Vende-se um elefante triste do João Gabriel (Produções do Ó, 2020) é um livro de poesias que encanta pela qualidade de sua escrita, pela sua capacidade de provocação e pela ambivalência que cria entre o real e o fantástico. Tudo isso se materializa em um projeto gráfico que captura os leitores. As ilustrações em preto e branco da artista Bia Pessoa, captam de forma inteligente e poética o caráter etéreo e ao mesmo tempo extremamente realista e material da obra. É a junção entre um texto que pede para ser lido em voz alta e ilustrações que marcam como uma tatuagem.


O livro pede tempo de apreciação e maturação. Isso se dá independente do ritmo de leitura. Lendo pausadamente ou de um fôlego só, o convite já está posto desde a primeira página. João Gabriel passeia por diversas questões existenciais e abraça a metáfora na criação de trechos inteligentes e, por vezes, engraçados e ácidos. “Rapunzel jogou as tranças e quem subiu foi o Bebum/ Adormecida dormiu cem anos e acordou sozinha, sem beijo nenhum”.

A forma como a sua poesia se estrutura é o que alguns jovens chamariam de um “papo reto”, pois a palavra vem ligeira e sem rodeios. O mais interessante é que isso não diminui o universo que cada poesia contem em si.

Para falar sobre o decorrer dos dias, o cotidiano e a forma com que alguns acontecimentos da vida parecem obedecer a um comando sem possibilidade de edição, João escreve que “... baby/ a estrada não termina/ela é como o horizonte/e se apaga/na distância exata/que nossos olhos/suportam entender/Ela é assim/como os pedacinhos/espalhados de mim/e só espera um pouco/mais de paciência [...]”

Assim como na poesia intitulada “O poema do amor derradeiro” em que o autor, após explorar a anatomia do jogo do amor, termina sacramentando que: “Amo – e amo muito - / tudo aquilo que não é.” É um trecho que pode ser lido daquele lugar que conhecemos bem, o da idealização do amor.

É uma poesia, onde também há espaço para exploração da escrita através da brincadeira com as palavras, como na poesia “Voz e Olvido”: “Entre sua voz/ e meu ouvido/ existe o tempo/ em que te fito/ Existe eternidade/ existe ar e infinito/ Há distâncias; átomos/ azuis e bonitos/ existe vida/ (e várias mortes)/ uma tonelada de azar/ meio-quilo de sorte/ O que há entre voz/ e ouvido/ é olvido”

João Gabriel mostra a força de sua poesia também em poesias como “Vende-se um elefante triste” - que dá título a obra - e “O deserto e as coisas”. Na primeira nos deparamos com um texto que trabalha com a metáfora do elefante de maneira genial. O elefante em toda sua grandiosidade, representando vários aspectos daquilo com que precisamos lidar e que as vezes, mesmo que invisível, não deixa de ter seu peso e sua presença.

“[...] então, tive um palpite/ uma luz, uma epifania/ se o elefante era meu/ não seria, sua tristeza/ a minha?/ uma tristeza infinita/ de elefante, paquidérmica [...]”

Em “O deserto e as coisas” temos quase um ensaio sobre do que é feita a solidão através da metáfora do deserto. O deserto, assim como a solidão, que aparentemente são uma coisa só, uma massa, se revelam como um universo, mostrando que para nos colocarmos no status de "sozinhos", é preciso estar munido de uma infinidade de coisas que nos moldam e nos completam. Até para estar sozinho, é preciso estar preenchido de algo. 

“aqui, tudo é meu/ o espaço e o som/ que corre pelo espaço/ o sentimento, o desejo/ tudo solto/ ao meu prazer/ as palavras quando/ dançam, sou eu/ quem as coloca pra dançar/ as cores, são todas eu/ quem escolho, mas/ principalmente/ não preciso falar nada/ se não tenho o que dizer [...]”