A segunda vinda de Hilda Bustamante, da escritora argentina Salomé Esper (Editora Autêntica, 2024) é um romance curto, conciso, mas eficiente em explorar as características do realismo mágico latino-americano. Em uma cidade interiorana e bucólica, Hilda, uma senhora comum e respeitada em sua comunidade, levanta dos mortos após quase um ano de seu falecimento. Depois de conseguir romper caixão, terra e cuspir os vermes da boca, ela se vê diante da porta de casa e prestes a rever seus parentes mais próximos.


Com esse início de narrativa instigante, uma escrita rápida e ótima tradução do Sérgio Karam, adentramos em uma obra que visita o absurdo com um nível de sutileza que nos dá uma falsa impressão de normalidade, para tratar de temas essenciais para se pensar a existência humana. O romance é uma espécie de tratado sobre amor, vida, morte e luto, onde as lembranças tem um papel fundamental para a narrativa.

Naquela manhã, Hilda e suas plantas por fim se reencontraram. Hilda e seus tecidos. Hilda e sua casa. Até aquele momento, não conseguira sair do invólucro do abraço, do transbordamento do absurdo e da exigência de que fosse ele a explicar tudo, como se pudesse fazê-lo. Isso lhe pareceu curioso: encontrar-se com as coisas como se não as visse há muito tempo, mas sem ter lembrança alguma dessa separação. Perguntava-se o que teria mudado enquanto ela não estava, como as coisas com vida tinham continuado a crescer sem que ela testemunhasse.
Uma das frases mais marcantes do livro é a que pergunta ao leitor para onde vão os que ficam e essa provocação vai nortear todo o mistério do livro. Inicialmente, nos pegamos preocupados em entender qual é o significado da segunda vinda de Hilda, como se essa resposta fosse aparecer em algum momento, bem aos moldes das resoluções dos romances policiais. Acontece que o que realmente importa é a reflexão sobre quem somos diante da morte e as diversas formas que o processo de luto pode aflorar.

Após a sua ressureição, Hilda não faz nada de alarmante, nem mesmo suas reações são exageradas ou exasperadas. Vemos uma mulher que voltou para casa e se enterrou mais uma vez ao se colocar a contemplar o que a sua morte causou a quem ficou.

Salomé Esper desenha estas e outras reflexões trabalhando com a manifestação da tristeza, mas também com o humor e a ironia. Constrói cenários e acontecimentos que além de nos colocar dentro da cidade, também nos coloca diante da intimidade de Hilda e dos demais personagens que a rodeiam.

O rumor se espalhou como se espalham os rumores nas cidades pequenas: com pernas fortes, a toda velocidade, saltando sobre os buracos, os muros, as pessoas. Era como aquela brincadeira do telefone sem fio, em que a cada relato o rumor se transformava em outra coisa, aqui tinha mais brilho e espiritualidade, ali um tom mais macabro e a suspeita de que todas as crianças estavam em perigo.
Um aspecto que chama atenção na escrita é o uso do simbolismo. O título já desperta diferentes interpretações, onde a ideia de uma "segunda vinda" remete não só a retorno, como também à renascimento e reconstrução da identidade. Salomé Esper utiliza elementos do cotidiano, espaços e acontecimentos que ultrapassam sua função narrativa imediata, assumindo um valor simbólico. Esses símbolos nunca oferecem respostas prontas.

A segunda vinda de Hilda Bustamante é uma obra que fica com o leitor mesmo depois da última página. Além de falar sobre a morte sem tabus e nos levar a refletir sobre tipos de perdas que todos nós teremos um dia, a obra se desenrola através de personagens cativantes e de reviravoltas que surpreendem e provocam reflexões.