Cor de defunto, de Cami di Malta (Autêntica Contemporânea, 2026), é uma obra que chama atenção pela originalidade da escrita da autora. A narradora, Lilá, é uma personagem que se mostra sem filtros ao relatar o processo do luto pela perda da mãe. O diferencial é que esse luto é destrinchado como uma vivência que se inicia muito antes da morte propriamente dita. De forma quase analítica, mas que passeia pelo poético, pelo grotesco e pelo sarcasmo, Lilá demonstra como a morte de sua mãe fora uma espécie de tragédia anunciada, costurada por cada situação de descaso e de violência experimentada ao longo da vida.


A morte passa a ser algo muito presente na rotina de Lilá, tanto pelo desamparo de acompanhar o definhar da mãe quanto pela sua própria profissão. Lilá trabalha em uma funerária maquiando e preparando corpos para os velórios; o título do livro faz referência ao nome do batom que ela utiliza nos lábios dos mortos para dar um “tom de vida”. Em uma das partes mais fortes da obra, Lilá passa o “cor de defunto” em si mesma, em uma cena emblemática que nos leva a refletir sobre a busca da narradora em entender o limiar entre estar viva e estar morta.

É muito comum que livros dispostos a olhar para a morte retratem o luto como algo a ser superado, mas, em “Cor de defunto”, a autora nos convida a pensá-lo por um viés mais realista. Enquanto o “superar” soa como um “esquecer” para não doer, a história de Lilá nos mostra que o luto sempre estará presente quando se trata de nossos maiores amores e esse luto pode mudar de cor.

Eu acho que morrer se parece com adormecer. Não o adormecer normal, da terça-feira às 11 da noite. Mas o adormecer de tarja preta, sabe? Aquele torpor que vai tomando conta de cada limbo, varrendo a consciência pra calçada escura que a gente não vê. Morrer dormindo deve ser como morrer duas vezes. Me pergunto se é por isso que Mainha dormia tanto. Se ela sabia e tava treinando, pra se certificar de que não ia morrer pela metade e ficar presa em mais um escuro.
A ideia de “mais um escuro” é o que dá o tom de toda a narrativa. Apesar de a morte da mãe ser o norte da história, à medida que nos embrenhamos mais em sua trajetória, vamos conhecendo os outros escuros que pontuam sua vida antes do breu definitivo.

Existe o escuro resultante de uma doença em um processo de cegueira em que a mãe foi perdendo a visão aos poucos, assim como existe o lado obscuro da violência doméstica. A mãe de Lilá é um ser humano em lento processo de desabamento, e acompanhamos uma relação familiar em que a filha assiste a esse desmoronar que funciona como um prelúdio para o fim.

Com um ritmo ágil, a narrativa nos conduz por um caminho em que as singularidades psicológicas dos personagens são o que nos prende à leitura. Para além disso, existe também um protagonismo do corpo humano enquanto caixa que mantém nossa existência e do que podemos fazer com ele, para o bem e para o mal.

Como eu vim parar no limbo etéreo entre o céu e a terra? Viva, mas nem tanto. Morta, mas nem tanto. Pulso tem, mas tá faltando. Olhos de águia, coração forte, pernas bem formadas. Mas mais morta que os defuntos que passam por essa maca.
Cor de defunto é uma ótima opção para leitores que buscam obras focadas em profundidade psicológica. O livro possui uma narrativa autêntica, dotada de um humor sombrio e capaz de suscitar reflexões sem romantizações sobre a morte e a solidão. Cami di Malta entrega um romance de estreia ágil e marcante, que ressoa ao explorar a temática do luto dentro e fora de uma funerária e dentro e fora de nós mesmos.