Os vizinhos morrem nos romances do Sergio Aguirre (Editora Dimensão, 2019) é um romance policial instigante que utiliza de alguns elementos que o tornam diferente de outros livros do gênero. A obra se vale de várias estratégias de metalinguagem, onde história, personagens e motivações brincam e homenageiam o gênero. Sergio Aguirre, que também é psicólogo, parte da importância dos diálogos para criar um thriller com dois personagens principais densos e nada confiáveis.


A metalinguagem alcança um outro nível, uma vez que o ponto principal da obra está na busca de inspiração de um escritor frustrado para o seu novo livro, enquanto trava uma conversa, que é quase uma batalha, com uma senhora com uma história bizarra para contar.

Cada vez que se mudava de casa, John Bland tinha o costume de se apresentar a seus vizinhos. Assim haviam feito sempre seus pais, e lhe parecia que não se realizava essa visita de cortesia, algo faltava para terminar de se estabelecer em seu novo lar.
Após ficar sozinho em sua nova casa, John, que não queria desembalar e organizar tudo sozinho, decide dar uma volta pela localidade e aproveita então para bater à porta de sua vizinha para se apresentar. Ele conhece a enigmática senhora Greenwold.

John se vê dentro de uma casa cheia de livros e se apresenta como um escritor de romances policiais. Assim, acaba aguçando a curiosidade da senhora que é apaixonada pelo gênero e que o convida para tomar um chá. Os dois se sentam diante de uma lareira e, a partir daí se desenrola todo o livro. Nós só saímos daquela sala levemente aquecida pela lareira, quando John ou a senhora Greenwold nos transporta para outra localidade através de uma de suas histórias.

Quando John diz à senhora Greenwold que está sem inspiração para um novo romance, a mesma se empolga e começa a contar um caso de assassinato, que aparentemente, ela mesma presenciara. Uma história com direito a janela indiscreta, perseguição e uma viagem de trem.

À minha direita, a janela só me mostrou a escuridão da noite, e, em um extremo, o reflexo de meu próprio rosto, olhando-me do vidro. O som das ruas chegava de longe, como que afogado pelo silêncio que parecia reinar naquele lugar. E por um momento tive a consciência de que, para nós que estávamos ali, aquele trem era nosso único mundo naquela noite, um pequeno labirinto em penumbras, estreito, ameaçador, e, lá fora, apenas frio e velocidade.
Acontece que quanto mais o tempo vai passando, a conversa vai se tornando um campo de batalha, onde ambos trocam provocações veladas e disputam sobre a capacidade narrativa de cada um. Ao mesmo tempo que isso acontece, vamos embarcando em uma narrativa onde tudo ou nada que está sendo relatado pode ser uma verdade e onde até mesmo o caráter de ambos os personagens se torna uma incógnita.