Sismógrafo, de Leonardo Piana (Editora Autêntica, 2026), é um romance que acompanha os passos do jovem Eduardo de volta a Andradas, sua cidade natal. Acontece que ele não volta sozinho: junto com ele, retornam os mais diversos tipos de lembranças, sentimentos e um desejo de acerto de contas consigo mesmo. Enquanto Eduardo tenta a todo custo rechaçar sua cidade, tentando vê-la com olhar de turista, as condições reais só mostram que Andradas, de certa forma, sempre será um lugar para onde voltar. A cidade, que surge quase como uma personagem, foi palco de suas alegrias, tristezas e também da descoberta do amor.


Olho para as casas pequenas ao longo do morro que se estende diante de mim, todas elas com o telhado baixo. Em volta, terrenos baldios, malcuidados, e meia dúzia de carros parados. A vida a encargo dos vira-latas. Um dia eu quis ver tudo aqui com olhos de turista: impossível, conheço este lugar.
A escrita de Piana se apresenta de forma enxuta, precisa e marcada por um rigor estético que não interfere na poética. Tudo isso para tratar da fragilidade das coisas, dos corpos, dos acontecimentos e das lembranças.

O autor utiliza os sismos para brincar com a metáfora dos pequenos e grandes abalos que atravessam a nossa vida. O Eduardo adulto relembra o Eduardo adolescente, etapa da vida em que os abalos reverberam com uma intensidade capaz de definir quais questões iremos carregar para sempre. As fissuras do cotidiano vão se apresentando ao mesmo tempo em que um acontecimento grandioso parece se aproximar.

Olho para ela e penso que estar nesta cidade é viver sempre à espera de que alguma coisa aconteça.
Cada capítulo é construído de uma maneira que nos remete à descrição de uma fotografia, tornando os acontecimentos quase palpáveis. Ao apresentar fatos, pessoas e lembranças, o narrador os descreve com o olhar de quem fotografa e entende os limites de sua perenidade e sua ascensão a um momento de eterna paisagem.

Um dos pontos mais interessantes da obra é como Leonardo Piana descreve o cotidiano. Em muitos momentos, vemos apenas um homem adulto olhando para a rotina de sua adolescência com tudo o que há de característico nessa fase, e é daí que vem a força narrativa. Eduardo está se descobrindo como um homem gay em uma cidade pequena, onde reina todo tipo de pensamento conservador; assim, sua rotina é invadida por questões que vão além de ser apenas um jovem em fase de descoberta, revelando um adolescente que precisa esconder quem é por conta da homofobia.

A obra trata muito bem a questão do silêncio. A incomunicabilidade e os silêncios operam como a verdadeira cadência do romance. O autor constrói a dinâmica entre as personagens não pelo excesso de verbalização, mas pelas brechas do que fica não dito, onde hesitações e subentendidos carregam mais peso do que os próprios diálogos. Esse constante desencontro comunicativo expõe o isolamento dos indivíduos e transforma o silêncio em um elemento físico na cena, revelando como a incapacidade de traduzir afetos e angústias em palavras é, muitas vezes, a primeira fissura a anunciar o colapso das relações.

Em Sismógrafo, a descoberta da sexualidade, o primeiro amor e a homofobia não são tratados como meros recursos dramáticos. A descoberta da sexualidade surge entremeada por desejo, culpa e ocultamento, gerando uma identificação instantânea com quem pertence à comunidade LGBTQIA+.

O peso do olhar alheio se manifesta como aquilo que consegue transformar um momento de puro prazer e amor em medo e tensão. A fotografia também terá uma importância fundamental na narrativa para a exploração dessa perseguição do olhar, que nada mais é do que o julgamento. A homofobia atua como o principal agente desestabilizador, como o "tremor" do sismógrafo. A ameaça de exposição obriga o afeto a se manter nos porões, na clandestinidade, mostrando como o preconceito restringe a liberdade de existir e amar plenamente.

Ao alinhar a sensibilidade do registro fotográfico ao peso invisível dos silêncios, Sismógrafo se consolida como uma obra potente sobre a memória e as marcas da rejeição. Leonardo Piana entrega um romance doloroso, mas profundamente humano, lembrando-nos de que, por mais que tentemos soterrar o passado ou encarar nossas origens com o distanciamento de um visitante, os abalos da juventude continuam a ecoar em quem nos tornamos.