O rio entre nós de Thiago Zanon (Editora Quixote, 2022) é um romance que se inicia nos anos 90 e perpassa vinte e cinco anos das vidas de Alexandre e Sebastian. Em uma viagem de férias para Praga, capital da República Checa, o paulistano e estudante de medicina Alexandre, se encanta por Sebastian, um jovem de realidade completamente diferente da sua. Ao avistar Sebastian em uma banca de frutas comprando laranjas, Alexandre não poderia imaginar que estaria diante da grande maldição e do grande amor de sua vida.


Ele estava do outro lado da banca de frutas, escolhendo... laranjas! Para minha surpresa, a minha fruta. Pegava uma a uma, maiores e mais coloridas que as do Brasil, examinava, colocava de volta, escolhia outra. Havia tanta seriedade naquele processo que poderia ser uma pintura de algum checo obscuro com o título ‘O homem e as laranjas’: ficaria por décadas encalhada no sótão de alguma galeria de Praga, até que alguém a comprasse e colocasse sobre a lareira. Eu quis ter aquela imagem sobre a lareira, sobre o sofá, sobre qualquer coisa perto de mim. Sobre mim.
O rio e as cidades por onde os personagens passam são elementos fundamentais para embarcar na narrativa de Zanon. Como a obra se desenrola ao longo dos anos, explorando encontros e desencontros, esses elementos acabam se tornando um dos meios mais físicos e palpáveis de acessarmos as alegrias e angústias de Alexandre e Sebastian. O rio e a cidade são as únicas fronteiras capazes de explicar a separação entre duas pessoas que se amam, querem estar juntas, mas são castigadas pelo acaso.

“O rio entre nós” é quase um épico sobre amor incondicional com tudo que ele pode conter de fragilidade e intensidade. Para isso, a obra explora elementos clássicos como identidade, memória, pertencimento, relações familiares e afetivas. Tais elementos ganham contornos ainda mais interessantes ao serem transportadas para as relações homoafetivas.

Apesar da homofobia ser algo impossível de ser ignorado ao se contar uma história de amor entre dois homens, na obra, ela aparece como segundo plano sendo exatamente o que precisamos ler. Ao construir personagens densos, introspectivos, complexos e contraditórios, acontece um processo instantâneo de naturalização dos afetos e o amor entre dois homens passa a ser visto pelo viés universal do amor. Amor como amor, independente de gênero, orientação e classe social.

A gente ama algumas vezes, hoje eu sei. Eu não amei só Sebastian, embora sinta que só tenha amado Sebastian. Existe um amor, e depois todos os outros são mais ou menos bege, como se a lente pelo qual os víssemos passasse por algum tipo de mácula que torna todas as emoções menos potentes, entre o amarelo e o marrom. É triste pensar que eu também posso ter sido bege para alguém. Creio que a gente vive mais tempo do que precisa. Seria suficiente um amor, uma paixão inigualável e teríamos provado a vida. A busca incessante que se segue é frustrante. Depois da primeira vez, as músicas não mais nos tocam do mesmo modo, a poesia se esvazia.
Toda a obra é construída de forma poética e lírica, onde a contemplação da realidade e dos sentimentos nos levam por uma viagem não linear pelas décadas. As cidades vão se transformando em outras, as obrigações da vida vão se transformando em outras, os desafios vão se transformando em outros e a única coisa que não se transforma, assim como o curso de um rio, é o amor entre Alexandre e Sebastian.

“O rio entre nós” é um livro que coloca os leitores diante de uma avalanche de emoções. Nos pegamos emocionados com alguns acontecimentos, irritados com algumas escolhas dos personagens e esperançosos por alguma redenção. Nossa empatia se torna fluida, conforme somos apresentados aos acontecimentos e também aos silêncios que chegam com o poder de mudar o curso das histórias.