Quando, da Carla Madeira (Editora Record, 2026) é um romance onde acompanhamos uma mãe vivendo um grande dilema. Após um acontecimento violento, ela se vê na obrigação de denunciar o próprio filho para a polícia. Enquanto lida com um misto de conformidade e culpa, a narrativa vai entregando aos poucos as condições do ato e nos apresentando a personagens interessantes que também foram atingidos pelo acontecido. Com uma escrita ágil e também poética, a autora nos leva a questionamentos sobre amor, família, criação e ética de uma maneira que já é bem peculiar da sua narrativa. Adentramos a casa de Viridiana, Margarida, Valquíria e Tito e assistimos às maneiras de sobrevivência que cada um definiu para si.


Ambientada no Brasil na década de 1980, a narrativa abandona qualquer maniqueísmo para explorar as marcas permanentes e as crises existenciais que nascem das escolhas, das tomadas de decisões, do peso da maternidade e da culpa. A autora costura temas densos como homofobia, violência estrutural e as contradições do afeto materno, usando como pano de fundo as tensões sociais da época.

O tempo é o grande condutor da história que a Carla Madeira nos apresenta neste livro, não só pela espera de uma mãe que está há duas décadas sem ver o filho, mas também pela palavra única que dá título à obra. O “quando” é quase que uma massa corpórea que acompanha cada uma das personagens do livro, pois ele se manifesta através da necessidade de tentarmos entender porque as coisas acontecem ou porque acontecem da forma que acontecem.

Quando levaram Tito, eu vivi uma tormenta, se tormenta for o nome da pior coisa que uma mãe pode sentir. Tento dissecar minha culpa lâmina a lâmina, sustentar minha certeza de que não havia outra coisa a fazer. Lá na hora, Val, quando o choque ainda me fazia tremer... eu só pensava em resolver... para grandes males, grandes remédios, como dizia seu avô... desistir de Tito não era uma opção, e eu... eu chamei a polícia, pensei que era assim que eu não desistia dele...
Viridiana, a mãe, se pergunta, quase sem proferir palavras quando foi que o destino de Tito fora selado? Qual foi o traço da sua criação que precisaria ter sido contido para que ele não chegasse a fazer o que fez? Quando foi que sua filha Margarida decidiu aceitar o tipo de casamento a que estava submetida a ponto de quase perder a sua subjetividade e enterrar seus desejos? Quando foi que Valquíria se tornou uma mulher aparentemente fria, mas que no fundo era a cuidadora de todos e a “abandonadora” de si mesma?

Na casa dessa família, Tito se torna um fantasma vivo, uma lembrança constante e também o gatilho para brigas tempestuosas. Nos vemos diante de uma casa rachada, mas que ainda assim luta para ficar de pé. É uma história onde cada personagem tem a dosagem exata de humanidade, com seus erros e acertos, que poderiam ser encontrados em qualquer esquina de qualquer bairro por aí. Em “Quando” não existem vilões e sim pessoas marcadas pela vida que foi possível construir.

Eu era uma mãe com raiva do sujeito covarde e cruel que pôs no mundo… eu estava com vergonha de ser a mãe de Tito, e por um instante eu queria mesmo que ele se danasse, e um instante, às vezes, é o suficiente.
Fazendo várias alternâncias de vozes narrativas, conseguimos construir a ordem dos fatos juntamente com os personagens e a cada vez que acessamos um outro lado, uma outra visão da mesma história, fica ainda mais forte a sensação de que não existe exatidão na vida quando se trata de amor, desejo, perda, luto e perdão.