Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência de Tove Ditlevsen

Trilogia de Copenhagen: Infância, Juventude e Dependência, de Tove Ditlevsen (Companhia das Letras, 2023), é um romance autobiográfico dividido em três partes, no qual acompanhamos a história de vida de uma escritora que sempre teve a certeza de que sua razão de viver era a escrita. A obra é magistral no que oferece de apreciação da escrita artística, poética e confessional. A narradora não se abstém de tratar de temas que podem soar delicados. Ditlevsen o faz sem qualquer tipo de pudor ou moralismo, e isso chama a atenção quando situamos a sua obra no espaço e no tempo. Além de ser um exemplo de dedicação ao fazer literário, a obra também pode ser lida como um texto rico em camadas sociais, políticas e psicológicas.


O estilo literário de Trilogia de Copenhagen, que é realista e sem sentimentalismos, acaba por nos remeter aos trabalhos de autores contemporâneos que também exploram uma escrita mais autobiográfica, e isso demonstra o pioneirismo do texto de Tove, que já o fazia em meados dos anos 60.

A escrita é a grande protagonista da narrativa. Tove Ditlevsen possuía uma relação obsessiva com o ato de escrever, sendo a poesia a sua forma de expressão mais explorada. O texto poético exercia uma função em sua vida que ultrapassava a produção e apreciação de arte propriamente dita: era também uma questão de sobrevivência. Para além disso, a obra esmiuça o impacto das limitações sociais que sempre fizeram parte da vida de Tove e de como a condição de mulher, o casamento e a maternidade quase foram um empecilho para a realização de seu sonho em ser uma escritora de sucesso.

Na primeira parte da obra, mergulhamos em um verdadeiro tratado sobre a infância como etapa definidora de toda a nossa vida. Testemunhamos um olhar de criança atenta ao que acontece à sua volta, de forma a subverter a ideia romântica de que as crianças estão alheias ao mundo dos adultos. No caso de Tove, em especial, vemos uma menina inteligente, sarcástica e com olhar apurado para enxergar o lado B da vida.

A partir da infância, a narradora começa a fazer uma análise do contexto em que vive e percebe que a vivência em um bairro operário também a colocaria em situações de inadequação em outros contextos. Tove sempre precisou lidar com a solidão de ser uma menina que gostava de poesia, ao mesmo tempo em que lidava com todas as outras obrigações e expectativas que são colocadas sobre os ombros das mulheres.

Não dá para escapar da infância e ela nos acompanha como um cheiro. Dá para percebê-la em outras crianças, e cada infância tem seu próprio cheiro. Não conhecemos a nossa e às vezes temos medo de que ela seja pior que a dos outros. A gente vai e fala com outra garota cuja infância tem cheiro de cinza e carvão, e de repente ela dá um passo atrás, pois sentiu o fedor pavoroso da nossa própria infância
Na segunda parte, intitulada “Juventude”, Tove está ainda mais dedicada ao ato de escrever, ao mesmo tempo em que as revoluções internas e externas da adolescência acontecem. O desejo de ser uma escritora publicada se torna uma obsessão, assim como a vontade de sair de casa aos dezoito anos. Vemos Tove viver seus primeiros e conturbados relacionamentos e sua busca por estabilidade financeira passando por empregos medíocres, enquanto luta por sua primeira publicação. Enquanto isso, o fantasma da Segunda Guerra Mundial ronda o seu país.

Estou trabalhando numa pensão na Vesterbrogade, perto da Estátua da Liberdade. Para minha mãe, me mandar para outro bairro seria tão impensável quanto me mandar para os Estados Unidos. Entro às oito da manhã todo dia e trabalho doze horas numa cozinha coberta de fuligem e gordura, onde nunca há paz nem descanso. Quando chego em casa à noite, estou cansada demais para fazer qualquer coisa que não seja ir para a cama.
Na última parte da obra, “Dependência”, vemos a narrativa tomar um tom mais pesado e que pode gerar gatilhos, pois é a fase da vida em que ela embarca em um vício destrutivo em opioides após realizar um aborto. A vida conturbada, somada aos casamentos tóxicos, a leva a uma perda do controle sobre a própria escrita. Sem pedir desculpas nem buscar redenção, Ditlevsen assina uma autobiografia devastadora e brutalmente honesta sobre os custos de se manter fiel à própria voz.

Cor de defunto da Cami di Malta

Cor de defunto, de Cami di Malta (Autêntica Contemporânea, 2026), é uma obra que chama atenção pela originalidade da escrita da autora. A narradora, Lilá, é uma personagem que se mostra sem filtros ao relatar o processo do luto pela perda da mãe. O diferencial é que esse luto é destrinchado como uma vivência que se inicia muito antes da morte propriamente dita. De forma quase analítica, mas que passeia pelo poético, pelo grotesco e pelo sarcasmo, Lilá demonstra como a morte de sua mãe fora uma espécie de tragédia anunciada, costurada por cada situação de descaso e de violência experimentada ao longo da vida.


A morte passa a ser algo muito presente na rotina de Lilá, tanto pelo desamparo de acompanhar o definhar da mãe quanto pela sua própria profissão. Lilá trabalha em uma funerária maquiando e preparando corpos para os velórios; o título do livro faz referência ao nome do batom que ela utiliza nos lábios dos mortos para dar um “tom de vida”. Em uma das partes mais fortes da obra, Lilá passa o “cor de defunto” em si mesma, em uma cena emblemática que nos leva a refletir sobre a busca da narradora em entender o limiar entre estar viva e estar morta.

É muito comum que livros dispostos a olhar para a morte retratem o luto como algo a ser superado, mas, em “Cor de defunto”, a autora nos convida a pensá-lo por um viés mais realista. Enquanto o “superar” soa como um “esquecer” para não doer, a história de Lilá nos mostra que o luto sempre estará presente quando se trata de nossos maiores amores e esse luto pode mudar de cor.

Eu acho que morrer se parece com adormecer. Não o adormecer normal, da terça-feira às 11 da noite. Mas o adormecer de tarja preta, sabe? Aquele torpor que vai tomando conta de cada limbo, varrendo a consciência pra calçada escura que a gente não vê. Morrer dormindo deve ser como morrer duas vezes. Me pergunto se é por isso que Mainha dormia tanto. Se ela sabia e tava treinando, pra se certificar de que não ia morrer pela metade e ficar presa em mais um escuro.
A ideia de “mais um escuro” é o que dá o tom de toda a narrativa. Apesar de a morte da mãe ser o norte da história, à medida que nos embrenhamos mais em sua trajetória, vamos conhecendo os outros escuros que pontuam sua vida antes do breu definitivo.

Existe o escuro resultante de uma doença em um processo de cegueira em que a mãe foi perdendo a visão aos poucos, assim como existe o lado obscuro da violência doméstica. A mãe de Lilá é um ser humano em lento processo de desabamento, e acompanhamos uma relação familiar em que a filha assiste a esse desmoronar que funciona como um prelúdio para o fim.

Com um ritmo ágil, a narrativa nos conduz por um caminho em que as singularidades psicológicas dos personagens são o que nos prende à leitura. Para além disso, existe também um protagonismo do corpo humano enquanto caixa que mantém nossa existência e do que podemos fazer com ele, para o bem e para o mal.

Como eu vim parar no limbo etéreo entre o céu e a terra? Viva, mas nem tanto. Morta, mas nem tanto. Pulso tem, mas tá faltando. Olhos de águia, coração forte, pernas bem formadas. Mas mais morta que os defuntos que passam por essa maca.
Cor de defunto é uma ótima opção para leitores que buscam obras focadas em profundidade psicológica. O livro possui uma narrativa autêntica, dotada de um humor sombrio e capaz de suscitar reflexões sem romantizações sobre a morte e a solidão. Cami di Malta entrega um romance de estreia ágil e marcante, que ressoa ao explorar a temática do luto dentro e fora de uma funerária e dentro e fora de nós mesmos.

A humilhação de Philip Roth

A Humilhação, de Philip Roth (Companhia das Letras, 2017), é um romance curto que trata de temas delicados. No alto de seus sessenta e cinco anos, Simon Axler, um ator consagrado no teatro, se vê às voltas com uma total perda de confiança na atuação. Após uma série de temporadas memoráveis nos palcos, ele simplesmente entra em uma crise existencial, passando a acreditar que perdeu seu talento para interpretar, o que o leva a um processo de depressão que abala sua vida em todos os âmbitos. Assistimos a um homem que, ao tentar recuperar a própria dignidade, afunda-se ainda mais em processos de autossabotagem.


A questão da humilhação aparece como uma maneira de dar forma a um dos maiores medos do ser humano: deixar de entender a si mesmo ou a quem acreditávamos ser. O que resta de nós quando já não conseguimos desempenhar aquilo que dava sentido à nossa vida e pelo qual éramos reconhecidos?

Ninguém era mais meticuloso, estudioso e sério do que ele, ninguém administrava melhor seu próprio talento, ninguém se adaptava melhor às mudanças de condições que necessariamente ocorriam numa carreira teatral que já durava tantas décadas. Deixar subitamente de ser o ator que ele era – isso era inexplicável, era como se uma noite, enquanto ele dormia, tivessem roubado o peso e a substância de sua existência profissional. A capacidade de falar e ouvir num palco – em última análise, a coisa se resumia a isso, e era isso que havia desaparecido.
O livro é uma verdadeira representação da eterna angústia da figura do artista e, ao fazê-lo, serve como espelho para crises existenciais que são universais. No caso do protagonista, ao se ver travado diante do exercício da atuação, ele se volta também para as questões do próprio envelhecimento e de como sua identidade sempre esteve atrelada ao fazer artístico.

Sem a capacidade de atuar, Axler, que sempre viveu através dos personagens que interpretou, se vê perdido ao ser obrigado a encarar a própria identidade. Sem os palcos como âncora, até mesmo a sua relação amorosa entra em declínio, juntamente com suas saúdes física e emocional.

Axler não conseguia se convencer de que estava louco, tal como não havia conseguido convencer ninguém, nem mesmo a si próprio, de que era Próspero ou Macbeth. Era um louco artificial também. O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel.
A obra traz reflexões interessantes que nos provocam a pensar em quais são os âmbitos da vida em que fazemos verdadeiras performances. Coloca o fato de existir e ser funcional como partes de uma grande peça cheia de atos, e a incapacidade de atuar como uma consequência de quando um plano não sai como imaginamos, ou quando um problema aparentemente sem solução se projeta em nossa frente. Quem somos nós quando perdemos a capacidade de atuar?

Existe um pessimismo pulsante em toda a narrativa da obra, que já nasce sob a luz de um título que soa ao mesmo tempo pesado e irônico. A escrita trágica e a construção de um personagem intenso lembram as histórias shakespearianas, e conseguimos transportar facilmente a sensação da leitura para o palco soturno de uma peça de teatro. Tudo é narrado com uma dose a mais — seja ela de amor, de desamor, de tesão ou de morte.

A segunda vinda de Hilda Bustamante da Salomé Esper

A segunda vinda de Hilda Bustamante, da escritora argentina Salomé Esper (Editora Autêntica, 2024) é um romance curto, conciso, mas eficiente em explorar as características do realismo mágico latino-americano. Em uma cidade interiorana e bucólica, Hilda, uma senhora comum e respeitada em sua comunidade, levanta dos mortos após quase um ano de seu falecimento. Depois de conseguir romper caixão, terra e cuspir os vermes da boca, ela se vê diante da porta de casa e prestes a rever seus parentes mais próximos.


Com esse início de narrativa instigante, uma escrita rápida e ótima tradução do Sérgio Karam, adentramos em uma obra que visita o absurdo com um nível de sutileza que nos dá uma falsa impressão de normalidade, para tratar de temas essenciais para se pensar a existência humana. O romance é uma espécie de tratado sobre amor, vida, morte e luto, onde as lembranças tem um papel fundamental para a narrativa.

Naquela manhã, Hilda e suas plantas por fim se reencontraram. Hilda e seus tecidos. Hilda e sua casa. Até aquele momento, não conseguira sair do invólucro do abraço, do transbordamento do absurdo e da exigência de que fosse ele a explicar tudo, como se pudesse fazê-lo. Isso lhe pareceu curioso: encontrar-se com as coisas como se não as visse há muito tempo, mas sem ter lembrança alguma dessa separação. Perguntava-se o que teria mudado enquanto ela não estava, como as coisas com vida tinham continuado a crescer sem que ela testemunhasse.
Uma das frases mais marcantes do livro é a que pergunta ao leitor para onde vão os que ficam e essa provocação vai nortear todo o mistério do livro. Inicialmente, nos pegamos preocupados em entender qual é o significado da segunda vinda de Hilda, como se essa resposta fosse aparecer em algum momento, bem aos moldes das resoluções dos romances policiais. Acontece que o que realmente importa é a reflexão sobre quem somos diante da morte e as diversas formas que o processo de luto pode aflorar.

Após a sua ressureição, Hilda não faz nada de alarmante, nem mesmo suas reações são exageradas ou exasperadas. Vemos uma mulher que voltou para casa e se enterrou mais uma vez ao se colocar a contemplar o que a sua morte causou a quem ficou.

Salomé Esper desenha estas e outras reflexões trabalhando com a manifestação da tristeza, mas também com o humor e a ironia. Constrói cenários e acontecimentos que além de nos colocar dentro da cidade, também nos coloca diante da intimidade de Hilda e dos demais personagens que a rodeiam.

O rumor se espalhou como se espalham os rumores nas cidades pequenas: com pernas fortes, a toda velocidade, saltando sobre os buracos, os muros, as pessoas. Era como aquela brincadeira do telefone sem fio, em que a cada relato o rumor se transformava em outra coisa, aqui tinha mais brilho e espiritualidade, ali um tom mais macabro e a suspeita de que todas as crianças estavam em perigo.
Um aspecto que chama atenção na escrita é o uso do simbolismo. O título já desperta diferentes interpretações, onde a ideia de uma "segunda vinda" remete não só a retorno, como também à renascimento e reconstrução da identidade. Salomé Esper utiliza elementos do cotidiano, espaços e acontecimentos que ultrapassam sua função narrativa imediata, assumindo um valor simbólico. Esses símbolos nunca oferecem respostas prontas.

A segunda vinda de Hilda Bustamante é uma obra que fica com o leitor mesmo depois da última página. Além de falar sobre a morte sem tabus e nos levar a refletir sobre tipos de perdas que todos nós teremos um dia, a obra se desenrola através de personagens cativantes e de reviravoltas que surpreendem e provocam reflexões.


Água fresca para as flores da Valérie Perrin

Água fresca para as flores da Valérie Perrin (Intrínseca, 2021) é um romance onde acompanhamos de perto a vida de Violette Toussant, uma mulher emocional e bastante devotada a seus amores. De forma não linear, embrenhamos nos pensamentos, sentimentos e dores de uma personagem que a vida e as circunstâncias transformaram em uma zeladora de cemitério. Através de uma escrita fluida e hipnótica, Valérie Perrin constrói uma atmosfera incomum e nada convencional sobre o que a cultura e o senso comum construíram em relação a um ambiente como o cemitério e em relação ao luto e a morte.


Eu me chamo Violette Toussaint. Fui vigia ferroviária e agora sou zeladora de cemitério. Degusto a vida, tomo-a em pequenos goles, como um chá de jasmin misturado com mel. E, quando a noite chega, depois que os portões do meu cemitério são fechados e a chave é pendurada na porta do meu banheiro, estou no paraíso.
Podemos dizer que “Água fresca para as flores” é um romance triste, mas a sua tristeza se apresenta de uma forma bastante peculiar e interessante. Dois elementos são principais para entender como a tristeza será abordada. De um lado, temos a Violette, uma personagem que irá cumprir a clássica trajetória da heroína passando por percalços de todos os tipos. Do outro temos a ambientação do cemitério.

Apesar de ser a heroína que sofre, Violette está longe de ser uma mulher fraca. Desde a juventude, se mostrava muito conectada a seus próprios prazeres e com uma coragem de se jogar em situações onde as consequências nem sempre se apresentavam de forma clara. Nessas condições que ela se apaixona perdidamente pelo belo e vagabundo Philippe Toussaint e viverá uma relação bastante problemática. Philippe será sua redenção e sua perdição.

Sabemos pouco sobre como é a rotina de alguém que trabalha e mora em um cemitério, mas somos cheios de certezas sobre essa questão, sendo uma das mais fortes a de que são pessoas tristes. Violette, além de romper com estereótipos relacionados ao luto e a morte, também apresenta o cemitério por uma outra ótica. O livro trata o cemitério não como um lugar macabro e assustador, mas como um lugar de encontros e histórias.

Os únicos fantasmas nos quais acredito são as lembranças. Sejam elas reais ou imaginárias. Para mim, as entidades, os mortos-vivos, os espíritos, todas essas coisas sobrenaturais só existem na cabeça dos vivos. Algumas pessoas se comunicam com os mortos, e acho que são sinceras, mas, quando alguém morre, morre. Se volta, é porque um vivo o ressuscitou através do pensamento. Se fala, é porque um vivo empresta sua voz; se aparece, é porque um vivo o projeta com seu espírito, como um holograma, uma impressora 3D.
Seguindo uma linha que é quase inerente às obras da Valérie Perrin, muitas outras histórias vão sendo costuradas em paralelo com a trama principal. Os enterros e os mortos que passeiam pela obra, acabam por funcionar como esse ponto de congruência entre as histórias de quem está vivo e de quem está morto, provando que o luto é também um meio de manutenção da memória. Alguns personagens tem sua introdução pelo ano de nascimento seguido de seu ano de morte, para logo em seguida viajarmos pelas suas histórias de vida e de morte. No cemitério de Violette os mortos não são apenas lápides frias.

A autora trabalha com a ideia de que “todas as profissões que têm a ver com a morte parecem suspeitas”, subvertendo a narrativa e criando personagens divertidos, carismáticos e cheios de pulsão de vida. Violette se junta à sua equipe de trabalho e transforma o cemitério em um espaço acolhedor e humano. Ela é a zeladora de cemitério que lida com um processo de luto pessoal profundo, mas que por baixo do sobretudo preto, sempre usa um vestido floral. Violette passa a viver na linha tênue entre o seu próprio sofrimento e a capacidade de ouvir e cuidar de cada um que a procura no cemitério.

Existem alguns mistérios que rondam toda a narrativa e eles vão sendo respondidos de forma gradual, enquanto a narrativa passeia entre presente, passado e diferentes pontos de vista. O estilo da escrita de Perrin passeia pela prosa poética e por uma melancolia que nos faz refletir sobre as temáticas que a obra apresenta. A obra deixa um forte apelo de que a vida nem sempre será justa ou honesta, mas que diante de qualquer situação sempre será possível oferecer água fresca para as flores.

As alegrias da maternidade de Buchi Emecheta

As alegrias da maternidade de Buchi Emecheta (Editora Dublinense, 2018) conta a história de Nnu Ego, filha de um grande líder africano chamado Agbadi e da rebelde Ona, durante o período colonial na Nigéria. Nnu Ego pertence à etnia igbo, um grupo étnico social e culturalmente diverso que vive em sua grande maioria no sudeste do país e que vive em conflito com o povo iorubá que ocupa a parte ocidental do país. A obra utiliza dos costumes de algumas regiões do continente africano, para discutir sobre o papel e a condição das mulheres através da maternidade.



Nnu Ego, assim como todas as mulheres daquela cultura, nasceram com uma missão principal: gerar filhos. O cumprimento dessa missão será o que irá definir posições sociais, alguns privilégios e a alcunha de “mulher completa”. A escritora nigeriana Buchi Emecheta publicou o romance em 1979 e sua leitura soa bastante atual no recorte a que se propõe explorar.

A obra é uma das mais conhecidas da autora e aborda temas como maternidade, colonialismo, tradição, modernidade e o papel da mulher na sociedade nigeriana. Com uma escrita imersiva, que transporta os leitores para costumes pouco conhecidos por nós, Buchi parte de uma cultura específica e ainda assim alcança questões universais.

A força de sua narrativa pode ser analisada a partir do título escolhido para a obra, que é propositalmente enganoso e irônico. Apesar da protagonista Nnu Ego amar imensamente cada um dos seus nove filhos e praticamente doar a própria vida em prol do bem estar de cada um deles, as “alegrias” mencionadas no título funcionam como uma provocação para pensarmos sobre o peso da maternidade forjada em crenças e costumes que alimentam o patriarcado. A maternidade imposta como fonte de realização, termina por se transformar em opressão, sacrifício, frustração e perda de autonomia.

Os homens... a única coisa em que eles estavam interessados era em bebês homens para dar continuidade a seu nome. Mas por acaso uma mulher não precisava trazer ao mundo a mulher-bebê que mais tarde geraria filhos? ‘Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?...

Através da vida de Nnu Ego, a narrativa vai desenhando as diversas formas de violência a que uma mulher é submetida através da definição de papéis sociais no trato com a família e na vida em sociedade. O interessante é que acompanhamos uma mudança de mentalidade da personagem a medida em que ela começa a perceber que algo está errado naquela estrutura onde as mulheres precisam gerar filhos homens para serem vista enquanto sujeitos.

Sou uma prisioneira de minha própria carne e de meu próprio sangue. Será que essa é uma posição tão invejável assim? Os homens nos fazem acreditar que precisamos desejar filhos ou morrer. Foi por isso que quando perdi meu primeiro filho eu quis a morte, porque não fora capaz de corresponder ao modelo esperado de mim pelos homens de minha vida, meu pai e meu marido, e agora tenho que incluir também meus filhos. Mas quem foi que escreveu a lei que nos proíbe de investir nossas esperanças em nossas filhas? Nós, mulheres, corroboramos essa lei mais que ninguém. Enquanto não mudarmos isso, esse mundo continuará sendo um mundo de homens, mundo esse que as mulheres sempre ajudarão a construir.

“As alegrias da maternidade” é uma obra guiada pela urgência de uma mulher em cumprir o que sempre foi esperado dela enquanto mulher, e ao fazê-lo, acaba por expor um cenário de submissão e violência onde as mulheres não cabem mais.


Pequenas coisas como estas da Claire Keegan

Pequenas coisas como estas da escritora irlandesa Claire Keegan (Relicário, 2024) é um romance curto, mas que consegue abordar diversas questões interessantes sobre a Irlanda de meados dos anos 80, um período fortemente marcado pela influência da Igreja Católica na vida social e institucional do país. A obra aposta em uma escrita reflexiva e contemplativa, ao mesmo tempo que utiliza do ambiente e do clima de uma região, para falar sobre discurso religioso, isolamento, silenciamentos, estruturas de poder e a realidade de uma rotina acachapante.


O livro nos apresenta a Bill Furlong, um homem metódico e responsável que trabalha como comerciante de carvão e madeira em uma região que enfrenta rigorosas frentes frias. Ele é uma espécie de referência na comunidade. Bill, filho de mãe solo, acaba formando uma família que vive uma realidade simples, mas bastante estruturada e funcional. Sua busca incessante por equilíbrio familiar parece vir como uma compensação do fato de não ter conhecido seu pai. Bill apoia e tem muito orgulho de suas cinco filhas.

A construção do protagonista destaca Bill Furlong como um homem comum, cuja profundidade se revela justamente na simplicidade de sua vida e em sua sensibilidade moral. Ao longo da história, ele é confrontado com um dilema ético que o coloca entre a conformidade com as normas sociais e a necessidade de agir com compaixão diante de uma injustiça evidente. Esse conflito interno é construído de maneira sutil, mas poderosa, evidenciando como pequenas escolhas podem carregar grande peso moral.

Ao mostrar a rotina de Bill, o livro faz reflexões sobre a realidade da vida de um trabalhador e os desafios de manter a dignidade e o bem estar de uma família. Bill tem um olhar muito sensível para a vida e ainda que se veja sempre imerso em uma rotina que também oprime, um incômodo sempre o acompanha.

Como seria a vida, ele se perguntou, se lhes fosse dado tempo para pensar e refletir sobre as coisas? Suas vidas seriam diferentes ou mais ou menos a mesma coisa – ou só perderiam o controle? Mesmo enquanto ele batia a manteiga e o açúcar, sua mente não estava tanto no agora, naquele domingo que se aproximava do Natal, com sua esposa e filhas, mas no amanhã e em quem devia o quê, e em como e quando ele entregaria o que fora encomendado e a que empregado ele deixaria qual tarefa, e como e onde cobraria o que lhe era devido – e antes que o amanhã chegasse ao fim, ele sabia que sua mente já estaria trabalhando da mesma maneira, mais uma vez, no dia seguinte.
Em Pequenas Coisas Como Estas, os temas centrais giram em torno da moralidade e da coragem individual diante de injustiças socialmente normalizadas. A narrativa explora a tensão entre empatia e conveniência, mostrando como muitas vezes o silêncio coletivo contribui para a manutenção de abusos. Ao mesmo tempo, a obra destaca o peso da culpa e da omissão, sugerindo que não agir também é uma forma de escolha moral. Nesse contexto, o livro valoriza os pequenos gestos de bondade, indicando que atitudes aparentemente simples podem representar atos significativos de resistência e humanidade.


Os esquecidos de domingo da Valérie Perrin

Os esquecidos de domingo da Valérie Perrin (Editora Intrínseca, 2026) é o primeiro romance da autora, que hoje é uma das mais lidas da França. Na história, acompanhamos a vida de Justine, uma jovem que trabalha como auxiliar de enfermagem em uma casa de repouso com muito amor e afinco no trato com os idosos. A obra faz reflexões interessantes sobre vida, morte, amor, memória e envelhecimento, através da construção de personagens interessantes e que carregam consigo as contradições do ser humano.


O livro é estruturado de tal maneira, onde acompanhamos três grandes histórias em uma só. Temos o arco narrativo onde conhecemos de perto a Justine e todas as suas questões. A garota vive em uma cidade pequena com seus avós e seu primo Jules, que considera um irmão. Enquanto os avós são puro silêncio, Jules é uma das poucas experiências de afeto de Justine.

A família lida de forma silenciosa com o luto causado por um acidente de carro que matou os pais de Justine e Jules. Quatro pessoas morreram na mesma noite e parece haver um segredo sobre as reais circunstâncias do acidente. Acontece uma verdadeira investigação pessoal de Justine sobre sua família.

Na casa de repouso Hortênsias, Justine se mostra aberta a não só cuidar bem de cada um dos residentes, como também se interessa pela vida de cada pessoa que atende. Essa relação se torna ainda mais intensa nos momentos de convivência com Hèléne, senhora que viveu uma história de amor com carga de emoção e drama dignos do cinema e sua história se mistura com a história daquele pequeno vilarejo da Borgonha. Justine começa a registrar o que Hèléne lhe conta em um caderninho azul e esse é mais um dos arcos da narrativa. A vida de Hèléne é tão emocionante que é como se fôssemos apresentados a um livro dentro do outro.

Temos também um arco narrativo de mistério que nomeia o livro. “Os esquecidos de domingo” são aqueles idosos que recebem pouca ou nenhuma visita dos parentes nos fins de semana e acabam participando de atividades de socialização propostas pela casa de repouso. Acontece que alguém, que possui acesso a casa de repouso Hortênsias e aos dados desses idosos, começa a telefonar para os familiares dos “esquecidos de domingo” como se fosse a própria instituição, informando a “morte” dos idosos esquecidos que ainda estão vivos. Isso acarreta confusões, uma investigação, matérias na televisão, mas também aumenta a frequência de visitas.

Mas eu não sei a partir de que idade se vira velho. A sra. Le Camus, minha gerente, diz que é a partir do momento em que a pessoa não consegue mais cuidar da própria casa sozinha. Que tudo começa quando é preciso deixar o carro na garagem porque viramos um perigo, e tudo termina com uma fratura na cabeça do fêmur. Eu acho que começa com a solidão. Quando o outro se vai. Para o céu ou para outra pessoa.

“Os esquecidos de domingo” é um romance que trata de diversos temas, mas a questão que se destaca é a do envelhecimento e do lugar afetivo e social em que colocamos os idosos. O interessante é que em nenhum momento a obra chega a ser piegas, e isso se deve a própria natureza dos personagens. O afeto de Justine pelos idosos e principalmente por Hèléne, tem origem na sua carência de afeto familiar. Justine embarca na vida de Hèléne, por nunca ter tido a oportunidade de embarcar na vida dos próprios avós, que apesar de a criarem, sempre deixarem algumas barreiras intransponíveis na relação. Justine se encontra na profissão de cuidar dos idosos, porque desenvolveu uma urgência em ouvir.

Meu cotidiano é assim, sabe? A gente tem que escutar tudo com urgência, porque o silêncio nunca está muito longe.

Justine enxerga os idosos como sujeitos. Isso faz toda a diferença para o seu trabalho e também para sua percepção de vida. Quando olha para cada um dos residentes da casa Hortênsias, Justine enxerga lembranças, memórias, saudades, amores, pessoas dotadas de “bibliotecas íntimas”. “Essas bibliotecas onde amo passar as horas”.

Ao tratar da temática da velhice, o livro embarca em discussões sobre memória e esquecimento, velhice e abandono, amor e perda, identidade e passado. O próprio ritmo da escrita nos carrega por uma aventura que obedece ao ritmo de quem conta uma história a alguém, e que conforme vai se lembrando de episódios do passado, ajuda a tecer o fio da vida. A alternância temporal da narrativa funciona como uma ilustração do jogo da memória.

A morte também é uma presença constante no romance, seja caminhando pelos corredores da casa de repouso, na revisitação do passado de Hèléne, que antes da realidade do envelhecimento, teve que enfrentar a realidade da guerra, seja nas saudades de quem já se foi e também no silêncio causado pela morte dos pais de Justine.

Na França, temos dificuldade com essa palavra, e, na Hortênsias, somos proibidos de mencioná-la. Os residentes com frequência usam eufemismos irônicos para falar da morte: bater as botas, abotoar o paletó, ir dessa para melhor, esticar as canelas, dar o peido-mestre, virar estrela, dar o último suspiro. Os funcionários devem usar palavras dignas: partir, falecer, descansar, ir-se, dormir o sono eterno.
Com uma linguagem sensível, poética e emocional, Valérie Perrin nos leva a refletir sobre o que permanece quando envelhecemos e o que podemos fazer enquanto vemos a vida passar diante de nossos olhos. É uma história sobre a importância do olhar, da valorização das pessoas que nos rodeia e da importância de ouvir e registrar histórias. Diante da morte, que um dia chegará para todos nós, a principal marca que poderemos deixar estará nas histórias que vivemos com os outros.

O expresso de Tóquio de Seicho Matsumoto

O expresso de Tóquio do escritor japonês Seicho Matsumoto (Editora Todavia, 2025) é um romance policial inovador e que inaugurou uma outra maneira de escrever mistério, onde a minúcia toma o lugar da violência e do sangue. O livro é considerado de grande importância para o romance policial japonês, por apostar em uma narrativa que se apega aos detalhes para decifrar os enigmas da trama. Temos um investigador metódico como figura central e a construção de um personagem humano e crível, confere ares mais realistas para uma investigação cheia de reviravoltas e com um clima que remete ao Japão do pós-guerra.


Dois corpos são encontrados em uma praia deserta e tudo leva a crer que estamos diante de um pacto suicida entre dois amantes. Acontece que o homem que jaz morto nessa praia, estava de alguma forma envolvido em um grande escândalo de corrupção política e a mulher era uma garçonete de temperamento mais recluso que até o momento em que são vistos embarcando em um trem, até o momento em que seus corpos são encontrados lado a lado, nunca haviam sido vistos juntos antes.

Mesmo diante de um cenário, que aparentemente se explica por si só, os investigadores Torigai e Mihara não se veem convencidos da motivação da morte dos jovens e partem em busca de detalhes que parecem insignificantes para decifrar a real história por trás daquelas mortes. É aí que a magia acontece, pois eles partem de evidências que nenhum outro investigador alçaria ao status de importância.

Mihara olhava as anotações, pensativo. Esses itens eram como quatro rochas empilhadas uma sobre a outra, praticamente inquebrantáveis. Porém, era necessário destruí-las. Sim, era preciso fazê-lo a qualquer custo.
Mihara se vê desde o início convencido de que essa história esconde uma motivação maior do que um pacto de morte romântico e inicia uma verdadeira viagem pelo Japão utilizando de pistas e hipóteses aparentemente frágeis, mas que vão demonstrando sua incrível capacidade de observação e decifração da realidade e dos depoimentos que colhe.

Os horários de chegada e partida dos trens da estação de Tóquio, funcionam como pontos chave para elucidação da trama e a forma como o autor destrincha a tabela de horários das estações é genial. Todo o clímax da narrativa está na decifração de enigmas e não na caçada ou no embate corpo a corpo com um assassino perigoso. Ainda assim, nos vemos completamente vidrados pela forma lenta e inteligente com que a investigação vai se destrinchando.

Não importava por que ângulo se analisasse, não havia dúvida de que tinha sido um duplo suicídio amoroso. E residia aí a contradição. Por que pessoas que não mantinham um relacionamento amoroso cometeriam suicídio juntas?

“O expresso de Tóquio” é uma obra de leitura rápida, mas que ao mesmo tempo demanda muita atenção do leitor. O uso dos horários de trens e a circulação entre as estações contribuem para a originalidade do enredo e nos coloca mais interessados nas pistas e nos enigmas do que nas cenas de perseguição e violência que estamos acostumados a ler em histórias ocidentais do mesmo gênero. O mistério é resolvido principalmente por uso de dedução lógica e pela obsessão do investigador Mihara pelo caso. Apesar de ter sido publicado nos anos 50, a obra chama atenção pela sua narrativa moderna, onde muitas vezes temos a impressão de estar lendo algo mais próximo da nossa década.

Úrsula de Maria Firmina dos Reis

Úrsula da Maria Firmina dos Reis (Penguin Classics, 2018) é um romance brasileiro escrito no ano de 1859 e considerado por estudiosos como o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. Além de todo seu pioneirismo ao tratar de temas como a voz e a condição das mulheres, escravidão, abolicionismo, negritude e luta de classes, soma-se a isso o fato de que Maria Firmina dos Reis era uma mulher negra. Talvez este seja o principal motivo para que a obra caísse em esquecimento por quase cem anos, uma vez que fora lançada em pleno período escravocrata. Podemos dizer que “Úrsula” é o nascimento do que hoje chamamos de literatura afro-brasileira.


Na história conhecemos Tancredo, um jovem branco de família abastada que após sofrer uma grande desilusão amorosa e um acidente grave de montaria, é salvo e cuidado por Túlio, um negro escravizado. O encontro que começa de forma trágica, acaba sendo responsável pelo nascimento de uma amizade sincera que mudará o rumo de suas vidas. Através de Túlio, Tancredo se aproximará da família de Úrsula, uma jovem negra de origem simples, de beleza marcante e o apaixonamento é imediato.

Era tão caridosa... tão bela... e tanta compaixão lhe inspirava o sofrimento alheio, que lágrimas de tristeza e de sincero pesar lhe escaparam dos olhos, negros, formosos, e melancólicos. Úrsula, com a timidez da corsa vinha desempenhar à cabeceira desse leito de dores os cuidados, que exigia o penoso estado do desconhecido.
Toda a trama é desenhada seguindo fortemente as características e o sentimentalismo exacerbado do romantismo. O amor aparece de forma idealizada, como algo que prende o coração e os sentidos, assim como a figura da mulher é retratada como algo belo, angelical e quase intocável. O amor se apresenta pela ordem do impossível e do proibido, uma vez que Úrsula e Tancredo não só enfrentam a diferença de classe e de raça, como também possuem um algoz violento em seu rastro. Úrsula é perseguida pelo seu tio poderoso e impiedoso, que também envereda por um amor obsessivo e quase irracional pela jovem. Ele entra numa busca por vingança por não conseguir o coração da moça, que devota todo seu amor a Tancredo.

Ainda que a obra explore de forma visível as características do romantismo, ao mesmo tempo consegue subverter e romper de forma muito natural com algumas visões conservadoras do período. Úrsula, por exemplo, é uma mulher que coloca o seu amor e a sua vontade à frente do que determinava as estruturas patriarcais da época. O faz ao apostar em um relacionamento interracial e ao lutar com bravura para não ter seu corpo e sua liberdade sequestrados.

Por trás da clássica e universal história do amor que precisa lutar contra tudo e contra todos para se concretizar, Maria Firmina dos Reis desenha, pela ordem do texto literário, a realidade de uma sociedade escravocrata e a forma como se dava a violência estrutural da escravidão.

Para além disso, ela fez um feito grandioso, que foi colocar personagens negros e escravizados no centro de uma trama em pleno ano de 1859. O povo negro aparece como personagens dotados de singularidades, sentimentos, memórias e voz própria. Não é uma história que aposta apenas no relato dos horrores da escravidão e dos escravizados, mas também na sua humanização.

“Úrsula” é uma obra lançada a exatos 167 anos e ainda assim podemos utilizá-la como fonte para discutir sobre as desigualdades históricas no Brasil e outras temáticas como racismo estrutural e violência de gênero.

A aranha de Lars Kepler

A aranha de Lars Kepler (Editora Alfaguara, 2025), pseudônimo do casal sueco Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, é um thriller que nos coloca novamente no encalço de um serial killer ao lado dos investigadores Joona Linna e Saga Bauer. Seguindo a fórmula de uma escrita ágil, capítulos curtos, enigmas inteligentes, a pressão psicológica e a violência características do thriller policial nórdico, somos engolidos por um enredo que é difícil de largar. Em “A aranha”, os autores revisitam acontecimentos de volumes anteriores da série protagonizada pelo detetive Joona Linna, onde Joona e Saga veem que fantasmas do passado podem influenciar no futuro.


Saga Bauer começa a receber encomendas com alguns enigmas que se decifrados, podem evitar que uma pessoa próxima a ela morra. Além das pistas, o embrulho apresenta uma pequena estatueta forjada em zinco, que reproduz a imagem da vítima. O assassino faz uma promessa de que nove pessoas irão morrer, caso Saga não consiga pará-lo e que a nona vítima será o próprio Joona Linna.

Eu tenho uma pistola Makarov vermelho-sangue. Há nove balas brancas no carregador. Uma delas está reservada para Joona Linna. A única pessoa que pode salvá-lo é você.
A forma como as vítimas são mortas, garante momentos de muita tensão durante a história. Além da destreza do serial killer na caça de suas vítimas, que age silenciosamente, como uma aranha, as condições em que as pessoas são assassinadas é de revirar o estômago de alguns leitores.

Como uma aranha, que prende sua presa numa teia e a dissolve com seu veneno, o assassino paralisa sua vítima com um tiro na coluna, o acondiciona em um saco plástico de borracha, de forma que se assemelhe a um casulo. Com a vítima ainda viva, despeja uma mistura química corrosiva, que de forma lenta e dolorosa transforma o que antes era uma pessoa em uma massa disforme de carne e sangue.

Os protagonistas, juntamente com a força policial de Estocolmo, se veem diante de uma verdadeira contagem regressiva, onde alguns segundos podem definir quem vive e quem morre. Assim como o modus operandi do assassino flerta com a ideia da aranha como predador, as teias também são apresentadas como uma metáfora para a trama que cada pista vai criando, forjando um mapa e que pode revelar o local de cada assassinato.

“A aranha” é o nono volume da série Joona Linna e apresenta um dos melhores vilões da saga, que além de se conectar com as histórias de volumes anteriores, também constrói um antagonista que é frio, calculista, violento e onde o próprio silêncio serve como elemento de tensão e horror.

O rio entre nós de Thiago Zanon

O rio entre nós de Thiago Zanon (Editora Quixote, 2022) é um romance que se inicia nos anos 90 e perpassa vinte e cinco anos das vidas de Alexandre e Sebastian. Em uma viagem de férias para Praga, capital da República Checa, o paulistano e estudante de medicina Alexandre, se encanta por Sebastian, um jovem de realidade completamente diferente da sua. Ao avistar Sebastian em uma banca de frutas comprando laranjas, Alexandre não poderia imaginar que estaria diante da grande maldição e do grande amor de sua vida.


Ele estava do outro lado da banca de frutas, escolhendo... laranjas! Para minha surpresa, a minha fruta. Pegava uma a uma, maiores e mais coloridas que as do Brasil, examinava, colocava de volta, escolhia outra. Havia tanta seriedade naquele processo que poderia ser uma pintura de algum checo obscuro com o título ‘O homem e as laranjas’: ficaria por décadas encalhada no sótão de alguma galeria de Praga, até que alguém a comprasse e colocasse sobre a lareira. Eu quis ter aquela imagem sobre a lareira, sobre o sofá, sobre qualquer coisa perto de mim. Sobre mim.
O rio e as cidades por onde os personagens passam são elementos fundamentais para embarcar na narrativa de Zanon. Como a obra se desenrola ao longo dos anos, explorando encontros e desencontros, esses elementos acabam se tornando um dos meios mais físicos e palpáveis de acessarmos as alegrias e angústias de Alexandre e Sebastian. O rio e a cidade são as únicas fronteiras capazes de explicar a separação entre duas pessoas que se amam, querem estar juntas, mas são castigadas pelo acaso.

“O rio entre nós” é quase um épico sobre amor incondicional com tudo que ele pode conter de fragilidade e intensidade. Para isso, a obra explora elementos clássicos como identidade, memória, pertencimento, relações familiares e afetivas. Tais elementos ganham contornos ainda mais interessantes ao serem transportadas para as relações homoafetivas.

Apesar da homofobia ser algo impossível de ser ignorado ao se contar uma história de amor entre dois homens, na obra, ela aparece como segundo plano sendo exatamente o que precisamos ler. Ao construir personagens densos, introspectivos, complexos e contraditórios, acontece um processo instantâneo de naturalização dos afetos e o amor entre dois homens passa a ser visto pelo viés universal do amor. Amor como amor, independente de gênero, orientação e classe social.

A gente ama algumas vezes, hoje eu sei. Eu não amei só Sebastian, embora sinta que só tenha amado Sebastian. Existe um amor, e depois todos os outros são mais ou menos bege, como se a lente pelo qual os víssemos passasse por algum tipo de mácula que torna todas as emoções menos potentes, entre o amarelo e o marrom. É triste pensar que eu também posso ter sido bege para alguém. Creio que a gente vive mais tempo do que precisa. Seria suficiente um amor, uma paixão inigualável e teríamos provado a vida. A busca incessante que se segue é frustrante. Depois da primeira vez, as músicas não mais nos tocam do mesmo modo, a poesia se esvazia.
Toda a obra é construída de forma poética e lírica, onde a contemplação da realidade e dos sentimentos nos levam por uma viagem não linear pelas décadas. As cidades vão se transformando em outras, as obrigações da vida vão se transformando em outras, os desafios vão se transformando em outros e a única coisa que não se transforma, assim como o curso de um rio, é o amor entre Alexandre e Sebastian.

“O rio entre nós” é um livro que coloca os leitores diante de uma avalanche de emoções. Nos pegamos emocionados com alguns acontecimentos, irritados com algumas escolhas dos personagens e esperançosos por alguma redenção. Nossa empatia se torna fluida, conforme somos apresentados aos acontecimentos e também aos silêncios que chegam com o poder de mudar o curso das histórias.

Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2025) é o volume que encerra a saga da Família Melzer e que nos leva para dentro da Alemanha nazista, durante o período mais violento da Terceira Guerra Mundial. Na obra, acompanhamos a guerra através das notícias que são controladas pela propaganda nazista e pelas eventuais consequências do conflito para a vida prática. A violência começa como um boato, parte para a perseguição e desaparecimento de pessoas, emerge ao estado de falta de acesso aos suprimentos básicos, até chegar no cair das bombas.


Assim como nos demais volumes, os Melzer precisam lutar para manter a fábrica de tecidos e a mansão em funcionamento, mas agora com o agravante de uma guerra em andamento. Paul, o diretor da fábrica, se vê dessa vez sem o apoio de sua esposa Marie, que fora para os EUA assim que iniciaram as perseguições aos judeus. Assim, acompanhamos as vivências de guerra de parte da família Melzer em pleno solo alemão, e de Marie e seu filho Leo, que precisam refazer a vida na América enquanto recebem apenas notícias da situação da Alemanha.

Marie foi para os EUA pensando em sua própria sobrevivência e também na proteção de sua família. Ficando na Alemanha, correria sério risco de parar em um campo de concentração nazista. Tanto a fábrica, quanto a mansão da família estariam em risco, uma vez que Paul nunca aceitaria se divorciar da esposa, algo que era imposto pelo regime nazista. Além da luta pela sobrevivência, o amor de Paul e Marie é colocado a prova. A separação física e emocional entre os dois evidencia como o tempo e as circunstâncias podem transformar sentimentos, criando dúvidas, ressentimentos e novos caminhos.

Em o “Reencontro na Vila dos Tecidos” a guerra nos coloca diante de várias reflexões que versam sobre visão de mundo, liberdade e nacionalismo. Quando a família Melzer se vê diante da ascensão de um regime violento e segregador, precisam aprender a encontrar formas de não abrirem mãos de seus ideais, ao mesmo tempo em que de forma alguma poderiam ser vistos como inimigos do regime. A saudação nazista deveria ser proferida em todo encontro, a suástica deveria estar hasteada na fábrica e na mansão, assim como a foto do fuhrer deveria estar exposta no escritório de Paul.

Quando os jovens da Vila dos Tecidos são convocados para a guerra e passam a fazer parte do exército alemão, mais uma vez nos vemos diante de reflexões sobre até onde deve ir a noção de patriotismo, uma vez que uma convocação militar não leva em consideração a ideologia política de um cidadão.

A guerra era um negócio desgraçado e desumano. Não tinha quase nada de heroísmo, mas era encharcada de suor, sujeira e sangue, de ferimentos deformadores e gemidos de moribundos. Que diabo o havia possuído para ele embarcar no otimismo generalizado e se voluntariar para aquela desgraça, acreditando que assim iria colaborar para a libertação de sua pátria das garras do nazismo.
Anne Jacobs trabalha bem o impacto da guerra não apenas no cenário político, mas também na vida íntima dos personagens, mostrando como o medo, a culpa e a insegurança influenciam decisões pessoais. A autora utiliza múltiplos pontos de vista, permitindo uma visão mais ampla dos acontecimentos e fortalecendo a conexão com os personagens em uma obra que além de emocionar precisa fechar um arco narrativo que foi desenvolvido ao longo dos seis volumes da saga.

Todas as mentiras que contei do Stefano Manzolli

Todas as mentiras que contei do Stefano Manzolli (Galera Record, 2025) é um romance que conta a breve história de amor vivida por Dionísio e Marcello. A história se passa na paradisíaca Praia de Pipa, localizada no município de Tibau do Sul, Natal. Dionísio, que é morador da região, conhece Marcello, um turista cheio de mistérios vindo de São Paulo e que embarca nesse amor de verão já sabendo que terá uma data para acabar. O livro fala de uma paixão que quando chega “tem um tamanho absurdo”.


A obra de Stefano chama atenção pela estrutura do texto. Assim como grande parte dos romances, o livro possui início, meio e fim e se divide em capítulos, mas se apresenta inteiramente em formato de versos. Ainda que seu texto seja poético, não necessariamente é poesia. A prosa poética de Stefano se vale da exploração do texto como imagem, experimentação, sensação e ritmo.

Logo no início da trama, sabemos que Marcello na verdade não se chama Marcello e terminamos o livro sem saber seu verdadeiro nome. Essa é só uma das mentiras que ele contará. Marcello viaja para o litoral com a intenção de ser uma outra pessoa e ainda que estivesse aberto para viver um affair, não imaginava que sua aventura amorosa de férias seria tão intensa.

a primeira vez em que se falaram,

as águas cristalinas de pipa pareciam

pegar fogo.

ele também parecia.

marcello e o mar

pareciam incendiar um milhão

de tardes que não puderam

ser de amor.


essa é uma das poucas coisas

sobre as quais tem certeza agora.
Em “Todas as mentiras que contei” lidamos com a força dos contrastes, como por exemplo, a relação entre mentira e amor. A mentira, que muitas vezes é vista como ponto de partida para diversos males, na obra também aparece como uma estratégia de invenção ou reinvenção de si, como se fosse o caminho para construção daquele amor ideal vendido pelos livros, filmes e músicas. Marcello parece utilizar da mentira como uma última tentativa de experimentar o amor idealizado e até mesmo de viver livremente a sua sexualidade. Marcello “aprendeu primeiro a mentir; depois, a amar”.

A própria personalidade dos protagonistas trabalha com a dualidade. Marcello vem de São Paulo disposto a viver algo especial, mas ainda carrega consigo uma visão pragmática da vida, o que erroneamente o leva a crer que as pequenas e grandes mentiras o transformarão em uma pessoa mais desejável e interessante.


marcelo é somente

a soma de todas as mentiras

que precisou contar

para poder existir
Dionísio, morador de cidade do interior, é moldado no afeto, na simplicidade e preza pelas conexões reais. É aquela pessoa que sabe o que quer e o cuidado será sua linguagem principal. As demonstrações de carinho de Dionísio são leves e fluem como água. Dionísio é transparente com suas intenções e seu desejo. Ele busca o mesmo que Marcello, mas ao contrário dele, a transparência é a sua última cartada na busca por um amor genuíno.


dionísio,

depois desses dias,

aprenderia a viver

em reconstrução.



entretanto,

sabia fazer mosaicos.


Uma outra dimensão que garante um contraste interessante na narrativa é a mobilidade entre cidade grande e litoral, vida agitada e vida bucólica, que podem ser vistas como o próprio processo de suspensão que a paixão e o amor nos colocam. Dois mundos colidem e entramos em uma catarse ao acompanhar se esse encontro será capaz de mudar o percurso de Marcello e Dionísio.

Todas as mentiras que contei” é uma obra que nos faz refletir sobre o status atual dos relacionamentos. Entregamos verdadeiras performances quando nos apaixonamos e queremos conquistar alguém, e muitas vezes não refletimos sobre os impactos da persona que encarnamos na vida da pessoa desejada e em nossa própria vivência. O que resta quando deixamos as mentiras de lado? É possível se mostrar em essência?  Como as nossas ações, sejam elas de entrega ou de encasulamento, irão impactar na nossa capacidade de amar e ser amado?


Sátántangó de László Krasznahorkai

Sátántangó do escritor húngaro vencedor do prêmio Nobel de literatura 2025 László Krasznahorkai (Companhia das Letras, 2022) é um romance desafiador e que chama atenção por sua qualidade estética. A história se passa numa vila da Hungria, bem próximo da queda do regime comunista. Para embarcar na história proposta pelo autor, é necessário estar disposto a desbravar, pois nada é entregue de bandeja para o leitor.


Desde a estrutura narrativa, até a construção dos cenários e do ambiente, é necessário fazer um exercício de persistência, pois o texto é difícil e se desenrola através de fluxos de pensamento e de consciência. Assim como os personagens são quase engolidos pela melancolia, afogados pela chuva constante e pela lama daquele vilarejo, ao menor deslize, nós, enquanto leitores, podemos patinar na mesma lama.

A obra é dividida em duas partes e o autor nomeia essa estrutura como “sequência de danças”. O tango e seus movimentos ditarão a forma como o livro se divide e a maneira como a própria história se movimenta no tempo e no espaço. A primeira parte é dividida em seis capítulos, que vai de um a seis, enquanto a segunda parte, também de seis capítulos, vai de seis a um. Essa contagem faz referência aos passos do tango.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1985, mas sua tradução só chegou ao Brasil em 2022. A ótima tradução ficou por conta de Paulo Schiller, que em um episódio do podcast da Companhia das Letras relatou que quase desistiu de traduzir o autor por conta de sua complexidade e que mudou de ideia após assistir e se encantar pela adaptação cinematográfica da obra, que conta com mais de sete horas de duração. Paulo levou dois anos para traduzir Sátántangó.

A história se passa em um assentamento agrícola decrépito, de uma região onde a chuva parece nunca cessar e seus personagens passeiam por caminhos lamaçais que muito se assemelham a suas personalidades ambíguas, como também exploram elementos da literatura fantástica. A história tem um forte apego de crítica aos regimes populistas e o faz através de metáforas rebuscadas e alta literatura.

É um cenário apocalíptico que funciona como metáfora para todos os dilemas e medos que enfrentam e a facilidade com que narrativas salvacionistas se impõem em contextos de miséria e desesperança. Um tom “diabólico” e de tensão desfila por toda a obra e aparece mais como metáfora do desastre social do que como fato sobrenatural. É uma radiografia da dança entre a esperança e a desesperança. A aldeia é completamente inóspita e um lugar onde parece que a única opção de sobrevivência é o estado de espera.

Numa manhã do final de outubro, não muito antes que as primeiras gotas das chuvas impiedosamente longas de outono se desprendessem sobre a terra rachada, ressequida, do lado ocidental do assentamento (para que depois o mar pútrido de lama tornasse intransitáveis os caminhos, e também a cidade ficasse inacessível), Futaki despertou ao som de sinos.

Ao receberem a notícia de que Irimiás e Petrina, dois moradores do assentamento que todos acreditavam estarem mortos, estão a caminho do vilarejo, todas as atenções se voltam a chegada da dupla. Movidos por teorias e conspirações, os poucos moradores da região se reúnem na taverna e bebem, dançam, cantam, confabulam enquanto ficam à espera dessa chegada.

Em seguida, o som sumiu de repente. Ficaram somente o silêncio, os olhares desconfiados... O copo tremia na mão de Irimiás, Petrina tamborilava nervosamente no balcão. Todos estavam sentados em seus lugares de cabeça baixa, olhos fechados, ninguém teve coragem de se mexer.
Com a chegada de Irimiás e Petrina à aldeia, a história muda de tom e o mais fantástico é a aura de mistério que László constrói sobre a natureza dos forasteiros. Nós não sabemos ao certo se eles são uma espécie de Messias, se são alguma aparição, a materialização de uma maldição que assola o assentamento esquecido por Deus, se são ladrões ou até mesmo o próprio diabo.

Como a narrativa parte da questão da espera, a escrita de Krasznahorkai irá investir na experimentação do tempo, o que torna o livro contemplativo. Isso se reflete em frases e parágrafos muito longos, onde as digressões de um personagem para outro obedecem a um ciclo que não avisa ao leitor quando acontece a mudança da voz narrativa. A estrutura do livro o torna uma leitura densa e muito difícil, mas que começa a fazer sentido a partir do momento que você vai se familiarizando com uma espécie de orquestra tocando várias músicas distintas ao mesmo tempo.

A leitura de Sátántangó é claustrofóbica e angustiante em um cenário pessimista e desolador. Acompanhando o fluxo de pensamentos dos personagens, vamos percebendo o quanto aquelas pessoas de uma comunidade agrícola que aparenta ter sido próspera, hoje se encontram em total estado de abandono e à espera de algum tipo de salvação. Não é à toa que o livro começa com o soar misterioso de um sino, que ninguém entende de onde vem, como se fossem as trombetas do apocalipse.

10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho da Elif Shafak

10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho da escritora turco-britânica Elif Shafak, é um romance que nos coloca cara a cara com as mazelas e belezas da natureza humana. Com uma escrita ágil e sensível, a autora trata de temas perturbadores, onde a dualidade das relações é a mesma que constrói e que destrói vidas. Leila, nossa personagem principal, está dando seus últimos suspiros, jogada dentro de uma caçamba de lixo em Istambul. Nesse intervalo pós-morte, ela irá revisitar sua história de vida, onde as memórias são evocadas por cores, sons, sabores e sensações.


Existem estudos que dizem que depois que o coração para de bater, o cérebro permanece ativo por no máximo 10 minutos e 38 segundos. Partindo dessa máxima, Elif Shafak nos apresenta à história de Leila e ao exercício de olhar para o corpo morto e abandonado de uma prostituta e ver história. Antes de ser a prostituta assassinada e jogada em uma caçamba de lixo, quem era Leila? Qual a sua história de vida? Quais os acontecimentos que fizeram com que ela abrisse mão da família e das tradições? O que a levou a uma vida que para muitos é símbolo da perdição e imoralidade?

No primeiro minuto após sua morte, a consciência de Leila Tequila começou a refluir, devagar e sempre, como a maré vazante que se afasta da praia. As células de seu cérebro, já sem sangue, ficaram completamente privadas de oxigênio. Mas elas não pararam de funcionar. Não de imediato. Uma última reserva de energia ativou incontáveis neurônios, fazendo com que eles se conectassem como se fosse a primeira vez. Embora seu coração houvesse parado de bater, seu cérebro resistia, recusando-se a desistir. Ele entrou num estado de consciência aumentada, observando a morte do corpo, mas não disposto a aceitar o próprio fim.
A narrativa acompanha os minutos que restam para a consciência de Leila Tequila e somos transportados ao interior da Turquia, para uma comunidade e uma família conservadora, quando Leila Tequila fora batizada como Leyla Afife Kamile. Desde muito nova, Leila precisou lidar com as expectativas de seu pai, que no fundo sempre sonhou com um filho homem, conforme manda a tradição. Homens para gerir família e negócios e mulheres para gerar e servir. Enquanto acompanhava a dinâmica familiar, na qual seu pai vivia com duas esposas, Leila queria estudar, decodificar as letras que via nos jornais, para saber o que acontece pelo mundo.

Ela não era perfeita, para começo de conversa; seus muitos defeitos atravessaram sua vida como rios subterrâneos.
A infância e a adolescência de Leila foram marcadas por uma espécie de afeto que era medido pelas regras da cultura e do patriarcado. Enquanto conseguiram controlar seus gostos, vontades e dúvidas sobre tudo, podemos dizer que a relação de Leila com o pai e suas duas esposas era tranquila. Tudo começa a mudar quando o espírito questionador de Leila aflora e um episódio de violência sexual irá mudar toda a dinâmica da família.

Em uma das passagens da obra, Leila vê um homem sendo hostilizado na rua por um grupo de pessoas e pergunta a sua mãe porque estão fazendo aquilo. A mãe diz que ele é um yazidi. Os yazidis foram historicamente e erroneamente acusados de "adoradores do diabo", o que resultou em perseguições severas ao longo dos séculos.


- Todo mundo sabe disso. Eles foram amaldiçoados.

- Por quem?

- Por Deus, Leila.

- Mas não foi Deus quem criou os yazidis?

- Claro que foi.

- Ele criou os yazidis e depois ficou com raiva por eles serem yazidis? Não faz sentido.
As lembranças de Leila vêm e vão sem obedecer a uma ordem cronológica e são acessadas através dos estímulos que seu corpo morto ainda consegue emitir. Obedecendo à crença de que revisitamos a vida quando estamos morrendo, vemos episódios importantes de suas vivências vindo a tona e as introduções destes capítulos aliam com muita beleza ciência, imaginação e poesia.

Cinco minutos depois que seu coração parou de bater, Leila se lembrou do nascimento do irmão. Uma lembrança que trazia consigo o gosto e o cheiro de guisado de bode com especiarias – cominho, semente de erva-doce, cravo, cebola, tomate, gordura de cauda e carne de carneiro.
Quando se vê em Istambul, sem apoio familiar e jogada a própria sorte, Leila irá se conectar com um grupo que ela chama de “os cinco” e que serão a sua casa e a sua família. Sinan Sabotagem, Nalan Nostalgia, Jameelah, Zaynab122 e Humeyra Hollywood aparecem nas lembranças de Leila e em capítulos especiais dedicados a cada um, que fazem parte da estrutura da narrativa. O grupo aparece como uma alternativa, um contraponto e um encontro entre pessoas marginalizadas, provando que a noção de família pode ser muito mais ampla do que a tradição diz.

A obra trabalha muito bem ao construir um retrato da cidade de Istambul, que surge de forma mágica e temerosa aos nossos olhos. Explorando os personagens e sua relação com a cidade, podemos perceber os embates entre tradição e modernidade, processos de ocidentalização, realidade da vida noturna e demais conflitos culturais que dividem as pessoas quase em castas, assim como toda a beleza e efervescência de uma cidade cosmopolita.

“10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho” caminha pelos temas espinhosos da violência contra a mulher, prostituição, conservadorismo, segregação das minorias, como também faz reflexões brilhantes sobre a banalidade da morte. Diante da morte, quem possui direito a dignidade? Quem merece ser celebrado por quem foi em vida? Como é possível o correr dos dias e da normalidade quando o mundo de alguém se extinguiu?

Dona Bárbara de Rómulo Gallegos

Dona Bárbara do escritor venezuelano Rómulo Gallegos (Editora Pinard, 2020) é um clássico latino-americano publicado em 1929, que voltou a circular em nosso país após uma campanha de financiamento coletivo em uma edição caprichada. O livro é um dos maiores clássicos da literatura venezuelana e latino-americana. Vale lembrar que a primeira edição da obra chegou ao Brasil em meados dos anos 40, graças ao empenho do escritor Jorge Amado, que teve contato com o texto de Gallegos na Venezuela e encantado pelo primor de sua escrita, traduziu o livro para nosso idioma.


Poucas décadas depois, a obra saiu de catálogo e acabou caindo no esquecimento. Muitos fatores podem ser analisados para entender esse apagamento, sendo um deles a forma como nós, brasileiros, conhecemos e nos interessamos pouco pela cultura da América Latina em geral.

Somos estimulados desde cedo a consumir a cultura de países que estão muito longe do “nosso quintal” e com isso perdemos a oportunidade de aprofundar nas “latinidades”, de confabular com os nossos sobre tantos aspectos culturais que são diferentes e ao mesmo tempo tão similares sobre ser latino-americano. A ambientação nos Lllanos, que são as selvagens planícies venezuelanas, se torna símbolo, ao ser retratada como uma paisagem onde o homem e a natureza precisam coexistir.

Um outro ponto é que Dona Bárbara é um clássico e quando falamos sobre clássicos, também falamos sobre embarcar em um tipo de leitura e de fruição que parte da literatura como arte. Ler um clássico não é necessariamente fácil e exige dedicação. Um livro se torna um clássico não somente pela sua idade, mas por uma série de fatores que lhe conferem qualidade.

Algo que percebemos ao ler um clássico e que é confirmado por especialistas, é que uma obra precisa gabaritar em alguns pontos para ser considerada como tal, como sua universalidade e permanência ao tratar de temas humanos e sociais e ainda assim conseguir não soar datada. Um clássico resiste ao tempo. Precisa apresentar algum grau de inovação estética e linguística que dará um tom especial à história e ao modo de narrar.

O texto precisa conduzir os leitores a uma experiência de leitura que o transporte para além das páginas e que possam resvalar por reflexões filosóficas, simbólicas e psicológicas. Precisa inspirar o nascimento de outras obras ou até de reflexões que buscam entender a influência e o legado da obra e que naturalmente caminham para o reconhecimento crítico e popular. Assim como dizia Ítalo Calvino no livro “Por que ler os clássicos”, um clássico é um livro que “nunca terminou de dizer o que tinha a dizer”.

Estamos aqui, quase cem anos depois, lendo o que Rómulo Gallegos tinha a nos dizer sobre a Venezuela, sobre seu povo e toda a beleza e violência que paira sobre os llanos venezuelanos.

A llanura é bela e terrível ao mesmo tempo; nela cabem, folgadamente, formosa vida e morte atroz. Esta espreita por todas as partes; porém ali ninguém a teme. O Llano assusta; mas o medo do Llano não esfria o coração: é quente como o grande vento de sua imensidão ensolarada, como a febre de seus pântanos.
Para tanto, o autor nos apresenta a uma gama de personagens muito interessantes que pintam um retrato sobre o panorama político, econômico e social da Venezuela. Dona Bárbara e Santos Luzardo, os personagens principais, são ao mesmo tempo a ficção em sua forma artística, como também a representação de uma Venezuela enfrentando pequenas e grandes revoluções.

Santos Luzardo é um jovem que teve sua origem nos Llanos venezuelanos, mas que foi muito cedo para a capital. Sua partida teve essencialmente dois motivos: a dedicação aos estudos e a fuga de uma região onde uma espécie de coronelismo reinava e que foi responsável pela violência que dizimou quase que toda a sua família. Ele retorna para a região, cheio de ideais calcados na ordem e na lei, para ver que fim poderia dar às terras de sua família que ficaram praticamente abandonadas.

Nessa região, Luzardo encontrará Dona Bárbara, uma mulher forte e destemida, que movida por um desejo de vingança, e a custos de manobras de caráter duvidoso e muita violência se tornou a mulher mais poderosa e rica da região, também conhecida como “a devoradora de homens”.

Tal era a famosa dona Bárbara: luxúria e superstição, cobiça e crueldade, e lá no fundo da alma sombria, uma pequena coisa pura e dolorosa: a lembrança de Asdrúbal, o amor frustrado que podia fazê-la boa. Porém mesmo isto adquiria as terríveis características de um culto bárbaro que exigia sacrifícios humanos: a lembrança de Asdrúbal a assaltava sempre que tropeçava em seu caminho um homem do qual valeria a pena fazer presa.
Assim como a geografia, a flora e a fauna dos Llanos venezuelanos são os personagens principais da obra, Dona Bárbara, com toda sua coragem, maldade, destreza, dureza, instinto de sobrevivência e beleza se torna a própria representação do Llano. Dona Bárbara é a mulher e a paisagem, é o próprio medo do Llano que não esfria o coração.

A história vai girar em torno dos conflitos entre Dona Bárbara e Santos Luzardo. Enquanto Dona Bárbara representa o símbolo do embate de uma força primitiva e das tradições, Luzardo chega como um "estrangeiro" com ideais da civilização, da lei e do progresso. A personalidade de Dona Bárbara talvez seja o elemento mais forte do livro, pois é surpreendente ver uma mulher colocada em uma situação de poder e subjugando homens em uma história escrita há quase cem anos atrás.

- Até quando vocês estarão com isso dos poderes de dona Bárbara? O que acontece é que essa mulher tem pelo no peito, como têm que ter todos os que pretendem se fazer respeitar nesta terra.
Dona Bárbara é um livro que nos prende por toda sua dinâmica que entrelaça conflitos e paixões. Utiliza de ótimas alegorias que nos dizem sobre poder, violência e dominação, como também os caminhos da construção de uma identidade nacional venezuelana. O texto de Gallegos mescla tons épicos e líricos, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa realista, com bastante uso de vocabulário regional. Dona Bárbara é, ao mesmo tempo, vilã e vítima, que transforma seus traumas e desilusões na máxima do olho por olho, dente por dente.