Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2025) é o volume que encerra a saga da Família Melzer e que nos leva para dentro da Alemanha nazista, durante o período mais violento da Terceira Guerra Mundial. Na obra, acompanhamos a guerra através das notícias que são controladas pela propaganda nazista e pelas eventuais consequências do conflito para a vida prática. A violência começa como um boato, parte para a perseguição e desaparecimento de pessoas, emerge ao estado de falta de acesso aos suprimentos básicos, até chegar no cair das bombas.


Assim como nos demais volumes, os Melzer precisam lutar para manter a fábrica de tecidos e a mansão em funcionamento, mas agora com o agravante de uma guerra em andamento. Paul, o diretor da fábrica, se vê dessa vez sem o apoio de sua esposa Marie, que fora para os EUA assim que iniciaram as perseguições aos judeus. Assim, acompanhamos as vivências de guerra de parte da família Melzer em pleno solo alemão, e de Marie e seu filho Leo, que precisam refazer a vida na América enquanto recebem apenas notícias da situação da Alemanha.

Marie foi para os EUA pensando em sua própria sobrevivência e também na proteção de sua família. Ficando na Alemanha, correria sério risco de parar em um campo de concentração nazista. Tanto a fábrica, quanto a mansão da família estariam em risco, uma vez que Paul nunca aceitaria se divorciar da esposa, algo que era imposto pelo regime nazista. Além da luta pela sobrevivência, o amor de Paul e Marie é colocado a prova. A separação física e emocional entre os dois evidencia como o tempo e as circunstâncias podem transformar sentimentos, criando dúvidas, ressentimentos e novos caminhos.

Em o “Reencontro na Vila dos Tecidos” a guerra nos coloca diante de várias reflexões que versam sobre visão de mundo, liberdade e nacionalismo. Quando a família Melzer se vê diante da ascensão de um regime violento e segregador, precisam aprender a encontrar formas de não abrirem mãos de seus ideais, ao mesmo tempo em que de forma alguma poderiam ser vistos como inimigos do regime. A saudação nazista deveria ser proferida em todo encontro, a suástica deveria estar hasteada na fábrica e na mansão, assim como a foto do fuhrer deveria estar exposta no escritório de Paul.

Quando os jovens da Vila dos Tecidos são convocados para a guerra e passam a fazer parte do exército alemão, mais uma vez nos vemos diante de reflexões sobre até onde deve ir a noção de patriotismo, uma vez que uma convocação militar não leva em consideração a ideologia política de um cidadão.

A guerra era um negócio desgraçado e desumano. Não tinha quase nada de heroísmo, mas era encharcada de suor, sujeira e sangue, de ferimentos deformadores e gemidos de moribundos. Que diabo o havia possuído para ele embarcar no otimismo generalizado e se voluntariar para aquela desgraça, acreditando que assim iria colaborar para a libertação de sua pátria das garras do nazismo.
Anne Jacobs trabalha bem o impacto da guerra não apenas no cenário político, mas também na vida íntima dos personagens, mostrando como o medo, a culpa e a insegurança influenciam decisões pessoais. A autora utiliza múltiplos pontos de vista, permitindo uma visão mais ampla dos acontecimentos e fortalecendo a conexão com os personagens em uma obra que além de emocionar precisa fechar um arco narrativo que foi desenvolvido ao longo dos seis volumes da saga.

Tormenta na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

Tormenta na Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Arqueiro, 2025) é o quinto volume da série “A Vila dos Tecidos”. A saga acompanha a história da família Melzer, que vive em uma grande mansão conhecida como Vila dos Tecidos e são donos de um conglomerado têxtil em Augsburgo na Alemanha. Do primeiro volume para cá, acompanhamos as conquistas e as perdas da família através dos tempos, onde não só o amadurecimento de cada personagem dita a narrativa, como também as grandes mudanças sociais do século.


Em “Tormenta na Vila dos Tecidos” vemos uma nova geração da família Melzer no centro da história, como por exemplo, os filhos de Paul e Marie, que estão na faixa dos 19 anos de idade. O mundo que Paul e Marie conheciam se tornou outro e esse choque geracional ajuda a dar o tom da obra. Vemos o desenrolar das significativas mudanças políticas da Alemanha do pós-guerra, como também o processo de emancipação das mulheres, que começam a se vestir com mais liberdade, a explorar seus desejos e ocupar cargos que eram exclusivos para homens.

Nesse ponto da história, temos uma narrativa envolvente e ao mesmo tempo bastante tensa. O ano é 1935 e o Partido Nacional-Socialista está ganhando força na Alemanha após um período de grave crise econômica. É angustiante a forma como a autora vai nos inserindo, aos poucos, no clima de medo e repressão que toma conta do país. De repente, suásticas são avistadas por todas as partes, assim como a imagem de Adolf Hitler. O seu próprio nome se tornou uma saudação obrigatória, onde todos aqueles que não a proferiam, eram automaticamente considerados inimigos do partido.

Existia algum lugar no mundo para os exilados? Um país no meio do nada, flutuando entre o céu e a terra e onde pessoas de todas as nações e de todas as cores convivessem amistosamente umas com as outras?
Logo, a descendência judaica de Marie, passa a ser motivo de preocupação. O partido nazista iniciara seu plano de perseguição ao povo judeu e o afastamento das pessoas de origem judaica, assim como qualquer tipo de contato afetuoso e financeiro, passa a ser encorajado. Marie, é a primeira da família Melzer, a perceber o perigo que o nazismo representava, inclusive para sua existência, e o abandono de sua própria pátria passa a ser a única alternativa.

Não era turista e não estava visitando parentes. Mas planejava abandonar seu lar por um longo tempo e tornar-se americana. Não estava fazendo aquilo por livre e espontânea vontade, mas porque era judia. Porém, não se sentia particularmente ligada aos muitos imigrantes judeus no navio, mesmo que dividisse aquele destino com eles. Ela era judia porque três de seus avós tinham sido judeus. Mas ela própria nunca se enxergara como tal até então. Não conhecera seus avós, seu pai também morrera antes de ela nascer, e só tinha uma lembrança distante de sua mãe que desvanecia cada vez mais com o passar dos anos. Fora criada de forma cristã no orfanato, e nunca ninguém lhe dissera que era judia. Marie se sentia estranha, solitária entre aqueles dois mundos, não pertencendo a nenhum deles, e perguntava-se com amargura qual seria de fato a diferença entre um alemão “ariano” e um alemão “judeu”, já que, até então, eles tinham convivido todos juntos e tinham lutado lado a lado pelo mesmo país na guerra.

A família Melzer passa então a lidar com diversos dilemas morais. São vigiados de perto pela GESTAPO, a polícia política do estado nazista e Paul, precisa decidir até onde está disposto a abrir mão de suas convicções para salvar a tradicional fábrica de tecidos e proteger sua família.

O regresso à Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

O regresso à Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2024) é o quarto volume de uma saga que acompanha a história da família Melzer através das gerações. A história central se passa em Augsbourgo, uma cidade no sul do estado alemão da Baviera. A família administra uma grande fábrica de tecidos e uma imponente mansão conhecida como “A vila dos tecidos”. Tanto a fábrica, como a mansão já viveram dias de glória, status que anda ameaçado por conta de uma crise econômica que assolou a Alemanha após a primeira guerra mundial.


A série mescla ficção com contexto histórico, portanto, no pano de fundo desse volume, veremos como acontecimentos como o fim da primeira guerra mundial, a transformação da Alemanha em uma república, a quebra da bolsa de Nova York, que gerou uma crise mundial e a ascensão do partido nazista impactará no futuro da Vila dos Tecidos.

O céu de Augsburgo estava coberto de nuvens cinza que pairavam sobre as torres e os telhados antigos. Elas pareciam ainda mais pesadas no lado leste, entre a cidade e o rio Wertach, um afluente do rio Lech, onde grandes indústrias haviam se instalado. As fábricas de tecidos, papel e máquinas tinham assegurado o bem-estar da cidade durante décadas. Mas agora essa era parecia ter chegado ao fim.
Desde o início da saga, a autora vai construindo nossa proximidade com cada um dos personagens. Conhecemos os moradores da Vila dos Tecidos, assim como os empregados que mantém a fábrica e a mansão. A cada volume, ficamos cada vez mais íntimos de cada um deles, de forma que passamos a traçar uma linha temporal que nos situa no espaço e no tempo, mas que também embasam as tomadas de decisões, pois temos acesso a pormenores de suas histórias de vida.

Anne Jacobs trabalha bem com a contextualização histórica e consegue demonstrar, através do crescimento e envelhecimento dos personagens, as principais mudanças sociais que transformaram a Alemanha e o mundo. Ainda que a história parta de um contexto onde as mulheres não podiam votar, não podiam estudar, que toda sua vida jurídica carecia do aval de um homem e que praticamente a única perspectiva de futuro estava no casamento e formação de uma família, temos sempre presente na narrativa a força que as mulheres exerciam nos “bastidores”.

Conforme os anos vão passando, a autora explora como as mulheres foram conquistando alguma emancipação através de coisas simbólicas, como por exemplo no aspecto da vestimenta e do corte de cabelo. As primeiras mulheres que ousaram cortar o cabelo curto, eram vistas como despudoras e perdidas.

Cada mulher da Vila dos Tecidos, a seu modo, consegue enfrentar a repressão de alguma maneira. Seja silenciosamente ou de forma mais aguerrida, elas vão demonstrando como são peças fundamentais para a estruturação da casa e da família, mas também para crescimento e manutenção de uma sociedade que seja funcional.

Marie, que era a grande protagonista do início da série, chega ao quarto volume mãe de três filhos e tendo que lidar com uma filha que não aceita ser moldada para o casamento. Sua filha é apaixonada pelos estudos e pela dinâmica de funcionamento das máquinas, mostrando-se assim, uma grande aposta para a modernização da fábrica de tecidos. Já Leo, filho mais velho de Marie e Paul e que deveria ser o sucessor do pai nos negócios, só consegue enxergar um futuro feliz a frente de um piano e fazendo música.

O florescer dos desejos da juventude, servem como uma grande metáfora da revolução que a sociedade enfrentou no pós-guerra. Para além disso, a autora descreve a convulsão social que acabou permitindo o início da ascensão do Partido Nazista e como Hitler foi se tornando uma figura imponente na política alemã.

- O que está acontecendo em nosso país neste momento é motivo de preocupações muito maiores - disse ele para Paul. - Como podemos ler nos cartazes do NSDAP, eles estão responsabilizando os judeus pela derrota na guerra, pelo desemprego e, é claro, pela crise econômica mundial. Dizem que se alguém quiser salvar a Alemanha, terá que combater os judeus. E esses provocadores mentirosos têm cada vez mais seguidores.
De forma gradual, a autora vai transformando protagonistas em coadjuvantes e dando voz a novas gerações. A cada novo personagem que nasce, nasce também uma outra forma de enxergar o mundo. Enquanto os mais velhos possuem uma verdadeira obsessão em preservar um estilo de vida que já não cabe mais, os jovens vão se mostrando abertos às mudanças sociais e enxergando um futuro que pode levá-los para bem longe da Vila dos Tecidos.

O legado da Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

O legado da Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2024) é o terceiro volume de uma saga que acompanha a família Melzer, donos de um conglomerado têxtil e proprietários de uma mansão imponente conhecida como A Vila dos Tecidos. Eles vivem em Augsburgo, uma cidade do interior da Alemanha e são a família mais importante da região. Nessa terceira parte da história, estamos no início dos anos 20 e assistindo aos impactos e transformações sociais ocorridos na Alemanha após a primeira grande guerra. O país passa a ser uma República e a cultura e os costumes tradicionais estão passando por verdadeiras revoluções, principalmente em relação à condição das mulheres.


Após enfrentarem o terror da guerra e uma forte recessão econômica, a sociedade de Augsburgo e a família Melzer começam a viver tempos melhores. Parte da família e conhecidos morreram na guerra e por outro lado, crianças nasceram e crescem em tempos de paz, devolvendo parte da normalidade à Vila dos Tecidos.

Os Melzer passam a enfrentar os típicos problemas familiares da época, como a administração da fábrica, da mansão e a educação das crianças. Enquanto isso, continuamos a acompanhar o desenrolar das vidas de cada um dos personagens centrais e dos empregados que mantém a Vila dos Tecidos de pé.

Para quem acompanha a série desde o primeiro volume, é possível estabelecer uma relação mais próxima com a história, os dilemas da família e dos empregados. Como a intenção de Anne Jacobs, é contar a história da família através das gerações, a cada volume ela consegue aprofundar ainda mais no passado e nas aspirações de cada personagem.

Paul e Marie, o casal principal da trama, após enfrentar os preconceitos e constituir uma família, pois Marie passara de ajudante de cozinha a uma Sra. Melzer, começam a passar por uma crise conjugal, que surge por conta de algumas mudanças no modo de pensar da sociedade alemã do pós-guerra.


Marie, que já havia mostrado sua destreza durante a guerra, ao ajudar a salvar a fábrica de tecidos da falência, acaba abrindo seu próprio ateliê de costura e faz um sucesso imediato. Com isso ela passa a incomodar tanto seu marido, quanto sua sogra, que ainda acreditam que a função de uma mulher é cuidar da casa e dos filhos. A relação dos dois fica estremecida, a ponto de Marie deixar a vila dos tecidos juntamente com seus filhos.

Com a condição das mulheres passando por uma revolução, Marie se vê diante do dilema entre priorizar a família ou desistir de seus sonhos. A discussão mais interessante desse livro é justamente o choque entre modernidade e conservadorismo. Os personagens são colocados a prova todo o tempo, em um jogo onde precisam decidir se abraçam os novos tempos ou se viverão lutando, de forma saudosista, por uma mentalidade que não se sustentará.

As filhas da Vila dos Tecidos da Anne Jacobs

As filhas da Vila dos Tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2023) é o segundo volume da série “A Vila dos Tecidos”, que acompanha a história da família Melzer. Eles fazem parte da elite de uma pequena localidade do interior da Alemanha, são donos de uma importante fábrica de tecidos e de uma propriedade luxuosa (de mesmo nome da série), onde se desenrola toda a trama. Misturando ficção com contexto histórico da Alemanha, a obra utiliza de seus personagens para explorar as principais mudanças sociais e políticas que ocorreram no país a partir dos anos 1900.


No primeiro volume da série, fomos ambientados ao contexto do chão de fábrica e ao cotidiano da mansão dos Melzer através da história de seus moradores e empregados. É onde somos apresentados aos personagens e aos principais dilemas que irão impactar a história da família. Além dos amores e das dores, inicia-se um processo de convulsão social da Alemanha, onde costumes e política estão passando por mudanças significativas.

Durante toda a história de “A Vila dos Tecidos”, sopra um vento que anuncia a chegada de uma grande guerra, o que se torna o norte da narrativa de “As filhas da Vila dos Tecidos”.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, os homens vão para o front e as mulheres se veem diante da missão de gerir a Vila dos Tecidos, a própria fábrica e garantir alguma normalidade. Enquanto os recursos materiais e alimentícios vão ficando cada vez mais escassos, as filhas da família Melzer precisam lidar também com uma família que está em expansão e o medo constante da violência e da morte.

Algo interessante da obra é a exploração da visão alemã em relação às motivações da primeira grande guerra. Vemos uma população que mal sabia do que realmente se tratava o conflito, que entraram na luta com a certeza de uma vitória, e foram percebendo o quanto entraram em uma guerra estúpida, apenas para colocar o país diante de uma crise econômica sem precedentes.

A obra discute o papel do Imperador Guilherme II da Alemanha, e sua responsabilidade pessoal na eclosão da Primeira Guerra Mundial. O Kaiser alemão era uma figura controversa e violenta, que lutava pela manutenção dos privilégios da monarquia no país. Anne Jacobs faz um contraponto em sua narrativa, que mostra como a sociedade se dividiu entre apoiar Guilherme II, deslumbrados com uma ideia quase doentia de patriotismo, e entre aqueles que defendiam a ideia de República e que estavam cientes da opressão que o país se encontrava.

As notícias de guerra chegam até as filhas da Vila dos Tecidos através da privação de suprimentos básicos e das cartas enviadas pelos homens. As cartas servem como uma estratégia narrativa interessante, pois durante essas leituras é que se desenham os horrores que acontecem em um campo de batalha.

Roedores sempre haviam lhe provocado pânico, mas sua relação com eles mudou. Eram companheiros de sofrimento dos soldados: também viviam agachados embaixo da terra, se assustavam com os impactos dos projéteis e chegavam até mesmo a correr com os homens no momento dos ataques.
Para além do contexto de guerra, a obra se detém também sobre condição das mulheres, em uma época em que não podiam votar, estudar e muito menos ocupar posições de poder. O contexto de guerra mostra a força e a resiliência das mulheres para manter a família e a pátria de pé e com o mínimo de dignidade.

Embora lutasse pelo progresso da humanidade e a soberania do povo, em assuntos privados era terrivelmente conservador. Uma mulher não devia parecer “mundana”, mas manter a “naturalidade”. Cabelo longo, saia longa, temperamento suave. E nem pensar em fumar! Muito vulgar. Do mesmo modo, condenava o uso de batom e esmalte.
O intuito da série “A Vila dos Tecidos” é acompanhar a história da família Melzer através de várias gerações e a cada volume apresentar um pouco da história da sociedade alemã. 

A vila dos tecidos de Anne Jacobs

A vila dos tecidos da Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2023) é o primeiro volume de uma saga que nos apresenta à jovem Marie, uma órfã que após sair do orfanato onde morava, com a saúde debilitada, acaba indo trabalhar como ajudante de cozinha na mansão da família Melzer. A imponente e famosa mansão de tijolinhos vermelhos, situada na Vila dos Tecidos por conta do empreendimento de tecelagem que garantiu fortuna à família, é um lugar onde muitas tramas se entrelaçam. Tanto os membros da família, como os empregados da casa fazem parte de uma história cheia de dramas, intrigas, traições, segredos e histórias de amor.


A trama se inicia em Augsburgo na Alemanha, em meados do ano de 1913. O clima gelado da região onde os fatos se desenrolam, contrastam com a agilidade e fervor da luta pela sobrevivência dos mais pobres e a disputa por poder dos mais ricos. Nos andares de baixo, os trabalhadores da mansão precisam lidar com suas próprias dores e emoções, enquanto nos andares mais altos o casal Melzer e seus três filhos jogam o jogo daquilo que significava fazer parte da alta sociedade da época.

O pai, Johann Melzer, é um homem sério e sisudo que vive quase que exclusivamente em função do bom funcionamento da fábrica de tecidos, então pouco se envolve nas questões cotidianas da família, que ficam a cargo de sua esposa Alicia. A mãe é responsável pela administração da casa e por conter as brigas entre suas duas filhas, a bela e sonhadora Katharina e a fria e calculista Elisabeth. No núcleo familiar, ainda temos Paul, o filho mais velho que retorna à mansão em momentos isolados por conta dos estudos na capital.

Entre os empregados da casa, também somos apresentados a uma infinidade de personagens que serão cruciais para o desenvolvimento da história. Ainda que munidos por interesses diferentes, todos eles prezam por suas posições dentro da mansão por conta do desejo de ocupar posições melhores. Numa região afastada como aquela é quase um privilégio trabalhar na Vila dos Tecidos. Vamos percebendo que cada um deles, além de serem fundamentais para o funcionamento da casa, também guardam consigo pequenos capítulos que contam a história da localidade, da própria Vila dos Tecidos, como também os segredos mais íntimos da família Melzer.

A vila dos tecidos é um romance que carrega todos os clichês que já conhecemos, então se torna uma leitura de nicho que não deixa de ter seus apreciadores. Nas bibliotecas os leitores costumam chamar esse tipo de leitura de “água com açúcar”, outros de "leitura de entretenimento". 

O livro mescla em suas páginas as vivências das personagens, ao mesmo tempo que também passeia pelo contexto histórico da época ao descrever os modos de vida, as convenções sociais, os costumes, o desenvolvimento da economia através da industrialização e as lutas por direitos na Europa Central do início do século XX. Como se trata do primeiro volume de uma série, o romance se preocupa em nos apresentar os personagens e durante todas as páginas existe um vento, que sopra aos ouvidos algumas tensões que culminarão na primeira grande guerra.

Os Sofrimentos do jovem Werther do Johann Wolfgang von Goethe

Os Sofrimentos do jovem Werther do Johann Wolfgang von Goethe (TAG Experiências Literárias, 2022) é um romance clássico considerado um dos pioneiros do romantismo alemão e envolto em histórias que vão para além da obra em si. O livro foi lançado originalmente em 1774, em um período onde predominava nos discursos, nos códigos sociais e na própria literatura um apego ao racionalismo. Goethe subverte o cenário ao apresentar uma história e um personagem que aos poucos vai se entregando a um estado de completo descontrole devido a um amor não correspondido. Werther carrega consigo uma intensidade e uma entrega a sentimentalismos (que também vão para além do amor) que influenciaram muitos jovens escritores a apostar em uma escrita artística e sensível. Como seria dito nos dias de hoje, Werther é um emocionado.


Alguns livros se tornam verdadeiros fenômenos literários, e por vezes, são vinculados a acontecimentos trágicos. “O apanhador no campo de centeio” do J.D Salinger, por exemplo, é apontado por muitos como desencadeador de uma série de crimes violentos, sendo o mais famoso deles o assassinato de John Lennon. “Os Sofrimentos do jovem Werther” é associado a uma onda de suicídios que dizem ter ocorrido em sua época de lançamento. Esse é um fato que não pode ser comprovado por nenhum tipo de registro, mas que paira como um fantasma sob a obra. O livro chegou a ser considerado maldito pela igreja católica, foi proibido em países como Itália e Dinamarca e mais tarde a psicanálise cunhou o termo “efeito Werther” para falar sobre uma possível tendência de o suicídio ser algo “contagioso” e que pode ser incentivado se falarmos sobre ele.

Uma outra nuance que demonstra o impacto da obra de Goethe como fenômeno literário é que os jovens da época passaram a organizar animadas rodas de leitura, onde se reuniam para ler em voz alta alguns trechos e apreciarem a força poética do texto. Era comum também que eles se vestissem assim como o personagem Werther.

Não é segredo para ninguém o desfecho de “Os Sofrimentos do jovem Werther”, justamente pelo impacto que a obra tem e pela temática que aborda. O livro termina com o suicídio de Werther, após não conseguir lidar com um amor não correspondido. O clímax da obra não é a morte em si, mas o processo que o leva a ela. Apesar da grande polêmica gerada e esse caráter de fenômeno literário, onde a ficção ganha contornos inimagináveis na vida real, o pequeno romance também é visto pela crítica como um dos mais grandiosos da literatura alemã.

É muito fácil chegarmos à conclusão de que Goethe, ao escrever a história, não poderia imaginar o que fariam com os ecos da leitura, uma vez que entendimentos, sentimentos e interpretações que fazemos de uma narrativa são muito íntimos. Acredito que talvez o que tenha propiciado essa espécie de “histeria coletiva” é o simples fato de que o livro tocou em um assunto que se ainda hoje é tabu, imagina em meados de 1774? Ao acessarem os sofrimentos de Werther, as pessoas puderam de alguma forma projetar as próprias angústias, que por não serem tema de análise emergiram da única forma possível - caótica e sem elaboração.

O que é o homem, esse semideus louvado! Não lhe faltam as forças precisamente no momento em que mais precisa delas? E quando ele toma voo na ventura, ou afunda na tristeza, não será ainda aí limitado à força e sempre reconduzido ao sentimento de si próprio, ao triste sentimento da sua pequenez, justo quando contava perder-se na imensidão do infinito?

Fato incontestável é a qualidade do texto de Goethe. Para além da excelência literária de um dos maiores nomes da literatura mundial, temos em mãos uma obra que revolucionou ao falar de forma bastante intensa sobre sentimentos. Werther é um personagem que ou você ama ou você odeia, justamente por conta de sua personalidade e forma de ler o mundo e as pessoas. Werther é exagerado e não tem vergonha de sê-lo. Até a natureza reflete a alma de Werther e, por vezes, podemos dizer que ele é um homem desapegado da realidade.

A vida humana não passa de um sonho. Mais de uma pessoa já pensou nisso. Pois essa impressão também me acompanha por toda a parte. Quando vejo os estreitos limites onde se acham encerradas as faculdades ativas e investigadoras do homem, e como todo o nosso trabalho visa apenas a satisfazer nossas necessidades, as quais, por sua vez, não têm outro objetivo senão prolongar nossa mesquinha existência; quando verifico que o nosso espírito só pode encontrar tranquilidade, quanto a certos pontos das nossas pesquisas, por meio de uma resignação povoada de sonhos, como um presidiário que adornasse de figuras multicoloridas e luminosas perspectivas as paredes da sua cela… tudo isso, Wilhelm, me faz emudecer. Concentro-me e encontro um mundo em mim mesmo! Mas, também aí, é um mundo de pressentimentos e desejos obscuros e não de imagens nítidas e forças vivas. Tudo flutua vagamente nos meus sentidos, e assim, sorrindo e sonhando, prossigo na minha viagem através do mundo.
A narrativa inicia com Werther recluso em uma região interiorana, onde aparentemente está tratando de questões burocráticas de sua família. Como era comum na época, sua principal forma de comunicação era através de cartas. Através da estrutura de cartas, enviadas a um amigo, conhecemos sua excentricidade e intenso estado de sofrimento. Na primeira parte do livro temos um Werther contemplativo e na segunda um homem em processo perigoso de declínio. Como Werther já possui uma personalidade romântica, esse fato ganha contornos ainda maiores e confessionais que só um desabafo a um amigo permite.

Assim, ele não tem medo de dizer tudo o que sente e nós ficamos ali, como intrusos, como violadores de uma correspondência que não nos diz respeito, assim como a causa, a intensidade e o que uma pessoa faz do próprio sofrimento também não nos diz respeito. Werther vive até onde pôde aguentar, e lidando com uma impossibilidade de dizer na exata medida sobre a intensidade do que se passava dentro, mas ainda assim não deixou de buscar. O suicídio então se apresentou como o único conforto possível.

João Felpudo do Dr. Heinrich Hoffmann

João Felpudo ou histórias divertidas com desenhos cômicos do Dr. Heinrich Hoffmann (Editora Iluminuras, 2013) é um livro clássico da literatura infantil mundial. É permeado de ilustrações divertidas e com cores vivas que exploram o dia a dia das crianças através de suas traquinagens. Deparamos com a criança que quebra coisas e corre atrás de animais, com a menina que brinca com fogo apesar das advertências, da criança que não quer se alimentar como deve, dos garotos que fazem bullying quando isso ainda nem tinha nome, entre outras histórias que versam também sobre o universo dos adultos, mas que ainda assim carregam mensagens que são também alertas.


João Felpudo é um livro de uma história dentro da história, pois até a forma como a obra foi concebida é digna de virar uma narrativa ficcional. O jovem médico alemão Heinrich Hoffman, em plena época de Natal, saiu para procurar um livro ilustrado para presentear seu filho de apenas três anos e após analisar diversas obras ficou completamente desolado com a qualidade e as intenções das publicações com as quais se deparou.

À época do Natal de 1844, quando meu filho mais velho tinha três anos, fui à cidade comprar para ele um livro ilustrado como presente de festas, como parecia ser apropriado à pequena criatura daquela idade. Mas o que encontrei? Narrativas longas ou ridículos desenhos reunidos, histórias moralistas que começavam e terminavam com ameaçadoras prescrições, do tipo: 'A criança boazinha tem de ser sincera', ou: 'A criança boazinha tem de estar sempre limpa" etc.

Movido por esse incômodo, o médico alemão Heinrich Hoffmann decidiu, ele próprio, escrever e ilustrar um livro para seu filho. Ele não tinha noção de que a obra seria publicada um dia e se tornar referência. Já naquela época Hoffmann questionava o politicamente correto na literatura infantil e escreveu um livro com proposta diferente do que se encontrava na época produzindo um livro que por mais que carregue algumas lições, procura partir de um lugar mais lúdico e que reconhece as crianças como seres em estágio de descoberta.

Hoffman trabalhava como médico em um manicômio e também possuía um consultório onde atendia crianças. Sempre se sentiu incomodado em como muitas vezes os adultos utilizavam de elementos vindos do campo simbólico, da imaginação das crianças para criar ameaças e fazer concessões do tipo “se você não ficar bonzinho, o limpador de chaminés vem pegá-lo”, entre outros exemplos que conhecemos bem. Hoffmann via nessas ações um mal uso do poder que as narrativas podem ter na formação de uma criança e que podem se manifestar de outras formas para além da ameaça e do medo. O autor e médico era também bastante conhecido por sempre contar histórias para as crianças que atendia, como uma parte do processo de interação com as crianças.



Partindo de sua vivência com atendimento de crianças e da relação com o filho Hoffmann foi criando suas próprias histórias. Um dos diferencias das histórias do livro João Felpudo é que elas humanizam as crianças. Se antes as histórias queriam apenas convencer as mesmas a serem perfeitas a qualquer custo, as histórias divertidas do livro exploram as traquinagens, o mau comportamento e a desobediência das crianças, colocando-as em execução, mas sem deixar de mostrar que toda ação tem sua consequência.

Em “A história dos moleques pintados”, por exemplo, Heinrich trás uma temática não muito comum para meados do ano de 1844, que é o preconceito racial. A curta história narra a perseguição de um grupo de meninos a um jovem negro por conta do tom de sua pele. A história vista com os olhos mais críticos de hoje apresenta alguns problemas, mas nitidamente pode ser usada como exemplo de alguém que já produzia um discurso antirracista.

Uma obra como João Felpudo, que atravessa os tempos e encanta crianças de diversas gerações e diversos países nos leva a refletir sobre o poder mobilizador das histórias e da literatura na vida das crianças. Sobre um poder que leva uma obra imagética do século 19 chegar com fôlego ao século 21.