Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência de Tove Ditlevsen

Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência, de Tove Ditlevsen (Companhia das Letras, 2023), é um romance autobiográfico dividido em três partes, no qual acompanhamos a história de vida de uma escritora que sempre teve a certeza de que sua razão de viver era a escrita. A obra é magistral no que oferece de apreciação da escrita artística, poética e confessional. A narradora não se abstém de tratar de temas que podem soar delicados. Ditlevsen o faz sem qualquer tipo de pudor ou moralismo, e isso chama a atenção quando situamos a sua obra no espaço e no tempo. Além de ser um exemplo de dedicação ao fazer literário, a obra também pode ser lida como um texto rico em camadas sociais, políticas e psicológicas.


O estilo literário de Trilogia de Copenhagen, que é realista e sem sentimentalismos, acaba por nos remeter aos trabalhos de autores contemporâneos que também exploram uma escrita mais autobiográfica, e isso demonstra o pioneirismo do texto de Tove, que já o fazia em meados dos anos 60.

A escrita é a grande protagonista da narrativa. Tove Ditlevsen possuía uma relação obsessiva com o ato de escrever, sendo a poesia a sua forma de expressão mais explorada. O texto poético exercia uma função em sua vida que ultrapassava a produção e apreciação de arte propriamente dita: era também uma questão de sobrevivência. Para além disso, a obra esmiuça o impacto das limitações sociais que sempre fizeram parte da vida de Tove e de como a condição de mulher, o casamento e a maternidade quase foram um empecilho para a realização de seu sonho em ser uma escritora de sucesso.

Na primeira parte da obra, mergulhamos em um verdadeiro tratado sobre a infância como etapa definidora de toda a nossa vida. Testemunhamos um olhar de criança atenta ao que acontece à sua volta, de forma a subverter a ideia romântica de que as crianças estão alheias ao mundo dos adultos. No caso de Tove, em especial, vemos uma menina inteligente, sarcástica e com olhar apurado para enxergar o lado B da vida.

A partir da infância, a narradora começa a fazer uma análise do contexto em que vive e percebe que a vivência em um bairro operário também a colocaria em situações de inadequação em outros contextos. Tove sempre precisou lidar com a solidão de ser uma menina que gostava de poesia, ao mesmo tempo em que lidava com todas as outras obrigações e expectativas que são colocadas sobre os ombros das mulheres.

Não dá para escapar da infância e ela nos acompanha como um cheiro. Dá para percebê-la em outras crianças, e cada infância tem seu próprio cheiro. Não conhecemos a nossa e às vezes temos medo de que ela seja pior que a dos outros. A gente vai e fala com outra garota cuja infância tem cheiro de cinza e carvão, e de repente ela dá um passo atrás, pois sentiu o fedor pavoroso da nossa própria infância
Na segunda parte, intitulada “Juventude”, Tove está ainda mais dedicada ao ato de escrever, ao mesmo tempo em que as revoluções internas e externas da adolescência acontecem. O desejo de ser uma escritora publicada se torna uma obsessão, assim como a vontade de sair de casa aos dezoito anos. Vemos Tove viver seus primeiros e conturbados relacionamentos e sua busca por estabilidade financeira passando por empregos medíocres, enquanto luta por sua primeira publicação. Enquanto isso, o fantasma da Segunda Guerra Mundial ronda o seu país.

Estou trabalhando numa pensão na Vesterbrogade, perto da Estátua da Liberdade. Para minha mãe, me mandar para outro bairro seria tão impensável quanto me mandar para os Estados Unidos. Entro às oito da manhã todo dia e trabalho doze horas numa cozinha coberta de fuligem e gordura, onde nunca há paz nem descanso. Quando chego em casa à noite, estou cansada demais para fazer qualquer coisa que não seja ir para a cama.
Na última parte da obra, “Dependência”, vemos a narrativa tomar um tom mais pesado e que pode gerar gatilhos, pois é a fase da vida em que ela embarca em um vício destrutivo em opioides após realizar um aborto. A vida conturbada, somada aos casamentos tóxicos, a leva a uma perda do controle sobre a própria escrita. Sem pedir desculpas nem buscar redenção, Ditlevsen assina uma autobiografia devastadora e brutalmente honesta sobre os custos de se manter fiel à própria voz.

Mogens do Jens Peter Jacobsen

Mogens do escritor dinamarquês Jens Peter Jacobsen (1847-1885) é o segundo volume da Coleção Norte-Sul, que conta com organização e tradução do Guilherme da Silva Braga e lançado pela Editora Aboio. O intuito da coleção é apresentar aos leitores brasileiros alguns nomes importantes da literatura nórdica. A coleção conta com obras traduzidas diretamente do norueguês, dinamarquês e sueco. Mogens, originalmente publicado em 1872, foi o primeiro de uma série de livros de relatos curtos que o autor publicou e é considerada a primeira obra do naturalismo literário na Dinamarca. 



Desde a infância, Jacobsen demonstrava grande curiosidade pela natureza e pela botânica. A região que nasceu, onde tinha contato direto com a natureza, potencializou essa curiosidade pelo mundo natural, o que o levou, ainda criança, a colecionar e catalogar plantas. Com esse “estudo” ele escreveu uma espécie de fanzine chamado “As plantas mais estranhas de Silstrup”. Mais tarde, estudou botânica na Universidade de Copenhague e foi galardoado no ano de 1872 com a medalha de ouro da Academia Dinamarquesa pela sua contribuição e desenvolvimento da botânica no seu país.

Naturalmente, o seu fascínio pela ciência terminou por influenciar toda a sua produção literária. Nos primeiros capítulos de “Mogens”, conseguimos acessar esse universo onírico e ao mesmo tempo real que sua literatura desenha.

Era verão, em pleno dia, num canto da cerca. Perto havia um antigo carvalho, e a respeito do tronco poder-se ia dizer que se torcia em desespero ante a falta de harmonia entre as folhas novas e amareladas e os galhos pretos, tortos e grossos, que acima de tudo se pareciam com o rascunho grosseiro de antigos arabescos góticos.
O autor descreve com minúcias a ambientação da floresta na iminência do cair da chuva. É como se estivéssemos em uma galeria, apreciando um quadro. Enquanto a chuva não cai, presenciamos os detalhes de uma tela e após a chuva cair, a narrativa se torna fluida e com movimento, a ponto de conseguirmos vislumbrar o trajeto de uma gota.

Tudo cintilava, luzia e chapinhava. Troncos, galhos, folhas, tudo brilhava de umidade; cada pequena gota que caía na terra, na grama, na escada junto à cerca, no que quer que fosse, dividia-se e espalhava-se em mil pérolas delicadas. Pequenas gotas dependuravam-se ao longe e transformavam-se em gotas maiores, pingavam aqui, reuniam-se a outras gotas, tornavam-se pequenos regatos, corriam para longe em diminutos sulcos, caíam em grandes buracos e saíam em outros, pequenos, zarpavam levando consigo terra, lascas de madeira e pedaços de folhas, colocavam-nas no chão, faziam-nas flutuar, giravam-nas e tornavam a abandoná-las mais uma vez no chão...


Na obra, acompanhamos os relatos sobre a vida de Mogens, personagem que dá nome ao livro. A história é contada através de fragmentos, por onde desfilam pensamentos e visões de mundo que obedecem ao status do seu amor. O apaixonamento e as frustrações de Mogens obedecem às estações do ano.

Jacobsen teve uma vida curta e não recebeu a devida atenção dos leitores e da crítica enquanto ainda estava vivo. Após a publicação de seu segundo romance, cinco anos antes de sua morte, foi que o autor começou a ganhar alguma notoriedade. Posteriormente seria citado e serviria de inspiração para autores como Thomas Man, Freud e Kafka.