O fascismo eterno do Umberto Eco (Editora Record, 2018) foi originalmente um discurso proferido em uma conferência de um simpósio organizado pela Columbia University, em 25 de abril de 1995. No texto, o autor faz reflexões sobre como as garras do fascismo e do nazismo foram ganhando espaço na Europa e no mundo, sendo o termo “fascismo eterno” uma ilustração de como essa ideologia política autoritária perdeu grande parte de sua força, mas nunca mais saiu da espreita.


O Ur-fascismo, ou fascismo eterno, ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis. Seria muito confortável para nós se alguém surgisse na boca de cena do mundo para dizer: 'Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas-negras desfilem outra vez pelas praças italianas!'. Infelizmente, a vida não é tão fácil assim! O Ur-fascismo pode voltar sob vestes mais inocentes. Nosso dever é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas - a cada dia, em cada lugar do mundo.

Como diria Bertold Brecht, "a cadela do fascismo está sempre no cio", e infelizmente, nos esquecemos disso. O avanço da extrema direita no mundo vem nos mostrando que a luta pelas democracias e pela dignidade humana não pode cochilar. Um político, com fortes tendências fascistas, acaba de se eleger em um dos países mais poderosos do mundo e no dia de sua posse o homem mais rico do mundo fez uma saudação nazista em comemoração e para todo mundo ver.

Mais do que nunca, precisamos relembrar o contexto histórico que permitiu a ascensão do fascismo e do nazismo no mundo, para assim evitar uma escalada de violência e a perseguição dos direitos fundamentais das minorias. O livro "O fascismo eterno", é uma obra importante, pois além de evocar a história para explicar conceitos e avaliar cenários, possui uma linguagem acessível.

Umberto Eco inicia a reflexão partindo de sua experiência pessoal, ainda como um jovem italiano imerso em uma sociedade regida por fascistas. Ele, assim como boa parte da população, repetiam discursos de cunho fascista que estavam sendo normalizados na época. Acontece que essa mesma sociedade não tinha a verdadeira dimensão da repressão que estava em voga. Eco fala de um período em que “liberdade ainda não significava libertação”. Em plena guerra, uma grande maioria da população nem ao menos sabia da existência de campos de concentração.

Nos meses seguintes, descobri que a Resistência não era apenas um fenômeno local, mas europeu. Aprendi palavras novas e excitantes como ‘réseau’, ‘maquis’, ‘armée secrèt’, ‘rote kapelle’, ‘gueto de Varsóvia’. Vi as primeiras fotos do Holocausto e assim, antes mesmo de conhecer a palavra, conheci seu significado. Descobri que havíamos sido libertados.
De forma didática, Umberto Eco vai demonstrando como o termo “fascismo” pode se adaptar a diversos contextos e que mesmo eliminando um ou outro conceito básico que o define, ele continuará sendo chamado de “fascismo”. As formas como o fascismo age nos tempos de hoje, são completamente diferentes da forma como se desenhou na Itália de Mussolini para depois se espalhar por diversos países. Atualmente, por exemplo, estamos vendo os ideais fascistas fantasiados de liberdade de expressão.

Na sequência, o autor lista o que ele chama de características típicas do regime fascista, como culto à tradição, tradicionalismo aliado a recusa da modernidade, irracionalismo, não aceitação de críticas, sendo o desacordo considerado traição, utilização da frustração individual ou social, obsessão da conspiração, entre outros. Se olharmos com atenção para o modus operandi dos principais políticos de extrema direita do mundo, veremos essas mesmas estratégias se aflorando de formas diferentes.

O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso utilizando e exarcebando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.