Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs

Reencontro na Vila dos Tecidos de Anne Jacobs (Editora Arqueiro, 2025) é o volume que encerra a saga da Família Melzer e que nos leva para dentro da Alemanha nazista, durante o período mais violento da Terceira Guerra Mundial. Na obra, acompanhamos a guerra através das notícias que são controladas pela propaganda nazista e pelas eventuais consequências do conflito para a vida prática. A violência começa como um boato, parte para a perseguição e desaparecimento de pessoas, emerge ao estado de falta de acesso aos suprimentos básicos, até chegar no cair das bombas.


Assim como nos demais volumes, os Melzer precisam lutar para manter a fábrica de tecidos e a mansão em funcionamento, mas agora com o agravante de uma guerra em andamento. Paul, o diretor da fábrica, se vê dessa vez sem o apoio de sua esposa Marie, que fora para os EUA assim que iniciaram as perseguições aos judeus. Assim, acompanhamos as vivências de guerra de parte da família Melzer em pleno solo alemão, e de Marie e seu filho Leo, que precisam refazer a vida na América enquanto recebem apenas notícias da situação da Alemanha.

Marie foi para os EUA pensando em sua própria sobrevivência e também na proteção de sua família. Ficando na Alemanha, correria sério risco de parar em um campo de concentração nazista. Tanto a fábrica, quanto a mansão da família estariam em risco, uma vez que Paul nunca aceitaria se divorciar da esposa, algo que era imposto pelo regime nazista. Além da luta pela sobrevivência, o amor de Paul e Marie é colocado a prova. A separação física e emocional entre os dois evidencia como o tempo e as circunstâncias podem transformar sentimentos, criando dúvidas, ressentimentos e novos caminhos.

Em o “Reencontro na Vila dos Tecidos” a guerra nos coloca diante de várias reflexões que versam sobre visão de mundo, liberdade e nacionalismo. Quando a família Melzer se vê diante da ascensão de um regime violento e segregador, precisam aprender a encontrar formas de não abrirem mãos de seus ideais, ao mesmo tempo em que de forma alguma poderiam ser vistos como inimigos do regime. A saudação nazista deveria ser proferida em todo encontro, a suástica deveria estar hasteada na fábrica e na mansão, assim como a foto do fuhrer deveria estar exposta no escritório de Paul.

Quando os jovens da Vila dos Tecidos são convocados para a guerra e passam a fazer parte do exército alemão, mais uma vez nos vemos diante de reflexões sobre até onde deve ir a noção de patriotismo, uma vez que uma convocação militar não leva em consideração a ideologia política de um cidadão.

A guerra era um negócio desgraçado e desumano. Não tinha quase nada de heroísmo, mas era encharcada de suor, sujeira e sangue, de ferimentos deformadores e gemidos de moribundos. Que diabo o havia possuído para ele embarcar no otimismo generalizado e se voluntariar para aquela desgraça, acreditando que assim iria colaborar para a libertação de sua pátria das garras do nazismo.
Anne Jacobs trabalha bem o impacto da guerra não apenas no cenário político, mas também na vida íntima dos personagens, mostrando como o medo, a culpa e a insegurança influenciam decisões pessoais. A autora utiliza múltiplos pontos de vista, permitindo uma visão mais ampla dos acontecimentos e fortalecendo a conexão com os personagens em uma obra que além de emocionar precisa fechar um arco narrativo que foi desenvolvido ao longo dos seis volumes da saga.

Todas as mentiras que contei do Stefano Manzolli

Todas as mentiras que contei do Stefano Manzolli (Galera Record, 2025) é um romance que conta a breve história de amor vivida por Dionísio e Marcello. A história se passa na paradisíaca Praia de Pipa, localizada no município de Tibau do Sul, Natal. Dionísio, que é morador da região, conhece Marcello, um turista cheio de mistérios vindo de São Paulo e que embarca nesse amor de verão já sabendo que terá uma data para acabar. O livro fala de uma paixão que quando chega “tem um tamanho absurdo”.


A obra de Stefano chama atenção pela estrutura do texto. Assim como grande parte dos romances, o livro possui início, meio e fim e se divide em capítulos, mas se apresenta inteiramente em formato de versos. Ainda que seu texto seja poético, não necessariamente é poesia. A prosa poética de Stefano se vale da exploração do texto como imagem, experimentação, sensação e ritmo.

Logo no início da trama, sabemos que Marcello na verdade não se chama Marcello e terminamos o livro sem saber seu verdadeiro nome. Essa é só uma das mentiras que ele contará. Marcello viaja para o litoral com a intenção de ser uma outra pessoa e ainda que estivesse aberto para viver um affair, não imaginava que sua aventura amorosa de férias seria tão intensa.

a primeira vez em que se falaram,

as águas cristalinas de pipa pareciam

pegar fogo.

ele também parecia.

marcello e o mar

pareciam incendiar um milhão

de tardes que não puderam

ser de amor.


essa é uma das poucas coisas

sobre as quais tem certeza agora.
Em “Todas as mentiras que contei” lidamos com a força dos contrastes, como por exemplo, a relação entre mentira e amor. A mentira, que muitas vezes é vista como ponto de partida para diversos males, na obra também aparece como uma estratégia de invenção ou reinvenção de si, como se fosse o caminho para construção daquele amor ideal vendido pelos livros, filmes e músicas. Marcello parece utilizar da mentira como uma última tentativa de experimentar o amor idealizado e até mesmo de viver livremente a sua sexualidade. Marcello “aprendeu primeiro a mentir; depois, a amar”.

A própria personalidade dos protagonistas trabalha com a dualidade. Marcello vem de São Paulo disposto a viver algo especial, mas ainda carrega consigo uma visão pragmática da vida, o que erroneamente o leva a crer que as pequenas e grandes mentiras o transformarão em uma pessoa mais desejável e interessante.


marcelo é somente

a soma de todas as mentiras

que precisou contar

para poder existir
Dionísio, morador de cidade do interior, é moldado no afeto, na simplicidade e preza pelas conexões reais. É aquela pessoa que sabe o que quer e o cuidado será sua linguagem principal. As demonstrações de carinho de Dionísio são leves e fluem como água. Dionísio é transparente com suas intenções e seu desejo. Ele busca o mesmo que Marcello, mas ao contrário dele, a transparência é a sua última cartada na busca por um amor genuíno.


dionísio,

depois desses dias,

aprenderia a viver

em reconstrução.



entretanto,

sabia fazer mosaicos.


Uma outra dimensão que garante um contraste interessante na narrativa é a mobilidade entre cidade grande e litoral, vida agitada e vida bucólica, que podem ser vistas como o próprio processo de suspensão que a paixão e o amor nos colocam. Dois mundos colidem e entramos em uma catarse ao acompanhar se esse encontro será capaz de mudar o percurso de Marcello e Dionísio.

Todas as mentiras que contei” é uma obra que nos faz refletir sobre o status atual dos relacionamentos. Entregamos verdadeiras performances quando nos apaixonamos e queremos conquistar alguém, e muitas vezes não refletimos sobre os impactos da persona que encarnamos na vida da pessoa desejada e em nossa própria vivência. O que resta quando deixamos as mentiras de lado? É possível se mostrar em essência?  Como as nossas ações, sejam elas de entrega ou de encasulamento, irão impactar na nossa capacidade de amar e ser amado?


Sátántangó de László Krasznahorkai

Sátántangó do escritor húngaro vencedor do prêmio Nobel de literatura 2025 László Krasznahorkai (Companhia das Letras, 2022) é um romance desafiador e que chama atenção por sua qualidade estética. A história se passa numa vila da Hungria, bem próximo da queda do regime comunista. Para embarcar na história proposta pelo autor, é necessário estar disposto a desbravar, pois nada é entregue de bandeja para o leitor.


Desde a estrutura narrativa, até a construção dos cenários e do ambiente, é necessário fazer um exercício de persistência, pois o texto é difícil e se desenrola através de fluxos de pensamento e de consciência. Assim como os personagens são quase engolidos pela melancolia, afogados pela chuva constante e pela lama daquele vilarejo, ao menor deslize, nós, enquanto leitores, podemos patinar na mesma lama.

A obra é dividida em duas partes e o autor nomeia essa estrutura como “sequência de danças”. O tango e seus movimentos ditarão a forma como o livro se divide e a maneira como a própria história se movimenta no tempo e no espaço. A primeira parte é dividida em seis capítulos, que vai de um a seis, enquanto a segunda parte, também de seis capítulos, vai de seis a um. Essa contagem faz referência aos passos do tango.

O livro foi publicado pela primeira vez em 1985, mas sua tradução só chegou ao Brasil em 2022. A ótima tradução ficou por conta de Paulo Schiller, que em um episódio do podcast da Companhia das Letras relatou que quase desistiu de traduzir o autor por conta de sua complexidade e que mudou de ideia após assistir e se encantar pela adaptação cinematográfica da obra, que conta com mais de sete horas de duração. Paulo levou dois anos para traduzir Sátántangó.

A história se passa em um assentamento agrícola decrépito, de uma região onde a chuva parece nunca cessar e seus personagens passeiam por caminhos lamaçais que muito se assemelham a suas personalidades ambíguas, como também exploram elementos da literatura fantástica. A história tem um forte apego de crítica aos regimes populistas e o faz através de metáforas rebuscadas e alta literatura.

É um cenário apocalíptico que funciona como metáfora para todos os dilemas e medos que enfrentam e a facilidade com que narrativas salvacionistas se impõem em contextos de miséria e desesperança. Um tom “diabólico” e de tensão desfila por toda a obra e aparece mais como metáfora do desastre social do que como fato sobrenatural. É uma radiografia da dança entre a esperança e a desesperança. A aldeia é completamente inóspita e um lugar onde parece que a única opção de sobrevivência é o estado de espera.

Numa manhã do final de outubro, não muito antes que as primeiras gotas das chuvas impiedosamente longas de outono se desprendessem sobre a terra rachada, ressequida, do lado ocidental do assentamento (para que depois o mar pútrido de lama tornasse intransitáveis os caminhos, e também a cidade ficasse inacessível), Futaki despertou ao som de sinos.

Ao receberem a notícia de que Irimiás e Petrina, dois moradores do assentamento que todos acreditavam estarem mortos, estão a caminho do vilarejo, todas as atenções se voltam a chegada da dupla. Movidos por teorias e conspirações, os poucos moradores da região se reúnem na taverna e bebem, dançam, cantam, confabulam enquanto ficam à espera dessa chegada.

Em seguida, o som sumiu de repente. Ficaram somente o silêncio, os olhares desconfiados... O copo tremia na mão de Irimiás, Petrina tamborilava nervosamente no balcão. Todos estavam sentados em seus lugares de cabeça baixa, olhos fechados, ninguém teve coragem de se mexer.
Com a chegada de Irimiás e Petrina à aldeia, a história muda de tom e o mais fantástico é a aura de mistério que László constrói sobre a natureza dos forasteiros. Nós não sabemos ao certo se eles são uma espécie de Messias, se são alguma aparição, a materialização de uma maldição que assola o assentamento esquecido por Deus, se são ladrões ou até mesmo o próprio diabo.

Como a narrativa parte da questão da espera, a escrita de Krasznahorkai irá investir na experimentação do tempo, o que torna o livro contemplativo. Isso se reflete em frases e parágrafos muito longos, onde as digressões de um personagem para outro obedecem a um ciclo que não avisa ao leitor quando acontece a mudança da voz narrativa. A estrutura do livro o torna uma leitura densa e muito difícil, mas que começa a fazer sentido a partir do momento que você vai se familiarizando com uma espécie de orquestra tocando várias músicas distintas ao mesmo tempo.

A leitura de Sátántangó é claustrofóbica e angustiante em um cenário pessimista e desolador. Acompanhando o fluxo de pensamentos dos personagens, vamos percebendo o quanto aquelas pessoas de uma comunidade agrícola que aparenta ter sido próspera, hoje se encontram em total estado de abandono e à espera de algum tipo de salvação. Não é à toa que o livro começa com o soar misterioso de um sino, que ninguém entende de onde vem, como se fossem as trombetas do apocalipse.

10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho da Elif Shafak

10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho da escritora turco-britânica Elif Shafak, é um romance que nos coloca cara a cara com as mazelas e belezas da natureza humana. Com uma escrita ágil e sensível, a autora trata de temas perturbadores, onde a dualidade das relações é a mesma que constrói e que destrói vidas. Leila, nossa personagem principal, está dando seus últimos suspiros, jogada dentro de uma caçamba de lixo em Istambul. Nesse intervalo pós-morte, ela irá revisitar sua história de vida, onde as memórias são evocadas por cores, sons, sabores e sensações.


Existem estudos que dizem que depois que o coração para de bater, o cérebro permanece ativo por no máximo 10 minutos e 38 segundos. Partindo dessa máxima, Elif Shafak nos apresenta à história de Leila e ao exercício de olhar para o corpo morto e abandonado de uma prostituta e ver história. Antes de ser a prostituta assassinada e jogada em uma caçamba de lixo, quem era Leila? Qual a sua história de vida? Quais os acontecimentos que fizeram com que ela abrisse mão da família e das tradições? O que a levou a uma vida que para muitos é símbolo da perdição e imoralidade?

No primeiro minuto após sua morte, a consciência de Leila Tequila começou a refluir, devagar e sempre, como a maré vazante que se afasta da praia. As células de seu cérebro, já sem sangue, ficaram completamente privadas de oxigênio. Mas elas não pararam de funcionar. Não de imediato. Uma última reserva de energia ativou incontáveis neurônios, fazendo com que eles se conectassem como se fosse a primeira vez. Embora seu coração houvesse parado de bater, seu cérebro resistia, recusando-se a desistir. Ele entrou num estado de consciência aumentada, observando a morte do corpo, mas não disposto a aceitar o próprio fim.
A narrativa acompanha os minutos que restam para a consciência de Leila Tequila e somos transportados ao interior da Turquia, para uma comunidade e uma família conservadora, quando Leila Tequila fora batizada como Leyla Afife Kamile. Desde muito nova, Leila precisou lidar com as expectativas de seu pai, que no fundo sempre sonhou com um filho homem, conforme manda a tradição. Homens para gerir família e negócios e mulheres para gerar e servir. Enquanto acompanhava a dinâmica familiar, na qual seu pai vivia com duas esposas, Leila queria estudar, decodificar as letras que via nos jornais, para saber o que acontece pelo mundo.

Ela não era perfeita, para começo de conversa; seus muitos defeitos atravessaram sua vida como rios subterrâneos.
A infância e a adolescência de Leila foram marcadas por uma espécie de afeto que era medido pelas regras da cultura e do patriarcado. Enquanto conseguiram controlar seus gostos, vontades e dúvidas sobre tudo, podemos dizer que a relação de Leila com o pai e suas duas esposas era tranquila. Tudo começa a mudar quando o espírito questionador de Leila aflora e um episódio de violência sexual irá mudar toda a dinâmica da família.

Em uma das passagens da obra, Leila vê um homem sendo hostilizado na rua por um grupo de pessoas e pergunta a sua mãe porque estão fazendo aquilo. A mãe diz que ele é um yazidi. Os yazidis foram historicamente e erroneamente acusados de "adoradores do diabo", o que resultou em perseguições severas ao longo dos séculos.


- Todo mundo sabe disso. Eles foram amaldiçoados.

- Por quem?

- Por Deus, Leila.

- Mas não foi Deus quem criou os yazidis?

- Claro que foi.

- Ele criou os yazidis e depois ficou com raiva por eles serem yazidis? Não faz sentido.
As lembranças de Leila vêm e vão sem obedecer a uma ordem cronológica e são acessadas através dos estímulos que seu corpo morto ainda consegue emitir. Obedecendo à crença de que revisitamos a vida quando estamos morrendo, vemos episódios importantes de suas vivências vindo a tona e as introduções destes capítulos aliam com muita beleza ciência, imaginação e poesia.

Cinco minutos depois que seu coração parou de bater, Leila se lembrou do nascimento do irmão. Uma lembrança que trazia consigo o gosto e o cheiro de guisado de bode com especiarias – cominho, semente de erva-doce, cravo, cebola, tomate, gordura de cauda e carne de carneiro.
Quando se vê em Istambul, sem apoio familiar e jogada a própria sorte, Leila irá se conectar com um grupo que ela chama de “os cinco” e que serão a sua casa e a sua família. Sinan Sabotagem, Nalan Nostalgia, Jameelah, Zaynab122 e Humeyra Hollywood aparecem nas lembranças de Leila e em capítulos especiais dedicados a cada um, que fazem parte da estrutura da narrativa. O grupo aparece como uma alternativa, um contraponto e um encontro entre pessoas marginalizadas, provando que a noção de família pode ser muito mais ampla do que a tradição diz.

A obra trabalha muito bem ao construir um retrato da cidade de Istambul, que surge de forma mágica e temerosa aos nossos olhos. Explorando os personagens e sua relação com a cidade, podemos perceber os embates entre tradição e modernidade, processos de ocidentalização, realidade da vida noturna e demais conflitos culturais que dividem as pessoas quase em castas, assim como toda a beleza e efervescência de uma cidade cosmopolita.

“10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho” caminha pelos temas espinhosos da violência contra a mulher, prostituição, conservadorismo, segregação das minorias, como também faz reflexões brilhantes sobre a banalidade da morte. Diante da morte, quem possui direito a dignidade? Quem merece ser celebrado por quem foi em vida? Como é possível o correr dos dias e da normalidade quando o mundo de alguém se extinguiu?

Dona Bárbara de Rómulo Gallegos

Dona Bárbara do escritor venezuelano Rómulo Gallegos (Editora Pinard, 2020) é um clássico latino-americano publicado em 1929, que voltou a circular em nosso país após uma campanha de financiamento coletivo em uma edição caprichada. O livro é um dos maiores clássicos da literatura venezuelana e latino-americana. Vale lembrar que a primeira edição da obra chegou ao Brasil em meados dos anos 40, graças ao empenho do escritor Jorge Amado, que teve contato com o texto de Gallegos na Venezuela e encantado pelo primor de sua escrita, traduziu o livro para nosso idioma.


Poucas décadas depois, a obra saiu de catálogo e acabou caindo no esquecimento. Muitos fatores podem ser analisados para entender esse apagamento, sendo um deles a forma como nós, brasileiros, conhecemos e nos interessamos pouco pela cultura da América Latina em geral.

Somos estimulados desde cedo a consumir a cultura de países que estão muito longe do “nosso quintal” e com isso perdemos a oportunidade de aprofundar nas “latinidades”, de confabular com os nossos sobre tantos aspectos culturais que são diferentes e ao mesmo tempo tão similares sobre ser latino-americano. A ambientação nos Lllanos, que são as selvagens planícies venezuelanas, se torna símbolo, ao ser retratada como uma paisagem onde o homem e a natureza precisam coexistir.

Um outro ponto é que Dona Bárbara é um clássico e quando falamos sobre clássicos, também falamos sobre embarcar em um tipo de leitura e de fruição que parte da literatura como arte. Ler um clássico não é necessariamente fácil e exige dedicação. Um livro se torna um clássico não somente pela sua idade, mas por uma série de fatores que lhe conferem qualidade.

Algo que percebemos ao ler um clássico e que é confirmado por especialistas, é que uma obra precisa gabaritar em alguns pontos para ser considerada como tal, como sua universalidade e permanência ao tratar de temas humanos e sociais e ainda assim conseguir não soar datada. Um clássico resiste ao tempo. Precisa apresentar algum grau de inovação estética e linguística que dará um tom especial à história e ao modo de narrar.

O texto precisa conduzir os leitores a uma experiência de leitura que o transporte para além das páginas e que possam resvalar por reflexões filosóficas, simbólicas e psicológicas. Precisa inspirar o nascimento de outras obras ou até de reflexões que buscam entender a influência e o legado da obra e que naturalmente caminham para o reconhecimento crítico e popular. Assim como dizia Ítalo Calvino no livro “Por que ler os clássicos”, um clássico é um livro que “nunca terminou de dizer o que tinha a dizer”.

Estamos aqui, quase cem anos depois, lendo o que Rómulo Gallegos tinha a nos dizer sobre a Venezuela, sobre seu povo e toda a beleza e violência que paira sobre os llanos venezuelanos.

A llanura é bela e terrível ao mesmo tempo; nela cabem, folgadamente, formosa vida e morte atroz. Esta espreita por todas as partes; porém ali ninguém a teme. O Llano assusta; mas o medo do Llano não esfria o coração: é quente como o grande vento de sua imensidão ensolarada, como a febre de seus pântanos.
Para tanto, o autor nos apresenta a uma gama de personagens muito interessantes que pintam um retrato sobre o panorama político, econômico e social da Venezuela. Dona Bárbara e Santos Luzardo, os personagens principais, são ao mesmo tempo a ficção em sua forma artística, como também a representação de uma Venezuela enfrentando pequenas e grandes revoluções.

Santos Luzardo é um jovem que teve sua origem nos Llanos venezuelanos, mas que foi muito cedo para a capital. Sua partida teve essencialmente dois motivos: a dedicação aos estudos e a fuga de uma região onde uma espécie de coronelismo reinava e que foi responsável pela violência que dizimou quase que toda a sua família. Ele retorna para a região, cheio de ideais calcados na ordem e na lei, para ver que fim poderia dar às terras de sua família que ficaram praticamente abandonadas.

Nessa região, Luzardo encontrará Dona Bárbara, uma mulher forte e destemida, que movida por um desejo de vingança, e a custos de manobras de caráter duvidoso e muita violência se tornou a mulher mais poderosa e rica da região, também conhecida como “a devoradora de homens”.

Tal era a famosa dona Bárbara: luxúria e superstição, cobiça e crueldade, e lá no fundo da alma sombria, uma pequena coisa pura e dolorosa: a lembrança de Asdrúbal, o amor frustrado que podia fazê-la boa. Porém mesmo isto adquiria as terríveis características de um culto bárbaro que exigia sacrifícios humanos: a lembrança de Asdrúbal a assaltava sempre que tropeçava em seu caminho um homem do qual valeria a pena fazer presa.
Assim como a geografia, a flora e a fauna dos Llanos venezuelanos são os personagens principais da obra, Dona Bárbara, com toda sua coragem, maldade, destreza, dureza, instinto de sobrevivência e beleza se torna a própria representação do Llano. Dona Bárbara é a mulher e a paisagem, é o próprio medo do Llano que não esfria o coração.

A história vai girar em torno dos conflitos entre Dona Bárbara e Santos Luzardo. Enquanto Dona Bárbara representa o símbolo do embate de uma força primitiva e das tradições, Luzardo chega como um "estrangeiro" com ideais da civilização, da lei e do progresso. A personalidade de Dona Bárbara talvez seja o elemento mais forte do livro, pois é surpreendente ver uma mulher colocada em uma situação de poder e subjugando homens em uma história escrita há quase cem anos atrás.

- Até quando vocês estarão com isso dos poderes de dona Bárbara? O que acontece é que essa mulher tem pelo no peito, como têm que ter todos os que pretendem se fazer respeitar nesta terra.
Dona Bárbara é um livro que nos prende por toda sua dinâmica que entrelaça conflitos e paixões. Utiliza de ótimas alegorias que nos dizem sobre poder, violência e dominação, como também os caminhos da construção de uma identidade nacional venezuelana. O texto de Gallegos mescla tons épicos e líricos, ao mesmo tempo em que constrói uma narrativa realista, com bastante uso de vocabulário regional. Dona Bárbara é, ao mesmo tempo, vilã e vítima, que transforma seus traumas e desilusões na máxima do olho por olho, dente por dente. 

Seca, bebe sangue a terra de Patrick Torres

Seca, bebe sangue a terra do Patrick Torres (Editora Astral Cultural, 2025) é um romance com uma escrita intensa e imersiva. O autor nos carrega pela caatinga, pelo Saleiro e pela intimidade de personagens muito bem construídos. É uma obra em que mergulhamos na dureza e na poética do sertão, onde a luta, a fé e a resistência de um povo são o mote principal. A seca e a caatinga se tornam personagens cheios de nuances e se apresentam como símbolos de uma história de amor cheia de desafios.


Acompanhamos o passar dos dias de Darian e Matias, dois garotos que conhecem a região do Saleiro como a palma da mão e que vivem correndo pela caatinga caçando rolinhas. Caçar rolinhas é passatempo e também uma forma de incrementar o almoço do dia. Entre idas e vindas pelo sertão afora, os garotos vão descobrir que o que sentem um pelo outro é mais do que amizade e o próprio sertão se torna cúmplice e refúgio de suas descobertas.

Os dois funcionavam assim, pareciam roda de capoeira. Era uma brincadeira, um bom humor, uma alegria nas conversas, um ataca-defende sem ofensa, um desvia-bate sem causar dor; um jeito de existir fiel, em que o prazer estava, sobretudo, na companhia. O xingo ali se disfarçava de amor.

Patrick Torres entrega seu segundo romance e chama atenção pelo amadurecimento do texto. Toda a destreza que já havia apresentado como contador de histórias em “O cozer das pedras, o roer dos ossos”, alcança um novo patamar. Ao trilhar os caminhos do sertão, nos transporta para um modo de experimentação textual que valoriza a cultura regional de quem vive na caatinga, através de construções sintáticas que remetem à fala sertaneja.


Essa demarcação é algo que emerge com naturalidade nas falas, crenças, relação dos personagens com um bioma que serve de metáfora para a força com que Darian e Matias enfrentam a realidade, através de símbolos ligados à natureza. A exploração da escrita regional, nos ajuda na ambientação do universo proposto pelo autor, onde a própria descrição da paisagem e do clima criam uma atmosfera por vezes onírica, passando pelo simbólico e pelo sensorial.
Viver é isto, e o vasto espectro da violência, dos altos e baixos e da bonança, da angústia, da concórdia e da discórdia, do saber ir e do conseguir voltar, são da naturalidade desta coisa que nos faz bichos-pensantes. É pecado dizer que o viver é a caatinga? Creio que não. O viver é a caatinga. Reafirmo: o viver é a caatinga! E só discorda quem vive fora dela ou a vivencia sem em sua piçarra esquentada mergulhar. E discorda porque desconhece. É neste lugar do tudo e do nada que habita o mistério paradoxal da terra seca que muito oferece. A caatinga é o começo, o meio e o começo.
Em “Seca, bebe sangue a terra”, somos surpreendidos logo nas primeiras páginas por um acontecimento que irá redefinir toda a narrativa. Darian e Matias, que haviam saído mais uma vez para caçar rolinhas, terão os dias e a consciência abalados por algo improvável. Enquanto isso, um padre chega ao vilarejo anunciando uma grande revelação. Ele grita aos quatro ventos que o corpo de uma mulher irá aparecer pelas bandas do Saleiro. Ele afirma que a partir desse avistamento, a região irá viver tempos de glória, pois essa mulher é uma santa.

A crença em uma santa que ainda nem existia, servirá de ponto de partida para reflexões importantes sobre como funciona a dinâmica de dominação de um povo, apenas por uma promessa e uma ideia, que em certa parte da obra o narrador sacramenta ao dizer que “aos convencidos qualquer evidência basta”.

Aos poucos, o povoado vai se transformando e o padre, a igreja, a santa e a religião vão se tornando uma espécie de lei. O autor consegue construir de forma gradual o processo de adoecimento dos fiéis e a forma como o fanatismo religioso e a violência se tornam coisas indissociáveis. A relação de Darian e Matias que já era consciente da necessidade de se manter em sigilo, ganhara mais um motivador para seu total enclausuramento.

Desde que se tornaram um o buraco do outro, ainda adolescentes-homens, não podiam quebrar silêncios sobre si. Cresceram e brincavam nos lajeiros sob a redoma da confiança criada pelo tempo, cujo sigilo era garantido pelo silêncio de suas bocas em parceria com a ventania piadeira da caatinga. Eram toca, um tatu do outro, e se entre os dois havia o avessar-se, resguardado num lugar protegido, existia também, por outro lado, importante perigo: a paróquia.
Enquanto Darian e Matias guardam dois grandes segredos, sendo um deles capaz de mudar completamente o rumo daquele vilarejo, suas vidas vão sendo impactadas por traumas, dores e silenciamentos, tendo como pano de fundo uma comunidade completamente adoecida pelo fanatismo religioso, de tal maneira a nos levar a questionar onde termina a crença e começa a loucura. O texto de Patrick Torres trabalha com grandes dualidades.

Com presença marcante de elementos da oralidade, Patrick Torres utiliza da força de palavras como terra, sangue e seca, para discutir sobre a condição humana. A relação do homem com a terra, com sua própria natureza e individualidade, também aparecem em metáforas cortantes sobre resistência e sobrevivência. O autor chega como uma voz importante, criativa e jovem da literatura regional contemporânea e se soma a certeza de que o sertão e a caatinga têm muitas histórias para contar.

Vovó vigarista de David Walliams

Vovó vigarista do David Walliams (Editora Intrínseca, 2013) é um livro infantojuvenil super divertido. O autor aposta em um texto cheio de ironias e piadas rápidas que conseguem arrancar risadas em leitores de todas as idades. Utilizando do humor, aborda temas importantes, sendo o principal deles a forma como tratamos os velhos e como vemos a velhice. Na história, um neto irá descobrir que sua avó é uma pessoa dotada de histórias, de individualidade, de desejos e que dedicar parte de seu tempo para conhecê-la melhor poderá mudar para sempre sua vida.


O texto de David Walliams começa muito bem, pois nos faz refletir sobre a maneira que tratamos e o tempo que dedicamos às pessoas mais velhas. É impossível ler a obra sem evocar lembranças de momentos que passamos com nossos avós. Por conta de fatores culturais, educacionais e do próprio conflito geracional, acabamos tornando nossos avós quase invisíveis e, às vezes, só percebemos isso no momento em que eles vão embora.

Virando a esquina, eles chegaram a Grey Close, onde ficava a casinha da vovó. Era apenas mais um de uma série de chalés pequenos e tristes, habitados principalmente por gente velha. O carro parou, e Ben lentamente virou a cabeça na direção da casa: lá estava a avó, olhando ansiosa pela janela da sala. Esperando. Esperando. Ela sempre estava à janela à espera dele.
Os pais de Ben sempre tiram a noite de sexta-feira para a própria relação, seja para irem a uma festa, um restaurante, um cinema ou assistirem ao “Dançando com as estrelas”, que é o programa de TV favorito do casal. Então, o garoto precisa ir para a casa da vó, que sempre o espera ansiosamente, enquanto para Ben a noite de sexta-feira é quase um martírio.

Ben se incomoda com tudo que tem relação com a sua avó, desde a forma como ela se veste, como ela fala e o que ela come. As reclamações sobre o que ela come são as únicas em que precisamos dar razão ao garoto, pois ela possui uma obsessão inexplicável em colocar repolho em tudo. A sensação de Ben é que qualquer coisa que ele poderia estar fazendo seria melhor que passar as sextas-feiras com a avó.

Aquela noite foi a mesma história de sempre. Vovó lhe deu sopa de repolho, seguida de torta de repolho e, de sobremesa, uma musse de repolho. Ela conseguira até achar em algum lugar um chocolate com sabor repolho.
O livro possui um texto bem dinâmico e que ganha ainda mais frescor com as ilustrações de Tony Ross. Algumas ilustrações aparecem como vinhetas que ajudam a dar mais detalhes sobre a história e que colaboram com o exagero e a caricatura propostas pelo autor. As imagens são tão engraçadas e absurdas quanto o texto.

Um outro ponto que acho interessante na obra, é que ela não tem medo de trabalhar com o quanto nós, seres humanos, somos complexos em relação ao que é considerado certo ou errado. Durante toda a história, são apresentados temas que algumas pessoas acreditam não ser indicados para crianças, como se elas vivessem em um mundo onde dor, sofrimento e crime não existissem. Todos os temas que possam ser considerados impróprios para as crianças por alguns, são tratados de forma responsável na obra e obedecem à sede inerente que as crianças possuem pelas aventuras. Tudo caminha para um final muito satisfatório. 

Na narrativa, Ben fica extremamente empolgado ao descobrir que sua avó, pessoa que até então ele definia como “chata”, pode possuir um grande segredo, uma vida dupla. E não é um segredo qualquer. Ele embarca em uma investigação sobre a rotina de sua avó e ao que tudo indica, ela pode ser uma grande vigarista.

 

Atmosfera: uma história de amor de Taylor Jenkins Reid

Atmosfera: uma história de amor da Taylor Jenkins Reid (Editora Paralela, 2025) é um romance que mistura elementos interessantes. Temos a imersão no tema universal e inesgotável do amor, a exploração dos mistérios que rondam o nosso planeta e como a observação dos astros e do universo pautam a nossa forma de olhar para fora e para dentro de nós. É uma história que se passa por dentro dos nossos sentimentos e dos nossos afetos, tendo como pano de fundo os corredores da NASA e toda a mística que envolve a formação dos astronautas.


Para tanto, acompanhamos a vida de Joan Goodwin, uma professora universitária completamente focada em seus objetivos, na sua formação acadêmica e que se depara com a oportunidade de ingressar na maior agência espacial do mundo. Joan, é uma mulher que preza pela ética em todos os campos de sua vida e em seu trajeto, as relações familiares serão um dos seus maiores obstáculos.

A exploração espacial exige preparação em vez de impulsividade, tranquilidade em vez de ousadia. Para um trabalho tão arriscado, pode ser bem entediante e rotineiro. Todos os riscos são avaliados de forma minuciosa. Nada é improvisado. Não existem aventureiros aqui.
A história se passa em meados dos anos 80, exatamente no período em que a NASA começava um de seus projetos mais audaciosos, os ônibus espaciais. Depois de passar por um criterioso processo de avaliação, Joan inicia seus treinamentos no Centro Espacial Johnson, em Houston. Nesse ponto da história, conhecemos o lado humano de cada membro da equipe de futuros astronautas que ingressaram junto com a personagem.

Costumamos olhar para os astronautas como uma espécie de semideuses, principalmente pelo fato de representarem uma porcentagem mínima da população a ter a oportunidade de ver nosso planeta de fora. Em “Atmosfera”, Taylor Jenkins mostra cada um deles lidando com suas ansiedades e a constante necessidade de serem “perfeitos” para alcançarem o lugar que desejam na agência espacial.

Entre os membros da equipe, Joan conhece a enigmática engenheira aeronáutica chamada Vanessa. Em pouco tempo, as duas estabelecem uma relação bem próxima, ainda que tenham temperamentos diversos. O que parecia apenas afinidade, vai se transformando em uma linda história de amor.

A relação às escondidas de Joan e Vanessa, obedecem às restrições impostas pelos anos 80, em relação à homofobia, como também ao medo sempre presente de serem rebaixadas em seus cargos na NASA por conta da orientação sexual. Assim, a história relata muito bem, os desafios de ser mulher e lésbica naquele período e como astronauta da maior agência espacial do mundo.

Fora isso, Joan lida com uma relação conturbada com sua irmã Bárbara, que é uma personagem odiosa. Bárbara engravida após uma relação casual e sem importância e precisa lidar com a realidade de ser mãe solteira. Como possui uma personalidade manipuladora, usa e abusa da ética e da boa vontade de Joan, que aos poucos vai tomando para si uma responsabilidade que poderia prejudicar seu momento profissional. Acontece que seu amor por sua sobrinha é maior que seu amor pelas estrelas e o universo.

Todos os dias, a Terra continua em rotação e translação pela Via Láctea, sempre em movimento. É por isso que o tempo nunca para. E é por isso que, por menores que fossem, a soma das escolhas de Joan viraram algo magnífico. Ao longo das estações dos quatro anos anteriores, Joan encontrou tudo.
A narrativa é construída de forma não linear. Transitamos entre uma missão espacial que mudará para sempre a vida de Joan e Vanessa, enquanto acompanhamos também os últimos quatro anos, desde que elas entraram para a NASA. Nos capítulos que nos remetem ao passado recente das protagonistas, conhecemos a dinâmica da relação entre os astronautas e a construção da história secreta de amor entre Joan e Vanessa, enquanto lidam com as questões profissionais e familiares.

Com uma narração envolvente e fluida, somos convidados a refletir sobre o amor e suas complexidades. Tudo gira em torno de como a vida está sempre nos colocando diante de situações onde precisamos balancear onde queremos chegar e para onde nossas escolhas nos levarão. A temática das estrelas e do universo, dão um toque especial à escrita, pois ao nos fazer olhar para nosso tamanho na imensidão do universo, só nos resta pensar que o segredo de uma vida plena está na coragem de ser quem somos.


O rio que me corta por dentro de Raul Damasceno

O rio que me corta por dentro, romance de estreia do escritor cearense Raul Damasceno (Astral Cultural, 2025) é um livro sensível e que nos prende desde a primeira página. Em um vilarejo chamado Carrasco, nas entranhas do sertão, conhecemos as famílias de Cícero e Luzimar, dois garotos que são unha e carne e que vão descobrindo que seus sentimentos um pelo outro são mais intensos do que a cultura daquele lugar permite.

Um era a correnteza do outro neste rio profundo em que o pé nunca alcançava o chão.


Criando uma atmosfera que nos faz sentir moradores de Carrasco, Raul Damasceno nos torna vizinhos de Cícero, Luzimar, Aneci, Zulmira, Nonato, Rosa, Chico Meteoro, Toin, entre outros personagens que são a pura magia do Brasil profundo.

Essa magia se movimenta através da escrita, onde o autor utiliza de maneira poética dos regionalismos que nascem das crenças, das falas, do sotaque e da cultura do sertão cearense. Raul utiliza de elementos tão familiares da nossa cultura, que algumas passagens evocam lembranças, cheiros e sensações.

Sábado à tarde. Nonato tomava banho com sabonete Senador; vestia camisa branca de abotoar e penteava o cabelo em frente ao espelhinho de moldura alaranjada. Depois de um gole de café, saía pedalando a bicicleta Monark vermelha. Com o cheiro da alfazema impregnado, era certo que ia ao Gogó da Ema.
Nos últimos anos, temos visto uma efervescência de histórias que voltaram seu olhar para a beleza do cotidiano e das pessoas ditas comuns. O que podemos perceber é que esse transitar pelas histórias nunca, ou pouco contadas é um caminho sem volta. Quanta beleza existe no cotidiano e nas pessoas que nos rodeiam? Quanta beleza existe nas vivências historicamente invisibilizadas? É uma resposta que vai sendo respondida a cada vez que uma narrativa como a de Raul Damasceno é escrita.

Carrasco poderia ser um vilarejo qualquer, de uma cidade qualquer, mas aqui o lugar ganha um status grandioso, exatamente porque parte da sua simplicidade. Cada história, de cada personagem, nos permite perceber que cada pessoa é um mundo a parte, dotado de características, dores e anseios que nos fazem ser quem somos e estar onde estamos.

Cícero, nosso narrador, está situado no lugar da espera. Sua mãe Aneci, como muitas mulheres de luta, precisou ir para a cidade grande tentar uma vida melhor e sempre volta uma vez por ano para visitar o filho que ficou aos cuidados dos avós. Apesar de ser bem cuidado onde vive, o menino sonha com o dia em que sua mãe o levará embora com ele, mas a cada Natal a mãe vem com seu “cheiro de hidratante e perfume dos bons” e depois parte deixando apenas saudades.

À noite, ouvindo Zezé e Luciano cantar baixinho “Me leva pra casa’, a saudade fazia um nó apertado no peito de Cícero. Apertava não saber nada sobre a mãe. Apertava quando os vizinhos perguntavam a respeito dela. Apertava ouvir Nonato chamá-la de rapariga sempre que chegava bêbado em casa. Apertava tanto que doía. Parecia que nem futuro existia mais. Tudo era tão distante neste sertão imenso.
Enquanto vive em estado de espera, Cícero divide a vida com seu amigo Luzimar. De forma bonita e um tanto conturbada, os dois vão descobrindo seus desejos e o amor brota de forma tão natural quanto o dia que vira noite.

Ao som da correnteza, com o sol queimando as nucas. Luzimar não queria falar nada. Ter Cícero ao seu lado já bastava. Não era preciso esticar o braço para um tocar no outro. Não era preciso dizer palavra para saber o que sentiam. Os olhos de Luzimar nos de Cícero. Seus corpos, perto demais, ameaçavam explodir. Todos os desejos e sentimentos se condensavam. Cícero não estava disposto a seguir lutando contra os desígnios carnais. Enfrentaria o que tivesse de enfrentar, pagaria o preço que fosse cobrado por seu ato, mas queria guardar Luzimar num abraço, cuidá-lo.
Os dois conhecem a cidade como a palma da mão, tem como lugar preferido a base de um velho cajueiro, que se torna cúmplice das conversas de Cícero e Luzimar, assim como o rio que corta a cidade. O rio é também um personagem e que pode ser interpretado como o próprio decorrer do tempo e da vida. Enquanto os fantásticos personagens da obra vivem as mais diversas felicidades e tristezas, o rio segue seu curso de forma incólume, ainda que carregando vida e morte.


Hospício é deus: diário I da Maura Lopes Cançado

Hospício é deus: diário I da Maura Lopes Cançado (Companhia das Letras, 2024) é um livro autobiográfico, onde a autora relata suas experiências após passagem por diversos hospitais psiquiátricos. Com um texto poético, visceral e também realista, Maura retrata a dura realidade dos chamados “hospícios” do início dos anos 60. Ao registrar seus dias em forma de um diário, a autora compôs uma obra que é ao mesmo tempo um exercício literário potente e uma denúncia sobre a forma como enxergamos e tratamos o tema da loucura. É uma obra que além de seu valor literário, também serve como norte para discutirmos sobre o contexto de uma época de manicômios e práticas psiquiátricas violentas.



Além de ser um relato íntimo, o livro chama a atenção pela sua forma. Nos vemos diante de um diário que mescla o texto de testemunho e autobiográfico com reflexões filosóficas. Maura possui um olhar sobre o todo que é instigante, onde não sabemos mensurar o que é parte da sua loucura e o que é parte de quem Maura é em sua essência.

A obra inicia com um relato que é fundamental para entendermos quem é Maura Lopes Cançado. A autora fala sobre sua infância em São Gonçalo do Abaeté, no interior de Minas Gerais, em uma época onde sua família era a mais rica e influente da região. É onde também conhecemos a relação de Maura com a própria família e principalmente com seu pai, figura com a qual possuía uma relação de amor intensa. Maura diz que se “não fosse a limitação do seu meio, seria o maior homem do mundo”.

Nasci numa bela fazenda do interior de Minas, onde meu pai era respeitado e temido como o homem mais rico e valente da região. Fui uma criança bonita, todos dizem, e sei pelos retratos. Há sete anos mamãe não tinha filhos quando se deu meu nascimento. Daí tornar-me objeto de atenção de toda família e orgulho de meu pai.
Desde a infância Maura se mostrava uma criança singular. Possuía uma saúde um tanto frágil, o que aumentava a vigilância de seus pais, como também já na infância demonstrava algumas atitudes e pensamentos que denunciavam o adoecimento de sua saúde mental. Maura diz em seu diário que “como criança, foi excessiva”. E o excesso será o tom de tudo em sua vida.

Movia-me num mundo que desprezava, por que ligar às convenções desse mundo?
Algo muito interessante das reflexões de Maura, é que, ela própria, possuía uma clareza muito forte de sua própria loucura, a ponto de se internar por vontade própria. A cada sentimento estranho, medos e paranoias quase inexplicáveis, ela utilizava da ajuda da escrita para pensar sobre a sua própria loucura de uma forma que nos assombra, pois é repleta de lucidez e contradiz o que o senso comum diz sobre os “loucos”.

Desde menina experimentei a sensação de que uma parede de vidro me separava das pessoas. Podia vê-las, tocá-las – mas não as sentia de fato. Acontecia ser tomada de tão grande pânico que corria para mamãe e papai, agarrava-me a eles, os objetos se me distanciavam, percebia modificações nas coisas – e não sabia explicar.
Um outro ponto característico da obra está na forma como a escritora produz uma narrativa que soa fragmentada e entrecortada. Maura pode opinar sobre um assunto em uma linha, para na seguinte já se colocar a contradizer tudo o que foi dito. É como se a sua escrita acompanhasse com fidelidade o seu fluxo de pensamento que, por vezes, estava à mercê de medicamentos e da violência diária do hospital.

A escrita de Maura, aliada a suas vivências e a uma inteligência admirável, nos leva a refletir sobre os limites ou as interseções entre loucura e lucidez. Na maior parte do tempo, Maura se apresenta como uma mulher completamente consciente, sã e com um olhar crítico sobre o mundo.

Não aceito nem compreendo a loucura. Parece-me que toda a humanidade é responsável pela doença mental de cada indivíduo. Só a humanidade toda evitaria a loucura de cada um.

Suas reflexões e provocações garantem trechos memoráveis sobre temas como a representação dos manicômios, sobre questões de subjetividade e identidade e até sobre dimensões existenciais e religiosas.  

Amar a Deus? Deus, meu pai? Ora, a meu pai eu abraçava, pedia coisas, tocava. Como podia ser meu pai um ser de quem só tinha notícias - além de tudo terríveis? Minhas relações com Deus foram as piores possíveis - eu não me confessava odiá-lo por medo da sua cólera. Mas a verdade é que fugia-lhe como julgava possível - e jamais o amei. Deus foi o demônio da minha infância. 
É bonito e humano rezar. Também não creio em nenhum deus, não creio nas divindades para as quais se reza. Rezo pela poesia da oração. Rezo para sentir-me próxima de meus semelhantes, ao fazer o mesmo pedido, ao externar a mesma necessidade. Eu rezo porque amo - é para mim o meio de comunicação.

A escrita e a vida de Maura Lopes Cançado sofreram um processo cruel de apagamento. Maura foi de membro influente da elite e da família tradicional mineira para uma total desconhecida após seus episódios de internações e demais desdobramentos de seu adoecimento mental. Uma mulher que escrevia para um dos maiores jornais do país, teve seu texto enterrado juntamente com sua história. Por isso é justo e necessário ver sua obra sendo redescoberta, pois Maura evoca temas importantes sobre saúde mental e direitos humanos.