Nunca vou te perdoar por você ter me obrigado a te esquecer do Jacques Fux (Faria e Silva, 2023) é um romance brasileiro que se estrutura como uma conversa entre um casal que terminou uma relação. Entre declarações e lembranças boas e ruins, os dois lutam não para salvar um amor que talvez não tenha mais volta, mas para tentar extirpar a dor. É um romance que bate fundo para grande parte das pessoas que já sentiram aquela dor de quase morte de uma separação, principalmente quando ela vem quando ainda existe sentimento.
O casal do livro é formado por um escritor e por uma atriz, então, de forma brilhante, Jacques Fux brinca com o que há de poético no ofício da escrita e da atuação para compor seus personagens. Na narrativa do escritor, vemos o amor se derramar de forma intensa, como o próprio exercício da escrita geralmente se desenrola e onde o sentir se torna o próprio material de sua função.
A minha memória é involuntária, M. Ela resulta de acasos e surpresas. Epifanias. Estilhaços de você – que ainda tento resguardar – eclodem, apesar de escaparem furtivamente por entre as lacunas da deslembrança. O que resta são farrapos de registros e retalhos. Escrevo porque essa história não poderia desaparecer com o afastamento. Preciso reter o que persiste, estancar o tempo, emoldurar as sombras que ainda perduram em pontos, riscos e marcas. É necessário escolher o que deve desmoronar a fim de preservar aquilo que desejamos que volte e sobreviva.
A atriz possui intensidade em igual medida, mas com uma dose de pé no chão, com uma dose de bom senso e de análise do cenário, assim como é montado o palco de um teatro, onde cada emoção possui seu momento certo de aflorar, onde cada passo é ditado por uma marcação. O escritor se interessa pela obra que fica, enquanto a atriz anseia pela vivência do exato momento em que as coisas acontecem. Um lado constrói o relato, enquanto o outro representa.
Não desejo que nada volte, Jacques. Você não entende? Terminei com você. Compus um réquiem, teci um epílogo. Está acabado. O que perdura é o que ainda não se apagou com o tempo. Eu não sorrio quando me lembro de você, Jacques. Não tenho nostalgia, vontade, desejo. Não me dói saudade nenhuma.
Nunca vou te perdoar por você ter me obrigado a te esquecer é o amor colocado a prova. Uma maneira que o narrador encontrou de tentar amenizar dores e ausências evocando tudo aquilo que foi mais intenso durante a relação, para depois se perguntar: se era assim, como pode ter acabado?
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