A primeira vez e outros contos, de Louis Mascarenhas Conan (Folhas de Relva, 2025), reúne doze contos completamente diferentes em suas temáticas e vozes narrativas. Como pontos de interligação, sobressaem-se temas universais como o amor, a morte, a solidão e as descobertas da juventude, além do uso da cidade de Belo Horizonte como cenário de algumas das histórias.


A prosa de Louis Mascarenhas Conan destaca-se pela forma como sua escrita transforma situações simples do cotidiano em uma verdadeira exploração sobre temas caros à existência humana. Em A primeira vez e outros contos, passeamos por questões fundamentais sobre a juventude e o amadurecimento na "cidade grande", abordando a descoberta dos desejos, a autoaceitação, a violência doméstica e de gênero, a vulnerabilidade das relações amorosas e outros dilemas no cerne da vida contemporânea.

Originário da literatura independente, o autor imprime em sua obra um forte apelo às vivências da cidade como palco de formação do caráter e da subjetividade, especialmente dos jovens. Suas narrativas são curtas, porém extremamente potentes ao construir personagens que retratam o tempo presente e ao expor a poesia e a densidade que emergem ao se olhar criticamente para as esquinas do dia a dia.

Como o próprio título anuncia, o tema da iniciação e da descoberta na juventude apresenta-se como um dos pilares da obra, marcada por uma forte representação dos ritos de passagem que delimitam a transição para a vida adulta. No conto principal, o autor explora a "primeira vez" para além da esfera física e biológica: trata-se de um rito psicológico, um processo revelador e esperado, capaz de alterar o lado emocional do personagem e sua forma de ser e estar no mundo, já que o sexo ainda representa um mergulho no desconhecido. Ao abordar o desejo e a corporalidade sem recorrer a clichês ou ao sensacionalismo, a narrativa captura com sensibilidade o impacto dessas experiências fundacionais na construção da identidade e na posição do indivíduo perante o outro.

Para além do sexo e da primeira vez, a coletânea abarca uma gama rica e diversificada de assuntos. No conto "Chá para três", o foco volta-se para a memória e o esquecimento; já em "Jogo sujo", analisa-se o peso desproporcional dos julgamentos sociais sobre a mulher. Em "Liberdade, Liberdade", constrói-se um retrato visceral da violência doméstica e da crônica falta de perspectiva que muitas mulheres enfrentam quanto à própria proteção. Em "De aquel amor de música ligera", o leitor é transportado para o ambiente intimista de uma sessão de terapia cujo desfecho nos deixa com "gostinho de quero mais". Em "O amor não se escolhe", desenha-se com precisão a anatomia das relações tóxicas contemporâneas na figura de um personagem bastante conhecido, o boy lixo. 

A primeira vez e outros contos mostra que o Louis Mascarenhas Conan é um hábil cronista das fragilidades e potências humanas. Ao transitar entre o afeto, a dor, o humor e a crítica social com fluidez e equilíbrio, a obra não apenas convida o leitor a se reconhecer nos dilemas de seus personagens, mas reafirma a força do conto como um espelho perspicaz do nosso tempo. Trata-se de uma leitura envolvente e profundamente humana, recomendada a todos que buscam uma literatura contemporânea vibrante e alinhada às pulsões do presente.