A Humilhação, de Philip Roth (Companhia das Letras, 2017), é um romance curto que trata de temas delicados. No alto de seus sessenta e cinco anos, Simon Axler, um ator consagrado no teatro, se vê às voltas com uma total perda de confiança na atuação. Após uma série de temporadas memoráveis nos palcos, ele simplesmente entra em uma crise existencial, passando a acreditar que perdeu seu talento para interpretar, o que o leva a um processo de depressão que abala sua vida em todos os âmbitos. Assistimos a um homem que, ao tentar recuperar a própria dignidade, afunda-se ainda mais em processos de autossabotagem.


A questão da humilhação aparece como uma maneira de dar forma a um dos maiores medos do ser humano: deixar de entender a si mesmo ou a quem acreditávamos ser. O que resta de nós quando já não conseguimos desempenhar aquilo que dava sentido à nossa vida e pelo qual éramos reconhecidos?

Ninguém era mais meticuloso, estudioso e sério do que ele, ninguém administrava melhor seu próprio talento, ninguém se adaptava melhor às mudanças de condições que necessariamente ocorriam numa carreira teatral que já durava tantas décadas. Deixar subitamente de ser o ator que ele era – isso era inexplicável, era como se uma noite, enquanto ele dormia, tivessem roubado o peso e a substância de sua existência profissional. A capacidade de falar e ouvir num palco – em última análise, a coisa se resumia a isso, e era isso que havia desaparecido.
O livro é uma verdadeira representação da eterna angústia da figura do artista e, ao fazê-lo, serve como espelho para crises existenciais que são universais. No caso do protagonista, ao se ver travado diante do exercício da atuação, ele se volta também para as questões do próprio envelhecimento e de como sua identidade sempre esteve atrelada ao fazer artístico.

Sem a capacidade de atuar, Axler, que sempre viveu através dos personagens que interpretou, se vê perdido ao ser obrigado a encarar a própria identidade. Sem os palcos como âncora, até mesmo a sua relação amorosa entra em declínio, juntamente com suas saúdes física e emocional.

Axler não conseguia se convencer de que estava louco, tal como não havia conseguido convencer ninguém, nem mesmo a si próprio, de que era Próspero ou Macbeth. Era um louco artificial também. O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel.
A obra traz reflexões interessantes que nos provocam a pensar em quais são os âmbitos da vida em que fazemos verdadeiras performances. Coloca o fato de existir e ser funcional como partes de uma grande peça cheia de atos, e a incapacidade de atuar como uma consequência de quando um plano não sai como imaginamos, ou quando um problema aparentemente sem solução se projeta em nossa frente. Quem somos nós quando perdemos a capacidade de atuar?

Existe um pessimismo pulsante em toda a narrativa da obra, que já nasce sob a luz de um título que soa ao mesmo tempo pesado e irônico. A escrita trágica e a construção de um personagem intenso lembram as histórias shakespearianas, e conseguimos transportar facilmente a sensação da leitura para o palco soturno de uma peça de teatro. Tudo é narrado com uma dose a mais — seja ela de amor, de desamor, de tesão ou de morte.