HEARTSTOPPER: de mãos dadas (vol. 4) da Alice Oseman

Heartstopper: de mãos dadas da Alice Oseman (Editora Seguinte, 2022) é o quarto volume da famosa série de quadrinhos que conta a história de amor de Charlie Spring e Nicholas Nelson. A cada volume acompanhamos mais um passo do relacionamento dos garotos e as questões que acompanham o processo de se apaixonar. Em “de mãos dadas”, Alice Oseman insere a discussão sobre saúde mental de forma bastante delicada, informativa e responsável. Mostra como se dá o processo de descobrir um transtorno alimentar e os caminhos para se procurar ajuda.


Como Heartstopper é uma história que explora as descobertas, traumas e amores da comunidade LGBTQIA+ na adolescência, o tema da saúde mental se torna ainda mais urgente. Durante muito tempo esse foi um assunto pouco discutido, mas que sempre teve consequências graves na formação da juventude. Problemas como bullying, homofobia, transfobia e falta de apoio familiar, podem gerar ciclos violentos no processo de aceitação de um indivíduo enquanto LGBT e ter acesso a uma história que trata dessa realidade de forma responsável é um grande ganho.

Nick foi uma das primeiras pessoas a perceber que Charlie não possuía uma relação muito saudável com a alimentação. É interessante como Alice construiu a narrativa de forma a mostrar o olhar de um terceiro diante do transtorno alimentar de alguém, pois o mais comum é o não-entendimento da condição do outro. Nick inicia um processo de pesquisa sobre o tema e sobre formas de tratar a questão com Charlie, o que é uma deixa para falar sobre afeto, criação de uma rede de apoio e busca por tratamento profissional.


Quando falamos sobre saúde mental é muito importante desmistificar algumas ideias pré-concebidas sobre o assunto. Existe muito preconceito em relação ao tema e principalmente sobre o seu tratamento. Histórias como a de Heartstopper podem contribuir para que jovens olhem para sua própria saúde mental, identifique pontos que merecem atenção, para então procurar a ajuda necessária.

HEARTSTOPPER: um passo adiante (vol. 3) da Alice Oseman

Heartstopper: um passo adiante da Alice Oseman (Editora Seguinte, 2022) é o terceiro volume dessa série de quadrinhos que já fazia bastante sucesso na internet e no mercado editorial e que recentemente ganhou ainda mais popularidade com a adaptação da Netflix. Assim como os demais volumes, Alice opta por tratar de temas importantes como paixão, namoro, identidade, amizade, relações sociais, saúde mental, família, homofobia de forma bastante leve. Partindo do arco do casal principal, Nick e Charlie, vamos conhecendo outras nuances de seu grupo de amigos que são muito bem construídos e carismáticos.


Como o próprio título já diz, o terceiro volume de Heartstopper trata de um passo adiante. Após todo o processo de se conhecerem melhor e de se apaixonarem, Charlie e Nick agora começam a lidar com a decisão de assumir ou não o namoro para todos. Como estamos falando de um casal homoafetivo, já sabemos o que a decisão de assumir um relacionamento pode acarretar em relação ao contexto escolar, na roda de amigos e perante a família. Charlie que fora tirado do armário a força alguns anos atrás e depois de experimentar a violência do bullying diário tem receios em relação a assumir o namoro por não querer ver Nick passar pelas mesmas coisas que passou. Já Nick carrega consigo os medos compreensíveis de quem está se descobrindo enquanto bissexual e que até então era visto por todos como um garoto super hétero e destaque do time de rugby.

A única certeza que os garotos tem é da paixão que estão sentindo um pelo outro e existe também um respeito pelo tempo de cada um em relação a se assumirem. Assim, o quadrinho possui cenas de derreter o coração e que conseguem levar para as páginas algumas imagens que representam o encantamento, a emoção, os calafrios e a sensação de borboletas no estômago que são próprios das pessoas apaixonadas. Imagina isso tudo somado à adolescência, fase onde tudo possui mais cores e mais intensidade.



Um dos pontos mais bonitos de Heartstopper é a exploração de um contexto que se difere das maiorias das narrativas que se propõe a tratar da temática da homossexualidade e demais manifestações da diversidade. Enquanto muitas histórias focam apenas nas tragédias diárias de pertencer à comunidade LGBT, Heartstopper se propõe a mostrar que pode existir um lado B. Nick e Charlie e os demais personagens não deixam de sofrer com o preconceito, mas a história de Oseman os insere em um contexto onde existe uma rede de apoio. Eles podem se sentir mais a vontade para descobrirem quem são porque existem pessoas que os amam e os respeitam acima de qualquer diferença.

Não satisfeitos em tirar de nós o direito de ser, nos imputaram um dever de dar satisfação sobre nossos amores e nossos prazeres. Heartstopper traz uma reflexão de que se você quiser você pode anunciar em um microfone sua orientação sexual e se você quiser você pode simplesmente viver quem você é sem dar a menor satisfação a quem quer que seja. Cada um tem o direito de escolher quando e como quer que isso aconteça (ou não).


Existe essa ideia de que, se você não é hétero, você tem que contar pra toda a sua família e seus amigos imediatamente, tipo, como se você devesse isso a eles. Mas não. Você não tem que fazer nada até se sentir pronto.

HEARTSTOPPER: minha pessoa favorita (vol.2) da Alice Oseman

 HEARTSTOPPER: minha pessoa favorita da Alice Oseman (Editora Seguinte, 2021) é o segundo volume de uma série de quadrinhos que acompanha a aproximação, a amizade e a paixão de Charlie e Nick, dois adolescentes em idade escolar que vão aprendendo a lidar com os afetos, as descobertas e as dificuldades de ser adolescente LGBTQIA+. No primeiro volume acompanhamos cada passo rumo ao primeiro beijo e a euforia de se apaixonar. No segundo volume a paixão está ainda maior, mas agora precisa lidar com o processo de auto aceitação e de aceitação da escola, família e amigos. 


De forma leve e descontraída a HQ vai tratando dos dilemas da homoafetividade que se somam aos dilemas da adolescência. O texto é muito sensível ao propor uma discussão respeitosa sobre o momento em que cada um se sente preparado para encarar o mundo como uma pessoa que não se enquadra no modelo heteronormativo. Por conta da pressão social e de um preconceito ainda latente, infelizmente, o "sair do armário" é um ritual que permeia a vivência gay, que causa bastante ansiedade para um jovem em descoberta e que recebe muita pressão externa. A mesma sociedade que oprime é a sociedade que acha que pode ditar a norma, o tempo e a hora de quando se assumir ou não. 


Enquanto Charlie já havia sido tirado do armário de uma forma um pouco traumática e sofrido bullying, agora é Nick quem precisa lidar com essa questão, que se agrava ainda mais pelos estereótipos que carrega como garoto popular da escola e como atleta. Nick deseja assumir Charlie como namorado, mas possui seu próprio processo para isso, pois também está se descobrindo como um garoto bissexual e Charlie se mostra bastante compreensivo. 


 

A história traça um caminho muito interessante e de forma indireta, mostra aos jovens leitores a importância do auto cuidado, da criação de uma rede de proteção formada por amigos e da necessidade de ser sincero com os próprios sentimentos e com o que te faz feliz. É possível também se aproximar de discussões interessante sobre gênero e sexualidade que mostram que existem diferentes formas de ser, estar e amar nesse mundo. 

HEARTSTOPPER: Dois garotos, um encontro (vol. 1) da Alice Oseman

 HEARTSTOPPER: Dois garotos, um encontro da jovem inglesa Alice Oseman (Editora Seguinte, 2021) é um quadrinho que nasceu na internet como uma webcomic e uma forma de Alice explorar seu traço como ilustradora. Por conta do sucesso no número de acessos acabou ganhando uma versão física. Alice assina também o roteiro dessa história que nos apresenta aos adolescentes Charlie e Nick, dois garotos completamente diferentes que vão se apaixonando aos poucos e sentindo na pele todas as emoções  e intensidade da paixão na adolescência.


 Charlie Spring é um garoto sensível, dedicado aos estudos e marcado por episódios de bullying que sofrera na escola quando descobriram sua homossexualidade. Enquanto Nick Nelson é o cara do grupo dos populares, esportista e por incrível que pareça é um cara gentil. No início de mais um ano letivo, quando o professor de literatura está repensando a configuração da turma, Charlie e Nick acabam sentando um ao lado do outro e vai nascendo uma forte amizade entre eles. 

Um vai começando a fazer parte no universo do outro apesar das diferenças. Nick consegue convencer Charlie a se aventurar no time de rúgbi, algo completamente impensável para ele, enquanto Charlie apresenta para Nick sua rotina de membro da banda da escola como baterista. As diferenças, que antes pareciam alocar os dois garotos em mundos distintos, acaba sendo o motor para que o interesse de um pelo outro cresça.


Charlie tenta a todo custo não confundir seus próprios sentimentos, repetindo para si mesmo que Nick é hétero e, portanto, não tem chance alguma. Enquanto Nick Nelson devota a Charlie uma superproteção e carinho que começa a chamar atenção dos demais alunos da escola. A verdade é que sem perceberem os dois vão se fechando em seu próprio universo tamanho é a atração e o desejo de estarem sempre juntos. 


Heartstopper é uma obra que chama atenção pela forma singela que trata da descoberta da homoafetividade. Não seremos pegos de surpresa por uma grande tragédia, é apenas vida comum de adolescentes, mas a violência aparece implícita todo o tempo, no medo de "sair do armário", da reação da família e dos amigos, no receio do toque e da demonstração de afeto em público, que são experiências que a maioria das pessoas da comunidade LGBTQIA+ enfrentam. 

Sempre que me deparo com uma obra de temática LGBTQIA+ voltada para jovens que traz narrativas que falam sobre amor, descoberta, beijo, namoro e as demais palpitações que fazem parte do processo de apaixonar eu penso: como queria ter lido isso no início da minha adolescência. A falta de referências e de representatividade é um dos fatores que fazem parte do check list da 'não existência' e que legitima tantas violências. Só nos resta pensar "isso não é normal, eu não sou normal."

Então é sempre gratificante deparar com obras como Heartstopper, cheia de cores que nos ilustram para além da violência, que valoriza nossas vivências com uma história simples de dois garotos se apaixonando, com direito a frases de efeito e imagens fofinhas e todo um clímax até chegar no primeiro beijo. Em se tratando de obras de temática gay, as vezes, a gente precisa de uma boa dose de clichê e de água com açúcar. Poucas vezes tivemos a oportunidade de ver nossas histórias naturalizadas e com foco no afeto.

Frankenstein ou o prometeu moderno de Mary Shelley

Frankenstein ou o prometeu moderno da Mary Shelley (Editora Darkside, 2017) é um livro que me surpreendeu muito por diversos motivos. Foi uma leitura que iniciei por indicação de um clube de leitura que participo com amigos e que eu imaginava já saber muito sobre ela por conta das adaptações para o cinema e do que acabamos conhecendo sobre a famosa história do monstro por conta de sua fama. A verdade é que eu acabei encontrando algo completamente diferente do que esperava. Frankenstein é muito mais do que se adapta por aí , do que se fala e mais do que uma história de terror convencional. Mary Shelley entregou uma obra que escancara e devassa a natureza humana, a fim de fazer discussões sobre o que há de potente e o que há de assustador na nossa natureza e no nosso íntimo. É um livro que exalta e ao mesmo tempo questiona a sede por conhecimento de forma a mostrar que definitivamente, tudo na vida precisa encontrar a sua medida. Mary Shelley faz com que a gente reflita sobre ética e ciência, convivência e afeto e nos coloca frente a frente com nossos próprios monstros. 

Frankenstein é um clássico do terror e da literatura mundial que começou a ser escrito em 1816. Um fato interessante sobre a obra é a forma como ela começou a ser concebida. Mary Shelley era muito amiga de um grupo de escritores, sendo um deles o poeta Lorde Byron e em uma reunião dos mesmos na casa de Byron, na região da Suíça, o poeta desafiou os amigos a escreverem um conto de terror cada um. A ideia surgiu após eles realizarem leitura de um volume de histórias de terror alemãs chamado Fantasmagoriana. Foi movida por esse desafio que a autora concebeu as primeiras ideias que viriam a ser o Frankenstein. 


Como já dito, Frankenstein conta uma história conhecida inclusive por quem nunca leu o livro ou viu qualquer adaptação de cinema e teatro, porque o monstro criado por Mary Shelley já faz parte do nosso imaginário quando se fala das criaturas mais famosas das histórias de horror. Sendo assim, não vou me deter muito à sinopse do livro para explorar alguns outros elementos que me surpreenderam como leitor. 


Tanto o Víctor Frankenstein, jovem cientista protagonista da trama, como o "monstro" criado por ele são retratados de uma forma muito exploratória. Começamos a acompanhar a história do Victor ainda na juventude e somos inseridos com muita calma em seu ambiente familiar, sua relação com os pais e irmãos, em suas aspirações por conhecimento e inclusive os primeiros teóricos que ajudaram a despertar seu amor pela ciência. Enquanto que nas histórias do livro que são contadas por aí e nos filmes e séries (adaptações) conhecemos só a carcaça de um cientista brilhante e ambicioso sem entendermos muito bem suas reais motivações, no livro de Mary Shelley nós conseguimos entender cada motivo que faz Victor ser quem é e o porque dele buscar o que busca. Victor, em certa parte de seu relato chega a dizer que "a filosofia natural é o gênio que controlou seu destino" e conseguimos ver isso acontecer a cada letra que decodificamos na leitura da obra. Como na primeira parte lemos a descrição do relato de Victor Frankenstein, mesmo que registrado por um terceiro, acabamos nos sentindo muito próximos de sua história e ele não guarda segredo quanto a suas ambições, pois estamos diante de uma confissão. 

Em uma segunda parte da obra vamos ler o relato do "monstro" depois de ter sido criado, abandonado e vivido à própria sorte. Nessa parte vem uma das maiores surpresas da obra para mim, pois nunca vi o monstro da história ser retratado (nas adaptações) de forma fiel ao que Mary Shelley apresenta no livro. A imagem que guardava do monstro criado por Frankenstein era de uma criatura "burra", que só proferia grunhidos e com uma violência assassina prestes a explodir. No livro sabemos que ele passou por essa fase, mas apenas através do relato do próprio monstro, numa conversa entre criatura e criador, em páginas que são as minhas preferidas da obra. Ao narrar para seu próprio criador como sobrevivera depois de ter sido criado e rejeitado por ele, o monstro vai nos mostrando de forma genial como se deu sua própria percepção do mundo, das pessoas e do conhecimento por simples e puro processo de vivência e observação. O monstro da história que precisou aprender quem era e como funcionava seu próprio corpo, os códigos do mundo e as pessoas conforme precisava lidar com elas, faz então um ensaio magnífico sobre a condição humana. Mary Shelley teve a ideia genial de criar uma história onde uma criatura deformada, assustadora e chamada de monstro se assusta com o ser humano e sua capacidade de ser miserável e cruel. A escritora inverte os papéis e nos faz refletir sobre quem é verdadeiramente o monstro e que isso definitivamente não tem a ver com aparência. 

Essas narrativas maravilhosas inspiraram-me sentimentos estranhos. Seria o homem, ao mesmo tempo, de fato, tão poderoso, virtuoso e magnífico e, no entanto, tão vicioso e desprezível? Pareceu-me, simultaneamente, um mero herdeiro do princípio do mal e, por outro lado, tudo o que pode ser concebido como nobre e divino. Ser um homem grande e digno é a maior honra que pode caber a um ser sensível; ser vil e impuro, como muitos o foram, parece a mais baixa degradação, uma condição mais abjeta que a de uma toupeira cega ou a de um verme inofensivo. Por muito tempo não pude conceber como um homem poderia assassinar o próximo ou mesmo por que havia leis e governos, mas quando ouvi detalhes dos vícios e das matanças, deixei de pensar e afastei-me com desgosto e aversão. 

O monstro criado por Victor Frankenstein conheceu na pele o lado mais sombrio da alma humana transfigurado em violência e ao mesmo tempo se viu envolto no exercício de admirar o ser humano pelas coisas grandiosas e fantásticas que também são capazes de realizar. O monstro olha para essa dualidade e não a entende, como se fosse a própria voz da autora jogando um questionamento íntimo para quem lê o seu livro sobre o porque de algumas configurações sociais. Mary Shelley brinca com a criação de um monstro que é puro e bom, pois ainda não fora corrompido pelo mundo, como se tivesse literalmente acabado de nascer, em contraponto com uma humanidade cheia de dores, mágoas, raiva, fome e injustiças que respingam na formação de seu caráter e no modo de viver em sociedade. 


Esse capítulo é tão fantástico que vamos tentando olhar o mundo sob o viés de alguém que não o conhece e que está aprendendo agora como tudo funciona. A autora consegue unir a ideia de um monstro deformado e gigante a de um bebê inofensivo que está descobrindo o mundo, as sensações e começando a fazer suas inferências sobre o funcionamento de tudo. São nesses detalhes que soam meio grotescos que também mora o terror da história. 

Falei sobre a construção de Victor Frankenstein e a do monstro e de como elas se dão de forma completa e intensa. Essas são duas das questões que queria tratar nessa resenha. Feito isso um terceiro ponto seria a exploração da importância e do perigo do conhecimento. Fica nítido na obra que a busca por conhecimento é uma das temáticas principais. A autora explora isso o tempo todo nas características dos principais personagens, nas referências a teóricos e cientistas que realmente existiram e em teorias científicas que fizeram e fazem parte da linha de pesquisas científicas. A questão do conhecimento aparece então como um dos pontos que ligam Victor Frankenstein e o monstro. A apresentação da história de um cientista que cria um monstro é uma metáfora perfeita para discutir o poder do conhecimento, seu uso como manutenção do poder e sobre questões éticas. 


Victor e Frankenstein representam duas formas diferentes de lidar com a aquisição de conhecimentos. Com o passar do tempo a busca por conhecimento de Victor passa a ter um caráter mais de poder, vaidade e competição do que a vontade de colaborar com empreendimentos científicos que poderiam ajudar a comunidade científica. O conhecimento para Victor passa a ter um caráter egoísta e vira uma obsessão, a ponto de colocar sua própria saúde em risco. 

... quão perigosa é a aquisição do conhecimento e quão mais feliz é o homem que vê o mundo como sua cidade natal do que aquele que aspira tornar-se maior do que permite sua natureza.

Já para o monstro o conhecimento significa descoberta de si próprio e de sua essência. Representa possibilidade de sobrevivência. O conhecimento para o monstro é o que fará com que ele entenda a sociedade e o seu lugar no mundo, assim como as pessoas e suas condutas diversas. É o que irá fazer com que ele saiba se proteger do frio e do calor, o que comer e o que não comer, onde ir e onde não ir, quando andar e quando se esconder. E quanto mais observa, mais ele aprende sobre os códigos sociais e com o que acontece em sua volta.

Com o livro, obtive um conhecimento superficial da história e uma visão de vários impérios que existiam no mundo. Conferiu-me um conhecimento dos hábitos, dos governos e das religiões  de diferentes nações da Terra. 

Mary Shelley, através de metáforas e alegorias nos convida a pensar sobre ciência e conhecimento, responsabilidade e ética. 

Um ser humano maduro deve sempre preservar a mente calma e pacífica e nunca permitir que a paixão ou o desejo transitório perturbe sua tranquilidade. Não creio que a busca pelo conhecimento seja uma exceção á regra. Se o estudo a que a pessoa se dedica tende a enfraquecer seus afetos e a destruir o gosto pelos prazeres simples que não admitem mistura alguma, então esse estudo certamente é ilegítimo, ou seja, não condizente com a razão humana.

Por fim, o último ponto que gostaria de ressaltar é a questão do afeto na obra. Essa foi outra grata surpresa. A autora criou sim uma história de terror com todos os elementos clássicos necessários para uma escrita desse gênero, mas também fez algo inovador que foi extrapolar o gênero e a narrativa para apresentar um livro com muitas outras camadas. Existem muitas discussões sociais e filosóficas na obra que fizeram com que ela tenha atravessado século com tanta relevância. Todos os personagens da trama são atingidos de alguma forma com a falta ou outro tipo de expressão de afeto. No caso do monstro da história, que é a personificação do terror, do macabro e do asqueroso vemos as consequências desastrosas da falta de convivência e afeto em suas reflexões

Porém, onde estavam meus amigos e minhas relações? Nenhum pai velara pelos meus dias de infância, nenhuma mãe abençoara-me com sorrisos e carícias ou, se o fizeram, toda a minha vida pregressa se mostrava então como uma mancha, uma lacuna cega em que não distinguia nada. Desde a primeira lembrança, era como ainda sou em estatura e proporção. Não tinha visto ser algum que se parecesse comigo ou que pretendesse qualquer comunicação. O que eu era? A pergunta, mais uma vez, voltara a ser respondida somente com gemidos.  

Frankenstein é um livro de leitura obrigatória tanto para quem gosta do gênero de terror, como para quem gosta de clássicos. Não poderia deixar de ressaltar também o quanto essa obra tem importância para a representatividade das mulheres na literatura. Se ainda hoje precisamos fazer campanhas de sensibilização da necessidade de equidade de gêneros no mercado editorial, imaginem o cenário em meados de 1818. Mary Shelley inova ainda mais ao adentrar em uma temática de escrita que geralmente são creditadas aos homens, como se mulheres não fossem capazes de escrever boas histórias de terror. Ainda hoje encontramos pessoas que ficam surpresas ao saberem que Frankenstein, uma das histórias de terror mas famosas da literatura, fora escrita por uma mulher. 

O templo de Stephen Spender

O templo de Stephen Spender (Editora 34, 2019) é um livro com muitas passagens auto biográficas, que se misturam com a ficção.  Nesse processo, estabelece ótimas discussões sobre poesia e literatura, fotografia, música, história, sociedade, homossexualidade, sexo e sexualidade, dentre outros temas. Spender cria uma obra importante para entender os códigos sociais de um outro tempo, uma outra época, assim como a importância das artes para formação e desenvolvimento de uma sociedade, de um país e de como a violência, o fascismo e o nazismo escorre silenciosamente  pelas sarjetas, inicialmente apenas molhando nossos pés, para em seguida entupir bueiros e explodir com toda violência que a repressão e morte carregam consigo. O "templo" se passa num período entre guerras e nos diz muito sobre essa fase do deslizar entre sarjetas.


Os manuscritos de "O templo" foram recusados em meados de 1930 por terem sido considerados "pornográficos e difamatórios". As menções a sexo e sexualidade no livro, e até mesmo a forma como trata da homossexualidade em si, nada se aproxima de uma descrição pornográfica. Olhando com os olhos de hoje, eu como leitor, fiquei na expectativa de que as relações homossexuais tivessem sido tratadas de forma mais explícita e excitante, tanto pela propaganda e censura que o precedem, como pelas descrições das personagens, que são homens belos, jovens e com a ânsia de viver intensamente suas descobertas e prazeres. Portanto, o "pornográfico" aqui fica por conta da homofobia e da necessidade de apagamento das narrativas com temática gay que olham para a pornografia apenas pelo lado degradante. O livro só foi publicado em 1988.

Acredito que fora considerado difamatório pela forma como consegue esmiuçar dentro de uma narrativa literária como uma sociedade, um país pode ser devastado por processos políticos que não são democráticos e inclusivos, e principalmente por um entre guerras e pela ascensão de movimentos e atentados que sabemos hoje, culminaram na tomada de poder dos nazistas. "O templo" coloca o dedo nessa ferida, mostrando como boa parte dos alemães mal sabiam o que estava acontecendo de fato, enquanto outros aproveitaram para colocar pra fora sua intolerância.

Em um dos potentes diálogos do livro, em conversa sobre a situação da Alemanha, as personagens expõem que " o terrível é existirem tantas pessoas que são nazistas no coração sem pertenceram ainda ao partido" o que nos remete à aqueles que comungam de ideais preconceituosos e excludentes como visão de mundo. Em outra parte impactante do livro é dito que "quando a vasta maioria dos alemães se sente muito alemã, a minoria pode começar a sentir-se um pouco estrangeira."

Sendo assim, o livro acaba por colocar, também a Alemanha, a república de Weimar, como uma personagem da história ao mesmo tempo que acompanhamos os passos do jovem poeta Paul Schoner. Paul é um inglês apaixonado pela Alemanha que acaba tendo a oportunidade de passar uma temporada no país para se dedicar à escrita de suas poesias e de um romance. Ele fica hospedado inicialmente na casa de uma família milionária, a convite do também jovem Ernst - rapaz controverso e cheio de questões conflitantes em relação a seu futuro e a lida com a própria família.

Através do convívio com essa família, Paul Schoner, que nitidamente se trata do próprio Stephen Spender, irá conhecer outros rapazes que assim como ele comungam de um espírito que anseia por liberdade, por conhecimento, pela apreciação e produção de artes, pelo sexo livre em uma Alemanha pós primeira guerra mundial, que ironicamente experimenta uma liberdade nunca antes vista pela antiga geração de alemães e nem por Paul que até então tinha apenas referências da sociedade inglesa.

Observava os jovens alemães. Tinham um estilo que ele achava excitantemente 'moderno'. Moda para eles era o sol, o ar, suas peles bronzeadas. Os rapazes, meigos e tranquilos, as garotas, esculturais. Havia  uma certa bravura no show de felicidade que exibiam. 

O livro descreve as vivências de Paul (Stephen Spender) com personagens que também estão a disposição da ficção, mas que representam pessoas reais, amigos e escritores como W.H Auden, Christopher Isherwood e o fotógrafo Herbert List que na narrativa é Joachim, um personagem de personalidade excitante e desbravadora, características que coloca em suas belas fotografias.





Em "O templo" nos deparamos com muitas referências a obras de arte, músicas, personalidades das artes e da política, acontecimentos que fazem com que a gente interrompa a leitura para fazer algumas pesquisas. Eu, particularmente, adoro livros que me movimentam a esse ponto, pois além de ser um adendo à experiência de leitura, agrega conhecimentos importantes sobre coisas que ainda não conhecíamos. Esse processo não acontece com didatismo, uma vez que ele está ali muito bem costurado em forma de literatura, como a bonita descrição que reescrevo abaixo de uma das obras de Picasso.

Na galeria, uma pintura moderna impressionou Paul particularmente: o retrato de uma mulher sentada à mesa de um café, os ombros embrulhados  num xale apertado, os cabelos caídos numa massa confusa, a cabeça baixa, um pequeno copo, como um cálice de veneno, à sua frente. Os olhos cerrados, os lábios comprimidos, o rosto fechado, pareciam os de alguém totalmente aprisionado no seu próprio mundo de miséria. Uma pequena placa de metal dourado, embaixo, na moldura, dizia que se tratava da Absinthtrinkerin, de Picasso.


Com a mesma genialidade e sensibilidade somos mergulhados em referências literárias que vão de Thomas Mann a Rainer Maria Rilke e se inserem no dia a dia das personagens como na parte em que o grupo de amigos bebe, flerta e dança em um dos bares perto do Porto da cidade:

Compreendo o que Paul quer dizer. Esta sala estimula a criatividade da gente, não é verdade? Todos os diferentes personagens aqui presentes formam um quadro, um desenho, uma unidade, uma composição, como as pétalas de um girassol. Aquele homem que dança sozinho me lembra uma cena de "Os cadernos de Malte Laurids", de Rilke. Eu sinto, como você, Paul, que de algum modo a gente entra numa visão alucinatória desses pares dançando. A gente frui de um claro prazer estético. Você e eu, Paul, somos um com toda a humanidade.

Enquanto Paul olha para sua realidade, o que acontece a sua volta e registra em seu caderno de notas, podemos dizer que um retrato rico da sociedade alemã toma forma. "O templo" é uma obra de referência para se pensar sobre as nuances de um entre guerras e de como o absurdo pode nos pegar de surpresa por nunca acreditarmos que o absurdo possa ganhar voz e tomar o poder. Aqueles amigos que antes se preocupavam com a poesia, com as bebedeiras pelos bares da cidade, com as viagens e as experiências sexuais, agora se vêem em um ambiente onde explodem brigas de ruas com simpatizantes do partido nazista, onde tiros ecoam de repente e pessoas são esfaqueadas a luz do dia. Agora precisam lidar inclusive com a adesão de pessoas próximas ao ideal do partido nazista.

"O templo" é um livro precioso que nos devassa e nos perturba, mas que também nos faz abrir os olhos para a beleza das artes e como elas são âncora em momentos de grandes atrocidades. A arte sempre resiste e persiste e aqui nos é apresentada em uma obra de ficção, mas também autobiográfica e histórica. "O templo" que pode ser o corpo, uma nação e o nascer de "uma visão do desespero que espreitava para além e por detrás de tudo - uma visão de mundo."





Orgulho e preconceito de Jane Austen

Orgulho e preconceito da Jane Austen foi publicado originalmente em 1813. É uma obra clássica da literatura mundial que já recebeu inúmeras edições e adaptações para a TV e o cinema. Orgulho e preconceito é uma história que inicialmente pode parecer simples  mas que analisada de perto consegue fazer um ensaio sobre comportamento, costumes e cultura de uma época.


Quantas questões podem caber por trás de uma história de amor? Jane Austen consegue criar uma trama que consegue, principalmente, questionar os códigos e as convenções sociais da aristocracia rural de forma sutil e irônica. Uma rápida pesquisa sobre a vida da escritora nos mostra que ela viveu sobre as regras de uma sociedade opressora e ao mesmo tempo causou espanto por quebrar algumas regras.

O livro conta a história de Elizabeth, uma moça que mora em uma propriedade rural com os pais e mais quatro irmãs. Em uma época onde casamento era mais uma transação comercial entre famílias do que um encontro de duas pessoas que se gostam, Lizzy decide que não se casará por conveniência. Por outro lado, para a mãe das garotas casar as cinco filhas é uma questão de honra e sobrevivência diante dos problemas financeiros da família. A chegada de um jovem de família rica, portanto um bom partido, agita aquela comunidade rural.

O homem invisível de H.G. Wells

O homem invisível do aclamado escritor H.G.Weels (1866 - 1946) é uma leitura deliciosa. Brinca com o fantástico e com a ciência para conceber uma história quase crível e com alguns ingredientes que prendem o leitor. A possibilidade de invisibilidade toca fundo na nossa imaginação e é impossível não se pegar pensando nas coisas que a gente faria se pudesse andar por aí sem sermos vistos.


A edição que tenho em mãos é bem antiga e estava em minha estante a algum tempo. Foi lançada pela editora Francisco Alves numa época onde os editores não achavam relevante colocar data e nem ficha catalográfica, então não faço ideia da data de publicação. Ainda assim gosto muito da capa, pois remete ao clima ao mesmo tempo clássico e rústico que perpassa toda a obra. Gosto muito de capas antigas de livros de ficção científica. Vale a pena conhecer um pouco mais sobre a história da Editora Francisco Alves que está em atividade desde 1854. No fim do texto vou deixar o link de uma matéria interessante sobre sua história e importância para a literatura nacional.

A história do homem invisível já serviu de inspiração para algumas adaptações cinematográficas de sucesso e não por acaso. Na linguagem do cinema a premissa de um homem invisível também funciona muito bem. A possibilidade de ter alguem invisível a sua volta é assustadora e a de ser o próprio invisível tem lá sua atração. A história serviu de inspiração para o cinema no ano de 1933 com The Invisible Man que talvez seja a adaptação mais fiel ao livro de Wells. Em 1940 foram produzidos mais dois filmes, o The Invisible man Returns e The Invisible Woman. Em 1942 lançaram o The Invisible Agent e em 1944 o The Invisible Man's Revenge. Essas produções foram uma espécie de sequência por conta do sucesso do primeiro filme. Em 2008, The Invisible Man foi selecionado para ser preservado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos da América. No ano 2000, já com um roteiro completamente diferentes, mas partindo da invisibilidade como tema tivemos o bem sucedido O homem sem sombra que chamou bastante atenção pelos efeitos especiais. E em 2020 outra obra interessante apostou na fantasia do homem invisível com uma história completamente nova chamado O Homem Invisível e com a participação da atriz Elisabeth Moss.

Adeus, Gana de Taiye Selasi

Adeus, Gana de Taiye Selasi é o livro enviado pela TAG Experiências Literárias  no kit de janeiro de 2020 e a publicação foi concebida em parceria com a Editora Planeta. Foi o primeiro livro de Selasi e lançado originalmente em 2013.


Adeus, Gana é um livro que já nasce clássico. Taiye Selasi escreve com um talento admirável ao construir uma narrativa que passeia entre presente e passado. O leitor precisa estar o tempo todo atento para perceber esse jogo que funciona como um flash back essencial para conhecer a fundo cada personagem. Conhecendo cada personagem vamos conhecendo também a história de uma família de origem africana que foi obrigada a migrar por conta de questões políticas. Kweku Sai é natural de Gana e sua esposa Folasadé da Nigéria. Eles são pais de Olu, Sadie, e do casal de gêmeos Taiwo e Kehinde que foram criados nos EUA.

Essa edição conta com duas informações adicionais e que funcionam muito bem para nós leitores. Nas primeiras páginas encontramos um quadro dedicado a apresentar pronúncia, significado e origem de algumas palavras que aparecem com frequência no romance. Como essas palavras são de origem africana (Gana e Nigéria) acaba sendo um exercício muito legal saber que estamos tendo a oportunidade de aprender a pronúncia. E na página seguinte encontramos a Árvore Genealógica das personagens que também colabora muito com o entendimento da história.

Sobre gatos de Doris Lessing

Sobre gatos de Doris Lessing (Autêntica Editora, 2017) é um livro passatempo para quem é apaixonado por essas bolas de pelos. É uma espécie de autobiografia, mas ao longo do livro não sabemos praticamente nada sobre a vida pessoal de Doris.


Não sabemos se ela se casou, se teve filhos, se plantou uma árvore, se toca um instrumento... cada momento de sua vida retratado aqui é de sua interação com os vários gatos e gatas que criou. A autora vai relatando cada detalhe da convivência com os bichanos e nos mostrando as delícias e tristezas de cuidar desses animais que são envoltos em mistérios.

O livro não apresenta nenhum dado científico sobre a vida dos gatos, não se embasa em nenhum estudo - a proposta não é essa. Doris se joga naquela magia que é criar gatos e toda a falta de detalhes sobre sua própria vida foi convertida em muitos detalhes sobre nascimento, doença, fofura, alimentação, dominação e morte de cada gato que habitou sua casa.