Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2025) é o volume que encerra a saga da Família Melzer e que nos leva para dentro da Alemanha nazista, durante o período mais violento da Terceira Guerra Mundial. Na obra, acompanhamos a guerra através das notícias que são controladas pela propaganda nazista e pelas eventuais consequências do conflito para a vida prática. A violência começa como um boato, parte para a perseguição e desaparecimento de pessoas, emerge ao estado de falta de acesso aos suprimentos básicos, até chegar no cair das bombas.


Assim como nos demais volumes, os Melzer precisam lutar para manter a fábrica de tecidos e a mansão em funcionamento, mas agora com o agravante de uma guerra em andamento. Paul, o diretor da fábrica, se vê dessa vez sem o apoio de sua esposa Marie, que fora para os EUA assim que iniciaram as perseguições aos judeus. Assim, acompanhamos as vivências de guerra de parte da família Melzer em pleno solo alemão, e de Marie e seu filho Leo, que precisam refazer a vida na América enquanto recebem apenas notícias da situação da Alemanha.

Marie foi para os EUA pensando em sua própria sobrevivência e também na proteção de sua família. Ficando na Alemanha, correria sério risco de parar em um campo de concentração nazista. Tanto a fábrica, quanto a mansão da família estariam em risco, uma vez que Paul nunca aceitaria se divorciar da esposa, algo que era imposto pelo regime nazista. Além da luta pela sobrevivência, o amor de Paul e Marie é colocado a prova. A separação física e emocional entre os dois evidencia como o tempo e as circunstâncias podem transformar sentimentos, criando dúvidas, ressentimentos e novos caminhos.

Em o “Reencontro na Vila dos Tecidos” a guerra nos coloca diante de várias reflexões que versam sobre visão de mundo, liberdade e nacionalismo. Quando a família Melzer se vê diante da ascensão de um regime violento e segregador, precisam aprender a encontrar formas de não abrirem mãos de seus ideais, ao mesmo tempo em que de forma alguma poderiam ser vistos como inimigos do regime. A saudação nazista deveria ser proferida em todo encontro, a suástica deveria estar hasteada na fábrica e na mansão, assim como a foto do fuhrer deveria estar exposta no escritório de Paul.

Quando os jovens da Vila dos Tecidos são convocados para a guerra e passam a fazer parte do exército alemão, mais uma vez nos vemos diante de reflexões sobre até onde deve ir a noção de patriotismo, uma vez que uma convocação militar não leva em consideração a ideologia política de um cidadão.

A guerra era um negócio desgraçado e desumano. Não tinha quase nada de heroísmo, mas era encharcada de suor, sujeira e sangue, de ferimentos deformadores e gemidos de moribundos. Que diabo o havia possuído para ele embarcar no otimismo generalizado e se voluntariar para aquela desgraça, acreditando que assim iria colaborar para a libertação de sua pátria das garras do nazismo.
Anne Jacobs trabalha bem o impacto da guerra não apenas no cenário político, mas também na vida íntima dos personagens, mostrando como o medo, a culpa e a insegurança influenciam decisões pessoais. A autora utiliza múltiplos pontos de vista, permitindo uma visão mais ampla dos acontecimentos e fortalecendo a conexão com os personagens em uma obra que além de emocionar precisa fechar um arco narrativo que foi desenvolvido ao longo dos seis volumes da saga.

Tormenta na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

Tormenta na Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Arqueiro, 2025) é o quinto volume da série “A Vila dos Tecidos”. A saga acompanha a história da família Melzer, que vive em uma grande mansão conhecida como Vila dos Tecidos e são donos de um conglomerado têxtil em Augsburgo na Alemanha. Do primeiro volume para cá, acompanhamos as conquistas e as perdas da família através dos tempos, onde não só o amadurecimento de cada personagem dita a narrativa, como também as grandes mudanças sociais do século.


Em “Tormenta na Vila dos Tecidos” vemos uma nova geração da família Melzer no centro da história, como por exemplo, os filhos de Paul e Marie, que estão na faixa dos 19 anos de idade. O mundo que Paul e Marie conheciam se tornou outro e esse choque geracional ajuda a dar o tom da obra. Vemos o desenrolar das significativas mudanças políticas da Alemanha do pós-guerra, como também o processo de emancipação das mulheres, que começam a se vestir com mais liberdade, a explorar seus desejos e ocupar cargos que eram exclusivos para homens.

Nesse ponto da história, temos uma narrativa envolvente e ao mesmo tempo bastante tensa. O ano é 1935 e o Partido Nacional-Socialista está ganhando força na Alemanha após um período de grave crise econômica. É angustiante a forma como a autora vai nos inserindo, aos poucos, no clima de medo e repressão que toma conta do país. De repente, suásticas são avistadas por todas as partes, assim como a imagem de Adolf Hitler. O seu próprio nome se tornou uma saudação obrigatória, onde todos aqueles que não a proferiam, eram automaticamente considerados inimigos do partido.

Existia algum lugar no mundo para os exilados? Um país no meio do nada, flutuando entre o céu e a terra e onde pessoas de todas as nações e de todas as cores convivessem amistosamente umas com as outras?
Logo, a descendência judaica de Marie, passa a ser motivo de preocupação. O partido nazista iniciara seu plano de perseguição ao povo judeu e o afastamento das pessoas de origem judaica, assim como qualquer tipo de contato afetuoso e financeiro, passa a ser encorajado. Marie, é a primeira da família Melzer, a perceber o perigo que o nazismo representava, inclusive para sua existência, e o abandono de sua própria pátria passa a ser a única alternativa.

Não era turista e não estava visitando parentes. Mas planejava abandonar seu lar por um longo tempo e tornar-se americana. Não estava fazendo aquilo por livre e espontânea vontade, mas porque era judia. Porém, não se sentia particularmente ligada aos muitos imigrantes judeus no navio, mesmo que dividisse aquele destino com eles. Ela era judia porque três de seus avós tinham sido judeus. Mas ela própria nunca se enxergara como tal até então. Não conhecera seus avós, seu pai também morrera antes de ela nascer, e só tinha uma lembrança distante de sua mãe que desvanecia cada vez mais com o passar dos anos. Fora criada de forma cristã no orfanato, e nunca ninguém lhe dissera que era judia. Marie se sentia estranha, solitária entre aqueles dois mundos, não pertencendo a nenhum deles, e perguntava-se com amargura qual seria de fato a diferença entre um alemão “ariano” e um alemão “judeu”, já que, até então, eles tinham convivido todos juntos e tinham lutado lado a lado pelo mesmo país na guerra.

A família Melzer passa então a lidar com diversos dilemas morais. São vigiados de perto pela GESTAPO, a polícia política do estado nazista e Paul, precisa decidir até onde está disposto a abrir mão de suas convicções para salvar a tradicional fábrica de tecidos e proteger sua família.

O regresso à Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

O regresso à Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2024) é o quarto volume de uma saga que acompanha a história da família Melzer através das gerações. A história central se passa em Augsbourgo, uma cidade no sul do estado alemão da Baviera. A família administra uma grande fábrica de tecidos e uma imponente mansão conhecida como “A vila dos tecidos”. Tanto a fábrica, como a mansão já viveram dias de glória, status que anda ameaçado por conta de uma crise econômica que assolou a Alemanha após a primeira guerra mundial.


A série mescla ficção com contexto histórico, portanto, no pano de fundo desse volume, veremos como acontecimentos como o fim da primeira guerra mundial, a transformação da Alemanha em uma república, a quebra da bolsa de Nova York, que gerou uma crise mundial e a ascensão do partido nazista impactará no futuro da Vila dos Tecidos.

O céu de Augsburgo estava coberto de nuvens cinza que pairavam sobre as torres e os telhados antigos. Elas pareciam ainda mais pesadas no lado leste, entre a cidade e o rio Wertach, um afluente do rio Lech, onde grandes indústrias haviam se instalado. As fábricas de tecidos, papel e máquinas tinham assegurado o bem-estar da cidade durante décadas. Mas agora essa era parecia ter chegado ao fim.
Desde o início da saga, a autora vai construindo nossa proximidade com cada um dos personagens. Conhecemos os moradores da Vila dos Tecidos, assim como os empregados que mantém a fábrica e a mansão. A cada volume, ficamos cada vez mais íntimos de cada um deles, de forma que passamos a traçar uma linha temporal que nos situa no espaço e no tempo, mas que também embasam as tomadas de decisões, pois temos acesso a pormenores de suas histórias de vida.

Anne Jacobs trabalha bem com a contextualização histórica e consegue demonstrar, através do crescimento e envelhecimento dos personagens, as principais mudanças sociais que transformaram a Alemanha e o mundo. Ainda que a história parta de um contexto onde as mulheres não podiam votar, não podiam estudar, que toda sua vida jurídica carecia do aval de um homem e que praticamente a única perspectiva de futuro estava no casamento e formação de uma família, temos sempre presente na narrativa a força que as mulheres exerciam nos “bastidores”.

Conforme os anos vão passando, a autora explora como as mulheres foram conquistando alguma emancipação através de coisas simbólicas, como por exemplo no aspecto da vestimenta e do corte de cabelo. As primeiras mulheres que ousaram cortar o cabelo curto, eram vistas como despudoras e perdidas.

Cada mulher da Vila dos Tecidos, a seu modo, consegue enfrentar a repressão de alguma maneira. Seja silenciosamente ou de forma mais aguerrida, elas vão demonstrando como são peças fundamentais para a estruturação da casa e da família, mas também para crescimento e manutenção de uma sociedade que seja funcional.

Marie, que era a grande protagonista do início da série, chega ao quarto volume mãe de três filhos e tendo que lidar com uma filha que não aceita ser moldada para o casamento. Sua filha é apaixonada pelos estudos e pela dinâmica de funcionamento das máquinas, mostrando-se assim, uma grande aposta para a modernização da fábrica de tecidos. Já Leo, filho mais velho de Marie e Paul e que deveria ser o sucessor do pai nos negócios, só consegue enxergar um futuro feliz a frente de um piano e fazendo música.

O florescer dos desejos da juventude, servem como uma grande metáfora da revolução que a sociedade enfrentou no pós-guerra. Para além disso, a autora descreve a convulsão social que acabou permitindo o início da ascensão do Partido Nazista e como Hitler foi se tornando uma figura imponente na política alemã.

- O que está acontecendo em nosso país neste momento é motivo de preocupações muito maiores - disse ele para Paul. - Como podemos ler nos cartazes do NSDAP, eles estão responsabilizando os judeus pela derrota na guerra, pelo desemprego e, é claro, pela crise econômica mundial. Dizem que se alguém quiser salvar a Alemanha, terá que combater os judeus. E esses provocadores mentirosos têm cada vez mais seguidores.
De forma gradual, a autora vai transformando protagonistas em coadjuvantes e dando voz a novas gerações. A cada novo personagem que nasce, nasce também uma outra forma de enxergar o mundo. Enquanto os mais velhos possuem uma verdadeira obsessão em preservar um estilo de vida que já não cabe mais, os jovens vão se mostrando abertos às mudanças sociais e enxergando um futuro que pode levá-los para bem longe da Vila dos Tecidos.

O legado da Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

O legado da Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2024) é o terceiro volume de uma saga que acompanha a família Melzer, donos de um conglomerado têxtil e proprietários de uma mansão imponente conhecida como A Vila dos Tecidos. Eles vivem em Augsburgo, uma cidade do interior da Alemanha e são a família mais importante da região. Nessa terceira parte da história, estamos no início dos anos 20 e assistindo aos impactos e transformações sociais ocorridos na Alemanha após a primeira grande guerra. O país passa a ser uma República e a cultura e os costumes tradicionais estão passando por verdadeiras revoluções, principalmente em relação à condição das mulheres.


Após enfrentarem o terror da guerra e uma forte recessão econômica, a sociedade de Augsburgo e a família Melzer começam a viver tempos melhores. Parte da família e conhecidos morreram na guerra e por outro lado, crianças nasceram e crescem em tempos de paz, devolvendo parte da normalidade à Vila dos Tecidos.

Os Melzer passam a enfrentar os típicos problemas familiares da época, como a administração da fábrica, da mansão e a educação das crianças. Enquanto isso, continuamos a acompanhar o desenrolar das vidas de cada um dos personagens centrais e dos empregados que mantém a Vila dos Tecidos de pé.

Para quem acompanha a série desde o primeiro volume, é possível estabelecer uma relação mais próxima com a história, os dilemas da família e dos empregados. Como a intenção de Anne Jacobs, é contar a história da família através das gerações, a cada volume ela consegue aprofundar ainda mais no passado e nas aspirações de cada personagem.

Paul e Marie, o casal principal da trama, após enfrentar os preconceitos e constituir uma família, pois Marie passara de ajudante de cozinha a uma Sra. Melzer, começam a passar por uma crise conjugal, que surge por conta de algumas mudanças no modo de pensar da sociedade alemã do pós-guerra.


Marie, que já havia mostrado sua destreza durante a guerra, ao ajudar a salvar a fábrica de tecidos da falência, acaba abrindo seu próprio ateliê de costura e faz um sucesso imediato. Com isso ela passa a incomodar tanto seu marido, quanto sua sogra, que ainda acreditam que a função de uma mulher é cuidar da casa e dos filhos. A relação dos dois fica estremecida, a ponto de Marie deixar a vila dos tecidos juntamente com seus filhos.

Com a condição das mulheres passando por uma revolução, Marie se vê diante do dilema entre priorizar a família ou desistir de seus sonhos. A discussão mais interessante desse livro é justamente o choque entre modernidade e conservadorismo. Os personagens são colocados a prova todo o tempo, em um jogo onde precisam decidir se abraçam os novos tempos ou se viverão lutando, de forma saudosista, por uma mentalidade que não se sustentará.

As filhas da Vila dos Tecidos da Anne Jacobs

As filhas da Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2023) é o segundo volume da série “A Vila dos Tecidos”, que acompanha a história da família Melzer. Eles fazem parte da elite de uma pequena localidade do interior da Alemanha, são donos de uma importante fábrica de tecidos e de uma propriedade luxuosa (de mesmo nome da série), onde se desenrola toda a trama. Misturando ficção com contexto histórico da Alemanha, a obra utiliza de seus personagens para explorar as principais mudanças sociais e políticas que ocorreram no país a partir dos anos 1900.


No primeiro volume da série, fomos ambientados ao contexto do chão de fábrica e ao cotidiano da mansão dos Melzer através da história de seus moradores e empregados. É onde somos apresentados aos personagens e aos principais dilemas que irão impactar a história da família. Além dos amores e das dores, inicia-se um processo de convulsão social da Alemanha, onde costumes e política estão passando por mudanças significativas.

Durante toda a história de “A Vila dos Tecidos”, sopra um vento que anuncia a chegada de uma grande guerra, o que se torna o norte da narrativa de “As filhas da Vila dos Tecidos”.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, os homens vão para o front e as mulheres se veem diante da missão de gerir a Vila dos Tecidos, a própria fábrica e garantir alguma normalidade. Enquanto os recursos materiais e alimentícios vão ficando cada vez mais escassos, as filhas da família Melzer precisam lidar também com uma família que está em expansão e o medo constante da violência e da morte.

Algo interessante da obra é a exploração da visão alemã em relação às motivações da primeira grande guerra. Vemos uma população que mal sabia do que realmente se tratava o conflito, que entraram na luta com a certeza de uma vitória, e foram percebendo o quanto entraram em uma guerra estúpida, apenas para colocar o país diante de uma crise econômica sem precedentes.

A obra discute o papel do Imperador Guilherme II da Alemanha, e sua responsabilidade pessoal na eclosão da Primeira Guerra Mundial. O Kaiser alemão era uma figura controversa e violenta, que lutava pela manutenção dos privilégios da monarquia no país. Anne Jacobs faz um contraponto em sua narrativa, que mostra como a sociedade se dividiu entre apoiar Guilherme II, deslumbrados com uma ideia quase doentia de patriotismo, e entre aqueles que defendiam a ideia de República e que estavam cientes da opressão que o país se encontrava.

As notícias de guerra chegam até as filhas da Vila dos Tecidos através da privação de suprimentos básicos e das cartas enviadas pelos homens. As cartas servem como uma estratégia narrativa interessante, pois durante essas leituras é que se desenham os horrores que acontecem em um campo de batalha.

Roedores sempre haviam lhe provocado pânico, mas sua relação com eles mudou. Eram companheiros de sofrimento dos soldados: também viviam agachados embaixo da terra, se assustavam com os impactos dos projéteis e chegavam até mesmo a correr com os homens no momento dos ataques.
Para além do contexto de guerra, a obra se detém também sobre condição das mulheres, em uma época em que não podiam votar, estudar e muito menos ocupar posições de poder. O contexto de guerra mostra a força e a resiliência das mulheres para manter a família e a pátria de pé e com o mínimo de dignidade.

Embora lutasse pelo progresso da humanidade e a soberania do povo, em assuntos privados era terrivelmente conservador. Uma mulher não devia parecer “mundana”, mas manter a “naturalidade”. Cabelo longo, saia longa, temperamento suave. E nem pensar em fumar! Muito vulgar. Do mesmo modo, condenava o uso de batom e esmalte.
O intuito da série “A Vila dos Tecidos” é acompanhar a história da família Melzer através de várias gerações e a cada volume apresentar um pouco da história da sociedade alemã. 

As sete irmãs: a história de Ceci

A irmã da pérola: a história de Ceci é o quarto volume da série “As Sete Irmãs” que conta a trajetória de sete mulheres que foram adotadas ainda crianças por um excêntrico milionário chamado Pa Salt. Cada uma delas recebeu o nome de uma estrela da constelação das Plêiades e suas vidas sempre acabam esbarrando com alguma nuance dos mitos que rondam a constelação. Após a morte repentina do pai adotivo, as irmãs se reúnem na casa onde passaram infância e adolescência para prestar uma última homenagem e elaborar o luto. Lá elas descobrem que Pa Salt deixou uma carta para cada, uma pista sobre a família de origem e as coordenadas do lugar exato onde nasceram em uma esfera armilar. A partir daí cabe a cada uma delas seguir as trilhas deixadas pelo pai ou não.


“A história de Ceci” começa exatamente do ponto onde termina o volume anterior, “A irmã da sombra”. É impossível contar a história dessas duas irmãs de forma desconectada, uma vez que se tornaram inseparáveis desde que se conheceram. Ceci e Estrela construíram uma relação de dependência não muito saudável e que era foco de preocupação dos demais membros da família. Enquanto Ceci D’Aplièse possuía uma personalidade mais elétrica, aventureira e dominadora, Estrela representava o oposto, sendo também uma pessoa mais introspectiva e de poucas palavras. Ceci se torna a voz de Estrela e Estrela o pouso de Ceci e a representação de um lar. Cada uma a sua maneira precisava encontrar a própria individualidade. Depois de acompanharmos o aflorar da independência de Estrela em “A irmã da sombra”, partimos para a jornada de autodescoberta de Ceci em “A irmã da pérola".

As pistas de Pa Salt levam Ceci para a Austrália. Mais uma vez vemos o cuidadoso trabalho de pesquisa histórica de Lucinda transformado em ficção. A Austrália é um país único, com uma cultura singular e a história familiar de Ceci está ligada ao próprio desenvolvimento de uma região daquele país. A história de Ceci se passa no coração do outback australiano, envolta em arte aborígene e na exploração de pérolas.

Ceci D’Aplièse logo sente que realmente suas origens estão ali, naquela terra que ainda não conhecia e sua procura a leva até uma pequena comunidade no vasto Centro Vermelho da Austrália, a Missão Hermannsburg, perto de Alice Springs. Lá, ela aprende sobre o mais prestigiado habitante local chamado Albert Namatjira, o artista aborígine australiano mais famoso do século XX. Como Ceci também é uma pintora, sua viagem acaba se tornando mais do que uma busca por vínculos de sangue, pois Ceci acaba reencontrando também a inspiração para voltar a pintar.

Entre as personalidades reais que aparecem em “A irmã da Pérola” está o próprio Albert Namatjira e sua relação com Hermannsburg, que foi uma missão luterana fundada em 1877 por pastores do norte da Alemanha, mas logo se tornou uma vila intercultural, abraçando as culturas da Europa e do povo arrernte. Lucinda insere na história de Ceci a maldição da pérola rosada, uma lenda bastante conhecida de uma região da Austrália.

Em muitas entrevistas que Lucinda concedeu na época de lançamento da obra, ela deixa registrado seu encantamento pela Austrália e conta como a suposta maldição da pérola foi um foco de inspiração para sua escrita. "Logo após chegar a Broome, em meio à estação das chuvas, ouvi a história da amaldiçoada Pérola Rosada. Isso pôs um grão de areia na concha do que eu já imaginava para a história de Ceci".

Aparentemente, há mais de cem anos, quando Broome – uma pequena cidade na costa noroeste da Austrália – era o epicentro do comércio mundial de pérolas e conchas, um mergulhador descobriu uma pérola de beleza ímpar. Antes que ele pudesse reivindicá-la, seu mestre mandaçarre a tomou para si.

Porém, durante uma noite de celebração regada a bebida, outro mergulhador roubou-a e vendeu-a para um contrabandista de pérolas roubadas, que foi ludibriado e morto. A maldição da pérola começava a tecer sua trágica teia.

Os assassinos, dois ladrões chineses, foram posteriormente capturados e enforcados por um crime diferente. A pérola acabou nas mãos de um homem que morreu de ataque cardíaco antes que pudesse comemorar sua sorte. O dono seguinte cometeu suicídio após a pérola ser roubada, e o que veio em seguida também foi assassinado.

Ao longo dos anos, a Pérola Rosada deixou um rastro de morte e infortúnio por onde passou, até que, em 1912, Abraham de Vahl Davis, um comerciante de pérolas que trabalhava a serviço do famoso mestre Mark Rubin, teria comprado a joia por 12 mil libras australianas – naquela época, uma soma astronômica. De Vahl Davis embarcou no SS Koombana em sua última e fatídica viagem, e muitos acreditam que a pérola se perdeu no ciclone que afundou o navio, juntamente com todos os 150 passageiros a bordo, em 20 de março de 1912.
Lucinda narra também um naufrágio que realmente aconteceu e que é muito importante para o arco narrativo da história. Ao norte de Port Hedland, na costa da região de Pilbara da Austrália Ocidental, o navio de passageiros australiano Koombana foi pego por um ciclone. O navio desapareceu sem deixar vestígios e não houve sobreviventes. O naufrágio do Koombana ainda é um dos mais graves naufrágios relacionados ao clima na Austrália.

"A irmã da pérola" é um volume cheio de reviravoltas. Ele entrega várias pistas importantes para montarmos o grande quebra cabeças que é a saga em si. A cada volume ficamos mais instigados em relação as motivações de Pa Salt em reunir seis meninas de países diferentes em uma casa e o porque de Mérope, a irmã que representaria a sétima estrela das Plêiades nunca ter chegado até a casa onde as demais garotas foram criadas. A história de Pa Salt é um mistério mesmo para as pessoas que o amavam e até mesmo as circunstâncias de sua morte não são muito claras. 


As sete irmãs: a história de Ally da Lucinda Riley

A irmã da tempestade: a história de Ally da Lucinda Riley (Arqueiro, 2015) é o segundo volume da série “As sete irmãs” que narra a busca de cada uma delas por suas origens após a morte do pai adotivo. Utilizando de algumas pistas deixadas pelo pai através de coordenadas geográficas, uma carta e alguns outros vestígios, cada uma delas precisa decidir se quer ou não conhecer seu passado e as motivações de terem sido entregues à adoção, por isso os enigmas. Pa Salt, como era chamado carinhosamente pelas filhas, parece deixar um recado de que é só através da busca por suas origens que as suas filhas poderão enfrentar os problemas que encontram no presente. No caso de Ally um dos recados do pai diz que “em momentos de fraqueza, você vai encontrar sua maior força”.


As sete irmãs Maia, Ally, Estrela (Asterope), Ceci (Celeno), Tiggy (Taígeta), Electra e Mérope (desaparecida), foram nomeadas assim em homenagem à mitologia das sete irmãs e a constelação das Plêiades, a mais próxima do cinturão de Orium. Elas são pegas de surpresa com o falecimento do pai e se reencontram em Atlantis, a mansão em que foram criadas com muito carinho por Pa Salt e a governanta Maria. Se a própria existência de Pa Salt sempre fora cercada de um grande mistério, inclusive pela escolha de adotar as irmãs, as circunstâncias de sua morte são um mistério ainda maior, ponto que vai ficando ainda mais instigante após cada volume dessa saga familiar.

No primeiro volume, conhecemos a história de Maia, a primeira irmã. A narrativa nos leva a visitar um outro país e também a viajar no tempo, pois para entender a história de Maia, era preciso entender as gerações de uma mesma família e a cultura de um lugar - no caso o Brasil.

Em “A história de Ally” não é diferente. Após ler a carta de Pa Salt e se deparar com aquelas pistas inicialmente impossíveis de se entender, Ally demora a se decidir por seguir as informações e só após alguns acontecimentos é que decide embarcar para a Noruega, onde sua possível origem familiar possui raízes. É interessante ler os livros na ordem, pois Lucinda faz algo bem empolgante que é terminar cada volume inserindo a história da próxima irmã e durante toda a narrativa, alguns diálogos que aconteceram no primeiro livro, voltam a acontecer no segundo. O mesmo diálogo ou acontecimento que tiveram Maia, a primeira irmã como protagonista são reescritos no segundo volume sob o olhar de Ally, uma vez que as histórias partem de um mesmo ponto: o reencontro das irmãs em Atlantis. 

Uma outra característica da obra de Lucinda é que ela  se debruçava em uma pesquisa sobre os locais para os quais leva a história de cada uma das irmãs. Quando levou a personagem Maia para o Brasil, o leitor consegue perceber que fora feito um estudo muito atento sobre a cultura e os costumes do nosso país para inserir a personagem de forma crível no tempo e espaço. No segundo livro, Lucinda nos leva junto com Ally, a segunda irmã, para uma viagem pela história da Noruega e com uma forte exploração da relação do país com a música clássica e a guerra.

A escritora utiliza de alguns contextos e personagens históricos reais. De forma audaciosa ela insere sua personagem principal no arco de grandes musicistas e demais artistas da Noruega, como os responsáveis pela estreia de uma das óperas mais famosas do mundo, a suíte Peer Gynt, do compositor Edvard Grieg. Entre os personagens reais estão figuras como Edvard Grieg e Henrik Ibsen.

Edvard Hagerup Grieg foi um compositor e pianista norueguês. Ele é amplamente considerado um dos principais compositores da era romântica, e sua música faz parte do repertório clássico padrão em todo o mundo. O uso e o desenvolvimento da música folclórica norueguesa em suas próprias composições colocam a música norueguesa no espectro internacional, além de ajudar a desenvolver uma identidade nacional. Grieg é considerado simultaneamente nacionalista e cosmopolita em sua orientação, pois embora tenha nascido em Bergen e lá enterrado, ele viajou muito por toda a Europa e considerou sua música uma expressão tanto da beleza da vida.
Henrik Ibsen é considerado um dos precursores do teatro moderno. Nasceu a 20 de março de 1828, em Skien, na Noruega. Pertencia a uma família numerosa e arruinada. Os seus interesses iam, contudo, para a política e para a literatura. As suas primeiras obras-primas, Brandt (1866) e Peer Gynt (1868) evidenciam a atração pela dialética dos extremos opostos, resumida na expressão "ou tudo ou nada". O autor valoriza a manifestação da vontade e da personalidade humanas, atacando a cobardia e o espírito conformista.



Lucinda deixa nítido no texto de agradecimento do livro que por mais que utilizasse de personagens reais, a personalidade de cada um deles fora retirada de sua imaginação. A forma como ela os descreve enquanto indivíduos não tem qualquer relação com a realidade e estão ligados a forma como eles adentraram em sua vida. A suíte Peer Gynt, por exemplo, faz parte da memória afetiva de Lucinda. Seu pai voltou com um LP após uma viagem à Noruega e segundo suas próprias palavras a obra se tornou uma música de fundo de sua infância.

O destino de Ally tem uma grande ligação com o de uma outra mulher que se quer ela sabia já ter existido. Ao voltarmos no tempo em algumas gerações, saberemos que Ally faz parte da mesma linhagem da cantora Anna Landvik, que há mais de cem anos participou da estreia da obra Peer Gynt. O detalhe fantástico é que inicialmente Anna era apenas uma voz fantasma que ficava por trás da cortina, nas coxias, enquanto uma outra atriz dublava sua bela voz. Esse foi mais um elemento real que Lucinda captou para sua história, pois em sua pesquisa acabou descobrindo que verdadeiramente existia uma “voz fantasma” nas primeiras apresentações de Peer Gynt e que sua identidade é desconhecida ainda hoje.

Anna se apaixona loucamente por um jovem músico chamado Jens Halvorsen que também faz parte da montagem da obra e que é quase uma personificação da própria história contada na suíte Peer Gynt. Esse encontro irá mudar completamente o rumo da história de Anna e irá repercutir em cada uma das gerações seguintes.

Enquanto a personagem Ally investiga seu nascimento, outras histórias vão se revelando, outras gerações vão despontando, em uma saga que fala sobre amor, morte, perdas, a paixão pela música, a destruição da guerra e os encontros e reencontros que a vida promove. Para embarcar na escrita da Lucinda é preciso estar disposto a romper as barreiras entre passado e presente e mergulhar sem medo em um universo detalhista, repleto de personagens e de pistas que serão importantes para os demais volumes da série.


As sete irmãs: a história de Maia de Lucinda Riley

As sete irmãs: a história de Maia da Lucinda Riley (Editora Arqueiro, 2016) é o primeiro volume de uma série de sete livros que conta a história de uma família formada através da adoção. Cada livro se dedica à história de uma das irmãs, colocando-as como narradoras dos acontecimentos. Maia, Ally (Alcíone), Estrela (Astérope), Ceci (Celeno), Tiggy (Taígeta) e Electra foram adotadas em momentos diferentes da vida pelo misterioso Pa Salt e seu falecimento repentino faz com que as meninas, agora mulheres, se juntem novamente em Atlantis, mansão onde foram criadas, para uma tentativa de despedida. Existe um mistério sobre a sétima irmã que até então nunca se juntara as demais - Mérope (a irmã desaparecida). Juntas, elas descobrem que Pa Salt deixou uma carta e uma pista para cada uma delas sobre suas famílias biológicas e o lugar de onde vieram. A partir daí embarcamos na busca das origens de Maia, a irmã mais velha, que até então não sabia que nascera no Brasil.



Sabendo da faceta mais introspectiva e reclusa de Maia, uma das provocações deixadas na carta de Pa Salt foi o desafio para que Maia enfrentasse seus medos. Movida por um rompante ela embarca para o Rio de Janeiro e aos poucos vai conhecendo as minúcias do país que nascera. Maia não só nasceu no Rio como sua família de origem foi uma das mais prestigiadas em uma época onde produção de café e administração de fazendas gerava um estilo de vida digno de reis e rainhas. Quando chega à casa que pertencera a seus antepassados, Maia encontra um casarão decrépito e já sem o brilho dos anos de glória.

Maia encontra no Rio de Janeiro o apoio de um escritor e historiador chamado Florentino. Eles já se conheciam, pois Maia havia traduzido um de seus livros para o francês. Com os elementos coletados por Maia e o conhecimento histórico e local de Florentino, os dois embarcam em uma viagem pela cidade do Rio atual e do Rio de aproximadamente cem anos atrás. É quando conhecemos a história de amor de Izabela Bonifácio, bisavó de Maia, e Laurent Brouilly, um escultor francês que participou da confecção do Cristo Redentor. Uma história de amor que irá mudar para sempre o rumo da família de Maia.

Com uma trama que carrega elementos já conhecidos de diversas outras histórias como o amor impossível, as amarras de um contexto social conservador e outros clichês, o livro ganha corpo e consistência ao apostar em uma narrativa que viaja no tempo para investigar a história de uma família, ao explorar elementos místicos relacionados aos mitos e lendas da constelação das plêiades e que dão nome a cada uma das irmãs, ao transformar o pai adotivo em uma figura onipotente e onipresente com muitos segredos, ao criar uma história paralela à construção do Cristo Redentor, um dos maiores símbolos do Brasil e uma das novas sete maravilhas da humanidade.

Para tanto, fica nítido como Lucinda Riley executou uma cuidadosa pesquisa sobre o Brasil, o Rio de Janeiro e a construção do Cristo Redentor. Sendo uma escritora irlandesa, a gente inicia a leitura aguardando um desfile de estereótipos sobre o nosso Brasil aflorarem a cada página e não é isso o que acontece. Lucinda teve muito cuidado ao descrever nossa cultura e nossos costumes sem perder, é claro, aquele leve estranhamento estrangeiro em relação aos nossos costumes e mazelas que sempre nos colocam na posição de região “exótica” do planeta.

No que se refere à vinculação com a construção do Cristo Redentor, toda a obra se passa em torno desse acontecimento. O Cristo tem importância tanto para a ambientação da história no Brasil como para o desenrolar da trama. Os personagens principais estão totalmente envolvidos no projeto do Cristo e parte de um grande segredo de família também se vincula ao processo de lapidação da estátua.

“A história de Maia” é também um romance histórico. Lucinda misturou personagens reais com personagens fictícios e conta uma parte da história do Rio de Janeiro. Estão lá figuras como Heitor da Silva Costa, arquiteto e engenheiro do Cristo Redentor e Paul Landowski o escultor francês que modelou as peças que compõem a estátua. A escritora Lucia Machado de Almeida é citada por diversas vezes durante a obra e sua filha, a Margarida de Lopes Almeida, foi transformada em uma personagem de atuação fundamental no livro como uma das amigas da bisavô de Maia. O parque Lage como presente de amor de Henrique Lage para a cantora lírica Gabriella Besanzoni também é um fato citado no livro, sendo que parte da história se passa exatamente na época. 

A saga familiar da Lucinda foi uma grata surpresa. Consegui me envolver na história que tem uma trama bem construída e personagens interessantes. A gente acaba sendo movido pela curiosidade do olhar estrangeiro sobre o Brasil e sente a vontade de aprofundar em algumas particularidades sobre a cidade do Rio de Janeiro e também do contexto histórico do Cristo Redentor. É nítida a admiração e respeito que Lucinda Riley tinha pelo Brasil. 


A estrada da noite de Joe Hill

A estrada da noite do Joe Hill (Editora Arqueiro, 2007) foi o primeiro livro do autor. Na obra, Joe nos leva  para uma viagem por uma estrada com muitos trechos de arrepiar. Judas Coyne é um cinquentão que vive recluso, aproveitando de algumas mordomias e a estabilidade de ser uma lenda do rock. Uma série de acontecimentos fizeram com que Jude se afastasse  dos holofotes e fosse viver uma  vida onde a música passou  a ser mais um hobbie do que sua profissão.


Durante a narrativa vamos conhecendo mais detalhes  sobre a vida de Jude, mas inicialmente, o que encontramos é um homem com traumas familiares, lidando com consequências de uma juventude regada à álcool, drogas e com extrema dificuldade de dar e receber afeto.

Judas Coyne nomeia cada mulher  com que se relaciona  com o nome do Estado de onde elas vieram. Geralmente, essas mulheres são fãs dos tempos áureos de sua banda e de suas músicas, e por isso acabam se sujeitando a uma relação onde se assemelham mais a um objeto a serviço de Jude. Pela vida de Jude passaram muitas mulheres góticas carregando como apelido os nomes de seus Estados de origem, mas será a relação estabelecida com Florida e Geórgia que irá modificar para sempre sua história.

Judas Coyne é um homem que coleciona objetos e todo tipo de coisa que tenha um histórico sombrio , que estejam vinculados a acontecimentos brutais e assombrosos. Essa é umas das excentricidades desse astro da música pesada.

Jude tinha uma coleção particular. Tinha desenhos emoldurados dos Sete Anões na parede do estúdio, entre seus discos de platina. John Wayne Gacy, o "Palhaço Assassino" , fizeram os esboços quando estava na cadeia e os mandara para ele. Gacy gostava da Disney dos anos dourados quase tanto quanto gostava de molestar crianças pequenas, quase tanto quanto gostava dos discos de Jude. Jude tinha o crânio de um camponês do século XVI, que fora perfurado para os demônios saírem. Guardava um monte de canetas enfiadas no buraco no centro do crânio. Tinha a confissão de 300 anos atrás assinada por uma feiticeira...

Um certo dia, seu assessor chega com uma notícia de que uma pessoa estava vendendo um paletó assombrado na internet. O anúncio dizia que quem o comprasse levaria junto o fantasma de um homem idoso que não se afastava daquele objeto. A excentricidade de Jude fala mais alto e ele arremata a peça nesse leilão suspeito sem nem desconfiar que a partir da chegada do paletó do homem morto ele não teria mais paz. O homem morto passaria  a ser presença  constante nos corredores da casa de Jude em aparições cada vez mais assustadoras e violentas traçando uma trama cheia de reviravoltas e sustos.

Joe Hill é filho de Stephen King, o mestre do terror. Quem gosta das obras de King provavelmente também gostará da proposta narrativa de "A estrada da noite". Hill não copia as estratégias narrativas de seu pai, mas assim como ele consegue usar muito bem dos clichês do terror para criar uma história que prende pela sua condução, pelas características das personagens e pelas boas descrições dos momentos apavorantes que estão em nosso imaginário.



A mulher na janela de A.J. Finn

A mulher na janela do A.J. Finn (Editora Arqueiro, 2018) é um thriller de suspense que acompanha a vida de Anna Fox, uma mulher que sofre de agorafobia após uma tragédia que assola sua família. Essa condição psicológica a impede de sair de casa. Como já está há quase um ano sem contato direto com o exterior, uma das distrações de Anna é acompanhar a vida de seus vizinhos através da janela. Um dia ela pensa ter presenciado um crime na casa em frente e é a partir desse acontecimento que muitas coisas começam a mudar em sua vida. O crime realmente aconteceu ou é fruto da cabeça de Anna que vive a base de fortes remédios e do uso abusivo de álcool? É isso que Anna tenta descobrir.


"A mulher na janela" é um livro cheio de clichês do gênero de suspense, mas isso não seria um problema se fossem usados com mais criatividade e inteligência. Nos primeiros capítulos já conseguimos sacar um dos principais pontos de reviravolta da trama, o chamado plot twist. Sinceramente, acho que um bom plot twist é aquele que você não está esperando e que portanto não imagina que irá acontecer, mas na obra de Finn a gente só fica juntando os pontos e aguardando ele confirmar nossas suspeitas - o que acontece. Essa facilidade da leitura, que diria que nem está ligada à escrita de A.J. Finn que é até fluida, mas a previsibilidade dos fatos acaba prejudicando a obra.

O autor consegue apresentar bem as personagens. Anna Fox tem uma personalidade rica, sua profissão é algo relevante para a narrativa, uma vez que ela é terapeuta especialista em crianças, e também sua condição psicológica aliada ao fato de seu isolamento social poderiam ter sido exploradas de forma a dar mais camadas à história. O autor joga um tapete cheio de possibilidade de trama aos nossos pés, mas depois não faz nada com isso.

As partes mais interessantes do livro estão na relação de Anna Fox com o cinema. Anna é cinéfila e possui um grande acervo de filmes antigos em casa. Em muitas passagens o autor consegue brincar utilizando diálogos de filmes famosos para nos mostrar quem é Anna, em que tipo de história ela está inserida, e até mesmo a própria personagem utiliza de sua paixão pelo cinema para interpretar sua condição e tentar entender seu próprio mistério.

A mulher na janela é um livro para aqueles momentos em que você quer ler apenas por distração. É uma obra que não desafia o leitor e que em pouco tempo pode se tornar irrelevante para sua trajetória leitora. Se existe a tal da literatura de entretenimento, esse é um livro que pode ser catalogado nessa seção. Um filme baseado nesse thriller já foi produzido e acredito que na mão de um bom diretor pode se tornar maior que o livro.