Escorpião de Nicole Alvarenga Marcello

Escorpião, de Nicole Alvarenga Marcello (Editora Urutau, 2024), é ao mesmo tempo uma carta de amor e de despedida. Com o tom sincero e confessional que uma carta exige, um homem que decidiu tirar a própria vida escreve para Lara, seu grande amor. Ainda que tenha tomado uma decisão da qual não vemos qualquer inclinação para a desistência, ele não suporta a ideia de partir sem se explicar a ela.


A escrita de Nicole Alvarenga consegue nos transportar diretamente para a melancolia do narrador. Enquanto acessamos seus pensamentos e memórias, chama a atenção a certeza de sua escolha pela morte.  Uma certeza que surge, ironicamente, de forma calma, branda e sem explosões. Isso transmite a sensação pungente de quem realmente desistiu.

Riso. Felicidade. Que riso? Que felicidade? Que eu não consigo. Eu sou só essa ruindade, esse veneno, o lado escuro de tudo, que eu inoculo em quem eu amo, sem querer. E que me fez esse morto-vivo, tapando buracos sem fundo.
Outro ponto forte está na representação de seu amor por Lara. “Embora a gente tenha sido feliz e se amado muito, eu fui foi uma espécie de agonia para você.” Enquanto lemos a carta, percebemos o quanto o personagem foi marcado por esse relacionamento, que aparenta ter sido breve, mas intenso, ao menos para ele. Ao falar com Lara, que talvez nem venha a ler a carta, o narrador embarca em um sincero diálogo consigo mesmo.

Eu sabia o que era morrer, Lara, mas queria saber o que era a morte. E eu achava que vendo meu avô no caixão eu ia entender. Depois disso peguei mania de cadáver, tudo que estava morrendo eu queria ver. Mas não era a mesma coisa. Em casa só murchava flor, matava-se um ou outro inseto. Quando fui ver alguém morto, já tinha passado muito tempo.
Em alguns trechos, o narrador reconhece o quanto boa parte de sua vida foi tranquila e estruturada, inclusive em aspectos como o apoio familiar. É exatamente nesse ponto que a obra se torna ainda mais instigante: ao demonstrar como o adoecimento mental opera de forma complexa e sem causas óbvias. Ao escrever a carta, vemos um homem analisando a própria trajetória e deixando claro que nem mesmo ele compreende a origem de sua melancolia e de seu sofrimento.

Ainda assim eu não era feliz, Lara. Nada do que eu fazia me ajudava. Eu achei que tornar o sofrimento um pouco menos sofrido me traria alívio. Mas não. Eu não entendia o porquê, mas ainda assim continuava.
O ato de escrever surge como um elemento central da obra. A escrita propicia um encontro entre o que sente e o que pensa alguém atravessado pela depressão. Ao tentar colocar a dor em palavras, o sofrimento ganha uma forma palpável, tornando possível ao menos o reconhecimento de que algo está fora do lugar. No caso do protagonista, esse reconhecimento não o desviou do desejo suicida; para muitas pessoas, contudo, a capacidade de nomear o que se sente pode ser justamente o ponto de virada para salvar uma vida.

Com uma prosa enxuta e poética, Nicole Alvarenga Marcello nos convida a encarar o abismo da mente humana sem julgamentos simplistas. Trata-se de um retrato duro sobre a solidão e o peso de viver, mas que, paradoxalmente, nos lembra do valor inestimável da escuta, da empatia e do afeto no cuidado com a vida.

Um garoto como outro qualquer do Pedro Karam

Um garoto como outro qualquer do Pedro Karam (Editora Urutau, 2025) é um romance onde acompanhamos a infância, adolescência e vida adulta de um garoto se descobrindo enquanto homem gay. A obra trata com realismo impressionante a forma como a identidade de gênero é uma das facetas mais importantes da nossa formação enquanto indivíduos e como pequenos e grandes episódios de violência podem impactar a vida de uma pessoa. É um livro de fácil identificação para a comunidade LGBTQIAPN+ e principalmente para homens gays, pois transita por diversas situações que são quase certas no processo de entender a própria sexualidade.


Eu nasci um garoto como outro qualquer. Mas algo em mim mudou quando aflito, confuso e sem chão, tomei consciência de que meu destino era ser veado. Bicha para mim era uma coisa, assim... como posso dizer? ... muito feminina. Não se encaixava. Gay era neutro demais, sem brilho. Homossexual... parecia quase científico. Veado era a melhor palavra, definitivamente. Eu sabia que, se era mesmo inevitável ser isto que eu sou, que eu fosse me acostumar ao tal do veado então. A partir desta tomada de consciência, o jogo começava para valer.

Pedro Karam trabalha em sua narrativa com muitas questões gerais e também específicas que abrangem o entendimento da homossexualidade. Durante a leitura, me lembrei por diversas vezes do sentimento, tão forte quanto, que tive ao ler “O fim de Eddy” do escritor francês Édouard Louis. Na obra de Louis me impactou a forma como nós, gays, somos obrigados a pensar sobre o sexo propriamente dito, quando ainda não estamos prontos para isso. Acontece sempre que um adulto repreende uma criança com frases do tipo “homem não anda assim”, “homem não chora”, “isso aí não é brincadeira de menino”.

Enquanto estamos ali, apenas vivendo a infância e sem nenhum despertar para nada que seja referente a sexo e sexualidade, pois cada um terá o seu tempo a depender do contexto e da forma como foi criado, a homofobia nos rouba a infância e a oportunidade de nos descobrir de forma saudável. Incute confusão e medo, onde deveria haver apenas infância.

Em “Um garoto como outro qualquer”, experimentei sensação de pertencimento parecida quando Pedro Karam relata a nossa cansativa tentativa de se adequar, de se enquadrar no que é dito masculino para tentar fazer parte de um grupo que é visto como o normal.

Eu queria falar merda, coçar o saco, ouvir rap, deixar a bermuda arriada com quase um palmo de cueca aparecendo, adquirir naturalmente o borogodó de um moleque solto na vida, feliz consigo e ciente, porém, ao mesmo tempo, ingênuo acerca de sua condição de ser superior, ser macho. Pois para mim era isso que meus colegas eram: seres superiores. Não havia dúvidas quanto a isso. Eu sofria, eles não.
Durante muito tempo somos convencidos de sermos um erro, uma vergonha, ou até mesmo aquela palavra horrível que fundamentalistas religiosos usam para se referir a nós: abominação. E, por vezes, a própria reação da família, seja por homofobia ou por pura ignorância, pode nos enterrar em um buraco onde muitos não conseguem ter braços suficientes para se erguer de lá. Então nossos desejos passam a encontrar lugar apenas nas ruas escuras, nos parques arborizados, na urgência de um banheiro. A reação da família de nosso protagonista é um bom exemplo da forma sutil, mas não menos violenta que a homofobia e o preconceito podem se apresentar.

O garoto não é agredido após dizer ao pai e a mãe que se sente atraído por garotos, mas ao invés de acolher o filho e oferecer apoio para que ele possa entender com clareza o que está sentindo, ele recebe o desespero dos pais em forma de palavras duras e choro. Uma das coisas mais dolorosas para alguém em formação é frustrar a expectativa daqueles que nos criaram.

A partir da conversa fica semeado o terreno para crescimento de dor, dúvida, inadequação, não pertencimento e isolamento. O capítulo onde o narrador, de forma intensa e verborrágica, exprime para seus pais exatamente como se sente, onde a escrita do Pedro Karam se apresenta em fluxo contínuo, sem parágrafos, é uma coisa linda e dolorida de se ler. O personagem parece saber que nunca mais teria a oportunidade de uma conversa tão franca com os seus pais.

A gente torce pelo personagem e pelo seu processo de autoaceitação, que é ainda amais importante do que a aceitação externa. É o que dá a força necessária para pensar em direitos, amor, prazer e outras esferas da vida que nos faz humanos. Além de ser um livro sobre as experiências de um garoto gay, a obra de Karam é também uma história de amadurecimento e uma história de amor de um homem que é salvo por diversas manifestações da arte.