Dentes do escritor italiano Domenico Starnone (Todavia, 2022) é um romance emocional e com uma escrita cirúrgica que sabe muito bem para onde quer levar o leitor. Domenico cria um universo que gera incômodo, ao mesmo tempo em que nos instiga a permanecer para ver qual caminho a história irá tomar. Um homem perde seus dentes incisivos após uma agressão e ao ficar desdentado, também fica nu diante dos leitores. Todas as suas dores, angústias, medos, decepções, dificuldades e desamores começam a escapar pela fenda dos dentes. O vazio imposto pela boca sem dentes revela seu vazio existencial.
Uma das características mais impressionantes da obra, está no fato como Domenico consegue extrair reflexões e construir situações importantes para a narrativa através do comum e do banal. Nos vemos diante de um personagem com uma vida que não possui grandes reviravoltas, nem grandes surpresas, sendo a perda dos dentes, talvez, aquilo de mais extraordinário, ou fora da curva que o acomete. Através de uma vida quase enfadonha, o autor fala sobre sonhos, frustrações e dificuldades que fazem um retrato inteligente sobre as dificuldades da vida e os dilemas da masculinidade.
No início da tarde do dia 6 de março de três anos atrás, perdi dois incisivos numa tacada só. Eram os que me serviam para pronunciar meu nome.
A perda dos dentes de “Oico”, som que ele consegue pronunciar sem os dentes da frente, serve como metáfora para devassar a identidade de um homem comum, mas que carrega questões que acompanham muitos homens. É uma estratégia genial do autor nos dar apenas um vislumbre sobre qual seria o nome do personagem, pois, ao perder os dentes, o próprio personagem se vê em uma crise com sua própria identidade e a privação do próprio nome deixa essa crise exposta, em carne viva.
Nosso narrador é um professor que trabalha, ganha pouco e sobrevive sem grandes luxos. Vive com Mara, sua ex-amante que agora se tornou oficial e também é a responsável pela agressão que dilacerou seus dentes. Tem dois filhos de um casamento anterior e, por ser um pai ausente, possui uma relação problemática com a ex-esposa.
Tudo é narrado em um ritmo e uma intenção onde pequenas e grandes violências não são tratadas com alarde. Tudo parece “normal” ou um sintoma de uma vida já acostumada com as privações e com as perdas. “Oico” nos passa um misto de sentimentos, pois, ao mesmo tempo que nos sentimos solidários com suas dificuldades, nos irritamos com sua opacidade perante a vida.
Peguei papel e caneta e, para me ancorar, comecei a fazer contas. Queria saber onde podia achar o dinheiro necessário para corrigir os dentes de Michela. Vamos partir daqui, me impus. Mas a depressão cresceu quando, seguindo o fio do dinheiro que me seria necessário, de repente percebi que, financeiramente, eu não valia nada.
A busca do personagem por um dentista que poderia resolver o problema de sua boca é construída de forma trágica e satírica ao mesmo tempo. A maneira como “Oico” é tratado por cada dentista que passa por ele, constroem um microcosmo da realidade, que define muito bem quem terá acesso ou não a uma boa saúde, a uma boa moradia, a um bom salário, a boas horas de lazer. “Oico” sabe do lugar que ocupa e, portanto, não espera grandes coisas da estrutura social em que vive.
Então resolvi tomar o rumo da desigualdade social. “Já reparou como os ricos têm belas dentaduras?
Em “Dentes” tudo é muito normalizado e ao mesmo tempo muito grotesco. É uma obra construída em volta da exploração da sensação de dor, de bocas arregaçadas e na trajetória de um homem inseguro e imaturo, uma espécie de herói fracassado.
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