu para si.


Ambientada no Brasil na década de 1980, a narrativa abandona qualquer maniqueísmo para explorar as marcas permanentes e as crises existenciais que nascem das escolhas, das tomadas de decisões, do peso da maternidade e da culpa. A autora costura temas densos como homofobia, violência estrutural e as contradições do afeto materno, usando como pano de fundo as tensões sociais da época.

O tempo é o grande condutor da história que a Carla Madeira nos apresenta neste livro, não só pela espera de uma mãe que está há duas décadas sem ver o filho, mas também pela palavra única que dá título à obra. O “quando” é quase que uma massa corpórea que acompanha cada uma das personagens do livro, pois ele se manifesta através da necessidade de tentarmos entender porque as coisas acontecem ou porque acontecem da forma que acontecem.

Quando levaram Tito, eu vivi uma tormenta, se tormenta for o nome da pior coisa que uma mãe pode sentir. Tento dissecar minha culpa lâmina a lâmina, sustentar minha certeza de que não havia outra coisa a fazer. Lá na hora, Val, quando o choque ainda me fazia tremer... eu só pensava em resolver... para grandes males, grandes remédios, como dizia seu avô... desistir de Tito não era uma opção, e eu... eu chamei a polícia, pensei que era assim que eu não desistia dele...
Viridiana, a mãe, se pergunta, quase sem proferir palavras quando foi que o destino de Tito fora selado? Qual foi o traço da sua criação que precisaria ter sido contido para que ele não chegasse a fazer o que fez? Quando foi que sua filha Margarida decidiu aceitar o tipo de casamento a que estava submetida a ponto de quase perder a sua subjetividade e enterrar seus desejos? Quando foi que Valquíria se tornou uma mulher aparentemente fria, mas que no fundo era a cuidadora de todos e a “abandonadora” de si mesma?

Na casa dessa família, Tito se torna um fantasma vivo, uma lembrança constante e também o gatilho para brigas tempestuosas. Nos vemos diante de uma casa rachada, mas que ainda assim luta para ficar de pé. É uma história onde cada personagem tem a dosagem exata de humanidade, com seus erros e acertos, que poderiam ser encontrados em qualquer esquina de qualquer bairro por aí. Em “Quando” não existem vilões e sim pessoas marcadas pela vida que foi possível construir.

Eu era uma mãe com raiva do sujeito covarde e cruel que pôs no mundo… eu estava com vergonha de ser a mãe de Tito, e por um instante eu queria mesmo que ele se danasse, e um instante, às vezes, é o suficiente.
Fazendo várias alternâncias de vozes narrativas, conseguimos construir a ordem dos fatos juntamente com os personagens e a cada vez que acessamos um outro lado, uma outra visão da mesma história, fica ainda mais forte a sensação de que não existe exatidão na vida quando se trata de amor, desejo, perda, luto e perdão.

Asterix: omnibus (vol.1) de René Goscinny e Albert Uderzo

Asterix: omnibus de René Goscinny e Albert Uderzo (Editora Record, 2024) é uma edição que compila os três primeiros capítulos da série de quadrinhos, sendo eles: Asterix: o gaulês, Asterix: a foice de ouro e Asterix e os godos. Os quadrinhos foram criados na França no ano de 1959, e foram um sucesso instantâneo. A história é ambientada na Gália (Bretanha), no ano 50 a.C. em um período dominado pelo Império Romano, mas existe uma pequena aldeia que resiste bravamente à ocupação romana e que possui um grande segredo que garante o sucesso da resistência.


Ainda hoje, a série é cultuada pelos amantes de HQ não só da França, mas em escala global. Seu primeiro volume “Asterix: o gaulês” é considerado um marco do gênero e foi a edição responsável por nos apresentar ao herói Asterix, seu amigo inseparável Obelix e o cachorrinho Ideafix.

Por conta de uma poção criada pelo druida Panoramix, o povo da tribo se torna praticamente invencível após tomá-la. Cada um dos integrantes da tribo passa a ter a força de dez homens e essa sobre força que garante a soberania da resistência. É com essa força que os gauleses aproveitam para humilhar as forças romanas que sempre saem escorraçados das batalhas.

Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor. E a vida não é nada fácil para as guarnições de legionários romanos nos campos fortificados de Babaorum, Aquarium, Landanum e Petibonum...


Poucas coisas me fazem gargalhar como as aventuras de Asterix e Obelix. É um dos quadrinhos mais divertidos que já li e é uma série que acompanho faz um tempo. Os criadores da HQ elevam o deboche, a ironia e a caricatura a um nível extraordinário. Não é fácil tirar humor de algo aparentemente simples e é isso que eles conseguem.

Apesar de ser uma sátira criada na França no ano de 1959, baseada no povo gaulês e nos tempos de dominação do Império Romano, suas provocações poderiam caber em diversos outros contextos. Com muito humor, eles escancaram toda a burrice dos "podres poderes" dos tiranos. César e sua horda são retratados como a própria encarnação da burrice e isso garante muitas gargalhadas durante a leitura.

O fascismo eterno do Umberto Eco

O fascismo eterno do Umberto Eco (Editora Record, 2018) foi originalmente um discurso proferido em uma conferência de um simpósio organizado pela Columbia University, em 25 de abril de 1995. No texto, o autor faz reflexões sobre como as garras do fascismo e do nazismo foram ganhando espaço na Europa e no mundo, sendo o termo “fascismo eterno” uma ilustração de como essa ideologia política autoritária perdeu grande parte de sua força, mas nunca mais saiu da espreita.


O Ur-fascismo, ou fascismo eterno, ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: 'Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!'. Infelizmente, a vida não é tão fácil assim! O Ur-fascismo pode voltar sob vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas - a cada dia, em cada lugar do mundo.

Como diria Bertold Brecht, "a cadela do fascismo está sempre no cio", e infelizmente, nos esquecemos disso. O avanço da extrema direita no mundo vem nos mostrando que a luta pelas democracias e pela dignidade humana não pode cochilar. Um político, com fortes tendências fascistas, acaba de se eleger em um dos países mais poderosos do mundo e no dia de sua posse o homem mais rico do mundo fez uma saudação nazista em comemoração e para todo mundo ver.

Mais do que nunca, precisamos relembrar o contexto histórico que permitiu a ascensão do fascismo e do nazismo no mundo, para assim evitar uma escalada de violência e a perseguição dos direitos fundamentais das minorias. O livro "O fascismo eterno", é uma obra importante, pois além de evocar a história para explicar conceitos e avaliar cenários, possui uma linguagem acessível.

Umberto Eco inicia a reflexão partindo de sua experiência pessoal, ainda como um jovem italiano imerso em uma sociedade regida por fascistas. Ele, assim como boa parte da população, repetiam discursos de cunho fascista que estavam sendo normalizados na época. Acontece que essa mesma sociedade não tinha a verdadeira dimensão da repressão que estava em voga. Eco fala de um período em que “liberdade ainda não significava libertação”. Em plena guerra, uma grande maioria da população nem ao menos sabia da existência de campos de concentração.

Nos meses seguintes, descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas europeu. Aprendi palavras novas e excitantes como ‘réseau’, ‘maquis’, ‘armée secrèt’, ‘rote kapelle’, ‘gueto de Varsóvia’. Vi as primeiras fotos do Holocausto e assim, antes mesmo de conhecer a palavra, conheci seu significado. Descobri que havíamos sido libertados.
De forma didática, Umberto Eco vai demonstrando como o termo “fascismo” pode se adaptar a diversos contextos e que mesmo eliminando um ou outro conceito básico que o define, ele continuará sendo chamado de “fascismo”. As formas como o fascismo age nos tempos de hoje, são completamente diferentes da forma como se desenhou na Itália de Mussolini para depois se espalhar por diversos países. Atualmente, por exemplo, estamos vendo os ideais fascistas fantasiados de liberdade de expressão.

Na sequência, o autor lista o que ele chama de características típicas do regime fascista, como culto à tradição, tradicionalismo aliado a recusa da modernidade, irracionalismo, não aceitação de críticas, sendo o desacordo considerado traição, utilização da frustração individual ou social, obsessão da conspiração, entre outros. Se olharmos com atenção para o modus operandi dos principais políticos de extrema direita do mundo, veremos essas mesmas estratégias se aflorando de formas diferentes.

O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso utilizando e exarcebando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.

Uma vida pequena de Hanya Yanagihara

Uma vida pequena da Hanya Yanagihara (Editora Record, 2024) finalista do Man Booker Prize e do National Book Award, além de candidato ao Pulitzer é um livro que divide opiniões e o motivo é bem compreensível. As questões sobre violência e saúde mental são tratadas de forma que podem soar como perturbadoras e traumatizantes. Na obra, acompanhamos a vida de quatro amigos que se conhecem na universidade e que vão construir uma relação que atravessará décadas. Willem, JB, Malcolm e Jude tem personalidades completamente diferentes, mas existem alguns fios que os ligam de forma intensa.


Um deles é uma quase materialização do amor incondicional. Outro é que são apoiadores e confidentes no que se refere às suas ambições profissionais e de vida. Paralelo a isso, existe um outro fio que os liga – e também a toda narrativa - que é a personalidade misteriosa de Jude St. Francis. Dos quatro, Jude é o amigo que menos se deixa conhecer e todos sabem que ele guarda para si uma dor tão grande que o impede de viver plenamente. Jude é um homem que vive com um trauma.

Podemos dizer que “Uma vida pequena” é também um romance de formação, pois vemos o amadurecimento dos quatro personagens desde a tenra idade. A história começa quando eles estão ali, pela faixa dos vinte anos, se descobrindo pelas ruas de Nova York, mas a narrativa viaja pelo tempo e aos poucos vai dando pistas sobre o passado de cada um deles, principalmente sobre o passado triste de Jude.

Mas estavam na era da realização, em que aceitar algo que não fosse sua primeira opção de vida parecia fraqueza, algo desprezível. Em algum ponto, aceitar o que parecia ser seu destino deixara de ser uma atitude digna e passara a ser sinal de covardia. Havia momentos em que a pressão para alcançar a felicidade era quase opressiva, como se a felicidade fosse algo que todos deviam e podiam conquistar, e que qualquer tipo de concessão na busca por ela fosse, de algum modo, culpa sua.
Nos primeiros capítulos, parece que estamos diante de um romance comum sobre a banalidade da vida, sobre aquele roteiro que recebemos ao nascer que é o próprio desenrolar da vida e suas obrigações. Mas à medida que a narrativa vai se cercando da timidez, do isolamento e do silêncio de Jude, vamos percebendo que acessaremos uma outra camada que é sobre sobrevivência.

Jude protege o seu passado a todo custo. Por mais que estabeleça uma relação bonita com seus amigos, existe um limite que nunca é ultrapassado. Ninguém sabe muito bem de onde Jude viera, quem eram seus pais ou o que aconteceu em sua infância e até nós mesmos, leitores, conhecemos a história de Jude conforme a vontade do narrador, que obedece a um fluxo de memória que as vezes cessa de forma repentina.

Jude sofre com uma dor nas pernas que se manifesta em momentos esporádicos. Quando suas crises de dor acontecem, é o único momento que demonstra alguma fragilidade e que revela um pouco de si, pois é uma dor que o paralisa. Jude diz aos amigos que essa dor é sequela de um acidente de carro que sofrera e não revela mais do que isso. Com o tempo, seus amigos deixam de fazer perguntas íntimas como uma forma de respeitar o que quer que tenha acontecido a ele, mas o silêncio de Jude acaba por chamar mais atenção do que ele mesmo deseja.

A forma como Hanya descreve o sofrimento de Jude, é um dos pontos que fez com que “Uma vida pequena” fosse tão comentado. O tema da saúde mental já é algo delicado e como a depressão de Jude alcança um nível onde ele começa a ter o hábito de se cortar para esvaziar a mente das aflições, os leitores se veem diante de descrições que são muito gráficas. Existe até uma discussão se a autora não exagerou ao descrever essas cenas, pois poderiam servir de estímulo para pessoas que se encontram na mesma situação.

O nível de tristeza que encontramos na obra, nitidamente é um projeto. Foi algo que a escritora construiu com a intenção de sensibilizar. As violências que Jude passa não são irreais, pois existem pessoas que experimentam ou experimentaram situações até mesmo piores que as descritas no livro. Quando lemos as violências soam, por vezes, como exageradas, e acredito que isso cause um choque.

Ainda que “Uma vida pequena” seja um livro difícil de ler, por conta de todos os gatilhos que pode promover em uma pessoa, creio que aqueles que conseguem ir até a última frase, não são movidos pela violência física e emocional que faz parte da obra, mas sim porque apesar de tudo, se trata de uma história de amor.

Como acompanhamos a jornada de Willem, JB, Malcolm e Jude ao longo de muitas décadas, acabamos estabelecendo uma aproximação com aqueles personagens. Passamos a entender melhor seus dilemas, suas dores e principalmente que eles se amam.

É muito bonita a forma como Hanya Yanagihara relata o amor e a amizade. Jude St. Francis é uma figura que serve quase como uma representação da dor, mas também como um exemplo da importância do afeto. Mesmo nos momentos em que está mais cego para o amor que seus amigos o dedicam, ele nunca é abandonado e vale ressaltar aqui, o amor e a proteção com que ele é tratado pelo Andy, médico que cuida dele durante toda a vida, e por Willem, personagem pelo qual o amor se apresenta em muitos níveis.

Nos últimos tempos, vinha pensando se a codependência seria assim, algo tão ruim. Sentia prazer em estar na presença dos amigos e aquilo não fazia mal a ninguém, então quem se importava se ele era codependente ou não? E, de qualquer forma, como uma amizade poderia ser mais codependente que um relacionamento a dois? Por que seria algo admirável quando você tinha vinte e sete anos, mas esquisito quando se tinha trinta e sete? Por que uma amizade não poderia ser tão boa quanto um namoro? Por que não poderia ser até melhor? Tratava-se de duas pessoas que permaneciam juntas, dia após dia, unidas não por sexo, atração física, dinheiro, filhos ou bens, mas apenas pela concordância em seguir em frente, numa dedicação mútua a uma união que não podia ser sistematizada.
No fim “Uma vida pequena” consegue a façanha de ser um livro que eu gostei, mas que não indicaria para qualquer pessoa. É um livro que mesmo quando indicado, isso precisa ser feito com algumas ressalvas. A partir da decisão de embarcar na leitura, é preciso estar preparado para imersão em uma obra que não tem qualquer intenção de nos poupar da violência física e psicológica, mas é também um belo exemplo de como uma salvação possível só pode existir no coletivo. “Uma vida pequena” é um livro sobre amor.

Vila Vermelho do Jeter Neves

Vila Vermelho do Jeter Neves (Editora Record, 2013) é um romance que conta a história de Caburé, um homem que após alcançar sucesso na vida, resolve fazer o trajeto de volta a Vila onde viveu. O retorno é físico e também um exercício de memória, onde ele nos apresenta não só a sua própria história, como também de uma Vila que abriga personagens simples e por isso complexos, que são um retrato do Brasil profundo e das questões sociais que moldam a nossa identidade.


Jeter Neves escreve de forma envolvente que mescla ironia, humor e linguagem poética dignas dos grandes nomes clássicos da literatura nacional. A narrativa é precisa, desenhada apenas daquilo que uma boa obra pede e que não se torna uma tarefa fácil quando boa parte do tema de exploração do livro está na rotina de uma vila bucólica, daquelas que os jovens abandonam quando querem “ser alguém na vida”. Segundo nosso narrador Caburé, Vila Vermelho era “um cu de Judas, o último lugar do planeta na mira de um míssil nuclear ou na rota de uma nave marciana”. Jeter consegue transformar a própria Vila Vermelho em um personagem inesquecível.

O “ser alguém na vida” é algo que move a narrativa de Vila Vermelho, pois o autor brinca exatamente com a ideia do que é ser um vencedor ou um perdedor na vida. Para tanto ele faz um passeio pelo nosso imaginário cultural que inicia em meados dos anos 50 até o tempo presente de Caburé. Jeter faz uma crítica a dita cultura do vencedor ao esmiuçar os lugares de onde vieram os nossos exemplos, os grandes heróis de uma geração que ainda precisa lidar com um acesso dificultado à informação.

Quando Caburé volta para Vila Vermelho, por conta de circunstâncias um pouco confusas, ele acaba se reencontrando com seu antigo professor, que agora está acamado, e começa a contar toda sua história de vida. É assim que nós vamos nos tornando íntimos da cidade de Vila Vermelho e de personagens apaixonantes. As trezentos e duas páginas de Vila Vermelho são necessárias para qualquer leitor se proclamar um habitante de Vila Vermelho.

Tié é o meu perdedor favorito, Professor, meu modelo supremo de fracasso. Os ianques têm um nome para isso: loser – perdedor, fracassado, fodido -, aprendi nos filmes deles.
Além de personagens divertidos e bem construídos como os gêmeos Tié e Taú, também desfilam pela história figuras como a cafetina Augustina, a menina Isadora, grande paixão da vida de Caburé, seu Giuseppe um apaixonado por livros, mas que odeia o cerceamento do pensamento gerado pelo currículo das escolas. Mas acredito que o personagem que realmente exerce uma revolução no pensamento de Caburé, e traz um vislumbre da vida para além da Vila, é o marinheiro Mário, que divide com Caburé suas impressões sobre a realidade através de cartões postais de cada lugar que visita.

A cada vinda, ele tinha mais e mais a cara do mundo lá fora. Até o cheiro mudou: de resina de lenha de fogão e de linguiça defumada de gente da Vila, ele ganhou cheiro de loja, pelo menos a imagem olfativa que eu tinha de loja.
A construção de Mário é um dos pontos altos da obra. Ele parte de Vila Vermelho cultuando a cultura americana, colocando o Tio Sam como modelo de desenvolvimento e civilidade, mas conforme vai conhecendo o mundo e tendo noção da dinâmica da exploração e da desigualdade, acaba se tornando uma luneta que mostra um mundo que Caburé tem resistência em enxergar. Em um dos postais enviados, Mário começa a enxergar um outro Brasil com um nível de crítica que até então não existia.

Belém do Pará, 10 de janeiro de 1956.

Caburé: O Amazonas é um mar. A floresta é um labirinto, estrada não existe, só se avança pelos rios. A terra dá de tudo: fruta, erva medicinal, peixe, caça e madeira. Se nosso país tem tanta riqueza, por que o povo vive nessa pindaíba? Riqueza e pobreza são carne e unha, aquela não vive sem esta. Precisamos descobrir o verdadeiro Brasil, marujo. Marinheiro Pompei...
Vila Vermelho é uma obra que pede imersão e ela vem naturalmente, pois somos conduzidos pelo relato sincero e saudoso de Caburé. Diante de seu relato é como se fossemos o silencioso professor que só faz escutar, e o fazemos com prazer. No desfilar de histórias trágicas, engraçadas, revolucionárias, libertadoras e românticas do povo de Vila Vermelho acabamos nos encontrando com nossa própria concepção trágica de heroísmo.

Vergonha da Brittainy C. Cherry

Vergonha da Brittainy C. Cherry (Editora Record, 2022) é um romance que focou em utilizar todos os clichês possíveis para contar uma história de amor. É recheado de reviravoltas, traições, descobertas, revoluções internas e questionamentos sobre formas de sobreviver depois de se quebrar emocionalmente. Grace e Jackson, os protagonistas, são como uma espécie de revisitação da história clássica da Bela e a Fera, em uma narrativa onde ambos precisam enfrentar as próprias dores e cicatrizes para encontrar alguma espécie de conforto. Brittainy usa e abusa dos temas universais e do embate entre família, religião e conservadorismo para prender a atenção dos leitores até a última página.


A capa do livro acaba por nos remeter a uma ideia de que estamos diante de um livro erótico, mas a verdade é que seria muito melhor se fosse. Por mais que a construção da personalidade e aparência de Jackson e Grace tenha tudo para que o livro embarcasse por esse caminho, a escritora não segue por aí e talvez a obra ganhasse mais força se tivesse uma ou outra descrição de sexo mais explícita. O que os leitores vão encontrar são dois personagens vivendo uma grande crise existencial até se encontrarem.

Grace é uma jovem que acabou de se separar do marido. Seu casamento entrou em ruína depois de um certo distanciamento do companheiro e de um processo depressivo originado pelos vários abortos que vivenciou. Mesmo estando a meses vivendo separados, Grace esconde de sua família, que vive em uma cidade pequena e tradicional, a quantas anda a sua relação. 

Você não precisa saber o que é amor para saber o que não é amor.

Além de carregar o peso do rompimento, ainda precisa se preparar para as consequências que isso irá gerar em sua família e em uma comunidade que vela a vida alheia tanto quanto velam a Deus. O pai, que é o pastor da igreja e sua mãe, uma mulher fria e controladora comandam a igreja e as relações sociais da comunidade. Grace e sua irmã sempre tiveram que se colocar em um lugar de perfeição para garantir a boa imagem da família perante todos.

Todo dia eu rezava para que meu marido voltasse a me amar. Depois de quinze anos juntos, ele me abandonou e foi para os braços de outra. Eu não sabia como lidar com isso. Não conhecia meu próprio valor. Não me imaginava vivendo sem ele ao meu lado. Tudo o que eu queria era que ele voltasse para mim.

Jackson já representa o contrário. Ele e seu pai são vistos como parias nessa mesma cidade. Enquanto Jackson possui um passado marcado pelo vício das drogas, diversas ocorrências de brigas e envolvimentos em casos extra - conjugais, seu pai vive quase sempre bêbado pela cidade e possui diversas passagens pela polícia. Quase toda a cidade parece odiá-los e mesmo diante desse histórico os dois decidem não se afastar da cidade por alguns motivos que vão se revelando durante a leitura.

Jackson carrega uma grande ferida relacionada à forma com que seu pai e sua mãe se separaram enquanto ele ainda era criança. Quando se trata especificamente da história de Jackson o livro vai permeando capítulos entre o seu passado e o seu presente, uma escolha narrativa que ajuda a demonstrar o quanto alguns episódios familiares o transformaram em um adulto que usa de estratégias para afastar qualquer tipo de afeto. Jackson parece se importar apenas com seu pai e seu velho cachorro que fora o último presente de sua mãe. Ele usa da raiva, do ódio e o preconceito da cidade para se manter ainda mais afastado de tudo e de todos. Os dois nutrem um ódio ainda maior pela família de Grace por conta de alguns mistérios do passado.

Quando Grace decide voltar para sua cidade de origem ainda com esperanças de salvar o casamento, seu caminho cruza de forma inesperada e intensa com o de Jackson. Com o tempo os dois vão baixando a guarda e decidem embarcar numa relação temporária cheia de regras para não se tornar uma relação que envolva sentimentos, pois, inicialmente o que eles desejam é afogar suas mágoas um no outro. Um plano que previsivelmente acaba por sair do controle e juntos eles vão encontrando no apoio mútuo as peças para retomar o rumo de suas vidas e curar feridas.

Grande parte do livro foca no adestramento que a religião pode significar na vida das pessoas, e principalmente das mulheres. Grace é o retrato da mulher que precisou represar todas as suas vontades e desejos para suprir o que se entende como uma vida dedicada a Deus e a religião. O fato de seus pais serem os responsáveis pela comunidade religiosa aumentou ainda mais as responsabilidade de Grace e sua irmã de seguirem à risca os preceitos religiosos. A separação e o encontro com Jackson levam Grace a um encontro com sua própria individualidade. 
Às vezes era difícil ser uma seguidora de Deus, quando os sussurros do demônio pareciam bem mais satisfatórios.
“Vergonha” é um livro de fácil leitura, cheio de lugares comuns e situações que desafiam a nossa suspensão da realidade, mas ainda assim é uma ótima pedida para quem curte um romance do tipo bestseller. É ideal para aqueles momentos em que queremos ler apenas pelo entretenimento. A construção da história se dá de forma interessante e a construção das personagens permite que a gente se sinta bem próximo de seus dramas, mas fiquei bastante frustrado com a conclusão da obra. Acredito que Brittainy optou por algumas soluções que contradizem todo o processo de libertação e descobertas que ela explorou em todo o livro, pintando um mundo cor de rosa que não é nada crível.



A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab

A vida invisível de Addie Larue da Victoria "V.E." Schwab (Galera Record, 2021) é um romance que trata sobre a liberdade usando a metáfora da imortalidade. Para tanto, se agarra a elementos fantásticos interessantes. Addie Larue é uma jovem que vive em um pequeno vilarejo no interior da França em meados de 1714 e que sempre se incomodou com quão pequeno era seu mundo. Uma curiosidade que até então almejava apenas conhecer a cidade mais próxima, foi se transformando em um anseio por conhecer o mundo, por conhecer outras possibilidades de vida para além do pedaço de terra em que nascera. Addie Larue tinha uma certeza: "Não quero morrer do mesmo jeito que vivi." Quando se vê obrigada a casar, seguindo a tradição da época e que se enterraria de vez naquele povoado, a jovem acaba selando um pacto com uma entidade que caminha pela escuridão.


Tomada pelo desespero, Addie ignorou um dos principais ensinamentos de Estele, uma espécie de bruxa e curandeira da região: "Não faça preces aos deuses que atendem depois do anoitecer." No meio da noite, em uma hora decisiva para seu destino, ela clama para que qualquer deus a salve daquela situação, e de repente, suas preces são atendidas. Uma entidade que se alimenta de almas só atende pessoas em situação de desespero e quando estamos nesse estado é impossível se ater com atenção a todas as palavras e nuances do acordo que está para selar. Um pacto é um pacto - por vezes, irrevogável. É um contrato com algo que pode ser um deus ou um demônio e que sempre custa muito caro.

- Eu não quero pertencer a outra pessoa - diz ela, com veemência repentina. As palavras são uma porta escancarada, e agora ela despeja todo o resto. - Não quero pertencer a ninguém além de mim mesma. Quero ser livre. Livre para viver e encontrar meu próprio caminho, para amar ou ficar sozinha, mas que seja por escolha própria. Estou tão cansada de não ter nenhuma escolha, tão assustada de ver os anos se passando diante dos meus olhos. Não quero morrer do mesmo jeito que vivi, porque isso não é vida...

A garota entrega um prato cheio à escuridão. Addie despeja tantas palavras e tantos desejos que terão consequências até então inimagináveis. Ela pede, roga para que tenha liberdade e tempo para conhecer e viver tudo o que deseja viver e nesses termos um grande pacto é selado com beijo e sangue.

Quando Addie acorda de uma espécie de transe, está exatamente onde se lembrava de estar, a mesma floresta, o mesmo vilarejo, o mesmo anseio de fuga e o encontro com a criatura da escuridão parece ter sido apenas um sonho. Mas é quando volta para casa, ao encontro de seus pais, que ela descobre que toda lembrança sobre sua existência fora apagada. Addie não existe mais para seus pais, nem para o povo do Vilarejo e com o tempo vai perceber que nunca mais será lembrada por ninguém.

Um ano que passou aprisionada dentro do prisma daquele pacto, forçada a sofrer sem morrer, a passar fome sem definhar, a desejar sem enfraquecer. Cada momento ficou impresso na sua memória, enquanto ela mesma desaparece da memória dos outros sem o menor motivo, apagada por uma porta que se fecha, por se perder de vista por um segundo, por um momento de sono. Incapaz de deixar uma marca em qualquer pessoa, ou em qualquer coisa.

No pacto selado Addie não envelhece, não é acometida por doenças, mas nunca mais ninguém conseguirá se lembrar dela. Cada pessoa que passa pela sua vida a esquecerá a cada vez que uma porta se fechar, que uma parede se colocar entre elas numa interpretação exata e cruel do seu desejo de não pertencer a ninguém.

Mas agora Addie sabe muito bem que essas histórias estão repletas de seres humanos tolos que fazem tolices, que são fábulas de alerta sobre deuses, monstros e mortais gananciosos que desejam coisas demais e não conseguem compreender o que perderam. Até que pagam o preço, e é tarde demais para voltar atrás.

O livro mescla capítulos que viajam entre o vilarejo da França em 1714 e a atualidade, que seria o ano de 2014 em Nova York. De cara já sabemos que trezentos anos se passaram, que Addie viajou pelos quatro cantos do mundo, que aprendeu diversas línguas, pois agora o que não falta a ela é tempo. Se por um lado não falta tempo, por outro Addie não pode acumular nada para si, não pode dizer seu verdadeiro nome e quando o tenta a voz simplesmente não sai. Ela não pode alterar drasticamente a realidade, como destruir coisas, aparecer em fotos ou mesmo escrever. Addie não pode deixar sua marca no mundo. "O que é uma pessoa, se não as marcas que deixa para trás? Ela aprendeu a caminhar entre os espinhos, mas não consegue evitar alguns cortes."

A escritora V.E. Schwab começa então a brincar com a ideia da existência de uma pessoa que assiste ao desenrolar da história da humanidade em trezentos anos. Quantas coisas não aconteceram em trezentos anos? Quantas coisas não foram inventadas em trezentos anos? E quanto não se pode aprender nesse mesmo tempo? Addie passeia pelo mundo e também pela nossa história, se encontra com personalidades lendárias e são essas possibilidades que não a deixam sucumbir e por fim entregar sua alma. Inicia um jogo perigoso com a escuridão.

A entidade sombria que a garota passa a chamar de Luc a visita a cada aniversário do pacto oferecendo rendição e o incrível é que quanto mais Addie vive mais sente que a vida nunca para de surpreender e que há sempre algo novo a ver e aprender. Apesar de precisar viver morando em lugares improvisados, roubando comida e roupas, estabelecendo relações que não duram mais que um dia, Addie vai encontrando, sorrateiramente, algumas maneiras de deixar sua marca no mundo até que um dia encontra com alguém que se lembra dela no dia seguinte.



Dicionário de Suicidas Ilustres de J. Toledo

 Dicionário de Suicidas Ilustres de J. Toledo (Editora Record, 1999) é um livro que nada contra a corrente ao falar sobre um tema que as pessoas insistem em fingir que não existe, o suicídio. A obra conta com um texto breve de introdução que consegue trazer pontos interessantes para refletirmos sobre o auto extermínio. Se a morte já é um tabu para muitas culturas, quando falamos de uma ocorrência de suicídio o tabu se torna ainda maior. J. Toledo traça alguns perfis e motivações que podem levar uma pessoa a optar por dar fim à própria vida, e deixa pontos que merecem pesquisas mais profundas, mas que já nos dão uma ideia de como pensamentos suicidas também são consequência da nossa organização social. 


O texto inicia com uma provocação ao dizer que nós, enquanto indivíduos, muitas vezes não damos conta de conviver com a ideia de "não saber". Quando deparamos com nossa ignorância diante da existência e de nossa impotência para algumas ocorrências é que a mente pode começar a acessar o mais íntimo de nosso ser. E uma das questões que mais nos assusta e nos aflige diante do "não saber" está ligada à vida e a morte. 

Principalmente a morte, o fim. É esse insuportável "não saber" que nos impele a buscas e respostas, religiosas, metafísicas, ideológicas, científicas, ou do "bom senso", que desembocam sempre em ideias reducionistas, falsas ou bastante parciais. Mas às quais com frequência nos aferramos fanaticamente, levando à criação de "certezas". São essas "certezas", encobridoras de crenças, que nos permitem tolerar a imensa angústia frente ao desconhecido.


 Pode existir um momento na vida de qualquer ser humano que esse "não saber" irá vibrar na mesma sintonia que um episódio que traga imensa dor. A soma dessas duas vivências, desses dois sentimentos pode desencadear uma agonia tamanha onde uma pessoa só vai desejar alívio imediato. É quando a morte, a possibilidade de descansar, passa a ser uma opção.


Um outro ponto que J. Toledo trás e que pouco ouvimos falar é sobre o caráter social do suicídio. Em um trecho do texto o autor diz que "parte da sociedade, ao deixar morrer outra parte, está se suicidando." Existe um suicídio que acontece quando damos palco a teorias econômicas que colocam o lucro, o ter, o ganhar, na frente do que é ser humano. Quando permitimos que pessoas vivam sem o mínimo de acesso básico a seus direitos como cidadãos é como se deixássemos morrer. Essa morte pode ser física, se configurando em um ato de desespero do próprio suicídio, e pode ser simbólica, quando um sujeito vive com pouco e com sua sobrevivência sempre em risco. O autor fala da morte da dignidade. 


Na sequência ele passa a falar sobre o que ele chama de "fantasias" mais comuns que sustentam atos suicidas e que são discutidas por muitos psicanalistas. Um plano de morte pode nascer do desejo, da busca de uma "outra vida", um discurso que é muito difundido pelas religiões. Pode também ser motivado por acreditarem em um reencontro com pessoas queridas, pessoas com que se mantinha uma relação intensamente amorosa. J. Toledo inclusive usa exemplos de casais que viveram muitos anos juntos e que o par falece logo após a partida de sua companhia ao se entregar ao sofrimento, que dependendo do caso pode ser chamado de um "suicídio crônico". Um ato suicida também pode ser motivado por vingança, tanto pelo caráter agressivo do ato em relação a quem fica e até de um desejo do suicida de que as pessoas "responsáveis por sua dor" sintam a culpa pelo resto de suas vidas. Uma outra decorrência do suicídio acontece como um pedido de ajuda, quando a pessoa que pretende se matar arruma maneiras de comunicar sua desesperança através da melancolia e da depressão. Todos esses quadros podem ou não ter ligação com uma doença mental. Não necessariamente uma pessoa em sofrimento, apresenta quadro psicótico ou de doença mental. 


Após a introdução e breve contextualização sobre questões relativas ao suicídio, tanto emocionais, quanto culturais, o livro vira uma espécie de dicionário, misturado com livro de curiosidades, de enciclopédia e biografia. Após uma ampla pesquisa J. Toledo enumerou diversas personalidades que cometeram suicídio ou que o tentaram, e esse fato se tornou uma característica importante de suas biografias. O autor mescla figuras reais com ficção, ou seja, ele utiliza de exemplos de personalidades reais, ficcionais e também mitológicas, para mostrar como o suicídio está presente em nossa cultura desde sempre. A pesquisa de J. Toledo acaba se firmando como uma importante fonte de estudo para se pensar o suicídio como um fenômeno social, pois ali encontramos diversos exemplos de como ele pode se manifestar. 


O Dicionário de Suicidas Ilustres está longe de ser uma obra que exalta ou que faz apologia ao suicídio, é apenas um livro que tem a coragem de olhar de frente para algo que evitamos olhar e que não deixa de existir por isso. Como no mito de Eros e Tanatos precisamos encarar a vida sabendo que ela mescla flechas de amor com flechas de dor e que em alguns momentos estamos sendo regidos pelo amor de Eros e outras vezes pelo desejo de morte de Tanatos. 


Precisamos encontrar o equilíbrio entre amor e dor. Um suicídio nos mostra a realidade da morte, personifica o fim. As pessoas se matam e precisamos entender por que isso acontece para poder criar meios de enfrentamento que possam evitar que esses atos se concretizem sempre que possível. É preciso criar estratégias e mecanismos que olham para o suicídio como uma questão de saúde pública e só conseguiremos fazer isso quando investigarmos cientificamente essa nossa atração por sermos donos de nossa própria morte. 





O milagre dos pássaros contado por Jorge Amado

O milagre dos pássaros contado por Jorge Amado (Editora Record, 1997) é uma história bem curta, mas que nos remete ao encantado universo da literatura fantástica genuinamente brasileira. Quando pensamos em fantasia em nossa literatura, é impossível não lembrar logo de Jorge Amado. O autor consegue extrair da nossa cultura, do nosso povo, dos nossos costumes e principais figuras os elementos para criação de histórias surpreendentes e de pés descalços. Quando digo dos pés descalços, me refiro a uma produção que olha para o céu, mas que se conecta com o que há de mais nacional, de mais brasileiro, que nos remete a pontos de origem e que nos faz rir e chorar de emoção, que consegue nos aproximar por identificação.


A edição do livro é bem especial. Consegue ser simples e ao mesmo tempo rebuscada, exatamente como o universo do conto pede. O formato do livro foi pensado de forma a quase caber na palma da mão, e é todo encapado em tecido de vermelho bem vibrante. O livro é acompanhado de uma capinha também de tecido e vermelha que além de ajudar a preservar o exemplar, também lhe dá aspecto de presente, de algo a ser posto em canto especial.

No conto iremos encontrar personagens fascinantes e que nos fazem ficar presos na narrativa. Toda a história gira em torno de Ubaldo Capadócio, um literato de cordel que viaja de cidade em cidade, de Estado em Estado para vender sua poesia e poder sustentar suas três esposas ilegítimas e seus nove filhos.

O trovador Ubaldo Capadócio tinha estampa, arrebatava corações. Caboclo alto e garboso, um galalau, cabeleira esgrouvinhada, riso fácil, conversa de salão salpicada de ditos engraçados e palavras de dicionário, mal chegava, logo a roda de prosa se estabelecia. Na vastidão dos sertões da Bahia e de Sergipe onde habitualmente exercia deveres, cuidados e alegrias, era figura popular e requisitada. Vinham buscá-lo de longe para animar batizados, casamentos, velórios: não havia igual num brinde aos noivos, melhor contador de casos numa vigília, capaz de fazer o próprio defunto rir e chorar. 

E o milagre a que esse conto se refere se deu na cidade de Piranhas, às margens do Rio São Francisco em Alagoas. O famoso Capadócio se vê as voltas com mais uma sedução, só que dessa vez de mulher alheia e que vai colocá-lo numa situação de vida e morte. A pequena cidade de Piranhas inteira acompanha o fato, e cada uns dos personagens que aparece são dignos de nota, pois é onde encontramos boa parte das delícias e fantasias da história. São personagens ao mesmo tempo tão fantásticos e tão comuns em nossas pequenas cidades brasileiras. 

Na cidade de Piranhas reside Jarde Ramalho, coronel que se vangloria de ter lutado contra o bando de Lampião. Heloísa Ramos, que parece achar que ser viúva é profissão. O nosso herói Ubaldo Capadócio, que sustenta três famílias com proventos dos folhetos de cordel, da harmônica e da viola, com a voz rouquenha e as rimas de poesia. Ubaldo inventa de se meter, literalmente, com Sabô, mulher de Lindolfo Ezequiel, capitão com reputação de valentia e crueldade. Dizem que matou centenas de pessoas pelos motivos mais torpes. Sabô é narrada como a única pessoa da localidade a não ter respeito pela patente do marido, faz dele gato e sapato. Encontraremos também o Mestre Calazans Neto e Florisvaldo Matos, famosos por terem presenciado o momento em que o defunto Aristóbulo Negritude dera uma gargalhada por conta de uma história engraçada em seu próprio enterro. Além de figuras como Carybé, pintor e mentiroso inveterado.

Em pouco mais de trinta páginas Jorge Amado nos apresenta sem pressa a todas essas figuras. Nós leitores, saímos maravilhados e querendo saber mais sobre todas essas pessoas e de boca aberta com o tal do milagre dos pássaros, mais um acontecimento que fará parte do imaginário e das histórias do povo de Piranhas. O milagre dos pássaros é a transformação de uma história oral em narrativa escrita pelas mãos e imaginário eficientes de Amado que ajuda a alçar ao posto merecido mais uma grande história da tradição popular do sertão nordestino.






As coisas de Tobias Carvalho

As coisas de Tobias Carvalho (Editora Record, 2019) é o livro de estreia do autor e de cara foi vencedor do prêmio Sesc de Literatura de 2018. É gratificante ter acesso a uma obra como essa por diversos motivos, sendo alguns deles a percepção que através de muita resistência, novos autores estão sendo publicados e pelo fato de "As coisas" ser um livro que abraça a diversidade ao narrar histórias vividas por uma personagem gay de forma a contribuir com a representatividade no meio editorial. As vivências amorosas, sexuais, familiares e profissionais de um homem gay são contadas sem medo de demarcar nossa existência explorando aquilo que temos de comum e de peculiar ao fazer parte da comunidade LGBTQIA+. "As coisas" é um convite para ler com orgulho.



O Tobias Carvalho é de Porto Alegre, cursa Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e já participou de oficinas literárias. Ele chega nesse livro de estreia com uma grande potência ao nos apresentar uma literatura forte, realista e comprometida em contar histórias ainda negligenciadas pela nossa literatura.

Livros que se propõe a contar as histórias das ditas minorias, ainda são vistos como nichos dentro do mercado. Felizmente essa é uma realidade que vem mudando, porque a sociedade está em transição e aqueles a quem essas histórias se referem estão ocupando seus legítimos lugares de escritores das próprias narrativas, de donos de suas próprias histórias e dispostos a diminuir um enorme abismo criado pelos diversos tipos de preconceitos que assolam a sociedade.

Assim na Terra como Embaixo da Terra da Ana Paula Maia

Assim na Terra como Embaixo da Terra da Ana Paula Maia (Editora Record, 2017) é um livro incrível. Passei todo o meu domingo lendo e não me arrependo. A escrita de Ana Paula é muito fluida, envolvente e com um discurso direto. É um livro curto, de apenas 143 páginas e esse fato deixa claro a destreza da escrita da Ana Paula, pois a narrativa é muito bem construída, assim como personagens.


A história se passa em uma colônia penal que pode estar localizada em qualquer lugar do mundo. Sua localização exata é um mistério para todos que vivem enclausurados ali, aparentemente como uma estratégia de segurança e de evitar fugas. Além de estar em lugar desolado, a colônia também está em processo de decadência total após o anúncio de que a mesma será desativada. A partir desse ponto de partida a autora vai nos apresentando o passado dos detentos a partir de flashbacks, a personalidade violenta do responsável pela colônia e a omissão de seu principal carcereiro.

Aqui, a Colônia quase que se torna uma personagem do livro. É construído um clima de mistério, tensão e luta pela sobrevivência que vai tirando o fôlego do leitor e nos fazendo entrar em estado de espera, juntamente com cada homem vivendo ali.

Sex and The City de Candace Bushnell

Sex and The City de Candace Bushnell (Record, 2005)


Peguei esse livro pra ler porque adoro a série de TV. É uma das minhas preferidas do coração. Infelizmente não posso dizer o mesmo do livro. A mesma temática que tanto me prendeu na série não conseguiu me prender no livro. Na minha opinião esse é um dos casos raríssimos que uma adaptação pra TV fica melhor que o livro. Fui até o fim porque tenho um problema sério de não conseguir abandonar uma leitura depois de iniciada e vou com aquela esperança, até o fim, de que vai melhorar.

O livro se propõe a pautar o feminino, o sexo e todas as suas relações e consequências tendo como foco ricos e milionários da cidade de NY. Fica tudo bem vago e com uma tentativa de liberdade e desprendimento que não convence. Acho que o livro coloca as mulheres - todas elas - como pessoas onde o único objetivo é conquistar um bom partido e casar. A série consegue pegar o mesmo tema e fazer reflexões interessantes sobre a emancipação das mulheres - as que querem a todo custo se casarem e todas as outras mulheres com seus mais diversos desejos!

Pobre George de Paula Fox

Pobre George (Editora Record, 2009)


Não conhecia a escritora Paula Fox. Cheguei até ela de uma forma inusitada e que demonstra as várias possibilidades de um mediação de leitura - Paula Fox é uma das escritoras favoritas da personagem Beck, da série "You" da Netflix. Vejo muitas séries e essa foi uma das melhores que assisti esse ano. A série "You" tem uma livraria e o amor pelos livros e pela leitura como pano de fundo, apesar de poucos falarem sobre isso e focarem na psicopatia do Joe. O que mais me encantou na série foram as citações a autores, livros, processo de escrita (Beck é um aspirante a escritora), ambiente de livraria, discussão sobre livros raros e etc. Na história Beck e Joe se conhecem quando a personagem chega á livraria em busca do livro "Desesperados" da Paula Fox que ainda não encontrei, então resolvi começar pelo "Pobre George".

"Pobre George" é um livro muito bem escrito na maior parte do tempo e as descrições da vida e personalidade do professor George prendem nossa atenção por páginas e páginas. George conhece um adolescente em situação de vulnerabilidade e ajudá-lo passa a ser sua grande obsessão. Essa fixação acaba por trazer muitos dramas para a vida pessoal do professor e tudo isso vai sendo contextualizado em meio a discussões sobre a pratica docente.