Da próxima vez que você cair do cavalo, do escritor francês Panayotis Pascot (Ercolano, 2025), é um romance autobiográfico em que o autor relata com verdade e coragem o processo de luto após seu pai receber o diagnóstico de uma doença grave. Ao olhar para essa iminência da morte, passa a revisitar toda a relação com seu pai e, ao fazê-lo, se reencontra consigo no passado e no presente. Diante desse espelho, Panayotis abre sua intimidade em relação à dor do luto, ao processo de aceitação da própria homossexualidade e à sua luta contra a depressão.


Penso no meu pai. Está vivo desde que sabe que vai morrer, que um dia, vai ser um determinado dia, próximo, uma segunda ou uma quarta-feira, um dia desses, vai ser um dia em que todo o resto da família estará vivo e ele não mais.
A obra marca uma virada de chave na figura artística de Panayotis, conhecido na França como ator e comediante. Seu relato volta-se para uma escrita que olha de forma mais dura e prática para alguns aspectos da vida; e o humor, quando aparece, vem transfigurado na intenção de tratar de temas mais espinhosos. A França passa a conhecer um lado mais vulnerável do autor que antes não aparecia em seus shows de stand-up.

Panayotis faz reflexões interessantes, sendo uma delas a questão da masculinidade, que emerge à medida que revisita seus afetos. A relação pai e filho serve como um ponto de partida eficiente, pois vemos dois homens de gerações diferentes lidando com a vivência de ser pai e filho e também com visões diferentes de mundo. Panayotis passa a assistir ao próprio pai com a curiosidade de quem assiste a um programa de televisão ou lê um livro. E escreve sobre ele.

Nada deve entrar. Por isso, pouco sai. É o equilíbrio do meu pai, o cálculo justo para não quebrar muito a cara. Ele encontra sua força nisso. Carrega absolutamente tudo o que nunca evacuou. O que ele não diz, não faz, se torna sua essência. Sua forma de se relacionar com o mundo é o combate, é não ceder, não se vergar, não se dobrar. Para não se foder. Eu também tinha esse equilíbrio “não sai, não entra”. E aí decidi lutar contra isso. Comecei a querer fazer o contrário do meu pai, pôr tudo para fora. E escolhi essa profissão. Falar de mim, o tempo todo, em toda parte. Abrir o jogo, em cena, na televisão, em um livro.
Essa quebra de ciclo comportamental em relação ao pai fica nítida quando vemos a forma como o autor fala sobre sua sexualidade. Panayotis relata com todas as letras como a homossexualidade apareceu em sua vida primeiramente como algo a ser ignorado e combatido. A partir do momento em que ele entende melhor seus sentimentos, a narrativa passa a expor sem pudores suas dinâmicas de relacionamento e os encontros sexuais com mulheres e homens.

O tema da depressão, que muitas vezes ainda é tratado como um grande tabu, é apresentado de forma bastante visceral. No relato de experiência do autor, podemos perceber todos os sintomas que caracterizam o processo de adoecimento mental, o que acaba servindo como um alerta para quem o lê.

Essa zona cinzenta se estendeu para minha vida fora do trabalho. Eu não conseguia mais entender para que arrumar a cama de manhã se ia desarrumar à noite. Então parei de arrumar a cama e aí ferrou tudo. E aí nada de lavar a louça, nada de banho todo dia, nada de trocar de roupa, nada de lavar a roupa.
O título do livro funciona como uma metáfora sobre a inevitabilidade das crises e a construção da resiliência na vida adulta. A imagem de "cair do cavalo" sintetiza o aprendizado doloroso sobre como desabar sem se quebrar por completo, reconhecendo que os tombos fazem parte da vida e que continuarão acontecendo. Panayotis Pascot transforma a queda na aceitação da própria vulnerabilidade, mostrando que o amadurecimento vem do entendimento do que levar do chão na próxima vez em que o inevitável acontecer.